domingo, 16 de julho de 2023
Peabiru (excerto 10) - CARLOS DOMINGUEZ
sábado, 15 de julho de 2023
Diário do absurdo e aleatório 4 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
4
Erradamente, supôs-se que a vida seria uma simples equação matemática. Mas alguém, fraco no domínio da álgebra e apenas conhecedor dos números inteiros, enganou-se nos cálculos por não contemplar décimas, fracções, ou raízes quadradas.
Supostamente, a vida deveria ser um segmento de recta. Todos a partirem de um ponto A para chegarem, linearmente, a um ponto B. Mas alguém, fraco em geometria, olvidou a existência de círculos, triângulos, quadrados, etc. Tampouco conhecia ângulos, senos, cossenos, tangentes, catetos e hipotenusas.
Na verdade, de nada nos serve sabermos fazer cálculos avançados ou trigonométricos porque a complexidade da vida ultrapassa todas as ciências.
Para facilitar as coisas, pensemos na vida como uma enorme espiral irregular que contradiz todas as teorias conhecidas.
As contas nunca batem certas, os ângulos estão sempre errados, e as figuras geométricas têm formas difíceis de entender ou identificar.
Bem vistas as coisas, só o ponto de partida A e o ponto de chegada B são os elementos reais da equação da vida, tudo o resto são incógnitas disformes.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 14 de julho de 2023
Diário do absurdo e aleatório 3 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
3
O tempo passa no seu ritmo célere e eu sei que não consegui dar todos os passos que devia. Por vezes ponho-me a pensar se não ocupei mal o tempo que me foi concedido. Acredito ter deixado passar algum sem lhe ter dado o devido uso. Tempo perdido e mal aproveitado.
Os dias sucedem-se a galope do tempo e eu deixo-me ficar apeado sem saber o que fazer, o que dizer, o que realizar, mantenho-me quieto no meu canto sem perceber que estou a perder o meu tempo.
Mesmo não sendo saudosista acontece-me em muitos momentos desejar que o tempo recue e me dê uma nova oportunidade de fazer algumas coisas que deixei de fazer por falta de tempo ou por não ter sabido aproveitá-lo.
E penso no tempo que deixei escapar entre os dedos, em tudo o que devia ter feito e não fiz, no que deveria ter dito e não disse, no que poderia realizar e não realizei. E assim dou por mim a pensar no tempo que se foi e esgota sem perceber que ao pensar no tempo que perdi continuo a perder tempo que podia utilizar para fazer, dizer e realizar as coisas que não faço, não digo e não realizo por falta de tempo e por não o saber aproveitar.
O mesmo é dizer que pensar no tempo que perdi continua a ser uma perda de tempo.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 13 de julho de 2023
Diário do absurdo e aleatório 2 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
2
O dia voou-se-me pelos dedos com a fúria premeditada de lâminas rombas. As mãos choraram desconforto enquanto a alma – essa eterna chaga tresmalhada – regozijou-se por não ser corpórea e celebrou a sua indiferença ao beliscar do físico.
Os segundos latejaram-me na pele; os minutos picaram o ponto; as horas cauterizaram os sulcos, infamemente, enfaixados com gaze inexistente. E ela – a alma arredada de empatia – manteve-se fiel ao seu umbigo narcisista.
A
tarde sucedeu à manhã, como é habitual nestas coisas do tempo, e a cada
tique-taque da ampulheta moderna mais rugas decidiram enfeitar-me a derme irritada
de poeira e sedenta de tréguas. Da outra – a alma desgarrada de afinidades –
nem um sopro refrescante de interesse ou sinal de afectação.
Foi apenas mais um dia que passou. O corpo ganhou umas quantas medalhas por continuar a superar etapas, enquanto a alma – vilã de si mesma – permanece na ignorância de que nada, nem ninguém, é imune à passagem do tempo e que este também se lhe aplica.
EMANUEL LOMELINO
O abismo (excerto 15) - CARLA SANTOS
quarta-feira, 12 de julho de 2023
Diário do absurdo e aleatório 1 - Emanuel Lomelino
DIÁRIO DO ABSURDO E ALEATÓRIO
1
Os dias tecem-se como macramé. Entrelaçam-se os nós à velocidade dos ponteiros, e a estética nunca é ditada pelo tecelão, mas sempre pelos fios do tempo. Os minutos são franjas e as horas urdem-se de forma aleatória, porém harmoniosa.
Hoje teci um dia pardo, entre refeições. Quis Aracne – deusa do ofício –, de porte altivo, como todas as divindades devem apresentar-se, que o padrão das pausas, para descansar as mãos doridas de tantas agulhadas, fosse obtuso, contudo geométrico. E os desenhos de mais um dia ficaram-me tatuados na pele.
A minha sorte é ter esta obsessão redundante pela etimologia das palavras e descobrir que, ao contrário de todos os “dejá vu” deste dia, macramé não tem origem francesa, antes árabe “migramah”, ou talvez do turco (língua aliada) “miskrama”.
Seja como for, assim que a noite se predispuser a embalar-me as escaras, enrolar-me-ei na tecelagem deste dia e dormirei na certeza de que na próxima alvorada serei artesão de outra arte qualquer.
EMANUEL LOMELINO
Caso 40 (excerto) - DALMO MEDEIROS
terça-feira, 11 de julho de 2023
Peabiru (excerto 9) - CARLOS DOMINGUEZ
Matriz de Santo Antônio (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
“Esta igreja começou a ser construída em 1710, no lugar de uma pequena capela. Naquela época começava a grande corrida dos tropeiros vindos de diversas colônias portuguesas no Brasil, em busca de ouro e pedras preciosas. Em 1723, Tiradentes, então conhecida como Vila de São José do Rio das Mortes, possuía 78 lojas e vendas e 3.801 escravos. Em 1729, já possuía 5.419 escravos, 106 vendas e 17 lojas. As primeiras informações a respeito desta igreja estão situadas entre 1730 e 1740. Sabe-se que a sua construção durou muitos anos, tendo começado pela capela-mor. Somente algum tempo depois lhe foi acrescentada a nave. Há registros de que a parte do coro foi feita em 1736. Mesmo que muita gente pense diferente, senhores, estejam certos de que este é o templo mais belo do Brasil. Vejam, seu interior é surpreendentemente grandioso. A obra de entalhamento do altar, a decoração das paredes da capela-mor e do arco do Cruzeiro são de autoria de João Ferreira Sampayo. Os lampadários de prata, os sinos e a ferraria foram instalados somente em 1760 e vieram do Rio de Janeiro. Vamos ao altar principal. Veja a imagem do orago da Matriz lá no alto, o Santo Antônio. Um pouco abaixo, vemos a imagem de São José, que é o padroeiro da cidade. O teto deste altar-mor recebeu pintura a ouro de arabescos florais, que lembram os templos da China e da Índia.”
EM - TRINDADE - TEREZINHA PEREIRA - IN-FINITA









