sexta-feira, 24 de julho de 2015

EU FALO DE... VERDADES

Já todos deram conta que, de modo geral, existem dois pesos e duas medidas quando as pessoas comentam textos nas redes sociais, dependendo do género utilizado. Quando se trata de prosa os comentários são mais direccionados para a qualidade da escrita e beleza do texto; quando os textos são de poesia os comentadores fazem o papel de sábios e, mais que comentar, aconselham; como se houvesse um maior afastamento entre os prosadores e os seus textos e a ligação dos "poetas" à sua "poesia" fosse umbilical. Serve a constatação anterior para dizer que a maioria dos leitores tende a catalogar a pessoa que escreve através dos textos que produz, isto é, quem lê julga que passa a conhecer a essência da pessoa que escreve.

Particularizando esta situação, tenho dado conta que, quem lê o que escrevo, comete dois erros de apreciação:

1- As pessoas comentam os meus textos como se o que ali está escrito é a minha realidade do momento e nem se apercebem que, salvo raras excepções, só publico as minhas criações pelo menos um ano depois de as escrever.

2- Confundem o que sou como pessoa com aquilo que sou enquanto autor. Escrever sobre amor não faz de mim um romântico inveterado, escrever sobre solidão não faz de mim um ermita, escrever sobre tristeza não faz de mim um eterno infeliz.

Dito isto, quero focar-me, de forma suscita, no segundo ponto e dizer que apesar das ilações, percepções e toda e qualquer ideia que possam ter em relação a mim, fruto das leituras que fazem dos meus textos, a verdade é que dificilmente encontrarão nas vossas vidas alguém com uma força mental idêntica à minha. Quem me conhece pessoalmente sabe que, em 43 anos, apenas as dores de dentes me impediram de dormir tranquilamente; e mesmo essas nem sempre foram bem sucedidas. Resumindo, eduquei-me a ficar indiferente às coisas e só me pode fazer mal aquilo que eu deixar. Como não gosto de me sentir mal... não deixo.

Para que serve toda esta prosápia? Serve para explicar as razões que me levam a ter atitudes como a que tive, há precisamente um mês atrás, ao escrever o último artigo deste blogue. Serve para dizer que eu entro nestas "lutas" porque tenho a força mental suficiente para o fazer. Serve para introduzir os acontecimentos posteriores ao meu artigo anterior.

Agora alguns factos isolados que desvalorizei (como sempre faço) e que hoje descobri estarem relacionados:

1- Devido a um serviço (pelo qual fui pago) fiquei como administrador de um grupo relacionado com uma antologia. Findo esse serviço e apesar de continuar como um dos administradores do grupo, deixei, por iniciativa própria, de geri-lo. Recentemente dei conta que tinha deixado de receber notificações desse grupo mas, como isso não é uma dor de dentes, desvalorizei.

2- Quem acompanha o meu perfil no FB reparou que há 9 dias escrevi um texto a insurgir-me contra uma denúncia que foi feita contra o meu perfil e que me impedia de partilhar, através do meu perfil, os poemas da minha página de autor, nos grupos a que estou associado. O acto em si não me afectou em nada, porque não é dor de dentes, mas quem não se sente não é filho de boa gente e eu até sou...  

3- Faz hoje 21 dias que recebi uma mensagem privada, daquele que eu apelidei no texto anterior de "a voz dos Orishas", com alguns reparos à utilização que fiz do apóstrofo no meu poema «SE O AMOR...». Mensagem vem, mensagem vai, enviei os artigos que regem a utilização do apóstrofo na gramática portuguesa para provar que o erro que me era apontado não está contemplado na respectiva regra. Não houve resposta.

Hoje, ao fazer limpeza da minha caixa de mensagens, dei conta que, na troca de mensagens que refiro no parágrafo anterior, o nome do sujeito estava em negrito (como quando uma página é desactivada ou alguém bloqueia o nosso acesso à sua página). Sendo eu como o Casimiro da canção do Sérgio Godinho, fui investigar e o que descobri uniu os pontos soltos que mencionei anteriormente.

O dito sujeito foi nomeado administrador do tal grupo e uma das suas primeiras funções foi, não só retirar o meu nome como administrador, mas também excluir-me do grupo e bloquear-me o acesso ao mesmo (nenhuma dessas acções me afecta minimamente). Só que a forma como o fez impediu-me de partilhar, através desse perfil, a poesia da minha página de autor, nos restantes grupos.

Aqui chegados, quero deixar duas notas para justificar os parágrafos introdutórios deste artigo.

1- Não se deixem iludir pelo que escrevo nos meus poemas. O que lá aparece não é a totalidade de mim. As fragilidades, as angústias, as tristezas e outras características que ali aparecem não são obrigatoriamente as minhas. Não se esqueçam do que Fernando Pessoa escreveu sobre os poetas!

2- A força mental que tenho e a desvalorização que faço das situações não querem dizer que fique impávido e sereno no meu canto sem reagir em conformidade. Uma coisa é não deixar-me afectar com as coisas, outra bem distinta é deixá-las passar impunemente ou fingir não as ver.

Para finalizar quero deixar bem claro que sou apologista da pluralidade de opiniões e todas devem ser respeitadas. Sei que cada um de nós tem a sua verdade e muitas vezes essa choca com a verdade dos outros. E também sei que quem não tem força mental e argumentos sólidos para fazer prevalecer a sua verdade transforma-se em fundamentalista e acaba por fazer desmoronar a sua verdade ao prejudicar os outros.

Já disse muitas vezes: não sou exemplo para ninguém mas também não os prejudico.

MANU DIXIT
    




quarta-feira, 24 de junho de 2015

EU FALO DE... LINCHAMENTO PÚBLICO


Há algum tempo foi-me oferecido um exemplar de uma antologia e pediram-me que escrevesse um artigo de opinião sobre essa obra.

Comecei a ler o livro e, sem grande surpresa, tendo em conta os primeiros autores, até à página 41 o nível qualitativo foi elevado. Sendo certo que neste género de obras é tremendamente difícil manter uma linha uniforme de qualidade, pela diversidade de autores e respectiva capacidade, confesso que não estava preparado para o que se seguiu. A descida qualitativa revelou-se tão acentuada que decidi colocar de lado a ideia de escrever sobre o livro. Não por recusar-me a escrever uma crítica negativa; isso nunca seria impedimento; mas pelo facto de, apesar do meu constante desagrado com a forma como muitos autores tratam a língua portuguesa, eu ser defensor de que, independente da qualidade (tema sempre subjectivo) ou dom de quem escreve, todos têm o direito a fazê-lo e esse direito jamais deve ser negado, seja a quem for.

Não raras vezes, tenho feito ouvir a minha voz na luta pelo aperfeiçoamento dos autores mas nunca ninguém me ouvirá dizer que este ou aquele deve deixar de escrever; nunca o disse, não o digo e jamais o direi. Eu acredito que é importante e saudável para o crescimento cultural de um povo que haja cada vez mais gente a escrever. Também acredito que quanto mais gente escrever mais probabilidades existirão de se encontrar escrita de qualidade. No entanto, não é menos verdade que, para que a quantidade se transforme em qualidade, tem de existir vontade dos autores em se aperfeiçoar constantemente.

Por esta altura alguns devem estar a perguntar-se porque razão eu comecei por afirmar que não escreveria sobre a antologia quando, no fundo, estou a fazê-lo? A resposta é simples. Algum tempo depois de me entregarem a antologia, aconteceu uma verdadeira tentativa de linchamento público de um autor na rede social Facebook. Foi colocado um texto seu, devidamente identificado com nome do autor e do livro onde esse texto pode ser encontrado, e colocou-se em causa a construção do próprio texto apelidando-o de mau português. Conhecendo a forma de escrever desse autor e fugindo um pouco ao meu hábito de não comentar textos que não gosto, decidi deixar um comentário explicando uma regra da poesia, chamada LICENÇA POÉTICA, que permite a construção frásica que ali era colocada em causa. Expliquei também que naquele texto o grande erro do autor foi colocar em prática essa regra mas de forma deficiente, por omissão e/ou colocação errada de pontuação. Tudo o resto não tinha nada que pudesse ser apontado, não existiam erros ortográficos apenas erros de pontuação. Pois bem, em sequência do meu comentário surgiu a voz dos Orishas a concordar com a existência da dita regra (como se eu precisasse de confirmação espiritual) mas a persistir na tese do português mal empregue rebatendo alguns dos meus argumentos, e ao autor em questão foi sugerido que deixasse de escrever. Como a minha intenção no comentário era apenas explicar a regra, não voltei a contestar aquele ponto de vista errado. Em vez de responder, decidi voltar a pegar na dita antologia e forçar-me a ler até ao fim, na certeza que iria encontrar exemplos práticos da validade das opiniões que eram dadas no tal linchamento público.

Para não ser muito maçador, porque os exemplos são inúmeros, deixo-vos apenas duas ou três passagens da antologia para demonstrar quão coerentes são os linchadores na apreciação dos textos:

Página 141 - "As lágrimas que caiem no meu rosto..." "AS LÁGRIMAS/ são a vós do coração..."

Página 240 - "... todas juntas não faltava-mos."

Página 241 - "Tinha-mos o suficiente..."

Na minha opinião, alguém que deixa passar estes erros na elaboração de uma antologia não tem moral para acusar um autor de empregar mau português, menos ainda quando o referido autor não cometeu nenhum erro ortográfico; simplesmente não soube aplicar uma regra, omitindo e/ou colocando erradamente a pontuação.

Perante tudo isto, há uma questão que eu gostaria de ver respondida. Sabendo eu que o autor em questão não contribuiu com textos seus na dita antologia mas já tem participado em outras publicações da mesma editora, porque razão foi alvo desta tentativa de linchamento? Será que, porque as comadres se zangaram e ele (tal como eu) não tomou partido, acabou por se transformar no alvo mais fácil por ser um paz d'alma que nem se deve ter apercebido do que fizeram com um texto seu (o nome dele foi colocado mas não identificado, como se pode fazer no FB).

Não sou nenhum justiceiro, não tenho procuração de ninguém para ser seu defensor público mas há coisas que não posso deixar passar em claro. E neste género de situações, não me interessa se o autor é meu conhecido ou se a sua escrita tem qualidade ou falta dela. Erros a escrever todos cometemos e, muitas vezes, por mais que passemos os olhos pelo que escrevemos, não detectamos aquela letra trocada, aquela vírgula em falta, aquele erro de concordância. Estes erros, que eu chamo erros de simpatia, acontecem a todos os que escrevem. Mas neste caso concreto não havia nada disso... Pura e simplesmente tentaram fazer um linchamento público de alguém que, tal como os autores das calinadas acima descritas, já deu dinheiro a ganhar à editora. As razões dessa atitude tão baixa só os responsáveis as podem justificar mas que esta história esconde outras histórias, lá isso esconde.

MANU DIXIT


terça-feira, 2 de junho de 2015

EU FALO DE... PRESENÇA NA 85ª FEIRA DO LIVRO DE LISBOA


Ao contrário do pensamento generalizado (e muitas vezes gritado como se o feito fosse algo extraordinário por estes dias) eu vejo a minha presença na 85ª Feira do Livro de Lisboa apenas como mais um evento. Em oposição ao alarido que vejo, por parte de alguns autores, tenho-me limitado a fazer a divulgação tal como faço nas vésperas dos lançamentos dos meus livros.

Longe vão os tempos em que ser autor com assento na Feira do Livro era uma efeméride tão prestigiante como receber um prémio literário. Hoje é algo corriqueiro e banal. Diariamente são inúmeros os autores que se apresentam para sessões de autógrafos: quase o mesmo número de autores que limitam-se a ficar sentados, de caneta na mão, numa espera vã pela chusma de leitores que ilusoriamente podem aparecer. Entre aqueles que conseguem criar alguma movimentação nas bancas, que as editoras lhes disponibilizaram, estão os que aparecem com a "camioneta" de familiares e amigos prontos para fazer desse evento um momento de arraial com a respectiva sessão fotográfica.

Sei que ao lerem este meu artigo, alguns distraídos ou leitores em diagonal vão passar por cima do que escrevi no primeiro parágrafo e dizer que estou a ser incoerente ao desvalorizar a importância da Feira do Livro e, mesmo assim, ser um dos autores com sessão de autógrafos agendada para esse evento. A esses tenho a dizer que não existe incoerência alguma porque não estou, com este texto, a desvalorizar a importância da Feira do Livro. Estou é a contestar a sobrevalorização que tenho visto alguns autores fazerem (autênticos festivais de ilusão) como se ficar uma hora sentado, de caneta na mão, a dar meia dúzia de autógrafos, fosse o suficiente para se consagrarem. A presença numa feira do livro não passa de uma efeméride e, como a própria palavra sugere, é um acto efémero (de curta duração).

Sim, vou estar na 85ª Feira do Livro de Lisboa, numa sessão de autógrafos organizada pela editora do meu último livro. Sim, muito provavelmente estarão presentes alguns amigos da escrita e serão tiradas fotografias para mais tarde recordar. Pode até acontecer que tenha de dar um ou outro autógrafo. Mas não estou cego de ilusão. Não criei nem criarei nenhuma expectativa sobre o que pode acontecer. Não, não cairei na presunção de achar que depois tudo vai ser diferente, que as coisas vão melhorar e que as vendas vão disparar. E é isso que eu tenho visto outros fazerem; criarem ilusões desmedidas.

Ninguém vai conseguir destacar-se apenas por estar disponível durante uma hora para dar autógrafos numa feira do livro. Da mesma forma, ninguém ganha notoriedade por aparecer (através de cunhas e não por mérito) em programas de televisão sensacionalistas - pelo menos em Portugal.

No fundo, este meu artigo é apenas um desabafo de quem tem os pés bem assentes na terra e sabe que há duas formas de alcançar um lugar ao sol: por mérito ou por vassalagem. A primeira é difícil de percorrer. A segunda é mais fácil mas simultâneamente volátil. Em ambas, há que saber separar a realidade da ilusão e é aqui que a porca torce o rabo quando olhamos para as atitudes e discursos de certos autores.

MANU DIXIT 
        


quinta-feira, 14 de maio de 2015

EU FALO DE... ACORDO ORTOGRÁFICO

Em 2013 escrevi um pequeno texto sobre este tema demonstrando o meu desagrado sobre a forma como todo o processo tinha sido conduzido até então. Dois anos passados, sou confrontado com a obrigatoriedade legal desta aberração. Antes de começar este texto, fui ler o que escrevi em 2013 e, pasmem-se, poucas diferenças existem entre aquilo que escrevi e aquilo que me proponho escrever agora. Dito isto, reproduzirei na integra o primeiro texto e depois juntarei mais algumas palavras.

"Muito se tem escrito e falado sobre o acordo ortográfico; contra e a favor. Independente da minha opinião e ignorando os argumentos de ambos os lados, aquilo que me apraz dizer é que, seja qual for o destino final desta iniciativa, ela nasceu torta e assim ficará ad aeternum.

Em primeiro lugar e, quanto a mim, o maior erro de todo este processo foi a forma arrogante como este acordo foi apresentado. Tal como vem sendo habitual na nossa sociedade, as decisões finais ganharam forma de irreversibilidade sem que em primeiro lugar tivesse existido uma discussão séria e equilibrada sobre todas as matérias. Discussão essa que deveria ter sido feita previamente e não ulteriormente, como veio a acontecer.

Se por um lado, os mentores deste acordo não se deram ao trabalho de ouvir todos aqueles que deveriam ser ouvidos, por outro lado, quem deveria ter sido escutado remeteu-se ao silêncio quando deveria ter falado e só se fizeram ouvir as vozes da discordância quando o acordo tomou corpo de lei, isto é, depois que foi aprovado.

Entre tanto ruído que se fez após a aprovação deste acordo ortográfico, aquilo que mais me intriga - tendo em consideração que este é um acordo da lusofonia - é a indisponibilidade do Brasil em aplicá-lo de imediato, por considerar existirem dúvidas na aplicabilidade de alguns pontos e a recusa dos PALOP em lhe dar legitimidade. Feitas as contas, o único país onde o acordo está efectivamente aplicado é Portugal.

A conclusão óbvia de todo este processo é simples: aquilo que pretendia ser a uniformização de uma língua esbarrou na impossibilidade de se uniformizar o que nunca será uniformizável."

Tal como aconteceu neste texto que escrevi em 2013, nas linhas que vou acrescentar também não utilizarei nenhum exemplo prático da aberração que nos impõem com força de lei, pois, por incrível que pareça, de agora em diante estamos "OBRIGADOS" a respeitar as directrizes que emanam desta imbecilidade sem que nos tenham instruído e, principalmente, esclarecido convenientemente. No entanto não deixarei de dizer, à laia de exemplo da incongruência de tudo isto, que a palavra ELECTROTECNIA, seguindo os trâmites exigidos por esta aberração, pode ser escrita de 18 formas distintas (chamam a isto uniformizar).

Mas peguemos no conceito uniformizante desta iniciativa. Sabe-se agora, (nada que não estivesse na cara e sobre o qual tenho vindo a falar em diversas ocasiões) que as motivações base deste processo sempre estiveram relacionadas com a possibilidade das editoras portuguesas entrarem mais facilmente no mercado brasileiro. Isto é, não se trabalhou sobre a língua portuguesa como alguns mentores tentaram impingir-nos, trabalhou-se sim na possibilidade de dar, a meia dúzia de chupistas, algum proveito económico usando aquilo que pertence a todos os lusófonos - a língua portuguesa.

O argumento da uniformização (bandeira dos defensores da imbecilidade) só conseguiu algum peso quando, para grande admiração da generalidade das pessoas de bom senso, alguns sectores da nossa sociedade, com responsabilidade e tradição seculares, se uniram a troco de nada e por pressão política; falo da comunicação social e dos chamados intelectuais universitários; estes últimos comprados com nomeações para diversos cargos. O único caso em que a tentativa de compra não resultou foi quando nomearam o recém-falecido Vasco Graça Moura para responsável do CCB e uma das suas primeiras medidas foi impedir a alteração ortográfica dos documentos oficiais da instituição.

Com o apoio daqueles que, teoricamente, teriam mais força para vetar a implementação da iniciativa, os mentores da uniformização conseguiram que o restante rebanho se mantivesse, quieto e sereno, a observar o desenrolar dos acontecimentos sem que se apercebessem das tremendas incoerências dos argumentos pró-fantochada.

Contentes com esta uniformização estão as editoras que vão ganhar rios de dinheiro (será?). Mas atenção! Os autores que editarem por essas chancelas ficam proibidos de usar palavras como "autocarro" ou "atacador" pois o uso dessas e outras palavras vão obrigar a traduções e depois lá cai por terra a uniformização tão importante para a economia da nação.

Para terminar mais esta minha alucinação sobre teorias da conspiração, resta-me dizer que relativamente às posições tomadas pelos restantes países da lusofonia, elas mantêm-se iguais às que tinham em 2013. Isto é, o Brasil continua a demonstrar indisponibilidade para aplicar o que Portugal já transformou em lei e os PALOP negam-se a ratificar, e com legitimidade comprovada, este atentado à língua portuguesa.

MANU DIXIT

  

terça-feira, 12 de maio de 2015

EU FALO DE... QUALIDADE LITERÁRIA



Já por diversas vezes defendi (e continuarei a fazê-lo) que o conceito de qualidade é muito vasto e, por essa razão, discutível e abstracto. Cada um de nós vai criando padrões de qualidade, influenciado pelo que lê e pelos gostos e experiências que vai adquirindo ao longo da vida. Se assim não fosse seria mais fácil determinar o que tem (ou não tem) qualidade e por consequência teríamos todos o mesmo gosto e, quem sabe, talvez o mau e medíocre nem existissem.

Em simultâneo com esta definição, desenvolveu-se em mim, ao longo dos anos, a crença que a qualidade da nossa escrita depende, entre outras coisas, do que lemos. Não basta ler muito e diversificado, também é necessário ler qualidade, mesmo a qualidade que não nos atrai tanto. E, dentro dos meus parâmetros, tenho lido muitos livros de grande qualidade; e não falo apenas dos clássicos. Existe muita escrita de qualidade por esse mundo fora que escapa ao olhar da maioria e, por isso, fica quase confinada ao anonimato.

No entanto, acredito que a qualidade não pode restringir-se apenas a uma questão de gosto pessoal. Para melhor esclarecer este meu pensamento vou recorrer à obra de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Não conheço ninguém que seja suficientemente audaz para dizer que existe mediocridade em algum dos trabalhos deste grande poeta. Conheço sim pessoas que gostam mais dos textos assinados por Álvaro de Campos ou de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares, Vicente Guedes ou outro qualquer heterónimo. Pode não existir unanimidade quanto ao melhor Fernando Pessoa mas a qualidade de todos, e do todo, é unanimemente reconhecida. Dito isto, é perfeitamente lógico que podemos ter os nossos padrões de qualidade mas devemos saber reconhecer, no que não gostamos, a qualidade existente.

Para personalizar um pouco mais este ponto voltarei a utilizar o exemplo de um dos melhores livros que li em 2012 - PORTAS MÁGICAS de Marta Teixeira Pinto. Disse-o várias vezes, as histórias de magia e fantástico não estão dentro das minhas preferências literárias mas esse facto não me impediu de reconhecer a qualidade que este livro tem e, em mais de uma ocasião, referi que não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra. Não, não fiquei fã do género mas fico ansioso pelo próximo trabalho da autora.

Outro trabalho que mereceu de mim a mesma afirmação "não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra" foi o livro CIDADE EMPRESTADA de Francisco Valverde Arsénio, editado em 2013. Este, já dentro do género literário da minha preferência, foi, sem a mínima dúvida, um dos melhores livros de poesia que tive a felicidade de ler e, não tenho problema algum em dizer, qualquer dos grandes nomes da poesia sairia prestigiado sendo o autor deste livro.

Tudo o que escrevi até este momento serve de introdução para dizer que este fim-de-semana estive a ler um ficheiro pdf que me foi enviado, por um autor, com o propósito de saber a minha opinião. Pois bem, sem entrar em grandes detalhes porque o trabalho em questão ainda não está editado, resta-me dizer que não me importaria absolutamente nada ser o autor dessa obra. Se o projecto, tal como me foi apresentado, merece o meu respeito e total apoio pelo facto de ser muito interessante, depois de ler o ficheiro, o autor merece também a minha mais profunda admiração pela obra que criou.

A minha biblioteca pessoal tem neste momento perto de 1300 títulos (desde os clássicos até às edições de autor). Aprendo imenso com cada um deles, independentemente da qualidade e tento que isso se reflicta nos meus próprios trabalhos. Tenho livros de muita qualidade, outros nem pouco mais ou menos. Gosto de muitos dos livros que tenho, de outros nem por isso. Sou autor de seis livros. Em dois livros não me importaria absolutamente nada ser o autor. Acho que em breve o terceiro poderá entrar em fase de produção. Espero ansioso!

MANU DIXIT  
 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

EU FALO DE... A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR


Ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, as minhas posições mais contestatárias, críticas e irreverentes em relação às questões ligadas ao universo da escrita (sendo quase uma marca registada do meu comportamento), não me impedem de, sempre que assim o entender, reconhecer publicamente (como já o tenho feito em diversas ocasiões) aqueles que têm mérito nas suas acções.

Dito isto, quero falar-vos hoje do nascimento da Livraria da Lua de Marfim, localizada na Avenida Conde Castro de Guimarães, 22A, na Amadora, cuja inauguração será no próximo dia 7 de Fevereiro, às 15 horas.

Tendo em conta as dificuldades que o país tem passado e toda a instabilidade que ainda existe por estes dias, esta iniciativa do editor Paulo Afonso Ramos é uma opção de risco mas também revela grande coragem e ambição. E conhecendo-o como conheço não é de admirar esta sua aposta que, disse-lhe pessoalmente no dia 29 de Janeiro, muito louvo. Mais ainda pelo facto de este espaço não se restringir aos livros editados pela Lua de Marfim e disponibilizar-se para receber de braços abertos os autores editados por outras editoras que pretendam usar o espaço para apresentações públicas dos seus trabalhos, como prova o convite que me foi feito nesse sentido.

Numa altura em que se escuta cada vez mais os responsáveis das chamadas "pequenas editoras" a reclamar pela falta de união e parcerias entre si, tenho constatado que o verdadeiro motivo para a existência desse afastamento reside na vaidade pessoal.

Nesse sentido, creio que a posição de Paulo Afonso Ramos, sendo contrária ao que referi no parágrafo anterior, pode bem ser o ponto de partida para que a tão propalada união possa finalmente ser atingida. Haja vontade dos outros editores de aceitar este gesto de aproximação que, sei do que falo, é genuíno. Dito isto, deixo aqui expresso o desejo que este novo projecto seja um sucesso e que os outros editores saibam responder em conformidade.

O Paulo Afonso Ramos não precisa que venham a público interceder por si mas eu não podia deixar passar em branco este seu grande momento. Independentemente das divergências de pensamento que nos separa, a realidade é apenas uma, ele foi o primeiro editor que valorizou a minha escrita, ele foi o editor dos meus primeiros cinco livros, ele foi o editor que me colocou à frente um contrato editorial único que não voltarei a ter.

Se mais razões não houvessem, estas seriam suficientes para que eu viesse a público reconhecer o mérito deste novo projecto. Como se costuma dizer: "a César o que é de César" ou como é mais justo neste caso: a Paulo Afonso Ramos o que é de Paulo Afonso Ramos.

MANU DIXIT  


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

FALA AÍ BRASIL... RAFAEL CASTELLAR DAS NEVES


Campanha Nanodicionário

Olás!!

Está no ar a campanha de financiamento coletivo do meu livro "Nanodicionário de Substantivos Abstratos que Regem os Relacionamentos".

Um financiamento coletivo (crowdfunding) consiste basicamente na arrecadação financeira para patrocinar os custos de produção de um produto, bem ou serviço que possa interessar os apoiadores (aqueles que que financiam). Os apoiadores participam adquirindo os pacotes que lhe interessam, os quais possuem recompensas adicionais ao produto, bem ou serviço financiado. Cada campanha possui uma meta financeira que, se atingida, a produção do item em questão é realizada e este é entregue aos apoiadores; caso contrário, o dinheiro é devolvido aos respectivos apoiadores e todos ficam bem.

Estou contando com o apoio da Bookstart que possui uma plataforma ampla e consistente, totalmente direcionada para o financiamento e produção de livros. Assim, estamos lançando o campanha Nanodicionário para publicação deste meu livro, por isso, peço o seu apoio e confiança para realizar este sonho!

Então, cliquem no link abaixo e conheçam todos os detalhes desta campanha (e não esqueça de contar para tudo mundo!):

Os links abaixo possuem informações mais detalhadas e interessantes sobre o funcionamento e como apoiar a campanha:

Qualquer dúvida, por favor, entre em contato! Conto muito com seu apoio!

Abraços e obrigado,

Rafael

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

EU FALO DE... DUAS CURIOSIDADES

DUAS CURIOSIDADES

Quando, em 2008, aderi à Internet e criei os meus primeiros blogues fiquei logo com a sensação que a interactividade se resumia quase em exclusivo à lei da compensação, o mesmo é dizer: a maioria dos comentários aos meus textos eram de pessoas cujos textos eu havia comentado. É verdade que, com o tempo, fui criando alguns laços de amizade com outros internautas e com esses nunca existiu represália alguma por estar uma temporada sem os comentar. Mas geralmente a regra era: "Não me comentas, também não te comento". Sei que essa é uma das principais razões que explicam a pouca visibilidade que os meus blogues alcançaram, no entanto, sempre fui fiel às minhas ideias e achei que só deveria comentar quando os textos merecessem. Sei também que, pelo mesmo motivo, existem muitos blogues que são inundados de comentários e têm uma visibilidade bem maior do que aquela que os textos aí colocados realmente mereceriam; mas isso é uma questão de gosto e como diz o velho adágio: "Gostos não se discutem".

Mais tarde, quando abri a minha página de Facebook e apesar das diferenças que existem entre a blogosfera e as redes sociais, verifiquei que, embora noutra escala, a dita lei da compensação continua a ser seguida pela generalidade dos utilizadores. Da minha parte, continuei a ser fiel aos meus conceitos e creio mesmo que neste momento sou muito mais crítico em relação ao que leio. Tenho consciência que esta postura não me favorece aos olhos dos outros mas, como dizia uma antiga colega de trabalho, "Não estou aqui para brincar nem fazer amigos". Na verdade, por muito que custe a algumas pessoas, a minha presença e actividade no Facebook resume-se a duas funções: dar a conhecer a minha escrita e divulgar autores lusófonos e com isto fazer a minha parte na defesa de uma língua e de uma cultura que são as minhas.

Os dois parágrafos anteriores servem para introduzir aqui dois episódios recentes em distintas páginas que criei.

O primeiro aconteceu no meu blogue de divulgação de autores da lusofonia. Este blogue, TOCA A ESCREVER, existe desde 1 de Janeiro de 2010 e desde esse dia, com uma ou duas excepções, tenho divulgado um poema diariamente. Desde a primeira hora e tendo em conta que uso uma aplicação para partilhar o material dos blogues na minha página de Facebook, a média varia entre as 50 a 100 visitas diárias. Uma vez por outra esse número aumenta porque o(a) autor(a) em questão acaba por publicitar essa minha postagem e os amigos vão lá dar uma espreitadela. O inusitado aconteceu recentemente quando, para meu espanto, dei conta que o blogue tinha recebido, em menos de uma semana, perto de sete mil visitas. É evidente que o meu primeiro pensamento foi que alguém teria tentado piratear o blogue, até porque o IP era dos EUA, mas a resposta para o enigma era outra e acabou por ser mais surpreendente que a descoberta do número astronómico de visitas.

Ontem recebi uma mensagem na minha página de autor no Facebook que passo a transcrever: «Bom dia Emanuel. No início do ano recebi a visita de um famílar que veio de Portugal e me trouxe algumas lembranças. Uma delas era o seu livro Impulsações. Em primeiro lugar quero dizer que aquilo que mais me chamou a atenção foi a simplicidade da capa. Gosto de coisas simples, como eu LOL. Quando acabei de ler o livro vi que tinha alguns sites onde escreve e decidi visitá-los. Adorei aquele blog das poesias de autores desconhecidos. Acho que já li todos. Obrigado pela possibilidade que me deu de ler coisas que desconhecia. Entretanto coloquei um like na sua página para acompanhar os seus poemas. Gostei muito do livro e espero que escreva mais».

Mais palavras para quê... afinal a minha pirata informática é uma fã de lusofonia.

O segundo facto curioso está relacionado precisamente com a minha página de autor no Facebook. Criei a página no dia 7 de Maio de 2014 e só agora estou a alcançar os 500 seguidores. No entanto, o mais curioso, é que cerca de 90% nem são meus "amigos" de Facebook, ou seja, a esmagadora maioria dos seguidores da minha página de autor são pessoas que leram e gostaram do que escrevo e decidiram "seguir-me". Para completar a curiosidade resta-me dizer que quando um desses seguidores partilha algum poema meu logo aparecem mais seguidores. E assim a página vai crescendo devagar mas com leitores assíduos que não querem saber para nada da tal lei da compensação. Neste caso acho que eu vou colocando os meus poemas e eles compensam-me com a leitura e partilha, depois eu compenso-os com mais poemas.


MANU DIXIT

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

VAMOS FALAR DISSO... ÂNGELA GONÇALVES

O MEU AGRADECIMENTO À ÂNGELA GONÇALVES POR PERMITIR QUE ESTE ESPAÇO PARTILHE O SEU TEXTO CRÍTICO.

Criticar não é mandar o outro abaixo porque me apetece ou me sinto dono da razão.
Ajudar não é mostrar pena pelo outro e não levantar o rabo sequer do sofá.
Sempre ouvi dizer que há falta de cultura neste país. No entanto, também descobri que há falta, não de dicionários, mas de pôr os pontos nos is em certos termos e algumas atitudes e valores.
Não costumava perceber o porquê das pessoas não se entenderem, mas acho que começo a chegar a alguma conclusão. Parece que não, mas nos dias de hoje, para além de falta bom senso (nada de senso comum), bom senso e educação mesmo, na nossa sociedade também falta aprender o significado das palavras, a base das bases. E quem diz que só por si a Língua Portuguesa não é cultura?! É cultura sim e, para mim, é também a minha pátria. Será que ainda há por aí quem saiba o que realmente significa ter uma pátria? Eu ainda me orgulho de dizer que a minha Pátria é a Língua Portuguesa. Só não me orgulho da sociedade que me rodeia onde se acham todos diferentes, mas na verdade são todos iguais. Monopolizados e controlados pelas tecnologias, presos ao conhecimento que vão adquirindo apenas na escola e convencidos de que o futuro é garantido sem que se mexa uma palha.
Sinto-me estagnada na Era dos Maias em que a parte dos jovens cultos era escassa. Pois o ciclo fechou e estagnou...
Não sou detentora de todo o conhecimento e muito menos de toda a razão, mas tenho uma opinião bem definida. Gostava de ter a capacidade para poder espalhar conhecimento, educação, valores e sabedoria. Infelizmente é algo que nunca possuirei.
Gostava de ter caído no mundo na altura de Fernando Pessoa, não que essa altura fosse diferente desta, porque não o era... No entanto, era mais fácil saber em que grupo me inserir e saberia que tinha alguém com quem contar para dar uma reviravolta ao Mundo. Podia não ter forças para tal nem voz para gritar tão alto, uma voz que se fizesse ecoar em todos os quatro cantos deste planeta e que, ao voltar para trás trouxesse consigo o grito de glória. Mas sei que iria tentar! Na verdade, todos os dias o tento: às vezes silenciosamente, num dia mentalmente, no segundo deprimindo por falta de forças, mas sempre batalhando para me conseguir, um dia, expressar de forma a que toda a gente me ouça. Mas, antes disso tenho de reunir todas as forças, argumentos, opiniões, conclusões,... tudo o que for necessário para travar uma luta destas. Sei que as palavras nunca se acabarão e que não me querem deixar ficar mal. A única coisa que pode acontecer, é eu pecar por falta de compreensão por parte do público alvo. Ignóbeis, incultos, vidrados em redes sociais e em tudo o que é mesquinho pensando que estão cada vez a socializar mais, mas a tornarem-se todos os dias cada vez mais em máquinas desumanizadas e sem pensamento próprio. Basta! Só quero gritar de desconforto e incompreensão. Antes, aquele que se fechava para escrever (o dito escritor) era considerado maluco, o carente, dramático, que só queria chamar a atenção e era desprezado por todos, hoje temos isso em todas as pessoas só que com a diferença de que, para além de não se aperceberem daquilo que está a acontecer, são mesmo carentes por falta de sentirem o amor da forma real, já só conhecem o materializado, não só por bens, como pelas redes sociais.

E nada disto estaria eu a escrever se isto não me afetasse. (Considerem-me egoísta.) Afeta, afeta sim! Não porque eu própria estou presa, mas porque tenho de me prender se quero contactar com os outros que não saem de casa por estarem enjaulados ou porque mesmo em casa me fecho na solidão porque também aqui há jaulas. Sorte dos animais que vivem no jardim zoológico, consegue ser menos solitário e doloroso. E afeta-me ainda mais quando vejo que quero ajudar aqueles que posso, sabendo que também preciso de ajuda e levo com facadas atrás de facadas, porque eu sou caprichosa apenas por querer passar um pouco de tempo fora da tecnologia com aqueles de quem eu mais gosto e que, se não estou online todos se preocupam e se zangam comigo. Mas já pensaram que o melhor da vida é feito offline? Já viram algum nascimento ser feito através de uma impressora? Pois, a vida nem sequer começaria se não nos desprendêssemos de tal perigo tecnológico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

EU FALO DE... TRISTE REALIDADE

Independente da maior ou menor visibilidade que os meus artigos sobre literatura têm na internet e da maior ou menor regularidade com que os escrevo e divulgo, uma coisa é certa: todos eles têm sido escritos na primeira pessoa e abordam principalmente aspectos negativos. O facto de estar há algum tempo sem escrever não significa que tudo vai bem no "Reino da Dinamarca", bem pelo contrário. Infelizmente, no mundo das artes em geral e no universo literário em particular, existem demasiadas situações a melhorar e, embora não fique chocado ao ser confrontado com elas, fico triste quando elas acontecem e chegam ao meu conhecimento.

Não é raro ler-se, nas redes sociais, "desabafos" de alguns autores quando confrontados com realidades difíceis de entender e para as quais quase nunca recebem explicações plausíveis e coerentes. Por norma, os diversos agentes literários (editores, livreiros, etc) têm enraizado a mesma ladainha, como se fossem todos criados na mesma linha de montagem, e quando são questionados sobre algumas situações atiram as responsabilidades para cima uns dos outros sendo que, como consequência disso, a culpa morre sempre solteira e os autores são aqueles que mais prejudicados ficam.

Como referi no parágrafo anterior, não é raro encontrarmos "desabafos" de alguns autores e isso, por si só, seria motivo para que eu estivesse aqui constantemente a escrever sobre o assunto. No entanto, ao contrário de outras ocasiões em que eu escrevo de forma genérica, desta vez decidi abrir uma excepção e falar de um caso particular que envolve um autor/homem que muito admiro e respeito, não só pela forma como se entrega ao seu ofício mas também pela sua postura na vida. E a admiração não é de agora.

O autor em questão, tendo dedicado quase toda a sua veia criadora à poesia decidiu recentemente enveredar por outro registo literário e fez a sua estreia como prosador. Muitos fazem o mesmo percurso e até aqui não vos contei nada de novo. A novidade; ou dito da melhor forma; a feliz novidade é que em pouco mais de dois meses, através da qualidade da sua escrita, pelo seu empenho, entusiasmo e entrega total à questão literária, o livro esgotou nas livrarias.

Neste momento, os que estão a ler este artigo estarão a perguntar: Mas onde é que está a parte negativa desta história? Pois bem, agora vou saciar-vos a curiosidade:

Então não é que... a editora recusa-se a fazer a segunda edição do livro?!
Então não é que... a editora argumenta que as livrarias não aceitam mais exemplares do livro, por isso não avança para segunda edição?!
Então não é que... a editora argumenta que o autor não é suficientemente consagrado para fazer segunda edição?!
Então não é que... mesmo com imensos pedidos de leitores a editora recusa fazer segunda edição?!

Perante esta situação, no mínimo ridícula, sinto-me na obrigação de formular umas quantas questões e tecer alguns comentários.

1º- Desde quando é que o raio de um livreiro consciente recusa ter na sua livraria exemplares de livros que têm procura e são vendidos?
2º- Que raio de livreiro se mantém impávido e sereno perante pedidos de livros por parte dos clientes?
3º- Que raio de editor é que usa como argumento o facto do "seu" autor ser ou não consagrado para justificar a viabilidade de uma segunda edição quando o livro é notoriamente um sucesso de vendas?
4º- Que raio de editor responsável e com olho para o negócio recusa entrar em segunda edição de um livro quando é o público leitor que está a procurar o livro sem o encontrar?

Estas são algumas das perguntas para as quais ninguém, em seu perfeito juízo, encontra respostas satisfatórias. Não creio que se possa apelidar alguém de bom gestor de negócios quando se colocam pseudo-entraves ao normal  funcionamento e valorização de empresas (neste caso livrarias e editoras). Não quero acreditar que existem pessoas tão limitadas comercialmente que não conseguem ter o discernimento para agir em conformidade com as necessidades do seu negócio aproveitando uma situação tão evidente de sucesso autoral.

Ninguém no seu perfeito juízo consegue entender a inércia de alguns editores e livreiros perante “produtos” vendáveis. Por muito que nos custe, a grande verdade é só uma... a maioria dos agentes literários são incompetentes sendo que, na generalidade, nem têm ligação alguma ao mundo da cultura a não ser o seu próprio posto de trabalho. Não é compreensível assistir a atitudes tão contra-natura por parte de quem tem nos ombros a responsabilidade de elevar culturalmente um povo. Perante tamanha falta de perspicácia não se venham queixar da inexistência de leitores. Como se prova neste caso, os leitores existem. O que não existe é vontade de ir ao encontro daquilo que os leitores querem ler.

Uma das argumentações que mais me intrigou foi a do “autor consagrado”. Por favor, alguém me explique, como se eu tivesse cinco anos, quando é que um autor deixa de ser desconhecido para se transformar em consagrado. Como é que essa transformação acontece? Quando é que acontece? Será que estou errado se disser que a consagração de um autor acontece pela aceitação dos leitores? Se assim for, como é possível um autor tornar-se consagrado se os editores recusam satisfazer as exigências dos leitores? Como é possível um autor ser consagrado se editores e livreiros recusam-se a vender os livros que os leitores querem ler? Se na música existem os discos de ouro e platina para “premiar” objectivos de vendas, não serão as segundas, terceiras e mais edições a forma de premiar e consagrar os autores que o público quer ler?

Por último e para terminar esta minha dissertação quero endereçar ao meu amigo e colega das letras, Luís Ferreira, os meus parabéns pelo sucesso que o seu romance tem alcançado, e a minha total solidariedade pelo momento menos feliz que está obrigado a viver por inércia, incompetência e falta de visão do seu editor. E digo isto não por ser seu amigo e admirador. Digo isto porque sei que existem muitos outros editores que gostariam de ter no seu catálogo os trabalhos dele e, certamente, dedicariam o género de atenção que o seu romance merece.


MANU DIXIT