sábado, 11 de junho de 2022

Uma economia eco-social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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A democracia terá de ser um campo de eco-decisão, na medida do que dissemos anteriormente, em que introduz uma democracia económica ou suficiente. Portanto um projeto de progresso democrático holístico, complexo, global, assumindo não só as decisões políticas, mas claro, que tudo toca no todo, não há decisões políticas, há eco democráticas decisões, que afetam todo o universo da tecnologia à sociedade, da biologia, á poesia e cultura.
Democracia diversa, decisória, não representativa, mas participativa, através dos Novos Movimentos das Redes Sociais, que se transformam em eco-ciber-socio-movimentos, passando de papel menor a papel decisivo nas decisões políticas pela consulta ao quotidiano sobre as formas de governança Mundo, e Governança Comunidades = Ciber Comunidades = Comunidades reais = Seres em evolução consciente.

EM - A VIA DA SÍNTESE III - JOAQUIM SILVA - IN-FINITA

Dona Saudade e Dona Esperança - ITANIRA SOARES

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Hoje acordei com uma surra da Dona Saudade. Não deu tempo perguntar o porquê, pois o chicote já estava possuído pelo tédio. Cantava com a força da ira, não! Não cantava, berrava, latia, sei lá... Respiração ofegante, dorida pelos açoites, marcas na alma, introspecções, interrogativas, soluções, perspectivas...
O dia se arrasta contorcido de dor e massageado vagarosamente pelo fio de fé que ainda resta dependurado na opacidade de um céu cinzento. Eis que surge Dona Esperança, vestida de verde, sorridente e terna, afastando a cor borrada, pálida, sem brilho, resquícios transparentes que não consigo esconder.
Aos poucos a luz puxa uma cadeirinha para Dona Saudade que de vez não pode ir embora e bem pertinho de mim um abraço suave de Dona Esperança, na promessa de esperar comigo, todas as esperas de esperança contida na fé.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Gênero e Imigração (excerto 2) - HANNAH SCHIFF

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Adicionalmente, nos primeiros tempos, somos postos/as a prova e seguimos lutando para alcançar nossos objetivos, sejam eles quais forem. Alguns lutam por qualidade de ensino, outros lutam por um trabalho com contrato, a maioria busca conseguir o título de residência, outros querem ajudar a família no Brasil ou garantir uma qualidade de vida para os familiares. Os objetivos são diferentes, mas as lutas são bastante similares.
Com isso, destaco que nos meus primeiros anos em Portugal, eu e minha mãe tivemos ajuda de muitas mulheres que nos abriram portas e nos estenderam a mão. Graças a elas, eu posso escrever sobre isso e ajudar outras mulheres também. Assim, como mencionado anteriormente, cheguei ao país em 2008 e presenciei uma crise económica internacional que gerou uma onda de recessão à nível social e económico em Portugal e no mundo. A vida era difícil para todos/as os/as portugueses/as, e consequentemente a vida do/a imigrante tornou-se mais árdua. Era mais complicado arranjar um emprego digno com um contrato de trabalho, a aceitação no país tornou-se complexa devido, principalmente, ao aumento da competitividade na busca de vagas de emprego.

EM - GÊNERO E IMIGRAÇÃO - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Fantasmas (excerto) - PEDRO SILVA

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Como referimos acima, o fenómeno dos fantasmas está intrinsecamente ligado ao espírito de alguém falecido, cuja alma permanece a vaguear junto dos seres vivos. A razão para que tal aconteça tem sido bastas vezes analisada. Porém, as conclusões não têm conseguido satisfazer todas as mentes. Eventualmente, alguns casos parecem ter explicação, como, por exemplo, quando há um caso referente a algo que ficou por dizer da parte do defunto, que permaneceu num limbo espácio-temporal até cumprir o seu desígnio, a saber, explicar ou comunicar com determinada pessoa. Só depois disso, a sua alma parece poder repousar.
Talvez aí resida parte da explicação para o facto de os fantasmas não serem vistos de forma colectiva. Antes pelo contrário, tudo parece suceder com grande intimidade, no género de diálogo directo com o interlocutor principal. Isto difere, como frisámos acima, da sessão espírita na qual a alma do defunto é invocada, chamada à presença de todos e dialogando pelo corpo físico de um ser vivo predisposto para tal. No âmbito das visualizações de fantasmas, a vontade é deste último que surge, quando entende, chamando a atenção directamente para a pessoa com a qual pretende dialogar.
Vislumbramos aqui um acontecimento que se assemelha bastante aos mensageiros divinos – anjos, espíritos de luz que trazem informação provinda directamente de Deus – bem aceites pela Igreja. Supostamente, no dogma cristão, a morte dá-se apenas fisicamente. A sua alma tomará então o caminho “merecido” – para o Paraíso ou para o Inferno. Esta é a ideia base. Assim, não parece existir a possibilidade de a respectiva alma deambular entre um local e o outro, permanecendo junto do antigo corpo físico. É esta a contraposição que leva à não-aceitação do fenómeno dos fantasmas.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

Conto quântico (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Decido pisar os meus passos, de novo, pela última vez, como se fosse dono do meu eterno caminhar, sendo ele eterno enquanto eu dele me lembrar, e também soubesse que jamais aqui voltarei. Mas decido, neste momento, que sim e que… não. Subirei e não mais aqui tornarei a subir! Mas ainda terei que descer. Então, subo.

Caminho sobre pedras e areia. Tropeço nos mesmos pontos onde sempre tropecei, mas não desvio o olhar da casa isolada que vai desvendando a sua presença ao meu olhar. Paro, sem me aperceber por que razão o faço. Autómato e operador deste equipamento, o meu corpo, que não controlo totalmente. Apenas olho para a casa. De mim, nada sai, para além do meu olhar; dela, tudo entra de rompante em mim, violenta e doce, inesperadamente, na espera daquilo que não sabia se receberia, pois não tinha a certeza da sua ainda existência, pois desconhecia que a deixaria invadir-me deste modo! Também ela é a mesma. Semblante triste e abandonado, na espera eterna por alguém que dela se sentisse ela, numa simbiose que nunca tive capacidade, antes, para permitir acontecer. Uma porta e uma janela. Era assim que me lembrava dela e ela não me desiludiu: é assim que ela é e que sempre foi.

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Grinalda de emoções (excerto 14) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

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O tempo passava, os dias decorriam rapidamente, eu continuava a frequentar o lar, era bom para mim e também para quem nele estava… a minha vida tinha mudado radicalmente! Para além dos bolinhos, que passei a fazer sempre com muito carinho, comecei também a levar livros para ler junto deles. De alguns, lia apenas uns excertos; outros, dia após dia, lia-os todos. Levei também livros de poesia de alguns poetas consagrados, mas também, daqueles que, quem sabe um dia, serão considerados consagrados. A dona Luisinha, adorava que eu lesse a poesia de Maria Antonieta, dizia que se revia em tudo o que ela escrevia: o amor, a saudade e as vivências de uma vida vivida. O senhor Manuel batia muitas palmas e gritava “bis… bis…”! Momentos muito felizes aqueles que passava junto dos meus meninos idosos, como lhes chamava.
Os dias eram fáceis de passar, nem me apercebi que o verão partia e o outono chegava, já com noites frias e dias mais escuros e pequenos.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

terça-feira, 7 de junho de 2022

Tradição - LUÍS VASCONCELOS

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Não posso evitar partilhar convosco uma outra forma de bullying a que me deixei subjugar durante cerca de 40 anos da minha vida: o abuso espiritual!
O meu primeiro contato com esse supostamente benigno defensor, promotor dos inquestionáveis, irrepreensíveis princípios valores éticos e morais, mas também estranho, misterioso, quantas vezes corrupto mundo das Instituições, sistemas de origem religiosa, não foi muito agradável. Fartei-me de chorar e berrar enquanto o padre me punha umas gotas de água na cabeça contra a minha vontade. Decidiram batizar-me sem me dar liberdade de escolha. A tradição assim o requeria. O meu pai nem sequer era crente, nas não se opôs. Tratava-se de um dia especial para os amigos e família, pronto! A cerimónia deve ter sido bonita, o convívio posterior também muito agradável, mas eu tinha apenas alguns meses, caramba! Ninguém me pediu opinião, ou me perguntou se eu queria! Lá fui catequizado, fiz as comunhões como um bom menino, sem perceber o significado de tudo aquilo!

EM - NINHO DE CUCOS - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

Içando velas (excerto 4) - ANANDA LIMA

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Por sorte e cautela, no carro tinha água e algum alimento que nos auxiliava numa parte da viagem. Havia momentos no carro que o silêncio era dominante. Eu, com as minhas inquietações, e meu marido certamente com as dele. Ficávamos observando aquelas paisagens, doía o coração quando víamos pontos de alimentação e comércio fechados. Ali estávamos tendo dimensão da pandemia, da gravidade do momento.
Numa parte da estrada resolvi ler um livro. Aproveitei para lê-lo em voz alta, para meu marido. Ora lia, ora comentávamos algo que nos chamava atenção. Fomos vencendo as distâncias. Não fomos parados nenhuma vez pela polícia rodoviária. Seguimos sem maiores percalços.
Quando chegamos na casa da minha irmã, todos nos esperavam no portão. Segurei para não chorar. Ela possui uma alegria singular, mas a senti um tanto comovida. Estavam todos em casa, sem trabalhar, de quarentena. Aguardamos a tão esperada terça-feira, dia em que iria para o hospital referência em câncer no Estado, o Aristides Maltez. Inicialmente, estava torcendo para que meu encaminhamento fosse para o Hospital Irmã Dulce, a santa da Bahia. Ela e o seu legado me inspiravam confiança.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Observei o mundo e escrevi livremente - ITANIRA SOARES

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Fiz do final de semana alquimia do meu corpo, numa temperatura brusca, entre o frio e o quente.
Subi a serra, deixei o mar. Não bronzeei minha pele, refresquei minha alma.
O Canto da Ibiapaba, a serra linda que meus olhos encantam e minha boca beija, o meu Canto de paz, onde quero estar, o meu canto de amor, onde vou para cantar.
Carinhos da minha serra, carinhos da minha gente.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

Uma economia eco-social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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O aparecimento da internet, mundo alternativo, sem representatividade e orientação ideológica, depois do desaparecimento lento, das ditas classes que cada área partidária representava foi a machadada no sistema democrático, que não sendo maioritário mundial, era de aspiração dos diversos povos. Incapaz de acompanhar a mudança fica refém no seu casulo, com os deputados transformados em meros jogadores de parca importância, simultaneamente com a queda da conceção do bem comum, e dos Estados enquanto garantísticos desse bem comum, as populações sentem que a democracia representativa pouco as representa e que as decisões que afetam as suas vidas diretamente não passam pelos parlamentos nacionais, e no caso da União Europeia, muitas vezes nem aí. Formas diversas, coma base no ciber mundo parecem estar a ser tentadas para substituir, mas os riscos de queda e caos, de retorno às experiências traumáticas do século XX são enormes.

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domingo, 5 de junho de 2022

Máquina do tempo (excerto) - ALINE BRANDT

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Olá... Como você tem passado? Espero que esteja bem... Já não lembro como me sentia há cinquenta anos.
Escrevi esta carta porque precisava falar com você. Comecei a digitar uma mensagem. Mas lembrei que, onde vive, até os telefonemas são raros... Então utilizei materiais que hoje são considerados ultrapassados: papel e caneta. E quer saber um segredo? Adorei a experiência. Quase dei um pulinho de felicidade ao constatar que ainda sei utilizar estes materiais. O que é bom - ou nos faz bem - permanece gravado em nossa memória. Não desaprendemos o que nos faz feliz.
Vou lhe contar outro segredo... Senti imensa saudade de cartas e bilhetes que escrevi... A letra, como você pode ver, não melhorou com o passar dos anos. Só que isso não deve ser empecilho para a gente escrever a quem quer bem. Se por algum motivo lhe faltam palavras para escrever então fale. As pessoas precisam saber que despertam bons sentimentos.
Sei que algumas das informações que darei vão lhe parecer chocantes... Tenho certeza, contudo, que seu coração vai aguentar. Muitas coisas que você aprecia não mais existem. Então: aproveite. Jamais deixe de fazer o que gosta por “falta de tempo”. Encontre o tempo necessário para se permitir viver.
Agora seja forte... Preciso lhe revelar que a vida não será do jeito que planeja. Você vai chorar... Cair... Decepcionar-se... Será motivo de brincadeiras... Alguns de seus sonhos não se concretizarão... Peço, porém, que não se desespere. Jamais se desespere.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Gênero e Imigração (excerto 1) - HANNAH SCHIFF

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Antes demais, é importante apresentar a minha história. Sou imigrante há cerca de 12 anos, deixei o Brasil em 2008 com apenas 12 anos de idade e muito cedo acabei por descobrir que ser imigrante, ser mulher e ser brasileira são três características que definiriam para sempre como seria tratada. Independentemente do meu comportamento, sotaque ou capacidade intelectual. Por outras palavras, a forma como somos tratadas baseia-se, quase sempre, nessas características. Com efeito, ainda muito jovem, compreendi também que estas características não devem ser consideradas vulnerabilidades, mas sim símbolos de resiliência e coragem. No entanto, existem inúmeros estereótipos e preconceitos relacionados às mulheres brasileiras em Portugal, que dificultam essa simbologia de empoderamento.

De modo geral, o principal estereótipo evidente debruça-se em torno da sexualidade da mulher brasileira, no qual elas são “explicitamente identificadas com sexo. As ideias de beleza, sensualidade e disponibilidade sexual parecem estar imbricadas entre si no imaginário da mulher brasileira”(Gomes, 2003, pp. 873–874). Mas existem outros preconceitos em torno do sotaque, da capacidade intelectual, das roupas, das músicas, entre outros. Assim, ser imigrante, mulher e brasileira está automaticamente relacionado a enfrentar diariamente comentários, posturas ou olhares que são influenciados por algumas dessas ideias machistas e xenófobas.

EM - GÊNERO E IMIGRAÇÃO - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

sábado, 4 de junho de 2022

Breve análise e distinção (excerto) - PEDRO SILVA

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Ao contrário do que é comum afirmar-me, os três fenómenos acima referidos são distintos entre si. Por exemplo, as aparições marianas ou a visualização angelical nada tem que ver com os restantes dois temas. Acima de tudo, podemos considerar que as aparições estão directamente relacionadas com o Cristianismo e por esta religião são naturalmente aceites. Consideram-se como “dádivas” do Espírito Santo que Deus concede, de forma a que mensagens proféticas sejam passadas aos comuns habitantes do planeta terra.
Por outro lado, fantasmas são visões de mortos. Também são comummente conhecidos por “almas penadas” por vaguearem pela terra, junto dos vivos, mas com fraca interacção, até um momento em que possam descansar eternamente. Está no ramo da parapsicologia e não é benquisto pela Igreja Católica, ou qualquer outra. Acreditar que os espíritos de defuntos vagueiam entre nós, e que contactam com certas e determinadas pessoas, ultrapassa, em muito, o conhecimento que se pretende dar a passar a todos nós.
Também no campo dessa nova disciplina, a parapsicologia, surge o fenómeno Poltergeist, de origem germânica, no qual a grande distinção é capacidade destes espíritos, ou almas, que têm a capacidade de provocar o som (por vezes grande algazarra) e de movimentar objectos de forma a manifestar a sua presença sem serem vistos.

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O pai do ano (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Enfrentou o branco da porta do frigorífico, durante uns segundos. O seu olhar deteve-se num magneto, ao nível dos seus olhos, como se ali estivesse com o firme propósito de ser lido. E relembrado. E, assim, sempre acontecia… depois, arrefeceu a memória, com a porta já aberta e cristalizou a humidade líquida do tempo ido.

De dentro daquele armário frio, saíram garrafas, limas e gelo que iriam presentear um tempo recém-chegado.

Enfrentou, de novo, a porta agora fechada do electrodoméstico mais usado em casa. Por breves momentos, sorriu como se sorrisse para quem lhe tinha oferecido o íman, pousou tudo na mesa que, pacientemente, esperava e passou à acção.

Preparou bebidas, juntou aperitivos, provou aqui, depenicou ali, ornamentou um tabuleiro com modos de aprendiz de feiticeiro, deitou um último olhar ao símbolo agarrado ao frigorífico e seguiu para a sala.

– És um batoteiro! – afirmava um dos convivas presentes.

– Eu?!! – questionava outro, com o ar mais cândido do Universo, mas que se desfazia numa lauta gargalhada que a todos contagiava e que iria repetir-se pelo estender de mais um entardecer em família.

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Grinalda de emoções (excerto 13) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

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Adormeci, qual bebé no colo de sua mãe. O dia fora muito afectuoso e bom comigo. Acordei calma e tranquila, o sol brilhava no céu entreaberto, pela fresta da janela do meu quarto. Um duche sabe sempre bem, revigora o corpo e a mente, foi o que fiz após me levantar.
Sentada, tomando o meu pequeno-almoço, tive uma ideia brilhante: fazer um bolo! Bem pensei, melhor fiz e o bolo de ananás ficou maravilhoso. Fofinho e apetitoso. Liguei para a Paulinha, contando a minha proeza e convidando-a a ir comigo ao lar, servir o nosso bolo aos utentes/residentes daquele espaço quase familiar. Pela tardinha, lá fomos nós pela Rua Longa fora, com o tabuleiro grande, onde se encontrava o bolo de ananás. Fomos recebidas como umas princesas pelas auxiliares que, prontamente, se resolveram a fazer um chá colectivo, onde o bolo seria repartido. Mas a surpresa do bolo seria recompensada, pois quando estávamos a meio do lanche, comecei a ouvir “é fácil fazer, dá pouco trabalho…”. E, de braço dado, passo compassado, entraram os Vindimadores da Vidigueira e o seu maravilhoso cante. O meu coração saía pelos olhos inundados de sal, pela felicidade de, finalmente, ouvir e ver aqueles homens, cantando para mim.

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quinta-feira, 2 de junho de 2022

Abuso espiritual (excerto) - LUÍS VASCONCELOS

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Querido leitor, se me é permitido, gostaria de fazer uma pequena observação relativamente a este texto. O abuso espiritual é uma realidade no místico mundo religioso.
Não pretendo ser o juiz da fé que cada um de vós poderá, muito legitimamente ter. A prestação de culto religioso é um direito absoluto consagrado na nossa Constituição.
Eu apenas pretendo partilhar consigo as minhas vivências e experiências pessoais na minha interação com a religião., mais concretamente com um sentimento de culpa obsessivo por ela despertado em mim e as nefastas consequências que teve na minha vida durante quase 40 anos. É simplesmente uma perspetiva pessoal do que considero fanatismo religioso e a forma como pode afetar profundamente mentes mais suscetíveis, frágeis e vulneráveis.
Alguns de vós poderão rever-se naquilo que escrevo neste texto, outros irão criticar-me e condenar-me severamente. Têm todo o direito de o fazer, assim como eu também tenho o direito de escrever ao abrigo da liberdade de expressão instaurada neste país em Abril de 1974.
Não pretendo criticar nenhum movimento religioso em particular, até porque conheço um pouco da realidade de vários.

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Içando velas (excerto 3) - ANANDA LIMA

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A viagem era diferente de todas que já tinha feito em minha vida. Arrumar as malas, documentos, exames, nunca foi tão penoso para mim. Ia e não sabia quando voltava. Não sabia o que iria acontecer.
Na noite anterior à viagem, escrevi uma carta para minha filha. Deixei sobre a mesa para que ela pudesse encontrar com facilidade. Na carta, falava do nosso amor e de nossos compromissos uma para com a outra. Falava o quanto ela era importante como bússola na minha vida. Pois, foi por ela que tracei e percorri todos os caminhos até ali.
Não foi uma noite fácil, tampouco dormimos. A viagem era cheia de incertezas, tínhamos receio de a polícia rodoviária proibir que seguíssemos o itinerário. Então, coloquei no carro uma sacola imensa, bem visível, com os exames e o relatório médico. Caso fôssemos parados e questionados sobre a razão de estar nos locomovendo em tempos de pandemia, seria plausível para convencer os policiais.
Quantas incertezas vivíamos. Era a incerteza do que iria acontecer com o tratamento, era a incerteza de poder chegar realmente ao destino para iniciar o tratamento... a mente estava em ebulição. Por outro lado, vivia um medo enorme de o meu marido se contaminar com o novo vírus, pois na infância ele teve sérios problemas respiratórios. Se algo acontecesse a ele, naquele momento, me sentiria culpada.

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quarta-feira, 1 de junho de 2022

O meu bom dia! - ITANIRA SOARES

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Amanheci me pintando.
Usei o que pude.
Não teve jeito de ficar lindinha.
Mas por dentro estou colorida! Leve! Espelhada da minha própria beleza íntima, que me abraça, já que não posso ser abraçada.
Estou aqui assim a soltar beijos, maquiando meu momento.
Quando amanheço assim é mudando o quadro de mim mesma.
Pinto a cara que mascara a minha própria cara.
Não sou tão forte como pareço. Limitações todos temos.

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Floresta das valkirias (excerto) - ADELAIDE MAGALHÃES VEIGA FERREIRA

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Enoy, Enoy - o grito ecoava dentro da densa floresta.

O mago Silirimim gritava...
– Já cheguei, diz a mocinha com um arco pendurado nas costas, suas roupas de pele.
Por Odim pai dos deuses, por frigga , porque me chamas Siri?
– Você terminou de trançar as crinas dos cavalos? Sabe que ao entardecer as valquírias chegarão para a cerimônia de iniciação.
O mago já tira o elmo da cabeça de Enoy que cobre suas tranças louras e compridas – nervoso, taciturno diz: – Isso não é para você!
Serve apenas para os guerreiros.
Por Balder filho de Odim e Frigga, diz Enoy saindo andando pela e entrando no povoado cercado de casas de madeira, peles penduradas, o fogão aceso - toma chá de frutas, alimenta com peixes secos pendurados sobre o fogão que se mantém aceso dia e noite.
Entram na floresta.
– Siri você acha que Frigga virá?
– Não, somente a sacerdotiza Mor e as valquírias.
No meio da clareira sob as frondosas árvores uma grande fogueira e lamparinas acesas, em voltas grandes com óleo de baleia, uma grande mesa de frutas, nozes e peixes.
Hoje terá comilança. Enoy olha para o mago com seus enormes olhos azuis este balança a cabeça.
Por Odim, 12 meninas todas vestidas com trajes de peles e cabelos enfeitados com tiaras.

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Uma economia eco-social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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A Dignidade Humana, Auto Determinação e a Segurança ficaram ligadas em definitivo no século ao consenso sobre o bem comum e a democracia, enquanto espaço ético-política de liberdade e participação cívica e de proteção social – ligando a aqui com a solidariedade, é portanto a qualidade e capacidade de regeneração da democracia fundamental para os restantes valores do Serviço Social na descrição, global de de falcão (…). 
E na ligação à democracia, uma das Finalidades essenciais do Serviço Social, A Participação, profundamente correlacionada. Estes são outros dois campos do Ethos que a complexidade da mudança alterou completamente a estrutura da realidade social, e por consequência, as finalidades do próprio Ethos, que não os valores em si. 

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