Amigo Nikoláievitch,
“As conversas são como as cerejas” é a expressão que melhor pode explicar as razões que me levam a iniciar esta missiva. A verdade é que nunca foi minha intensão embrenhar-me tanto numa temática como se não houvesse outros assuntos merecedores de reflexão, mas as coisas são como são, e por culpa dos diálogos com Nietzsche e Camus, não podia deixar de lhe dirigir algumas considerações.
Tal como Ivan Ilitch, a generalidade das pessoas vive como fosse imortal e, quando confrontada com a inevitabilidade da finitude, entra numa espécie de choque. Nesse momento de epifania, reavaliam-se decisões, confessa-se o desperdício de tempo com desejos e objetivos irrelevantes, assumem-se condutas e atitudes prenhes de futilidade, realizam-se remorsos. Perante este paradigma, creio que universal, abre-se uma nova perspectiva sobre a forma como a humanidade assume a mortalidade. Não é receio ou pudor. É sentimento de culpa.
Sabendo, de antemão, que a morte é uma certeza, só encontro uma explicação para que muitas pessoas sintam desconforto em falar dela, transformando-a em tabu. Falar da morte é falar do efémero, do descartável, do substituível. Será coincidência que a humanidade tenha criado os cemitérios para aglomerar os mortos da mesma forma que criou as lixeiras para o entulho e as sucateiras para os metais inservíveis?
Meditativo
Emanuel Lomelino
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Toca a falar disso