"Minha avó sábia e minha avó louca"
Minha
avó era sábia. Mas até aí Inés é morta. Todo mundo teve ou inventou uma avó
sábia pra si. Mas ouço outra voz aqui que diz que isso era "coisa de
outros tempos". No tempo antigo dos bondes, onde avós realmente
envelheciam e se tornavam sábias. "Nossa, que coisa piegas!" Esta é
uma voz nova recente que adquiri há pouco numa das mídias sociais. Por favor,
vozes se calem! Nossa, ótimo! Posso falar sozinha aqui? Tudo bem. Estou
conseguindo escrever de novo e digo que só vou parar depois de três ou quatro
parágrafos. Por favor, não interrompam. Claro que a leitora, o leitor pode se
retirar a qualquer momento. Prometo não intervir.
Volto ao início, algo já redundante. Minha avó era sábia. Mas não era só isso.
Minha avó era a mais sábia de toda família, família matriarcal. E os homens
dessa linhagem sabem do que estou falando. Mas espera, eu também tinha uma avó
louca que pareava com a avó sábia, rostos da mesma lua. Dizem até que elas se
conheciam muito e tomavam banho de rio juntas. Minha avó sábia disse certa vez:
"eram os peitos mais bonitos que eu vi na vida". Achei lindo e
libertador que minha avó sábia soubesse e pudesse reconhecer a beleza e a
natureza da minha avó louca. Era realmente bonito de saber desse despojamento.
E sempre que lembro dessas e outras frases desejo que as meninas tenham a sorte
de ter uma avó sábia como a minha, pois ela me criou.
Caiu uma vírgula aqui. E o que seria da diferença no mundo se não existissem as
avós loucas? O mundo certamente não precisaria de avós sábias. É um pensamento
teimoso que tenho. Mas eu vou catar esta vírgula aqui de volta, porque minha
avó louca foi a primeira mulher da família a ter um ofício só seu. Era
costureira e daquelas! De mão cheia! Minha avó louca foi a primeira a andar de
cabelo curto na pequena cidade de interior que vivíamos, cidade onde também
nasci. Minha avó louca foi a primeira mulher a andar de calça comprida, a
primeira porque copiou de uma revista de moda francesa e costurou um modelito
só para ela. Ela tomava banho de rio sem roupa. Ela não levava desaforo para
lugar nenhum. Era filha de uma índia que saiu de sua aldeia para viver com um
homem branco, que mais tarde a abandonou com quatro filhos. As Iracemas não
eram românticas naquele lugar. A bisavó índia tratou de espalhar os filhos e
minha avó louca foi dada para casamento aos treze anos para um viúvo de quase
sessenta. Mas era um mundo antigo, embora já fosse moderno.
Outra vírgula, esta mais gordinha, a definidora de espaços que marcam o entre,
o entre nós. Minha avó sábia e minha avó louca tinham em comum um homem. Meu
avô paralítico. Meu avô que tinha sido entregue a um casal de empregados para
adoção. Mas por que isto aconteceu? Porque meu avô Augusto, um comerciante
português, resolveu que não iria criar filho aleijado e para retirá-lo de casa
- o deu para os caseiros, André e Teodora - claro, junto com um pedaço de terra
- para que não houvesse perigo de devolução. Este avô paralítico, por destino
ou o que seja, também se tornou comerciante, dono de quitanda e um dia se
apaixonou loucamente por minha avó louca, a filha da índia - que tinha
desaparecido no mundo nesta parte da história. Quando isso aconteceu, minha avó
louca já vivia sozinha com cinco filhos do viúvo, tinha fugido para bem longe.
Era empregada doméstica e limpava as janelas de uma casa grande quando meu avô
paralítico viu suas pernas mestiças e ficou encantado. Tiveram quatro filhos,
um atrás do outro, cada qual mais bonito e rosado que o outro. Até que. Até que
ela desistiu dessa coisa toda. Não era para ela. Arrumou um amante aviador e
fugiu para São Paulo, deixando todos os filhos com meu avô manco e quitandeiro.
Resumindo: meu avô distribuiu os filhos e começou a beber. Ia definhando na
vida até que. Até que encontrou minha avó sábia, viúva, católica sincrética,
três filhos. Casou-se com ela imediatamente. Recolheu os filhos espalhados e
construiu uma casa boa que abrigasse a todos.
A avó louca? Foi para o Rio de Janeiro. O aviador? Cometeu suicídio. Ela, a
louca, enfim se casou com um homem evangélico e padeiro. Teve uma última filha,
mas ninguém sabe com quem. Passou os últimos dias como evangélica radical,
pregando moral a todos que se aproximassem. Não cortava mais o cabelo - que
chegava até os joelhos, não vestia mais roupa curta ou que mostrasse os braços.
Não se maquiava mais nem gostava mais de enfeites. Passava o dia ouvindo a
rádio relógio, marcando sei lá que tempo em sua cabeça. Não gostava de
crianças, não gostava de bichos, não gostava de mim. Isso eu lembro bem. Morreu
de câncer no fígado, mas viveu bastante, por quase nove décadas.
Minha avó sábia criou vários filhos, não sabia nem dizer qual era seu qual era
da outra. Protegeu todos, adotou netos. Criou bichos, plantas e frustrações.
Lágrimas, tristezas, solidão de mulher na casa boa. Perdeu filho jovem para
tuberculose. Perdeu meu avô, o coxo, para a bebida. Sofreu acidente. Ficou
coxa, manca, passou a usar muletas, cadeira de rodas. Perdeu a casa por
dívidas, perdeu netos e mais filho, perdeu até fazer parar o coração.
Fico aqui olhando passar aquelas avós - na zona vermelha da minha memória
fragilizada. Estou no tempo da matrioska. Eu, mulher que vai entrando na casa
de ser avó. E gosto de lembrar e recebê-las em mim como cultura, linguagem,
ferramentas para o mundo que se torna água. Não consigo distanciá-las mais,
talvez a louca tenha sido mais sábia e a sábia tenha sido - de fato - a louca.
Elas se mesclam na mesma pessoa, na mulher que me tornei e me torno todos os
dias - sábia e louca, louca e sábia, cheia de contradições, bipartida,
repartida, enigmática, solitária em meus afazeres, deserta em minha sensatez,
absurda em minha loucura. E não posso, não devo renegar nenhuma delas, porque
essas mulheres é que me habitam. Quem quiser que me conte outra.
Patricia Porto
mini-Biografia: Patricia Porto
Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas
Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica
"Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da
Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e
"Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda,
de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e
é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).
Parabéns Patrícia Porto, um texto fantástico. Abraço deste Portugal.
ResponderEliminarMuito obrigada, José Pedro! Fico feliz. Abraços do Brasil
ResponderEliminar