segunda-feira, 18 de novembro de 2024
Prisioneira em liberdade (excerto 4) - Maria Antonieta Oliveira
domingo, 17 de novembro de 2024
Lomelinices 47 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
47
Esta inquietação vulcânica, que explode de mim, como instinto primitivo, conduz-me na busca eterna pelas palavras que podem fazer-me ajoelhar, como quem se prostra diante de imagem consagrável.
Este desassossego eruptivo, que sangra em mim, como as correntes mais agitadas de magma e lava, guia-me na infinita demanda dos verbos que podem obrigar-me a curvar, como quem faz vénias ao ministério divino.
Esta perturbação efusiva, que irrompe de mim, como intuição ancestral, escolta-me na procura desenfreada pelos vocábulos que podem forçar-me a vergar, como quem se derruba em devoção ao ofício celestial.
Este tumulto tempestuoso, que estoura em mim, como o mais tenebroso ribombar dos céus, acompanha-me numa insana caçada aos motes que podem impor-me a dobrar, como quem se inclina aos méritos angelicais de uma prece.
Esta profusão catastrófica, que eclode de mim, como ímpeto espontâneo, leva-me na bizarra urgência de encontrar as nobres sentenças que podem justificar os motivos, pelos quais, não consigo criar sem parecer que estou em permanente oração aos deuses da erudição.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 16 de novembro de 2024
Pensamentos literários 4 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
4
Eu gostaria de ser clássico como Séneca e poder aconselhar: apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Gostaria de ser erudito como Oscar Wilde e poder falar: a vida é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas só existe.
Eu gostaria de ser lúcido como Bob Marley e poder declarar: não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.
Eu gostaria de ser profético como James Dean e poder sentenciar: sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.
Eu gostaria de ser pretensioso como Picasso e pintar numa tela: eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro.
Eu gostaria de ser engraçado como Chaplin e poder mimicar: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela.
Eu gostaria de ser complexo como Nietzsche e poder dizer: torna-te aquilo que és.
Como não posso ser nenhum deles nem falar, com mais propriedade, o que já disseram, limito-me a seguir a dica do Friedrich e, sendo eu mesmo, vou parafrasear Pessoa, dizendo: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Apenas decidi deixar de correr atrás deles.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 15 de novembro de 2024
Pensamentos literários 3 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
3
Nos dias em que quase desfaleço sou acometido por uma amálgama de sintomas febris e hipotérmicos que se intercalam num frenesim impossível de descrever, mas que parecem conduzidos por laivos de demência.
Nesses instantes de nebulosas mortes, sem que encontre explicação plausível ou fragmentos de lógica, dou por mim a divagar pelas correntes artísticas, hoje em desuso (para não dizer extintas e proscritas), e faz-se luz sobre o meu mundo de criação.
Nesses quentes momentos de caos pacífico e agitada ordem, as epifanias sobrevoam-me a mente e os sentidos ficam hipnotizados pelos conceitos mais primários. Mesmo no desconforto das tonturas e com os olhos turvos (quase apagados), é quando melhor enxergo o que de mim pode advir, porque o que já fiz não me interessa, só penso no que ainda não fiz.
São vinte minutos, meia hora, isentos de percepção temporal, mas com o condão de clarificar-me ideias e conceitos, indicar-me outras tendências e possibilidades, abrir-me o espírito para enveredar por diferentes vias e novos caminhos.
Então dou por mim a estudar os antigos ismos das artes e a compará-los (sabendo que não há comparação) com o mesmismo que se instalou neste meu tempo.
Aprendo as diferenças entre o cubismo das telas e o surrealismo ou expressionismo dos poemas, de Picasso, e fico a adivinhar quantos serão os eruditos anti ismos de hoje que conhecem essa vertente do criador de Guernica.
Depois começo a escrever estes fracos textos sintéticos, com um sorriso irónico colado nos lábios, por saber que quase ninguém decifrará o conteúdo do último parágrafo.
EMANUEL LOMELINO
Encontros com o Brasil (excerto) - Ana Bernardino
quinta-feira, 14 de novembro de 2024
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 17
23-08-2023
O mundo moderno é um menu de desvios, encruzilhadas, atalhos e outros percursos que iludem pela vertigem do imediato associada à preguiça, porque o importante passou a ser a fim da caminhada em detrimento da satisfação pelos passos dados.
Todos se acham no direito de colocar coroas na cabeça e já nem existe a necessidade de serem feitas de louro, até porque tomilho e orégano são mais cheirosos. Da mesma forma, ilusoriamente, o brilho dos sorrisos passou a ser de plástico e a gratidão não é voluntária - exige troco ou contrapartida.
Já não importa a essência, mas sim os perfumes genéricos. Os arco-íris são agora imposição e as cintilações são mais louvadas do que a uniformidade das sombras nas noites de verão. Já ninguém quer saber do céu azul, pontilhado pelo branco das nuvens, porque flutuar na fantasia dos dias é menos doloroso do que ter os pés assentes na realidade no chão.
Há algum tempo li uma frase que dizia, por outras palavras, que o problema da humanidade nunca esteve na dentada que Eva deu na maçã, mas sim no facto de, pouco antes, ao comer um cogumelo, plantado na base da macieira, ter começado a ouvir a serpente falar.
Se pensarmos bem, e olharmos o mundo, tal qual ele está hoje (psicadélico) e a forma (caleidoscópica) como as pessoas o veem, não fica difícil acreditar nessa versão.
EMANUEL LOMELINO
O princípio do mundo (excerto 9) - Jorge Chichorro Rodrigues
quarta-feira, 13 de novembro de 2024
Lomelinices 46 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
46
Há este querer sólido e verdadeiro, que me acompanha desde sempre, de encontrar a perfeição do vazio; o silêncio original.
Quanto mais me embrenho na solidão que cultivo, menor parece a distância que me separa de algo semelhante ao Nirvana. Aquele lugar puro, sem defeito, que não é celestial nem divino. Apenas um lugar de paz imorredoura que substitui uma vida inteira.
A cada passo dado dou conta de todo o peso inútil e desnecessário que tenho carregado nas costas. Desfaço-me de mais e mais, sem traumas de separação. Simplesmente largo lastro e caminho mais leve.
O percurso ainda é longo, mas completo na sua única via, num só sentido, perfeito porque é feito de coisa alguma, apenas nada. E estou a conseguir libertar-me de toda a bagagem, de toda a tralha que me tem freado o ímpeto.
Sei que ainda transporto baús encrustados no corpo, com amarras maciças e fechaduras encriptadas, cuja remoção terá um custo de luas e sal, mas blindei a minha resiliência com o aço da vontade suprema e tenho os olhos focados no amanhã, porque é para lá que caminho.
EMANUEL LOMELINO
Prisioneira em liberdade (excerto 3) - Maria Antonieta Oliveira
terça-feira, 12 de novembro de 2024
Epístolas sem retorno 21 - Emanuel Lomelino
Caríssimo Vincent,
Por mais que admire o rigor e qualidade das tuas telas, por mais que aprecie os teus traços originais; por mais que me encante a singularidade das tuas pinceladas; por mais que respeite a profusão da tua extensa obra; não consigo deixar de te culpar, mestre Vincent, pela realidade impressionante dos meus dias.
Neste tempo de abundância e consumismo; de feitos banais e condutas impostoras; de sedentarismo intelectual; de improvisos estudados; de originalidades repetidas, a tua obra penetrou o lado mais recôndito das mentes desprovidas de conhecimento.
Nesta era de inversão de valores; desamor pelo passado; conflito com a história; contestação dos legados, a tua arte sobreviveu nos becos das memórias ocas e influencia os estranhos hábitos espontâneos de gerações tecnológicas.
A ti, Vincent, acuso de teres incentivado, ainda que sem conhecimento do facto, através do elevado número de autorretratos que produziste, este bizarro vício das selfies.
E só não te acuso dos instantâneos de repasto porque só conheço “Os comedores de batata”, e nesse os pratos mal se veem.
Satírico,
Emanuel Lomelino
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
Papaguear cultura 2 - Emanuel Lomelino
Papaguear cultura
2
A arte, nas suas diversas vertentes e dimensões, é uma actividade intimista que roça, quando não ultrapassa, o egoísmo. Mas este individualismo egocêntrico, que se exige ao criador, não é negativo, antes pelo contrário, é humanista porque permite que as dores da angústia criativa fiquem restritas ao universo da criação.
Aos apreciadores de artes deve ser apresentado o lado mais belo e sereno do objecto artístico, isto é, a arte finalizada.
Pouco importa o número de marteladas falhadas e quantas lascas de pedra rasgaram a pele do escultor, quando estamos diante de um busto. Ninguém quer saber quantas camadas de óleo foram colocadas sobre uma pincelada disforme ou quanto vapor de diluente paira no atelier do pintor, quando estamos a olhar uma tela. Não existe interesse algum no tempo que o escritor perdeu para dar vida à frase mais eloquente ou quantos rascunhos foram atirados ao lixo, quando lemos um livro. Não há relevância na quantidade de vezes que o actor titubeou ou se engasgou nos ensaios, quando estamos e ver um filme ou uma peça de teatro. Não é preciso saber quantas vezes as dançarinas tropeçaram ou erraram os passos nos treinos, quando estamos a assistir a um bailado.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 10 de novembro de 2024
Pensamentos literários 2 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
2
O provérbio popular diz que a esperança é a última a morrer. Já Balzac afirmou que o homem morre pela primeira vez quando perde o entusiasmo.
Juntando, a ambas as frases, todas as minhas distintas mortes, fica provado que o homem perece toda a vida até que a derradeira morte reclame o seu prémio e encerre o assunto de vez.
Contudo, no meio de toda esta filosofia necrológica, levantam-se algumas questões pertinentes:
Entre cada morte existe renascimento ou ressurreição?
Todas as mortes permitem renovação ou apenas ressuscitamento?
Há alguma morte mais nefasta que as demais?
Até que ponto o acúmulo de mortes não é, em si mesmo, mais uma morte?
Sejam quais forem as respostas a estas perguntas, existem duas garantias absolutas e incontestáveis sobre todas as mortes. As intercalares apenas nos amputam. A definitiva, tal como também disse Balzac: … é mais verdadeira – ela nunca renuncia a nenhum homem.
EMANUEL LOMELINO
Entre raízes e frutos (excerto) - Viviane Bouçós
sábado, 9 de novembro de 2024
Pensamentos literários 1 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
1
Não sei quantas vezes confessei o quão paradoxo sou. Mas isso também não é importante porque convivo bem com este adjectivo e não perspectivo desfazer-me dele.
Acho que até alimento essa faceta por ser a forma mais fácil de me equivaler, ou aproximar, da duplicidade dos outros, que, para esse efeito, usam máscaras.
Estive quase para usar o termo bipolaridade, mas, analisando bem as alternativas, duplicidade é, efectivamente, a forma mais correcta de caracterizar a urgência que as pessoas têm de querer passar, delas próprias, imagens diferentes daquilo que são. E um bipolar não tem duas caras nem usa máscaras, tem um transtorno.
Neste contexto, de aproximação àquilo que os outros são, revela-se, uma vez mais, a minha vertente paradoxal.
Se por um lado contesto a duplicidade, por vê-la como embuste, por outro lado canto loas aos usuários de máscaras por, com a sua falsidade identitária, darem provimento a uma máxima lançada por Kundera: Nunca somos nós mesmos quando há plateia.
Abençoados pensamentos literários. Abençoada literatura, que é eterna e sempre actual.
EMANUEL LOMELINO
O princípio do mundo (excerto 8) - Jorge Chichorro Rodrigues
sexta-feira, 8 de novembro de 2024
Papaguear cultura 1 - Emanuel Lomelino
Papaguear cultura
1
Toda a arte é dual. Pode ser objectiva ou arbitrária; inspiradora ou castradora; provocadora ou rasa; alegre ou melancólica; séria ou lúdica; satírica ou insonsa; deliciosa ou intragável; imortal ou efémera; contagiosa ou lacónica; bela ou monstruosa; etc, etc, etc…
Em outras ocasiões é polissémica. Pode ser início, meio e fim; tudo, nada e alguma coisa; abstrata, genérica e indefinida; excêntrica, estranha e rebelde; catarse, prazer e vício; etc, etc, etc…
A arte pode ser tanto e de tantas formas, dependendo de quem a vê e do modo como a entende.
Já foram tantos aqueles que dissertaram sobre a arte que é impossível dizer quem se aproximou mais da verdade. No entanto, para mim, a observação mais pertinente foi feita por Johann Goethe quando disse este quase paradoxo: Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte.
EMANUEL LOMELINO
Prisioneira em liberdade (excerto 2) - Maria Antonieta Oliveira
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
Lomelinices 45 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
45
Planto as sementes dos sossegos de cada instante dócil com a esperança de um abraço inquebrável entre as raízes e a terra fértil. Há um desejo inviolável de frutificar os rebentos da brandura como quem quer muscular a vontade.
Rego os caules de serenidade com as cristalinas águas da calmaria plácida que pacifica os frémitos pulsares da inquietude. Há um segredo por revelar em cada broto que rasga, entre sorrisos e sonhos, o ventre do solo maternal.
Nos limites da inocência, entre a lucidez mansa e a loucura pacata, sussurro palavras meigas e brandas à planta que desponta. Há um aroma meloso a impregnar-se na sensibilidade dos sentidos apurados, como uma essência virgem a deambular no etéreo silêncio de pasmos e espantos.
Por fim colho as flores da solidão, com as pétalas pintadas de paz e céu, de trégua e mar, de nirvana e nada. Enlaço um bouquet inteiro com a delicadeza de pai orgulhoso e realizado. Esta primavera, fora de estação, apazigua-me as lágrimas e cicatriza-me os lamentos. Então, condensa-se em mim a honradez da criação e o mundo volta a ser um lugar de pausa e restauro.
Eis-me agricultor de palavras e armistício.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
Epístolas sem retorno 20 - Emanuel Lomelino
Prezado Poeta,
Já começa a ser um acto repetitivo, como todas as repetições que cometo na vida, mas que posso eu fazer, Fernando, se sinto que és o único a quem posso falar do alto das minhas esquizofrenias.
Na minha mente tenho toda uma biblioteca de assuntos pertinentes, dúvidas recorrentes, perguntas delirantes, e diálogos por fazer. E quando recorro a ti, através das diferentes personalidades de nós, soltam-se-me os adjectivos mais esconsos como fossem exemplos do mais nivelado saber.
Conversar contigo é uma forma, talvez a mais fácil e confortável, de tentar expurgar a incompletude dos meus raciocínios, tão menores que os teus, numa tentativa, porventura, vã, de engrandecer as minhas pobres virtudes criativas.
Mas sossega, Fernando heteronímico, que, com as devidas vénias, jamais me proclamarei teu discípulo, como muitos fazem – alguns de forma leviana e fraudulenta. Ao contrário desses, não caio na ilusão da fama indevida porque, tal como lembrou outro autor, que também não é meu mestre, mas admiro – Victor Oliveira Mateus – a fama pouco mais é do que uma estátua de bronze onde os pombos depositam meticulosamente os seus dejectos.
E até nisto, Fernando, tu és único, pois o teu bronze foi colocado numa cadeira para descansares e destacaram alguém para te lustrar todos os dias de modo a estares perfeito em todas as selfies.
Simplesmente
Emanuel Lomelino
terça-feira, 5 de novembro de 2024
Lomelinices 44 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
44
De forma simplista, pensar na vida é vital para identificar problemas, analisar hipóteses, definir prioridades, arranjar soluções, ponderar consequências e avaliar benefícios e prejuízos.
A questão complica-se quando passamos à prática. A cabeça fica a mil, embrenhada em pensamentos oportunos, mas desgastantes porque pensar na vida é como jogar uma partida de xadrez – exige várias jogadas de antecipação.
Para cada problema identificado devem ser ponderadas várias soluções, para cada solução devem ser analisadas várias hipóteses, para cada hipótese devem ser consideradas todas as consequências, para cada consequência devem ser definidas várias prioridades. E cada solução origina um novo problema, cada hipótese demanda nova solução, cada consequência exige nova hipótese, cada prioridade causa nova consequência.
Hoje pensei tanto nos vários problemas que preciso solucionar que quase colapsei!
Definitivamente, já não tenho agilidade mental suficiente para jogar o xadrez da vida. Prejuízo maior.
EMANUEL LOMELINO















