quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 190 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

190

Entre muitos paradoxos que enfermam a humanidade, um dos mais óbvios, mas que foge à reflexão, é o dogma da perfeição.

Todos alardeamos que a perfeição não existe e, consequentemente, admitimos a nossa imperfeição natural. Estas afirmações acabam por ser taxativas e complementares, mas quase sempre colocadas de lado, dependendo das situações, sendo usada a versão mais cómoda ao interesse de cada um, ou o(s) seu(s) contrário(s), como quem escolhe que roupa usar em determinado dia da semana. Senão vejamos.

Não existindo a perfeição, por que raio todo o mundo anda em busca dela, em todos os momentos da vida? Por que se exigem relacionamentos perfeitos? Por que se exigem, ou recriminam, comportamentos e prestações, em nome da perfeição? Por que razão as pessoas sentem necessidade de qualificar toda e qualquer coisa que veem, ou tudo o que leem, como sendo “perfeito”? Por que carga de água se voltam as costas aos demais por falta de perfeição, ou pelas imperfeições? Por acaso a imperfeição só existe na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, em circunstâncias especiais, sendo que noutras é alimentada na segunda pessoa do singular ou plural? Será que o conceito de imperfeição tem restrições aplicativas? Será que estamos, também neste quesito, a perder a noção da realidade e a deixar-nos levar pelo politicamente correcto por conta da sensibilidade de um punhado de “cabeças-ocas”?

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 4) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Aos cinquenta e dois anos, estou levantando acampamento rumo a pessoa que quero ser aos noventa, organizando meus boletos para que minha fatura seja justa.
A morte é um fato, todos nós vamos morrer. Só não sabemos quando ela vai nos visitar. Mas enquanto estamos vivos, precisamos construir uma fortaleza dentro da nossa fragilidade. Mudar nossos comportamentos. Dar valor ao que realmente é essencial, seguindo na travessia da vida.
Juntas podemos seguir sem rótulos, com a liberdade para guardar o que achar útil e descartar o que não for necessário. Afinal, somos seres únicos e intransferíveis. O que serve para mim pode não fazer sentido para você, e está tudo bem.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Chega o amor novamente (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A socialização, trouxe àquele homem renascido das cinzas, um novo sentimento que acolheu de braços abertos.
Apaixona-se por uma colega de trabalho, moça determinada, com quem interagia, mesmo sem esta descodificar a linguagem gestual.
Susana lentamente foi assimilando e em pouco tempo comunicava usando a linguagem gestual, para além da escrita.
Ambos formavam uma equipa, muito estimada pelos utentes idosos, e pelos responsáveis da empresa.
O sentimento que andava no ar, crescia a olhos vistos.
A primavera acabara de chegar, e em plena natureza, Tiago resolve colher papoilas, organizando-as num singelo ramo.
Ao oferecê-lo a Susana, declara-se, pedindo sua mão em casamento.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 189 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

189

Sempre que me preparo para mergulhar num novo livro, visto o meu escafandro de gala e lá vou eu, contra todas as fobias, em genuína apneia.

As primeiras páginas podem revelar-se irrespiráveis, mas a falta de ar oxigenado, em vez de afligir-me, tem o condão de despertar o meu autocontrolo e elevar os sentidos no máximo das suas capacidades, obrigando-me a dar corda às barbatanas e ir ainda mais longe e fundo. E quanto maior for a dificuldade para manter a respiração regular, mais embrenhado fico e mais adentro nos textos.

Garanto-vos, com o testemunho de mil e uma experiências, que todos os bons livros conseguem fazer-nos viver para lá de uma síncope respiratória, e trazer-nos de volta, sãos e salvos, mas enriquecidos, à superficialidade fatal do mundo a que pertencemos.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 3) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Neste momento se sentira o homem mais pobre do mundo. Um perdedor diante dos carros que passavam em alta velocidade pela cidade hostil e que nem se davam conta das paradas apinhadas de trabalhadores, estudantes e senhoras sozinhas com sacolas.
Enfim, o transporte, 456. Chegara mais lotado que nos outros dias. Não dera para esperar outro. Tinha pressa de chegar a casa e lavar-se da fadiga do dia. Afinal, a empresa obrigara os funcionários a trabalharem com camisas de mangas compridas e gravata, apesar do sol cáustico da cidade. Os refrigeradores de ar, do escritório, permaneciam desligados meio expediente por contenção de despesas. Pouco lucro, mas muito calor. Tronco moderno, chibata sutil. Por esse motivo, nada insignificante, estava sempre às bicas e vez por outra a morrinha tentava se aproximar.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 188 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

188

Sem tirar a importância a outras grandes preocupações das sociedades modernas, um dos maiores flagelos actuais é o sumiço, que está a ser permitido acontecer, de inúmeros locais de culto – as livrarias tradicionais.

Sobre esta triste realidade estão a ser usados argumentos que só convencem os cabeças-ocas que falam de clássicos, mas só leem livros de autoajuda, comprados em supermercados.

Os livros que valem a pena serem lidos raramente os encontramos nas grandes superfícies, porque nunca serão os de vendas mais expressivas.

Livros que fazem pensar, ou melhor, que obrigam a pensar, são incompatíveis com o negócio de consumismo imediato, porque, neste nosso tempo, o acto de pensar está a roçar a extinção.

Os verdadeiros leitores, aqueles que conhecem as diferenças entre as grandes obras da literatura e os manuais de formatação, optam por pensar e sabem que só é possível encontrar bons livros nas livrarias tradicionais.

Infelizmente, esses espécimes raros têm uma capacidade financeira reduzida e isso reflete-se no desaparecimento de espaços icónicos.

A manter-se este círculo vicioso, corremos o risco de necessitar ir ao supermercado mais próximo para encontrarmos um manual prático, que nos ajude a descobrir uma forma de fugirmos à estupidificação que está a instalar-se, e reaprender a pensar. 

EMANUEL LOMELINO

domingo, 14 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 187 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

187

Pensar dói. Ou melhor… dá dores de cabeça. Ok. Nem sempre. Há pensamentos que conseguem passar sem deixar vestígios, mas, quando assim é, isso significa que não tinham significado algum.

Aqueles que magoam são os pensamentos que vêm atrelados a outros pensamentos, como um comboio-bala interminável, cuja locomotiva é uma ideia simples que não gosta de andar sozinha nas trilhas da mente e, por isso, arranja sempre uma forma ardilosa de dar boleia a mais e mais ideias, cada vez mais complexas.

A dor de cabeça aparece nesse momento. Na altura em que as carruagens mais simples – porque leves – dão lugar às mais robustas – porque pesadas – e, como num passe de mágica, cada uma delas (ideias) se transforma numa nova locomotiva, dando origem a mais comboios. Tantos que a mente fica preenchida de carris, que entroncam, uns nos outros, de modo tão vertiginoso que, nasce a sensação, a qualquer instante haverá um descarrilamento ou um choque entre composições.

Se isto não fosse uma analogia eu estaria milionário só na venda de bilhetes, tantos são os pensamentos que viajam na minha mente.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 13 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 186 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

186

Os livros, tal como as conversas e as cerejas, estão sempre colados a outros. Descobri isto ao olhar atentamente para a minha biblioteca e ter visto Puchkin e Gogol em animada tertúlia com Camus e Pessoa. Noutra prateleira, Brecht e Celan concentravam olhares em Virgínia, Agustina, e nas irmãs Brontë.

Num canto mais resguardado, Proust, Benjamin e Todorov sussurravam críticas, como quem conspira literatura. Mais adiante, Almada Negreiros, de braço dado a Ramos Rosa e Torga, dissertava sobre poesia, como quem não sabe mais nada além de versos.

Wilde, com todo o vigor da sua juventude reciclada, olhava Botto com interesse redobrado, enquanto Ovídio, Plutarco, Horácio e Calvino tentavam descobrir as diferenças entre Vergílio e Virgílio.

Poe e Stevenson elogiavam Márai e Saramago, bem perto de Göethe e Nietzsche, que desafiavam Schopenhauer e Steinbeck, para deleite de Kant. Também vislumbrei o grupo de Tolstoi, Gorki, Nabokov e Dostoievski, a debater com Kundera, Marquez, Neruda e Natália.

Camilo, Dinis, Amado, Assis e Eça trocavam experiências, enquanto Vinícius e Ary ofereciam canções a Cecília, Sophia, Florbela e Natércia, que retribuíam com palavras meigas.

Cervantes, Dante, Shakespeare e Camões faziam vénias aos aplausos de Junqueira, Bocage, Drummond e O’Neill. Enquanto Baudelaire, Apollinaire, e outros franceses, viam peças de Gil Vicente e Pascoaes.

E mais não vou enumerar porque já ultrapassei o limite deste texto.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 15) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Se reuniram para pensar a nova solução: seria possível um lugar toldo que abrigasse as diferenças como parte das pessoas? O reino animal talvez tivesse algo a mostrar: o deformismo de um ocipodídeo, possuidor de uma quela maior que a outra, não lhe dá legenda de manco ou alcunha de deficiente. Ao contrário de estigmas que selam preconceitos, a elegante convivência da espécie composta por éticos crustáceos o batizou de caranguejo-violinista. Essa forma especial de caranguejo recebeu esse apelido justamente para afastar hostilidades, pois é entendido que enquanto pisa a areia de forma irregular, chama a maré ao som da imaginação. A natureza manda muito bem seus recados ao seu humano, informa que tudo é naturalmente desigual: cada um tem sua face de normal, cada um tem seu mancar musical.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 185 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

185

Depois de ter navegado tantas marés e enfrentado os seus diferentes humores, o sal impregnou-se na pele tão intensamente que os golfinhos e as gaivotas deixaram de ser novidade. A ferocidade dos ventos, que no início era sentida como chibatadas, agora é apenas afago. Içar e recolher velas passaram a ser tarefas executadas no automático.

Já me haviam alertado para a falta de atenção que tenho prestado ao meu entorno. Não tinha dado muita importância a esse reparo, no entanto, a bem da verdade, há algum tempo deixei de demonstrar interesse nas coisas irrelevantes porque serviam apenas como motivos de distração, para ajudar a passar o tempo nas viagens entre portos.

No entanto, hoje, ao embarcar para mais uma odisseia laboral, embrulhado na minha farda de profissional camuflado e com a máscara de marujo satisfeito no rosto, decidi voltar a dar uso à minha vertente observadora e pude constatar que o céu azul continua a ser riscado pelos aviões, a espuma das ondas permanece branca e, tirando os pinguins e albatrozes, os únicos seres que continuam a destoar são os corvos, que agora são mais urbanos litorais e não se emocionam ao ver espantalhos de camisa aos quadrados que, tal como eu, andam na faina para colocar bacalhau no prato.

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 3) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Hoje respeito a vida como ela é e tudo de melhor que pode me oferecer, mas nem sempre foi assim. Cresci em um ambiente que acreditava ser normal, mas hoje percebo o quanto era tóxico e cheio de abusos emocionais. Os pregos foram retirados, mas as marcas ainda existem. As cicatrizes são eternas. Mas, a jornada de busca e crescimento pessoal me levou a expandir minha alma com ensinamentos que mudariam meu olhar sobre as situações que a vida me apresentava todos os dias, construindo a minha história e moldando quem sou hoje. Foi através da dor que novas possibilidades me foram apresentadas. Passei a olhar para o sofrimento e transformá-lo em algo que pudesse fazer algum sentido.
Venho percorrendo um caminho livre de padrões, assumindo meus medos de cara lavada e orgulhosa das minhas linhas de expressão.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Sem rumo (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sem trabalho, namoro acabado, Tiago começa a ficar sem rumo.
Orlando seu pai, é vencido pela doença.
O não desejado acontece. Mais uma perda dolorosa.
Começou, deste modo, um novo tempo e um novo viver na casa de Tiago.
A depressão agarra o rapaz, atira-o para o seu quarto fechado quase sempre dia e noite.
Sua mãe não sabia o que fazer.
Pedir ajuda médica, era coisa que ele recusava.
Um dia encheu-se de coragem e abriu portas e janelas obrigando-o a sair à força.
Foi dura, dizendo que quem não trabalha não come. Não conseguia aguentar as despesas da casa só com a misera reforma do pai e o seu faminto ordenado.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 184 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

184

- Encontra alguma razão que justifique terem-lhe atribuído este galardão, só agora, numa fase tão adiantada da sua carreira?

Herculano percebeu imediatamente, pelo extenso sorriso estampado nos lábios da jornalista, as intenções da pergunta colocada. Sem pestanejar, retribuiu o sorriso e respondeu:

- Eu poderia alegar vários motivos para esta distinção. Poderia falar em recompensa justa por todo o meu percurso. Poderia dizer que haviam retificado uma longa injustiça. Poderia afirmar que este júri foi menos parcial que os anteriores. Poderia referir que não houve concorrência à altura. Poderia alardear as minhas extraordinárias capacidades criativas. Poderia referir o meu estado de graça. Poderia falar da qualidade do meu trabalho. Poderia revelar conversas de bastidores. Poderia aludir a cunhas ou a aliciamentos. Poderia contar mil e uma histórias só para deleite de todos os telespectadores. No entanto, a verdade só pode ser uma de duas coisas… - fez uma pausa dramática, sentindo que a sua retórica estava a funcionar como previa, aguçando o apetite de escândalo que o rosto da jornalista revelava. – Finalmente, após décadas, consegui escrever um livro realmente bom ou, em contrapartida, e repetindo as suas palavras, quando anunciaram o meu nome, houve um engano. – não conseguiu evitar uma gargalhada perante o ar ofendido da jornalista, ao perceber que tinha caído no engodo. – Sinceramente, estou mais inclinado para aceitar a segunda hipótese. – concluiu triunfante, olhando directamente para a câmara.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 2) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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No intuito de voltar para casa, permanecera, de fato, estaticamente na parada de ônibus por longos minutos. Segurava sua pasta, tipo executivo, e o cansaço da alma. Como possuía uma mente dominada pela inquietude, prestara atenção a tudo e a todos na parada de ônibus. Motivos para vãs filosofias. As bundas das adolescentes que saíam dos colégios e que ele observava com gulodice e com a certeza de que o tempo não as seguraria tão firmes. A velha senhora cheia de sacolas nas mãos que lembrava, por um momento, a solidão de sua mãe e as tantas sacolas carregadas por ela, sozinha, por toda vida. O vendedor de balas, no ponto de ônibus, que vendia uns poucos doces de aspectos envelhecidos em sua banca improvisada. Balas, chicletes e gomas meladas, derretidas pelo sol de dias a fio.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 183 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

183

As questões são pertinentes. Por que diabos procuro adquirir o maior número possível de livros clássicos? Por que razão tenho um fascínio tão grande por obras intemporais? Para quê gastar tempo e dinheiro em literatura? Qual o propósito de reunir tantos, e tão díspares autores, géneros, temáticas, abordagens?

Poderia dar uso a mil e um argumentos, cada um mais válido que o anterior, mas temo que nenhum deles seja inteiramente esclarecedor sem o complemento dos restantes.

Fazê-lo pela metade seria dizer meias-verdades e omitir factos. Enumerar todas as razões revelar-se-ia uma tarefa hercúlea - porque demorada, mas, sobretudo, por ser demasiado fastidiosa para satisfazer a curiosidade alheia.

Assim sendo, e sem o mínimo de temor pelos julgamentos que esta obsessão pode suscitar, deixo ao critério de cada um a avaliação da esquizofrenia que me move.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 182 - Emanuel Lomelino

TERTÚLIA - desenho de Nuno Duarte

Diário do absurdo e aleatório 

182

Sempre fui apologista das discussões literárias – tertúlias (que não devem ser confundidas com “saraus” porque são eventos distintos) – pela possibilidade que dão para debater conceitos, tanto de criação como de leitura.

Infelizmente, esse género de encontros é cada vez mais raro, para não dizer inexistente, porque as artes deixaram de estar associadas a conceitos filosóficos claros, e os artífices nem sequer sabem definir as suas criações. Tudo é feito pelo simples acto de fazer.

Por outro lado, quando temos a sorte de assistir a uma tertúlia, ficamos com um tremendo amargo de boca pela enxurrada de argumentos vagos, que são proferidos com a maior das convicções, mas sem conteúdo aproveitável ou isento de lacunas.

É triste verificar que, para além do vazio intelectual dos criadores, os consumidores deixaram de ser exigentes e aceitam qualquer coisa. Já não há critério. Já não existe contraponto. Já não há opinião. Já não existe crítica. Só dogmas. Alguém diz que é arte e todos aplaudem, sem hesitar, sem contestar, sem questionar.

Para ser assim mais vale não haver tertúlias. Ou então acabe-se com a arte.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 181 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

181

Quando surgem aqueles dias em que só queremos deitar o esqueleto e simplesmente abraçar a inércia, é necessário um esforço sobre-humano para nos obrigar a cumprir algumas tarefas que, não sendo essenciais, nos propomos executar.

Hoje é um desses dias. Depois de um retemperador banho quente, o corpo começou a insinuar a vontade de ficar estático, imóvel, quieto, estatelado sobre a cama, e não fazer coisa alguma. Creio que ainda houve um momento de hesitação, da minha parte, mas o que tem de ser tem muita força e não posso abrir um precedente porque quando se facilita uma vez…

Para se atingir esta capacidade de não embalar na preguiça é fundamental ter-se um elevado grau de disciplina mental que, no meu caso, acaba por auxiliar bastante, quase como factor determinante para que não haja um só dia sem que eu faça, entre algumas outras coisas, pelo menos, um exercício de escrita.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 14) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Um vento fortíssimo acompanhou as tentativas de ingressos dos Fala Estranha no Condomínio da Razão. O pessoal de fala inquieta não passava no portão, não tinha medida de altura para literalidade, nem largura de racionalidade. Eram magrinhos de concreto e gordinhos de ilusão. Suas formas livres não encaixavam na geometria entalhada na madeira do pórtico que encarcera a simetria e expatria a analogia. As regras do Condomínio da Razão eram claras, buscavam a manutenção da cordialidade entre todos e, portanto, as diferenças não eram bem-vindas, expulsas seriam as subversivas subjetividades, entrariam palavras somente bonitas e axiais ao controle.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

domingo, 7 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 180 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

180

Os dias cozinham-se iguais, numa mesmice tão sórdida quanto submissa, sem ensejos nem revoltas.

Lábios gretados, frieiras nas mãos, escaras soltas, narinas empoeiradas, vontade que se esvai, conformismo que se instala.

O cansaço apodera-se, sem tréguas nem piedade. Reavivam-se vis emoções, já sentidas na plenitude da miserabilidade. Também aquela inércia tão lancinante como grilhetas carcerárias.

Mas nem tudo é ácido porque, no final de cada dia, chega sempre o silêncio crepuscular, com livros debaixo dos braços e a habilidade de teletransportar a mente para mundos que anestesiam até que a realidade regresse no buzinar do despertador.

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 2) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Confesso que, diante das tristezas que enfrentamos, somos agraciados com uma força interior que nos impulsiona a buscar a superação. Emergimos como uma majestosa fênix, transformando momentos difíceis em valiosos aprendizados que nos fortalecem e nos conduzem por um caminho consciente, onde realizamos aquilo que é essencial. Seguimos em busca do verdadeiro significado de nossas vidas. A música facilita a escalada do poço no qual caímos quando as tragédias e tristezas chegam, tornando o retorno à superfície e o recomeço mais fácil. O recomeço tem sido um fiel companheiro em minha trajetória. Passei por vários caminhos, mas nenhum deles deixou claro o meu propósito. Foi a palavra “cuidar”, que mudou minha direção e me trouxe até aqui.
Você já parou e se perguntou: Qual é o seu propósito nessa vida? O que te faz sair da cama todos os dias? O que te mantém motivado? Essa é uma questão que cabe a cada um de nós encontrar a sua própria resposta. Quando aprendemos a reconhecer nossas habilidades e a potencializar nossa autoestima, validamos os superpoderes da força feminina.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA