domingo, 17 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 159 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

159

A loucura das horas furtivas – aquelas que envelhecem corpo e espírito – tem o condão de entorpecer as ideias impedindo a clarividência.

Quando não é combatida atempadamente, transforma-se numa vertiginosa sequência de delírios que tomam de assalto, de unhas e dentes, as vontades básicas, substituindo-as pelas mais insanas, como quem se omite das responsabilidades e transfere o poder de decisão ao subconsciente doentio.

Por isso, sempre que se encerra mais um dia, para não me deixar aprisionar nas teias desconfortáveis do aparvalhamento e aliviar a mente das toneladas de entulho acumulado, entro de cabeça num processo de elasticidade cerebral procurando, assim, reencontrar uma réstia de sanidade. Como? Entregando-me doidamente à leitura de uma obra clássica da literatura universal.

Abençoado terapeuta Celan!

EMANUEL LOMELINO

O tempo não pára (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nono ano completo, a etapa do secundário iniciava.
Tiago ingressou num curso profissional ligado a artes, mais propriamente cerâmica.
Adolescente feliz, apesar das suas limitações.
A doença do pai tinha estabilizado.
Aplicou-se, mas foi descobrindo que o curso em que estava não era o que queria.
No ano escolar seguinte mudou para hotelaria, única alternativa que encontrou.
Não satisfeito, voltou a mudar, desta vez geriatria.
O ideal seria algo ligado a carros, mecânica, talvez, mas na falta de tal, o cuidar dos outros o preenchia.
Concluiu o secundário, com aproveitamento embora com notas baixas.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

sábado, 16 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 158 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

158

Não foi um plano delineado de forma proposital, no entanto, o mundo que construi em meu redor, e que me serve quase na perfeição, faz de mim um eremita urbano.

Nunca desgostei das pessoas, bem pelo contrário, contudo, pouco a pouco, com o avançar da idade e o desaparecimento de alguns seres especiais, acentuou-se no meu âmago a vontade de usufruir deste isolamento egoísta e limitar a minha presença ao inevitável.

Substitui conversas com gente interessante por diálogos mentais com outros deslocados temporais, nos quais me revejo, mesmo não subscrevendo todos os pensamentos, conceitos e ideias que defenderam, pelo simples facto de ser apologista das discussões saudáveis com pessoas capazes de argumentar civilizadamente.

Esta esquizofrenia lomeliniana apraz-me e, enquanto tiver laivos de razoabilidade, não deixarei de a alimentar porque também me cumpro no silêncio conturbado dos meus pensamentos.

EMANUEL LOMELINO

O pequeno anfitrião (excerto 2) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Afora isso, a troca de presentes entre eles era o momento que todos esperavam, a cada ano caía no imaginário dos convidados, alguns tentavam adivinhar os mimos. Além do quê, a decoração do ambiente impressionava a todos. Havia Papai Noel de todos tamanhos, cantando em todas as línguas, dormindo, de paraquedas, sentado com a mamãe Noel, com roupa de banho. Eram muitos. Na casa havia mais luzes que a própria cidade. Era um colorido e brilho intensos que ninguém esqueceria.
Ao menino, sempre ficava a responsabilidade de montar a árvore de natal. Esse ano, sua mãe havia comprado uma tão alta, tão alta que a criança precisou usar a escada e o equilíbrio de um adulto. Apesar da pouca idade, era um menino meticuloso e cuidadoso. Adornou com enfeites verdes e dourados juntos. É que essa mistura de cores ascendia à esperança que o menino nutria em assistir ao jogo da seleção, no ano vindouro, junto ao pai. A mãe sorria com a expectativa dele, mas pouco compreendia a importância daquilo para criança. Tanta espera para tão pouca idade.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 157 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

157

Há quem se queixe de, por mais que recomecem algo, o desfecho ser sempre igual.

Mas a questão é simples e sempre a mesma: presumir que os sinónimos representam, fielmente, a mesmíssima coisa, quando não é assim.

Mesmo parecendo terem significação igual, existe uma enorme diferença entre reiniciar e repetir.

Reiniciar é voltar ao início, mas isso não obriga, em momento algum, fazer-se tudo exactamente da mesma forma: isso, sim, seria repetir.

Ora, tendo presente essa pequena, mas essencial, nuance, não é difícil entender que cada regresso ao ponto de partida é uma possibilidade de mudança. Isso implica voltar à estaca zero, mas enveredar por outro caminho, outra via.

Só colocando em prática essa consciência é que o desfecho final poderá ter hipóteses de ser diferente.

Se reiniciar e repetir fossem exactamente o mesmo era impossível evoluir.

EMANUEL LOMELINO

Ilhas de paz (excerto 21) - Glória Gomes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A Capacidade de criação de rendimento nacional, os níveis de desenvolvimento humano, sua expectativa de vida, o acesso à educação, os rendimentos por pessoa, entre outros fatores, são usados para classificar os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Cabo Verde enfrenta um problema básico denominado escassez, escassez de quase tudo exceto o facto de beneficiar de uma população jovem de espírito sonhador, ambicioso e de motivação própria. Escassez dos recursos são indiscutivelmente limitados e claramente visível sem ser necessário revirar uma pedra. Somos uma sociedade com desejos ilimitados, os jovens sonham uma vida melhor, da mesma maneira que o agricultor sonha que o próximo ano agrícola seja melhor.

EM - ILHAS DE PAZ NUM MAR DE TORMENTO - GLÓRIA GOMES - IN-FINITA

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 156 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

156

Como tantas outras vezes, iniciei a jornada sem destino premeditado – de peito aberto, ao sabor da despreocupação e empurrado pela brisa de cada dia.

Mas, ao contrário de outras caminhadas, decidi arregaçar as mangas, debastar os matagais mais densos, retirar, à força de músculos, os basálticos obstáculos, sem recuar nos inúmeros momentos em que alguns estilhaços, mais afiados do que cutelo de talhante, rasgavam a pele.

Hoje, avaliando as viagens, vejo que todas elas, independentemente do meu grau de resiliência e sacrifício, apenas me fizeram gastar as solas e voltar à estaca zero. Desta vez sem possibilidade de recauchutar os sapatos.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 155 - Emanuel Lomelino

Imagem e-cultura

Diário do absurdo e aleatório 

155

Interessante como nos tempos modernos ainda existe quem pense que fazer um livro é colocar uma capa em redor de um monte de textos dactilografados.

Impressionante como nos nossos dias ainda existe quem pense que espartilhar textos em versos, alguns de forma disforme, pode ser considerado poesia.

Invariavelmente, neste universo de consumismo, ainda existe quem acredite que escrever, tal qual se fala e vive, e sem pensamento crítico, é um contributo para o desenvolvimento cultural de um povo e sua língua.

Infelizmente, nesta era de avanços tecnológicos, ainda existe quem negue a pureza e a perfeição da escrita dos tempos analógicos, como se o acto de escrever tivesse nascido milénios depois da própria escrita.

Intrigante como neste nosso tempo, de suposta escassa literacia, ainda existe quem assuma que ler contamina a sua escrita e restringe a capacidade criativa.

Inquietante, como numa época de pluralidade, ainda existe quem queira que as palavras, tanto escritas como lidas, sejam privilégio de alguns e não direito de todos.

Incoerente como ainda existem iluminados que, não se sabendo quem lhes outorgou a tarefa, querem ditar novas regras para a escrita porque são contra todas as regras.

Imbecilmente, neste tempo de muitas liberdades adquiridas, ainda há quem sinta as suas mais legitimas que as dos outros.

Ironicamente, neste tempo que é nosso, ainda há quem não saiba interpretar cada inflexão deste texto deduzindo ainda menos do que, reduzidamente, aborda.

Inspiram-se sem pensar e depois chamam-se escritores.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 9) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A nuvem trazia, sempre, uma sensação fresca, infiltrando-se diariamente no mesmo horário para fazer seu show, sua pantomima de trocar partes, pingos e goteiras por salseirada inteira. Ela não faltava ao seu compromisso de condensar a ação em deslocamento de ar, de ar comprimido preso na garganta, guardado nos armários atmosféricos. Ao final de todo esse processo, como precisava cobrir outros ares com a mesma rotina, ia embora deixando todas as cabeças soltas para trás. Começava tudo novamente no rodar da ciranda do ciclo pluvial. Uns achavam que o circuito da chuva, ao invés de ajudar o pessoal a se entender, era um ritual demoníaco que prendia cada um dentro de sua própria rede moinho. Era feito aquela gente que venta sua vida incessantemente igual, pactuada com o retorno, irmanada com a repetição. Outros entendiam como compromisso tratado no leito de sorte, aquele que recebemos no nascimento, no qual ao fado somos lançados. De qualquer forma, o desfecho era sempre o mesmo, era tudo um eterno outra vez. A nuvem que era igual para todos se modifica ao encontrar cada um, cada história.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 154 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

154

Ao longo da história da literatura foram escritas muitas fábulas em que os animais ganhavam características humanas, como a fala. Mas não é sobre isso que vou dissertar. No decorrer do mesmo espaço temporal, foram muitos os escritos sobre bestas mitológicas, mas também não me debruçarei sobre isso. Tampouco escreverei sobre a etimologia de “Zoológica”, pelo menos na verdadeira assunção da ciência que estuda a origem da palavra.

Vou ser mais terra-a-terra e entender “Zoológica” como a lógica do zoo, ou a lógica dos animais. E porque me predisponho fazê-lo? Pelo simples facto de continuar a ver antas confundir “à” com “há”; burros que insistem em escrever “saiem” como se a palavra derivasse do substantivo “saia” e não do verbo “sair”; asnos que não sabem a diferença entre os verbos “caiar” e “cair” e usam “caiem” em vez de “caem”; porcos que chafurdam a escrita com excesso de pontuação; preguiças que não usam pontuação alguma; abutres que preferem usar escritos alheios no lugar de criarem; pavões que exultam os seus escritos banais e parcos de criatividade, só porque tiveram duzentos “gosto” e sessenta comentários numa postagem; papagaios que falam de escrita sem saber a diferença entre redondilha menor e maior; enfim, poderia continuar a desfilar muitos outros animais que identificaria ursos, leões, elefantes, focas, camelos, etc, para compor este zoo.

Mas a culpa destas bestas existirem também é minha porque transformo-me num David Attenborough ou num Jacques-Yves Cousteau e escrevo sobre a existência destes animais.

EMANUEL LOMELINO

O encontro num sonho (excerto) - Filomena Silva

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Uma noite Tiago encontrou a bisavó num sonho. Era como se tivesse vindo visitá-lo para se despedir.
Trazia um belo vestido de seda, muito leve e o cabelo em desalinho, o que lhe conferia um ar mais jovem.
Nessa noite em que a bisavó o visitou no sonho, abraçou-o e tratou-o com muito carinho.
Conversaram, enquanto passeavam por um jardim com caramanchões de trepadeiras luxuriantes, cheios de glicínias e rosas de Santa Teresinha.
Conversaram como se ele já fosse adulto.
Ela tratava-o como igual, como crescido. Como se não tivessem idade.
Sentia um sentimento de pertença, de alegria íntima de estar na presença dela.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 153 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

153

Na democracia de um mundo perfeito todos têm direitos e deveres, em igual medida.

Na democracia de um mundo perfeito todos têm direito a expressar as suas opiniões, independentemente das razões que os assistem, e todos têm o dever de respeitar todas as opiniões alheias, principalmente as que divergem das suas.

Na democracia de um mundo perfeito a lei permite a manifestação pública de todas as opiniões, desde que feitas ordeiramente, e impede as reacções contrárias ao direito de opinar e manifestar.

Mas o mundo perfeito só existiria se a humanidade também o fosse, e como a democracia é usufruída por humanos, para muitos ela é o seu direito de manifestar opiniões e tudo o resto é antidemocrático, inclusive as opiniões dos outros e as leis que impedem alguém de impor a sua opinião sobre as demais. A democracia perfeita é uma utopia porque será sempre aquilo que cada um entender, até que os outros se calem e submetam.

Resumindo: muitos aproveitam o espírito da democracia para dizerem e fazerem o que lhes aprouver sem darem conta de estarem a agir como verdadeiros ditadores.

E tudo isto faz-me acreditar, cada vez mais, que apenas as artes são verdadeiramente democráticas e são o único elo da humanidade com a perfeição.

EMANUEL LOMELINO

O pequeno anfitrião (excerto 1) - Daniele Barbosa Bezerra

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Amanheceu com uma vontade imensa de uma nova decoração no lar, afinal estava se aproximando o final do ano, as festas natalinas e a casa ainda não tinham nenhuma aura de Jingles Bells. E essa era definitivamente uma festa, o reencontro de família que ela simplesmente adorava. Comprou os enfeites natalinos durante o ano inteiro; em todas as lojas em que via algum objeto que pudesse ser usado para esse momento.
Enquanto descia as caixas do quartinho que ficava no andar superior da casa, acionava a família para que a decoração do lar fosse feita por todos. Porém, eram poucos aqueles que comungavam com essa ideia, a não ser o seu único filho; um meninote, bem introvertido, com sete anos.
Ele obedecia à mãe com uma alegria infantil. Transformar aquela casa que era cotidianamente sem tempo para brincadeiras, em um lugar mais luminoso e colorido, era tudo o que o guri queria. Aguardava todos os anos por esse momento. Talvez fosse o único.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

domingo, 10 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 152 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

152

Os livros! Esses seres mascarados de inânimes que, quando são abertos, agrafam a nudez das suas letras aos nossos olhos, fazendo-nos perder a noção de tempo e espaço enquanto nos transportam nas asas do deslumbre.

Os livros! Esses malvados seres que enfeitiçam a mente, guiando-nos pelos labirintos da reflexão, semeando ideias, instigando pensamentos.

Os livros! Esses pérfidos apóstolos da sabedoria que lavram, nos âmagos menos ociosos, a terra da razão, como quem, com toda a naturalidade e experiência, coloca roupa a secar ao sol.

Os livros! Esses censores da ignorância; esses opositores do analfabetismo; esses legisladores de literacia; que não receiam infetar-nos com o vírus do conhecimento.

Os livros! Esses camuflados seres opiáceos que nos fazem vagabundear, de página em página, como toxicómanos literários.

Ah, os livros! Metadona do meu vício.

EMANUEL LOMELINO

Ilhas de paz (excerto 20) - Glória Gomes

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Nos anos noventa, devido à grande seca e falta de recursos de sobrevivência, as ilhas foram afetadas fortemente com a extração ilegal de areias, a intrusão salina nas águas subterrâneas, a salinização das águas e consequente perda das propriedades agrícolas e redução da produtividade. Lembro-me claramente do declínio lento da antiga empresa Justino Lopes, um dos maiores produtores agrícolas e pecuárias de Cabo Verde. Lembro-me do tempo em que depois das regas os canteiros das bananeiras cobriam se de branco, e costumava perguntar a um dos guardas na altura o que era aquilo, pensei que fosse algum tipo de fertilizantes, mas ele respondeu: não é fertilizante, bem se assim fosse, e continuou:

EM - ILHAS DE PAZ NUM MAR DE TORMENTO - GLÓRIA GOMES - IN-FINITA

sábado, 9 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 151 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

151

No universo de escrita que construo letra a letra, leitura a leitura, através dos constantes aprendizados e exercícios que me proponho, tudo tem uma razão de existir.

A partir do momento em que ganhei consciência de autor, e consegui descobrir a minha voz literária, tudo passou a fazer sentido e as peças do puzzle, finalmente, começaram a encaixar-se.

Não prescindo de desafiar o meu estro, nem abdico de aprofundar o meu conhecimento sobre muitos temas, porque acredito que o aperfeiçoamento só acontece com estudo e prática continuada – e mesmo isso não é garantia alguma.

E alicerço estas convicções em algumas frases-chave ditas/escritas por gente que sabia, bem mais do que eu, da arte-escriba.

Para não voltar a escrever um texto com pinceladas de concretismo, limito-me a parafrasear o Barão de Montesquieu (filósofo e escritor francês): “É preciso estudar muito para saber um pouco”.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 150 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

150

Todos buscam, por vezes de forma desenfreada, contudo irrefletida, o conhecimento pessoal – vulgo autoconhecimento, ou autognose (sim, fui ver no dicionário).

Há quem dedique uma vida inteira nesse propósito sem encontrar resposta alguma. Outros há que estão sempre a encontrar respostas, mas sem conseguirem satisfazer-se com uma só.

Há quem alcance laivos de revelação nos momentos mais mundanos, porque vulgares (como numa roda de conversa) ou em níveis místicos, porque incorpóreos (como numa sessão espírita).

Já eu, encontro o maior conhecimento de mim quando estou a ler – independentemente do género. Embrenho-me nos textos e dou por mim a reagir, mentalmente, a cada personagem, a cada acção, a cada atitude, a cada frase. Descubro-me nos pensamentos que a leitura me provoca e, assim, vou-me definindo através de epifanias literárias. 

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 8) - Renata Quiroga

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Como ninguém se entendia, nem os Administradores nem o povo da cidade sabiam bem o que estava acontecendo, nem tampouco que solução viria depois de tanto engasgo de voz. Por conta de tanta indecisão ficou decidido que as tratativas de convivência entre os Diferentes e os Iguais passariam para as mãos de um terceiro elemento. Este viria para marcar o contraponto das ideias dos Administradores. O terceiro sempre entra no jogo para defini-lo, o número 3 no jogo é desempate, é o desfazedor de embate. 
A Chuva foi então convocada pelos Administradores para acompanhar a partida da vida e ser esse terceiro elemento intermediador. Enquanto o viver ia rolando no campo da existência, a chuva deveria acontecer por cima de tudo para garantir o bom funcionamento da economia do lugar.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 149 - Emanuel Lomelino

Imagem saatchiart
Tela: Man in a coccon - BENAS ALEJUNAS

Diário do absurdo e aleatório 

149

Por mais idiota que pareça, começo a sentir as dores do envelhecimento. Não por, a cada dia que passa, aparecer mais um cabelo branco, tampouco por olhar no espelho e ver mais rugas no rosto, menos ainda por sentir que já não tenho a agilidade suficiente para retirar o dedo antes do impacto do martelo.

Estou a sentir as dores de ser quem sou, dentro de um corpo que envelhece, mas sem a capacidade de acompanhar, serenamente, o ritmo de todas as mudanças.

Sinto as dores de ter-me educado a pensar, a refletir, a ponderar, a analisar todos os ângulos de um problema, tentar arranjar as melhores soluções, aplicá-las e, caso seja necessário, retomar o processo e enveredar por alternativas.

Sinto as dores de não conseguir entender esta urgência modernista de catalogar os fracassos como sinais de caducidade, considerar o ontem obsoleto e não dar espaço ao pensamento livre.

Sinto as dores de não querer seguir em frente sem dar luta à vida. Sinto as dores de não ter a habilidade de simplesmente deixar-me ir na onda. Sinto as dores de não ser capaz de trilhar os caminhos mais fáceis – porque confortáveis.

Sinto todas as dores de envelhecimento porque, além de corpóreo, sou mental e, ao contrário das novas gerações, nunca me limitei a decorar os textos, prefiro compreendê-los e sujar as mãos - de lama ou sangue, não importa – porque, só assim, poderei sentir-me plenamente concretizado, mesmo nos falhanços.

Estou a envelhecer e a sentir todas as dores desta metamorfose.

EMANUEL LOMELINO

A doença do pai (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Setembro chegado, tudo preparado para mais um ano escolar.
A ideia de amigos novos, livros e material, fascinava a cabecita pensadora do Tiago.
Mais um ano desafiante, mais um ano cansativo para o pai, pois as viagens desgastavam sobretudo à hora de ponta.
Tiago começou a perceber que o pai não andava bem, para o poupar, resolveu começar a fazer as viagens de comboio, mais económicas e aliviava o stress a Orlando.
Rapidamente se habituou a viajar sozinho.
Já era adolescente crescido, a autonomia funcionava como um estímulo.
O ano estava a começar bem. Melhor ficou com a amizade que travou com um colega de sala que se deslocava em cadeira de rodas devido a um acidente.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA