sábado, 30 de novembro de 2024

Lomelinices 52 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

52

Não preciso molhar-me na fúria desta chuva madrugadora para conseguir dissertar sobre a impermeabilidade que me escasseia.

Cada gota que desliza da nebulosidade do céu negro para abater-se sobre mim, com a ferocidade tropical de todas as tempestades, apenas cumpre o seu destino - e o meu.

Gotícula a gotícula, de mãos dadas com a liquidez desconfortável, transformo-me num leito de rio cujas correntezas percorrem de nascente à foz, sem resistência de dique ou barragem.

Inundo-me desde as margens até ao âmago em cascatas incessantes de rebeldia, qual desfiladeiro íngreme com protuberâncias escorregadias.

No centro do dilúvio, sou como um navio sem leme nem rumo, e o vento – irregular como só ele – não me permite mais do que andar, trémulo, à deriva.

Depois, como uma criança inocente, mas travessa, o céu afasta as nuvens e sorri um arco-íris, sem remorso por ter lançado toneladas de água sobre este pobre coitado que apenas saiu à rua para ir trabalhar, num sábado, e agora vai gastar os ganhos de um dia em paracetamol.

EMANUEL LOMELINO

De porto a porto (excerto) - Rose Pereira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ela olha para mim, sorrindo. E eu acaricio as rugas que embelezam seu rosto, com uma admiração indescritível. Os olhos, iluminados pelos raios de luz que emanam das cicatrizes, contam a história de um mundo que se fez nela.
A mente recorda-se com clareza e, agora, com gratidão, de todo o tempo que se passou.
Parecia mesmo inacreditável que aquela menina nascida num canto quase esquecido do norte do Brasil, em meio a uma sociedade arraigada de preconceitos e submissões femininas, pudesse alcançar algum dos sonhos tão desejados no pensamento.

EM - ESTRANGEIRAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Papaguear cultura 4 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 

4

Mais do que direito adquirido, escrever é um dever que poucos assumem. Uns por preguiça, outros por ignorância. A maioria recusa a responsabilidade, a minoria acredita que a escrita deve cingir-se aos pensadores, filósofos, doutrinados e eruditos. Boa parte escreve apenas porque sim, a outra parte, espartilhada entre crenças e rivalidades, contesta tudo o que se escreve, qual oposição sem programa alternativo.

Escrever é a liberdade do pensamento, mas alguns “seres iluminados” advogam que a escrita só o é se for feita de acordo com os novos cânones e, por consequência, com a negação dos anteriores. Exigem que se eliminem todos os conceitos, regras e definições do passado, que acreditam ser agrilhoadores da criatividade, e impõem a permissividade restrita dos seus valores literários. Estes sábios da contemporaneidade, quais profetas da verdade absoluta, pensam a escrita de acordo com as fraquezas das suas próprias limitações. Estes censores da modernice, quais escravos das tendências anti autoridade, querem que a escrita se resuma à incoerência das suas crendices anti regras.

Aos arautos dos paradigmas elitistas, eu digo: Mentis! A arte é democrática! Não tem cor, sexo, idade, cultura, religião, política padrão, nem corrente estética ou estilística.

Aos negacionistas do legado que todos carregamos, eu digo: Mentis! A arte de hoje só existe, como é e se molda, porque o passado é o somatório de todas as correntes que nos conduziram até aqui.

Aos génios do desgoverno, eu digo: Mentis! A arte sempre terá regras, mesmo que não sigamos as normas clássicas ou doutrinas pré-existentes, porque até o vosso anarquismo é, por si só, uma regra que vos exige serem contra todas as outras regras.

EMANUEL LOMELINO

O princípio do mundo (excerto 12) - Jorge Chichorro Rodrigues

 
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Antão estava muito sério, sentindo cada vez mais a extraordinária missão de que a História o tinha incumbido, mas por estranho que possa parecer ele sentia-se flutuar, leve como uma pluma. Pensando bem, nenhum esforço lhe era pedido, tudo lhe corria naturalmente, e cada gesto que fazia ou cada palavra que pronunciava vinham-lhe do alto, de um além entre brumas que racionalmente fugia à sua perceção. Era uma ave sobre a terra, e só tinha de deixar que o vento da História o empurrasse, como se na verdade o acariciasse.

EM - O PRINCÍPIO DO MUNDO - JORGE CHICHORRO RODRIGUES - IN-FINITA

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Devaneios sarcásticos 2 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

2

No outro dia ouvi alguém dizer que a matemática não é uma ciência, mas sim uma ferramenta ao serviço de várias ciências. Pensei no assunto e consegui ver a lógica desse raciocínio.

O problema é que não fiquei por essa simples reflexão e continuei a pensar nos conceitos dogmáticos que esta disciplina encerra e cheguei a outra conclusão. Ao contrário do que me ensinaram, a matemática é tudo menos exacta.

Vejamos.

Eu sou um (número inteiro), no entanto, na maioria das vezes sou apenas fracções de mim, raramente completo. Assim sendo, como posso ser, em simultâneo, um e decimal de mim?

Atentando mais fundo na questão, tendo sempre presente que sou um, como se explica, matematicamente, aquilo que sou quando me divido (ou multiplico) ao longo de um dia de trabalho? O mesmo poderia perguntar pelas vezes que me somo ou subtraio.

Ao detectar estas incongruências, a confusão adensou-se porque fiquei a saber que sou um zero nesta matéria. Mas como? Se zero não é número inteiro e, à partida, sou um? Será que um pode ser todas essas coisas, inclusive algarismo aditivo ou fracção? Pode o um ser um número nulo?

Se houver por aí um matemático de serviço, agradeço desde já que não me esclareça estas dúvidas porque a febre já passou.

EMANUEL LOMELINO

Prisioneira em liberdade (excerto 6) - Maria Antonieta Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era só atravessar a Calçada do Correio Velho, quase sem transito ou mesmo, até, sem trânsito, mas a mãe era assim e não havia nada a fazer, a menina na janela chorava baixinho para que ninguém a ouvisse, e, esperava que a madrinha da boneca voltasse da Igreja, para lancharem as duas na sala da madrinha, com autorização da mesma, caso contrário, seria o lanche de baptizado, feito na cozinha.

EM - PRISIONEIRA EM LIBERDADE - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

Lomelinices 51 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

51

Há um aqueduto de frases por escrever entre as areias do Hudson e as praias vicentinas.

Os verbos correm ferventes desde as encostas do Corno dos Romanos até à mais recôndita ilhota do Pacífico.

Os adjectivos viajam desde as grutas que nunca foram de Salomão até às cidades perdidas na tropical Amazónia.

Cada substantivo percorre as planícies subsarianas rumo aos planaltos Tártaros.

Existem estepes de versos inovadores, entre as tundras escandinavas e os pomares nipónicos, com ânsia de nascerem virados para as águas santas do Ganges, mas idolatrando as correntes de Yangtzé. 

Há complementos empalados nas calotas polares, em ambos os hemisférios, só a aguardar o degelo para irem em busca de Everestes sujeitos e predicados.

Existem virgulas a bolinar ventos alísios (algumas de pontos às costas), com o mesmo ímpeto que as reticências cavalgam as dunas do Saara, em busca de dois pontos, parágrafos e travessões.

As ondas do Índico são tiles disfarçados, por não quererem ser vistos na companhia dos apreensivos circunflexos. Assim como os graves só querem ver os agudos pelas costas.

As interrogações não são mais do que exclamações vergadas ao peso de múltiplas dúvidas sugeridas pelas irrequietas marés lunares.

E assim se juntam dois mundos numa chuva descritiva cheia de figuras de estilo e com o epílogo esperado (ponto final).

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Devaneios sarcásticos 1 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

1

A augusta Casa dos Altivos Artífices do Sétimo Saber Consagrado convoca todos os órgãos de informação competentes para a Gala Anual dos Credenciados Anónimos Voluntários que irá realizar-se em espaço, dia e hora e designar, na esperança de conseguir, em tempo útil, recolher a verba necessária para liquidar os valores propostos, em caderno de encargos, para aquisição de dois contentores de fogo de artifício, duzentos metros de passadeira vermelha, quinhentos cadeirões manuelinos, três mil velas de sebo envelhecido em casta milenar e um vaso de flores sazonais, com dimensão ainda por determinar.

Com o referido certame, pretende-se celebrar as alcoviteiras do Jardim Constantino, os cangalheiros da praia de Carcavelos, as divas de São Sebastião, os ciciosos de Mata-Cães e as jovens promessas do núcleo de perfumistas azeiteiros da Abóbada Celeste.

A todos os participantes serão entregues certificados de presença e mérito, além de coroas de louro, personalizadas, e um porta-chaves alusivo à efeméride.

Se sobrar dinheiro, contamos requisitar os serviços dos gaiteiros de Milfontes que, caso aceitem, brindarão todos os presentes com uma sinfonia de acordes à moda de Viena ou, em alternativa, um fandango albicastrense.

A todos os convidados será solicitado traje de gala, que pode ser adquirido nas nossas instalações até dois dias antes do evento. O uso de chapéu é facultativo e os sapatos não podem ser rasos.

Este será o primeiro de muitos encontros previstos. A seu tempo honraremos os percursos dos gagos assobiadores de andaime, as costureiras de corta casaca à tesourada e os arquivistas de manuscritos da Biblioteca que vai ser construída nos antigos terrenos da Feira Popular.

Informamos que o acesso pode ser feito através de qualquer meio de transporte, com excepção dos aéreos porque é muito difícil encontrar um espaço com heliporto.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 19 - Emanuel Lomelino

05-09-2023

Há quem acredite no altruísmo das palavras, mas só um incauto pode perspectivar bondade numa conjugação verbal que impõe em vez de sugerir ou, quanto muito, ordena no lugar de colocar à consideração.

Até as pedras, sejam de calcário ou basalto, conseguem transmitir mais leveza do que os discursos militarizados, mesmo ao som de polcas e corridinhos, feitos à medida dos substitutos dos tubos catódicos.

Deixou de existir temperança e vergonha nas faces artificialmente bronzeadas porque o Zé do Manguito continua a preferir sopas e descanso em vez que tirar os suspensórios e mostrar o Judas arranhado.

Havendo música, couratos assados e uma reles esferográfica timbrada, aparecem logo magotes de desocupados intelectuais predispostos a agitarem bandeiras e bandeirolas ao vento carvoeiro, enquanto os copos não secam a cevada quente.

O despertar vem depois, quando os mesmos fidalgos movidos a rancho folclórico, descobrem que, afinal, a caridade é um caça-níqueis faminto e sem escrúpulos, e resolvem lançar outras bandeiras ao vento, soltar verbos pedintes e arrastar as carcaças pálidas no meio da urbe de cintos apertados, como fossem todos sócios-fundadores da liga dos revoltados surpreendidos, mas sem cotas pagas e com o tempo caducado.

EMANUEL LOMELINO

Aprendendo a voar no desconhecido (excerto) - Julia Lopes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Há alguns anos, tive a oportunidade de fazer uma longa viagem sozinha. Nunca tinha passado por nada parecido antes. O meu tão sonhado ano sabático estava, enfim, se tornando realidade. Que divertido tudo isso! Eu só não conhecia e nem contava com minhas limitações internas.
De alguma forma, passei a me sentir presa na minha própria vida. Até então, tudo era muito igual, sempre a mesma cidade, mesmos amigos, mesmo trabalho. Comecei a querer outras experiências e assim tive a ideia de viajar por vários países, fazendo alguns trabalhos voluntários para conhecer novas culturas e pessoas. Iniciaria pela Austrália, onde ficaria por um tempo com uma amiga de infância que já morava por lá.

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domingo, 24 de novembro de 2024

Pensamentos literários 5 - Emanuel Lomelino

Pensamentos literários 

5

Não existe melhor forma de exercer a individualidade plena, sem cair no descrédito de confundir o seu significado, do que a arte de pensar, e desta premissa nasceram todas as preciosas definições de liberdade, mas também alguns enganos – porque nem todos os filhos do pensamento são sensatos.

Há aqueles que renegam, mais de três vezes, a equidade e preferem as pirâmides (mesmo invertidas) em detrimento de linhas rectas (mesmo paralelas).

Esses podem ser identificados pelo som elevado das suas vozes argumentativas, pois, acreditam na imposição e nos dogmas, e desconhecem o que significa pluralidade e livre-arbítrio.

Depois temos os que desconhecem que os pensamentos podem ser como o ferro forjado e que, quando nas mãos de um bom artesão, podem transformar-se em autênticas preciosidades, mas, quando molhados pela ignorância ou preguiça, também enferrujam. E um pensamento enferrujado, por mais forte que pareça, facilmente é quebrado.

EMANUEL LOMELINO

O princípio do mundo (excerto 11) - Jorge Chichorro Rodrigues

 
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Havia ohs! de assombro, risos nervosos, palavras de espanto, orações ciciadas, e ergueu-se um coro de entusiasmo quando alguém chamou a atenção para homens de pele acobreada, completamente nus, que corriam na praia, querendo aproximar-se dos navios que tinham ancorado a algumas dezenas de metros de distância deles. Era a própria visão do Génesis, da Criação, que estava diante dos marinheiros portugueses, e o que primeiro avistara terra, com um milagroso golpe de vista, mantinha-se silencioso, como em oração – à sua frente estendia-se uma vasta vegetação verde-escura, ainda selvagem, como se estivesse em repouso e intocada pela ação humana.

EM - O PRINCÍPIO DO MUNDO - JORGE CHICHORRO RODRIGUES - IN-FINITA

sábado, 23 de novembro de 2024

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 18 - Emanuel Lomelino

03-09-2023

Não se pode ter horror da morte sem a experimentar. Não se deve ter pânico da morte por desconhecimento. Sabendo da sua existência, e tendo a consciência tranquila, não é lógico temê-la.

Não se podem recear as mordidas dos necrófagos nem o triturar dos ossos pelas suas potentes dentadas. Não se deve ter pavor do desmembramento que fazem, na hora de devorar os corpos inertes e sem vida.

Não sei nada sobre a morte, para além do seu carácter definitivo. Por isso não lhe tenho medo.

Sei que Lavoisier tinha razão quando disse: …Na natureza nada se perde, tudo se transforma, por isso tampouco temo os necrófagos.

Aquilo que me faz transpirar a espinha, arrepiar os ossos e descrer da justiça divina, são os abutres. Esses têm o dom de cheirar, à distância, o sangue dos golpes recentes e, sem esperarem a morte, estão sempre prontos para aproveitarem as fragilidades e alimentarem-se das feridas ainda por cicatrizar.

EMANUEL LOMELINO

Prisioneira em liberdade (excerto 5) - Maria Antonieta Oliveira

 

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Dessa janela, dessa casa, do quarto exíguo, via passar raramente, um senhor de cor negra, e logo a madrinha dizia: - é um gosto, isto era hábito dizerem, pois era tão raro ver uma pessoa de outra raça que se fosse do sexo masculino significava que nesse dia iria ter um acontecimento de algo que a faria feliz, o tal gosto, mas, se fosse do sexo feminino, seria um desgosto, vá-se lá saber porquê. Ditos de antanho.

EM - PRISIONEIRA EM LIBERDADE - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Papaguear cultura 3 - Emanuel Lomelino

Papaguear cultura 

3

Por vezes, nos momentos de ócio, dou por mim a questionar a importância das palavras que gravo, com força desmesurada, nas pobres folhas brancas que coloco diante dos olhos.

Nesses instantes de lassidão e desinteresse, revejo tudo o que escrevi e deixo que a dúvida se instale no mais recôndito espaço da mente, como quem recheia um qualquer doce conventual.

As perguntas sucedem-se, frenéticas, sem encadeamento lógico ou propósito definido. Simplesmente materializam-se como quem nos visita de forma aleatória e sem motivo.

Mesmo podendo esclarecer a origem de cada texto, não consigo explicar a impetuosidade, quase violenta, com que firmo cada letra no corpo de papel, como irradiasse uma fúria incontrolável e desmedida.

Não tenho sido capaz, talvez por falta de habilidade, de encontrar uma justificação coerente para essa atitude desproporcional, nem sei se algum dia conseguirei.

Quanto à questão inicial, se houvesse um mínimo de valor naquilo que escrevo, jamais teria discorrido sobre a forma exaltada como o faço.

Resta-me continuar a fazer como até aqui e seguir o conselho do poeta W. D. Roscommon: escreve com fúria, mas corrige com fleuma.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Lomelinices 50 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

50

Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.

Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.

Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.

Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.

Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Lomelinices 49 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

49

A verdade dói quando escutada. Causa-nos dano pelo impacto do momento, talvez despreparo nosso, mas é uma dor fugaz e momentânea, que dificilmente deixa marcas permanentes porque, com o tempo e pelo seu carácter irreversível, ela consegue ser o elemento-chave para alcançarmos a paz de espírito necessária para prosseguirmos.

Já a mentira mata pela sua perversidade intemporal, contínua e nefasta. Atinge-nos na plenitude da sua fogosidade, qual sol abrasador, e queima todo o sentimento como palha ressequida. Desse incêndio destruidor sobra apenas negritude e terra árida sem possibilidade de renovação. E tudo passa porque a vida assim o permite.

Mas há algo mais obsceno e devasso. A dúvida. Essa é cruel, vil, maléfica e sádica. Mantém-nos num limbo de incertezas e esperanças, porque fere, arranha, machuca, tritura, rasga, perfura, esfola, aflige, ao mesmo tempo que se nega e pinta de cores suaves, hipnóticas e anestésicas, qual atriz no auge das suas capacidades interpretativas.

Esta trilogia de inegáveis “influencers” da vida nunca foi tão bem definida como fez Bob Marley, quando disse: A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.

EMANUEL LOMELINO

Nem cá, nem lá (excerto) - Debora Pio

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sempre sonhara em voar, conhecer outros mundos. Aos quatro anos, visitara com os pais o interior de um avião – queria ir, não importava para onde! Eles lhe explicaram que para viajar precisava de mala. Ela, daquela vez, aceitou.
Nos anos universitários, conheceu um alemão muito moderno, diferente dos machistas que, até então, havia conhecido no Brasil. Iniciou um relacionamento que perdurou intra e extramuros, para além do Atlântico. Casaram-se após pouco mais de um ano de namoro e ela se tornou uma estrangeira, aos 22 anos.

EM - ESTRANGEIRAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Lomelinices 48 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

48

Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.

Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.

Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.

Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.

Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.

A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.

Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.

EMANUEL LOMELINO

O princípio do mundo (excerto 10) - Jorge Chichorro Rodrigues

 
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Pêro Vaz estava abismado com a escolha do nome a ser dado àquela terra que se perfilava no horizonte. Que batismo de fogo ia ser dado a quem viesse habitá-la! Enchendo-se de coragem, pois não sabia até que ponto a paciência do capitão-mor poderia chegar, voltou a interrogá-lo: «E não receais, capitão-mor, que o peso da Vera Cruz venha a recair sobre vós?»

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segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Contos que nada contam 33 (O professor Licínio) - Emanuel Lomelino

O professor Licínio

 

- … Claro que conheci o professor Licínio! O sujeito mais louco e estimado da aldeia. Foi com ele que aprendi a ler, como muitas gerações desde o tempo em que os meus pais eram crianças.

Transformou a sua garagem num gigantesco salão de leitura, com as paredes forradas a livros, que as editoras lhe enviavam continuamente, e a porta sempre aberta para quem quisesse entrar.

Ele passava o dia a ensinar as letras, a formar palavras, a construir frases, aos mais novos, enquanto incentivava os maiores a pensar no que liam e a escreverem as suas próprias histórias.

Não era estranho vermos, além de crianças pequenas e adolescentes, o salão pejado de adultos, que aproveitavam para ler os livros que ali havia e tentavam cometer a proeza de fazer o professor Licínio sair para a rua, coisa que ele nunca fez em vida, nem mesmo para comprar bens essenciais, que encomendava, no início por telefone, depois por internet, porque havia outra porta, ao fundo da sala, que comunicava com a sua casa e ele tinha jurado que só sairia dali no dia em que não lesse um livro.

Só o conseguiram retirar daquela casa aquando do seu funeral.

EMANUEL LOMELINO