terça-feira, 15 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 29 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

29

Sempre afirmei que o tempo, aonde existo, nunca me pertenceu. O desenquadramento tem-se avolumado com os anos e o acerto desta percepção tem-se entranhado em mim como uma tatuagem interna que me enfraquece, tal qual uma hemorragia crescente.

A cada tique-taque da minha existência, cai-me sobre os ombros o desfasamento entre o que vivo e o que me foi negado pelos mínimos caprichos de um qualquer deus menor, para seu deleite e minha inevitável sina, como fosse um brinquedo nas mãos de uma criança.

Reconhecer esta condicionante tem-me obrigado a reformular constantemente as minhas prioridades, ao ponto de ter prescindido de algumas convicções, em vez de substituí-las por outras mais adequadas a este tempo e à consciência que tenho dele.

Por não haver retorno, ou segunda chance, quero acreditar que o erro supremo foi concretizado na montagem e que algures, noutro espaço temporal paralelo, está alguém tão desenraizado como eu aqui.

EMANUEL LOMELINO

Na epístola (excerto 3) - Rose Pereira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Um sufocamento me inquietava, não sei se confusão mental ou outra coisa qualquer.
E tudo por si retomava, ponderava, flutuava em sobe e desce, percorria no futuro, passado e presente. Por algum momento, tentei abrir os olhos, mas as pálpebras não obedeciam, senti meus cabelos acariciando a face enquanto as pontas tocavam o chão.
Deleitei-me com o calor que ainda sentia do meu pequeno, percebendo a conexão entre nós se dissolvendo, formando um vácuo entre dois corpos, tão pertos e tão distantes, quente e frio, acolhedor naquela viagem sem volta.

EM - ESTAVA ESCRITO - ROSE PEREIRA - IN-FINITA

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 28 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

28

Definitivamente, não vale a pena entrega total, dedicação absoluta, sacrifícios contínuos nem perseverança.

Mais dia, menos dia, de um momento para o outro, com culpa ou sem ela, há desinflação na utilidade e o interesse esbate-se como tinta gasta pelas agruras das estações.

A memória é frágil, oposta ao impulso, e as cortinas do tempo fecham como se tudo fosse um palco vazio após o último acto de uma qualquer peça de teatro em fim de digressão.

Talvez exista um interruptor para acender e apagar as vontades que se julgavam mútuas e, porque nunca o foram, vida que segue. 

As coisas são mesmo assim. Um dia chega a fatura e, das duas uma, paga-se um valor exorbitante pelo simples facto de ser-se ou é-se descartado como farrapos velhos ou embalagens vazias. E não importa reclamar, bater o pé ou contestar. Tudo tem prazo de validade. Inclusive nós.

EMANUEL LOMELINO

Tudo sob controle (excerto 3) - Daniele Rangel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Atrapalhado, atendeu ao pedido da recepcionista. Ao seu lado, a mãe só estava a pensar no porvir. O planejamento servira para se concentrar apenas na dor e curti-la. Quem em sã consciência quer curtir a dor? Essa mãe queria. Como não podia se livrar dela, já que havia planejado um parto normal, humanizado, na banheira, com a sinfonia de Beethoven ao fundo… que pelo menos aproveitasse o momento.

EM - TUDO SOB CONTROLE - DANIELE RANGEL - IN-FINITA

domingo, 13 de abril de 2025

Devaneios sarcásticos 14 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

14

Chegará o dia em que o ritmo cardíaco de um beija-flor será uma lembrança nostálgica de um mundo perdido e seremos acometidos pela saudade dos caleidoscópicos colibris e dos afagos gauleses e atrevidos que depositam em cada flor, em troca de néctar açucarado.

Nesse momento seremos alvejados pelos olhares acusadores dos brincos-de-princesa e estrelícias, como fossemos sinónimo de extermínio e a nossa existência significasse apocalipse.

Confrontados com a impossibilidade de redenção, veremos mariposas desfalecer à nossa passagem, as açucenas e os nenúfares vão murchar e as estrelas apagar-se-ão, como carregássemos uma longa e necrófaga foice.

Então, cabisbaixos e corroídos pelo remorso da indiferença, lançar-nos-emos, dos precipícios mais íngremes, numa espiral de lamentos inócuos e falhos, como se esse acto de contricção nos redimisse do egoísmo com que polvilhámos o solo que nos pariu.

Somos a génese do nosso próprio cataclismo.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 12 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 27 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

27

Não me impinjam pessoas de utópicas esperanças, grávidas de vertigens fúteis e especializadas em esturjão. Prefiro o cheiro destas páginas – genéricas das tertúlias de Montmartre – que são como geniais pautas de tangos tropeçados nos pátios da Graça, perfumados a arroz de cabidela.

Não me imponham falsas marés de fortuna, com suas ondas de fama adquirida ao preço de vénias heréticas. Prefiro o anonimato sombrio destas salas de papel reciclado, que pululam nas inúmeras Varsóvias lusas que tresandam a tabaco contrabandeado.

Não me poluam com essas histórias imberbes sobre a importância dos lugares-comuns e dos matizes de um arco-íris furtuito. Prefiro a policromia cega da consciência popular que se traduz no linguajar das guitarras harmónicas que decoram as tasquinhas e pedem cálices de ginjinha e sangria.

Não me peçam para ser contranatura e renegar José Régio. A ironia cansada dos meus olhos arrasta-me, com meu consentimento, pelos loucos caminhos da individualidade. E sigo, passo a passo, com o bolso carregado de verdades minhas e algumas de Botto, O’Neill, Ary e Ruy Belo.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 26 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

26

Acordo com a melodia cadenciada de chuva tocada a vento, que beija a janela do quarto. Recolho-me no conforto quente dos lençóis de linho e sinto a frescura gélida da mão esquerda que havia-se rebelado, pernoitando no lado externo do edredão. Recuso olhar o relógio.

Oiço o som inconfundível de borracha a deslizar na água, deduzo a passagem de um carro elétrico e a quantidade de precipitação acumulada na estrada. A iluminação da rua permite-me ver a sombra dos ramos, da Tília-de-folhas-grandes ainda despida pelas estações, e a corrida irregular das gotículas que deslizam na janela. Recuso olhar o relógio.

Os sons invernais recuam-me os pensamentos até ao início da adolescência, cerro os olhos, enrolo-me nas dores de meio século, e deixo-me cair num sono modorrento e nostálgico.

Mais um carro que passa. E outro. E outro. E a estridência do despertador mata-me a inocência de um sonho breve, retornando-me à realidade de mais um dia de tormenta – não só climatérica – porque a poesia é fado e infortúnio.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 25 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

25

O discernimento vem com a idade e é nesse momento que as epifanias brotam como água em fonte inesgotável.

O trigo já aparece separado do joio; os coxos são mais esguios do que os trapaceiros; as duas faces das moedas são indisfarçavelmente distintas; todos os bois, além de nome próprio, também têm apelido, proveniência e intenções patenteadas; as utopias e os dogmas perdem importância; as sombras esbatem-se; os brilhos deixam de ofuscar; a lucidez é rainha; o medo é bobo; a vida é um fiapo de tempo; a morte é uma inevitabilidade e continua a ser um mistério.

Mas toda esta perspicácia às vezes fere. É uma quase automutilação. Vil, sanguessuga, vampiresca, medonha, assustadora. E dá vontade de saber menos do que na adolescência, ser inconsequente, inanimado, como uma página ingenuamente branca.

EMANUEL LOMELINO

Na epístola (excerto 2) - Rose Pereira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Antes, porém, preparei para que meu bebê não se desesperasse. Dei a ele medicamentos suficientes para garantir um sono demorado ou, pelo menos, que lhe fizessem acalmar até que fôssemos encontrados. Não pretendia levá-lo comigo. Esbocei um destino melhor na carta de despedida que deixei em cima do balcão da sala.
Meu pequeno, no entanto, atordoado, levantou-se da cama antes do tempo previsto e veio acomodar-se entre o piso e o meu corpo ainda morno. E adormeceu.

EM - ESTAVA ESCRITO - ROSE PEREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 24 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

24

Arrasto-me pelos dias, cada vez mais sombrios, com um saco de incómodos às costas, um cigarro mal prensado nos lábios, e os olhos cegos ao desconforto.

Com os pés treinados nas caminhadas sem rumo, testo a firmeza das cordas bambas, prescindindo de artes circenses para encontrar equilíbrio e estabilidade. Basta-me olhar o vazio para que os passos soem a trotes melodiosos sem lugar a sinfonias orquestradas.

Subo escadas intermináveis pousando apenas os calcanhares para não acordar os calos do dedão, enquanto mantenho as mãos ocupadas a transportar os bisturis que me laceram, como finalistas a praxar caloiros.

Depois, fico horas a deambular entre o conformismo idiota e a revolta silenciosa, como estivesse a preencher puzzles de Sudoku, só para passar o tempo até chegar a altura de recolher-me e purificar-me nas palavras – a única droga que consegue anestesiar-me o âmago.

EMANUEL LOMELINO

Tudo sob controle (excerto 2) - Daniele Rangel

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É óbvio que ele se levantou. Um tanto contrariado, mas se levantou. Tinha se dado por vencido. A mãe não desistiria. Quando colocava uma coisa na cabeça, não tinha jeito. Foram para o quarto do bebê, a mãe sentou-se na poltrona para fiscalizar o trabalho do pai. Pois é, leitor, se a mãe sofre com as contrações, com os enjoos, com os hormônios… os pais também têm seus sofrimentos. Nesta quase meia-noite, o sofrimento era montar uma banheira.

EM - TUDO SOB CONTROLE - DANIELE RANGEL - IN-FINITA

terça-feira, 8 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 23 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

23

Este sentimento de desadaptação está costurado no meu âmago desde sempre. Lembro-me de, em criança, muito pequeno ainda, sentir-me deslocado no tempo, como se a cegonha tivesse ficado retida num engarrafamento de décadas provocado por uma paralisação dos serviços administrativos aéreos da Natalidade.

Esse atraso na entrega fez com que eu só visse a luz do dia bem mais tarde do que seria suposto. Pelo menos, valha-nos isso, o tempo de traslado é independente do de gestação, caso contrário eu teria nascido mais velho do que a Sé de Braga.

Tirando esse detalhe do desacerto temporal, não tenho mais nada a colocar no livro de reclamações. Os movimentos de rotação e translação dão-me os dias, as noites e as estações. A gravidade não me deixa flutuar – isso é óptimo para quem tem vertigens -, o céu varia entre o azul e os tons cinzentos, o mar anda entretido com os seus humores e marés, tanto a fauna como a flora são incríveis. Enfim, é tudo tão perfeito que a única coisa que posso reclamar da vida é estar aqui no tempo errado.

EMANUEL LOMELINO

Tenho tantas saudades tuas (excerto) - Rosa Fonseca

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O sol tinha acabado de se esconder no horizonte e tu, aqui comigo, na sombra ténue das palmeiras, acolhes os gestos e as palavras que entremeiam a tua inquietação, como quem acolhe o destino e vai pela noite largando a tristeza. E contas-me então das saudades e da falta que ele te faz. Dos telefonemas a meio da tarde e ao deitar. Dos passeios pelas alamedas ladeadas de flores amarelas. Os finais de tarde eram sempre apetecidos.

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segunda-feira, 7 de abril de 2025

Epístolas sem retorno 29 - Emanuel Lomelino

Edgar Allan Poe
Imagem pinterest

Caro Edgar,

As gárgulas, empoleiradas no negrume dos telhados, choram lágrimas de pó quando atestam, com notório desgosto nas faces grotescas, a perversa iniquidade dos, autodenominados, vates modernos.

Há, nas suas bizarras feições, untadas de raiva incontida, laivos de tristeza pagã e réstias de soturnidade, que resultam dessa fanfarronice egocêntrica que, sabe-se lá por quê e em nome de quem, é característica indissociável dos neo-versejadores.

Longe vão os tempos em que as palradoras estátuas de pedra rejubilavam com as góticas criações dos nobres e genuínos artesãos das palavras. Hoje, por mais esforços hercúleos que façam, dificilmente encontram diversidade na coloração das chamas, porque tudo é azul-propano como esta metáfora imperfeita.

Sombrio

Emanuel Lomelino

Ondas (excerto) - Rita Queiroz

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Era inverno no hemisfério sul. Para Marisa, calores intensos a tomavam arrebatadoramente. Olhava para os lados e quem estava à sua volta, tremia de frio. Cobertores não eram suficientes.
Uma angústia a tomava. Seus suores eram frios e quentes ao mesmo tempo. Calafrios percorriam seu corpo de Norte a Sul, de Leste a Oeste. Era esquisito, nunca tinha sentido isso. No meio da noite, acordava sobressaltada. Os termômetros marcavam 10º e ela, em febre de 38º. Precisava ir ao médico.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 6 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 22 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

22

Por vezes o fogo da vontade perde vigor e transforma-se numa ténue faúlha, que só não se extingue porque nos momentos de alento invertido, sobram ligeiras ondas de resiliência que, embora em banho-maria, impedem que o sentir seja obliterado por uma brisa de fraqueza.

Tal como os arco-íris, os ápices débeis da mente são miragens que tentam grudar-se ao céu do raciocínio, na esperança de ganhar protagonismo, como fossem autores de lavras plagiadas, a desfilar nas sombras de falsas passadeiras vermelhas, sem holofotes nem comendas.

Esses instantes frágeis, quando bem identificados, são manuais empíricos, do lado negro do ser, que ajudam na compreensão dos extremos da personalidade.

Cabe a cada um dar uma utilidade holística, ou parcial, ao aprendido – quando munidos de capacidade reflexiva e isenção de preguiça.

EMANUEL LOMELINO

O que guardamos quando habitamos provisoriamente um lugar? (excerto) - Rita Furtado

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Quando habitamos provisoriamente um lugar podemos guardar objetos, materiais ou os mesmos materializados nas fotografias. Mas penso que dele guardamos predominantemente impressões... memórias... De Lisboa guardo especificamente belezas abstratas. Guardo o azul profundo de um céu vivo que iluminou meus dias. Guardo a vista do Tejo e o avançar sereno de suas embarcações. Guardo a subida aos miradouros para apreciar o pôr do sol e seus raios que dão uma cor especial à cidade, ou o final da noite com suas luzes cintilantes que ocultam os detalhes da arquitetura, mas dão relevo às formas da cidade.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 5 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 21 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

21

Há um abismo, criado propositadamente, que dificulta o acesso ao mais íntimo de mim, porque só a mim pertenço, só a mim me justifico, só a mim me cumpro.

Por muito que deduzam pedantismo, tomara cada um ver-se o centro do universo, qual astro com órbita personalizada, e poder acionar ou desligar, dependendo do sentir, a força gravitacional que permite a aproximação de outros corpos celestes.

Muitos usam expediente semelhante, no entanto, sempre subjugados ao engrandecimento material que os “atraídos” proporcionam.

O meu egocentrismo, consciente, é espiritual, intimista, irreversível, meu. A mais ninguém pertence, a mais ninguém é útil, a mais ninguém enriquece.

E, pasmem-se os desavisados, esta convicção prática jamais foi impeditiva dos meus contínuos altruísmos, dos quais tampouco alardeio ao mundo. Quem vê, sabe. Quem desconhece, ignora. E convivo bem com ambos os espectros, porque só a mim cativo.

EMANUEL LOMELINO

Na epístola (excerto 1) - Rose Pereira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Lentamente, sentei sobre os joelhos dobrados no chão. Os punhos, por conta própria, verteram as mãos espalmadas para cima, como se pedissem uma bênção, ou quem sabe, suplicando clemência pelo que acabara de fazer.
A cabeça curvou-se à frente.
Neste instante, em fração de segundos, um turbilhão de lembranças me invadiu a mente, alternando-se em ritmo acelerado, e de uma maneira extraordinária, harmonizavam-se, permitindo, numa imensidão de tonalidades, o desnudamento interior.

EM - ESTAVA ESCRITO - ROSE PEREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Prosas de tédio e fastio 20 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

20

Sinto que estou a derramar-me até ao extremo do vazio; até ao limite da sensibilidade; até à falésia da consciência, qual abundante cascata de coisa alguma.

Nestes dias em que liquidifico a minha existência deixo de ser corpóreo, liberto-me das emoções, abraço a vacuidade profunda e agrilheto os pensamentos no mais esconso subterrâneo.

Embrulho-me na agudeza protetora e segura do silêncio absoluto e deixo o meu espírito vazado deambular pela neutralidade do espaço.

Somente o nada consegue ser, em mim, o equilíbrio, a prudência, a sensatez, a razão, o tão desejado porto de abrigo.

EMANUEL LOMELINO