sexta-feira, 17 de janeiro de 2025
A princesa e o príncipe (excerto) - Beatriz de Sá Gasparetto
A dúvida (excerto 10) - Zélia Alves
quinta-feira, 16 de janeiro de 2025
Lomelinices 77 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
77
Na íngreme e inclemente escalada da vida, sempre repleta de obstáculos expectantes e retardadores, não existem degraus baixos nem patamares lisos onde seja permitido cauterizar as mazelas e recuperar o fôlego, sem que a urgência do tempo não se faça sentir. Todas as decisões estão prenhes de imediatismo e há pouco espaço para hesitar. E tudo pesa mais a cada grão que se move na ampulheta.
Neste esforço continuado, sem pausas nem sossego, pode-se ganhar resiliência e robustez, mas perde-se vigor e agilidade.
Sendo certo que o mais importante é a satisfação do caminho feito, também não deixa de ser verdadeiro que as únicas medalhas conquistadas são adquiridas na dor, no sangramento, nas lágrimas, nas contrariedades, e isso é tudo menos justo ou animador porque as memórias de uma caminhada não deveriam ser apenas de sofrimento, mercurocromo e pensos-rápidos.
EMANUEL LOMELINO
A memória I - Welwitcha Cardoso
quarta-feira, 15 de janeiro de 2025
Devaneios sarcásticos 8 - Emanuel Lomelino
Devaneios sarcásticos
8
Percebo as preocupações gerais associadas à inteligência artificial, mas não entro na histeria colectiva dos argumentos baseados no prejuízo pessoal. Discutir os prós e contras numa visão intimista é reduzir a análise ao egoísmo.
Parto do princípio que a IA é apenas consequência lógica do progresso humano, (tal como a revolução industrial) com todas as qualidades e defeitos adjacentes.
Por ser uma questão da humanidade, este tema nunca obterá consenso porque, como prova a história, o progresso colectivo sempre aconteceu com o sacrifício de alguém. Uns beneficiam, outros são marginalizados.
Para não estender muito esta dissertação, e cingindo-a apenas a um aspecto do mundo da escrita (o meu mundo) entendo esta “ferramenta” como um divisor de águas dual. Por um lado, aumentará o número de autores que não são responsáveis pelas criações que assinam (esses existem desde sempre), por outro lado, acentuar-se-á o maior flagelo da humanidade – a preguiça.
Quanto ao benefício… deixarão de existir erros ortográficos… e sacrificam-se os revisores de texto.
EMANUEL LOMELINO
Naufrágio perdido (excerto) - Sara Rodrigues
terça-feira, 14 de janeiro de 2025
Papaguear cultura 8 - Emanuel Lomelino
Papaguear cultura
8
A minha opinião sobre a democratização na escrita é muito clara: serei sempre apologista do universalismo criativo, isto é, todos têm, mais do que o direito, o dever de escrever como lhes aprouver, do jeito que entenderem, sobre o que quiserem. No entanto, universalizar a criatividade não transforma todos os criadores em expoentes máximos nem lhes outorga genialidade.
Este posicionamento advém da observação que tenho feito do contemporâneo universo da escrita, de onde sobressaem duas correntes que, não tendo carácter ideológico-filosófico-criativo, procuram impor as suas razões antagónicas. De um lado a banalização, do outro a elitização.
Li recentemente que, no início do século XX, houve alguém que identificou o excesso de impressões (leia-se produção de livros) como sendo o principal factor de deterioração dos valores culturais da época.
Mesmo desconhecendo as circunstâncias que levaram a essa afirmação, fiquei a matutar sobre qual seria a reacção, do mesmo indivíduo, às enxurradas impressas de hoje.
Creio que, nesta matéria, nunca chegaremos a um entendimento de compromisso porque o direito de publicar jamais poderá ser negado e cabe aos leitores decidir o que é banal e o que é literatura, sem elitismos. O mesmo vale para outras vertentes culturais. E isso levanta mais uma questão: existem condições para que os consumidores de arte saibam e queiram filtrar?
EMANUEL LOMELINO
Ritinha (excerto) - Alicia Varela
O princípio do mundo (excerto 21) - Jorge Chichorro Rodrigues
segunda-feira, 13 de janeiro de 2025
Lomelinices 76 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
76
Ah, meus pobres olhos! Na ânsia de tatuar o meu nome nas pautas do mundo, deixei de vos alimentar com os melhores néctares literários e agora, que a cinza toma conta das vossas íris, temo não ser capaz de vos devolver o brilho.
Ah, meus infelizes neurónios! Na intenção de gravar em mim o máximo de saber, semeei demasiadas sementes estéreis e agora, que o tempo é a preciosidade mais rara, receio não ter habilidade para vos restituir a clarividência.
Ah, meus miseráveis ombros! Na ambição de prolongar ao máximo a minha irreverência juvenil, suportei o peso de múltiplas existências, tal qual Atlas, e agora, que os músculos atrofiam e as forças se esvaem, suspeito que a energia que me sobra é insuficiente para vos revigorar.
Ah, malditos genes que possuo! A sequência dos vossos comandos biológicos guiou-me nos trilhos de uma esperança vã e o tempo, que me pertencia, foi desbaratado na ignorância do seu valor. Agora, no ocaso dos dias, a sapiência dos ventos e das marés não serve para nada - é somente cultura geral.
EMANUEL LOMELINO
Prisioneira em liberdade (excerto 15) - Maria Antonieta Oliveira
domingo, 12 de janeiro de 2025
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 21 - Emanuel lomelino
17-09-2021
Primeiro apareceu o homem, depois a mulher – dois géneros. Surgiu o sexo para que masculino e feminino se reproduzissem - número. A humanidade prosperou e virou muitos homens e mulheres com desejo sexual – biologia. Depois a humanidade era tanta e o sexo tão frequente, mas banal, que começou a busca por novos sentires – poesia?
E o sexo foi inovado. Os humanos dividiram-se entre heterogeneidade e homogeneidade, deixando espaço para a bissexualidade – natureza. E logo vieram grupos e subgrupos sob pretextos e teorias diversas para autoexplicar os seus aparecimentos – retórica.
Alguns deles sentiam-se elas, elas sentiam-se eles, outros (eles) sentiam-se elas, mas com desejos de serem eles, e existiam elas que se sentiam eles, mas queriam pertencer a elas. E também havia outros, ou outras, que não se sentiam uma coisa nem outra – modernismo.
E ao longo de toda esta dúvida existencial surgida do sexo, por muito que contestem e se ofendam, a gramática manteve-se sem mutações e continuou a classificar artigos definidos e indefinidos com critérios de número (singular e plural) e género (feminino e masculino). “Os” que se sentem “as” e “as” que se sentem “os”, são idênticos a “uns” que se sentem “umas”, mas querem ser “uns”, a “umas” que se sentem “uns”, mas querem sentir-se “umas”, e a todos os outros e outras – igualdade gramatical prática.
EMANUEL LOMELINO
A dúvida (excerto 9) - Zélia Alves
sábado, 11 de janeiro de 2025
Lomelinices 75 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
75
A loucura das horas furtivas – aquelas que envelhecem corpo e espírito – tem o condão de entorpecer as ideias impedindo a clarividência.
Quando não é combatida atempadamente, transforma-se numa vertiginosa sequência de delírios que tomam de assalto, de unhas e dentes, as vontades básicas, substituindo-as pelas mais insanas, como quem se omite das responsabilidades e transfere o poder de decisão ao subconsciente doentio.
Por isso, sempre que se encerra mais um dia, para não me deixar aprisionar nas teias desconfortáveis do aparvalhamento e aliviar a mente das toneladas de entulho acumulado, entro de cabeça num processo de elasticidade cerebral procurando, assim, reencontrar uma réstia de sanidade. Como? Entregando-me doidamente à leitura de uma obra clássica da literatura universal.
Abençoado terapeuta Celan!
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 10 de janeiro de 2025
Lomelinices 74 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
74
Não foi um plano delineado de forma proposital, no entanto, o mundo que construi em meu redor, e que me serve quase na perfeição, faz de mim um eremita urbano.
Nunca desgostei das pessoas, bem pelo contrário, contudo, pouco a pouco, com o avançar da idade e o desaparecimento de alguns seres especiais, acentuou-se no meu âmago a vontade de usufruir deste isolamento egoísta e limitar a minha presença ao inevitável.
Substitui conversas com gente interessante por diálogos mentais com outros deslocados temporais, nos quais me revejo, mesmo não subscrevendo todos os pensamentos, conceitos e ideias que defenderam, pelo simples facto de ser apologista das discussões saudáveis com pessoas capazes de argumentar civilizadamente.
Esta esquizofrenia lomeliniana apraz-me e, enquanto tiver laivos de razoabilidade, não deixarei de a alimentar porque também me cumpro no silêncio conturbado dos meus pensamentos.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 9 de janeiro de 2025
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 20 - Emanuel Lomelino
18-11-2023
O próximo objectivo literário passa por encontrar obras de Séneca e descobrir se ele realmente dividiu os homens em duas categorias: os que caminham em frente enquanto fazem alguma coisa e os que vão atrás só a criticar.
Caso a atribuição se confirme, terei de discordar, em parte, e dizer-lhe que se esqueceu daqueles que, deambulam entre as duas facções.
Sim, existem os proactivos. Os que traçam os seus próprios caminhos e vão construindo, pedra por pedra, o destino que melhor lhes convém. Seguem as suas convicções e assumem os riscos do erro.
Atrás vêm sempre os visionários de obra feita, com as línguas afiadas e prontos a apontar, efusivamente e de dedo em riste, todos os percalços, todos os equívocos, enfim, tudo e mais alguma coisa, sem sequer saberem do que estão a falar.
Entre uns e outros estão aqueles que, sabendo identificar possíveis vantagens ou inconvenientes, ora fazem caminhos paralelos aos primeiros, ora juntam as suas vozes sussurradas aos segundos.
Esses, chamemos-lhes dissimulados, camuflam as suas acções em trajectos marginais para fugirem aos olhos dos censores e murmuram opiniões para não serem escutados pelos empreendedores.
Se Séneca dividiu os homens em duas categorias, fica aqui o reparo ao seu pensamento. Caso não tenha sido ele, fico já com a dissertação feita e só tenho de alterar o destinatário.
EMANUEL LOMELINO
O princípio do mundo (excerto 20) - Jorge Chichorro Rodrigues
quarta-feira, 8 de janeiro de 2025
Lomelinices 73 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
73
Há quem se queixe de, por mais que recomecem algo, o desfecho ser sempre igual.
Mas a questão é simples e sempre a mesma: presumir que os sinónimos representam, fielmente, a mesmíssima coisa, quando não é assim.
Mesmo parecendo terem significação igual, existe uma enorme diferença entre reiniciar e repetir.
Reiniciar é voltar ao início, mas isso não obriga, em momento algum, fazer-se tudo exactamente da mesma forma: isso, sim, seria repetir.
Ora, tendo presente essa pequena, mas essencial, nuance, não é difícil entender que cada regresso ao ponto de partida é uma possibilidade de mudança. Isso implica voltar à estaca zero, mas enveredar por outro caminho, outra via.
Só colocando em prática essa consciência é que o desfecho final poderá ter hipóteses de ser diferente.
Se reiniciar e repetir fossem exactamente o mesmo era impossível evoluir.
EMANUEL LOMELINO
Prisioneira em liberdade (excerto 14) - Maria Antonieta Oliveira
terça-feira, 7 de janeiro de 2025
Lomelinices 72 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
72
Como tantas outras vezes, iniciei a jornada sem destino premeditado – de peito aberto, ao sabor da despreocupação e empurrado pela brisa de cada dia.
Mas, ao contrário de outras caminhadas, decidi arregaçar as mangas, debastar os matagais mais densos, retirar, à força de músculos, os basálticos obstáculos, sem recuar nos inúmeros momentos em que alguns estilhaços, mais afiados do que cutelo de talhante, rasgavam a pele.
Hoje, avaliando as viagens, vejo que todas elas, independentemente do meu grau de resiliência e sacrifício, apenas me fizeram gastar as solas e voltar à estaca zero. Desta vez sem possibilidade de recauchutar os sapatos.
EMANUEL LOMELINO

















