terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 224 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

224

Na escola, aprendemos que a grande diferença entre os humanos e os outros animais é a faculdade de raciocinar. Na vida confirmamos que nos distinguimos por, ao contrário dos restantes animais, sermos mestres da complexidade. Não nos deixámos ficar pelo simples. Ousámos mais.

A verdade é que toda a fauna do mundo continua a funcionar tal qual faziam, os da sua espécie, na antiguidade mais distante, exceptuando nós.

As aves, os peixes, os herbívoros, etc... continuam a migrar de acordo com as estações. Outros reproduzem-se em condições específicas e até protelam os nascimentos para ocasiões mais favoráveis. Há muito que os humanos agem contranatura.

Mas entre todos os exemplos que podemos usar para fazer distinção, entre uns e outros, há um que sobressai: os animais matam por questão de sobrevivência, os humanos fazem-no por ambição.

EMANUEL LOMELINO

Sol Interior (excerto) - Cátia Sousa

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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... um mistério de Vida, em que valerá confiar, sempre!
... talvez o principal desafio de quem escolhe viver e honrar quem é!
O Mundo precisa que ocupemos esse lugar que é nosso, que ninguém ocupará exatamente como nós... que permanecerá vazio se não o ocuparmos...
Afinal, Sol Interior é esta Humanidade que palpita no coração de todos e de cada um, desejosa da nutrição certa...
... é esta criança que vive em nós, que “escondemos” ou a quem permitimos saltitar...
... é esta velhinha sábia e de luz, que nos ampara e dá colo, que nos “espera lá à frente” ...
... é a Luz que levamos “cá dentro” e trazemos “cá para fora”, sempre que nos permitimos o Abraço, assim, tal como somos!
Sol Interior...
... assim aconteceu naquela manhã... juntas e em roda... em Verdade!

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 223 - Emanuel Lomelino

Imagem cope

Diário do absurdo e aleatório 

223

A plateia levantou-se, em uníssono, para ovacionar Severina, com a mesma intensidade emocional que a cantora emprestou à sua actuação.

Apesar de sentir no peito todo o esforço despendido durante as duas horas de espectáculo, Severina não precisou forçar um sorriso perfeito e repleto de humildade genuína, na hora de demonstrar agrado pela devoção do público.

Ela vivia para aqueles momentos de louvor. Os únicos que lhe transmitiam paz e davam motivos para não desistir. Durante o tempo que estava na sala de espectáculos, o mundo parava, a vida suspendia-se e Severina conseguia usufruir de algo que era mais do que um sonho. Era uma pausa no pesadelo diário que vivia fora dos palcos.

Entregar-se de alma e coração à sua arte, ver as lágrimas de comoção em alguns rostos e, entre gritos de reverência e admiração, escutar soluços pungentes e emocionados, por muito incoerente que pudesse soar, eram os estímulos que necessitava para esquecer momentaneamente todas as agruras que a vida lhe proporcionava diariamente, após perder a criança e descobrir que não poderia voltar a engravidar, e que o generoso público ignorava completamente.

EMANUEL LOMELINO

Silêncio ensurdecedor (excerto 2) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Será que um dia nos voltaria a ter e a ver? Não sabia. Não tinha como saber. Resumia-se tudo a uma ténue esperança, baseada sabe-se lá no quê! Pouco, muito pouco, para quem não queria partir, lutando desesperadamente para viver. À sua frente apenas uma ida sem volta, uma estrada sem regresso, uma noite imensa sem fim. Uma mortalha, um exíguo e asfixiante caixão, uma cova funda escavada na terra lamacenta, o mármore duma sepultura tão solitária e gélida. Ele que em vida sempre se levantara contra qualquer injustiça estava agora, ironicamente, a ser, sem piedade, castigado e flagelado por ela. Ele que sempre vivera duma forma altruísta, acima de tudo, pensando no bem do seu semelhante, assim estava a morrer também. Não se focava em si. A sua preocupação era o futuro daqueles que mais amava. Que iria ser deles, agora que já cá não estaria para cuidar, para os proteger? Tanto suplicou para que os amparassem! Para quê? Ingénua expetativa… Credulidade vã!

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 222 - Emanuel Lomelino

Imagem 123rf

Diário do absurdo e aleatório 

222

O sangue ferve, rubro como só ele, em torrentes pulsantes de entusiasmo. A adrenalina inunda cada célula como uma onda de energia atómica, provocando um estremecimento cutâneo difícil de descrever, apesar de o sentir em toda a sua intensidade e plenitude.

Flaviano conhece bem a origem de tamanha comoção e sabe que nada pode fazer para combater a longevidade do desconforto. Suporta-o com galhardia, limitando-se a olhar o horizonte que se espraia, diante dos seus olhos, na vertigem dos sentidos.

O sentimento não é novo, contudo, Flaviano sente-o sempre de forma distinta. Essa particularidade, que o intrigou durante as primeiras experiências, deixou de fazer parte dos seus pensamentos mais inquisitivos e, também por isso, cada treino é uma nova história que se escreve.

A única coisa que se mantém inalterável é a sequência de acções que tem de executar, com o máximo rigor, para continuar a alimentar o seu vício e ter a possibilidade de usufruir das sensações que o próximo salto de paraquedas lhe pode proporcionar.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 22) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O Espanto tinha ligação banalmente imperial com todas as partes da geografia racial. Sem bem querer nem tampouco ofender: estação social, ponto final do poder. Além dessa voz estranha, que se aumenta no meio da trama, dessa poetice que acompanha a história toda, o Casarão tinha mesmo uma fronteira física com o Arco que adornava a cidade, local onde seriam feitas as comemorações da passagem do ano de 19 para 20. Por isso, o Escutador foi à rua juntar-se a milhares de pessoas que esperavam a passagem do ano e suas diferentes formas de celebração.
Seu plano era brindar a chegada do novo ano naquela atmosfera de aromas refinados como uma espécie de combustível para a missão que acabara de engajar-se. Ao tocar das doze badaladas, iria se dirigir para o trabalho lá no Casarão do Espanto.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 221 - Emanuel Lomelino

Imagem retira da internet

Diário do absurdo e aleatório 

221

Crê-se que a língua portuguesa comporta cerca de trezentas e setenta mil palavras registadas, sendo que apenas cinquenta mil são consideradas de uso corrente. No entanto, em média, no dia-a-dia, são utilizadas três mil: mil e quinhentas mais usadas e as restantes com menos frequência.

Analisando estes números, agudiza-se o amargo de boca por ficar provado que a maioria dos autores tem uma aversão inquietante aos dicionários e enciclopédias, que se torna evidente na pobreza vocabular e excesso de termos repetidos nas criações.

O que mais aflige é saber que, apesar das ferramentas estarem mais disponíveis que sempre, há uma preguiça generalizada que impede explorá-las.

Não se exige permanente erudição nem o emprego de dezenas de milhares de palavras, contudo, recorrer a um vocabulário mais vasto permite que os textos ganhem qualidade e, consequentemente, suscitem maior interesse.

Mas isto é apenas a minha opinião, enquanto leitor.

EMANUEL LOMELINO

Escolhas (excerto 5) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eu, no meu tempo de atriz, por muitas vezes aceitei qualquer papel disponível apenas para poder estar em cima do palco. Na vida, precisamos analisar os papéis oferecidos e aceitar aqueles que realmente tocam o nosso coração, porque de nada adianta estar no palco se não estamos vivendo a cena com intensidade e entrega, seja no papel principal ou como coadjuvante. Escolha estar viva, construa sua história, afaste -se do que não te emociona e busque o que faz o seu coração bater mais forte. Enquanto você fica nos bastidores gritando por socorro, ninguém vai te escutar. Comece a andar, saia da zona de conforto, pare com as desculpas e escolha fazer seu melhor em todas as situações. Pare de contar historinhas, suba no palco e conte uma história de verdade, aquela que vai tocar sua alma e transbordar para a plateia.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 220 - Emanuel Lomelino

Imagem mossfords

Diário do absurdo e aleatório 

220

Olho o mundo com os olhos de quem tem fome de transformar sonhos impossíveis em realidades presentes e palpáveis. Deixo que o olhar se espraia nos horizontes da vontade e voe livremente sobre as ilusões, ignorando dogmas e utopias, na demanda dos sonhos que dão sentido à vida. Quero para mim todo o conforto da realização pessoal mesmo que os espinhos se cravem na minha carne, dilacerem o meu corpo e as cicatrizes demorem uma eternidade a sarar. Desejo para mim mais do que os meus braços alcançam, mais do que o destino me outorga, apenas e só porque mereço o inatingível. Mais não seja pela perseverança ou teimosia que desde sempre está enraizada em mim. E quando a morte chegar e beijar este meu rosto arrefecido, pode depositar tudo o que alcancei na vida, com sangue, suor e oceanos de lágrimas, na sua sala de troféus na condição de indicar a sua proveniência. A ti, ceifadora, sugiro que uses este chavão: "Aqui jazem as conquistas de um eterno sonhador".

EMANUEL LOMELINO

Águas Divinas (excerto 2) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Saiu do interior para trabalhar em casa de família, mas em pouco tempo conheceu o pai de sua filha e engravidara. Não estava mais trabalhando, a patroa não a quis grávida. Do pai da criança não se tinha mais nem notícias. A novidade da sua gravidez foi para ele um estorvo; para a sua patroa, um grande problema. Criança não sonhada, não acolhida, mas já amada por sua mãe.
Deitada na rede pensava em todos esses momentos da vida, olhando sua pequena menina. Acreditava que ela teria mais sorte que a dela e estava engajada em fazer tudo para que isso acontecesse. Não iria deixar sua menina sofrer o que estava sofrendo e “ai do cabra igual ao pai dela que se aproximasse de sua filha”, pensava.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 219 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

219

Por razão do ofício de escrita, que me move e onde me cumpro, elaborei alguns mecanismos auxiliares de autodisciplina, que permitem adquirir o máximo de conhecimento possível e, simultaneamente, filtrar as informações essenciais para as minhas criações.

A ideia base assenta na premissa de que os autores devem conhecer profundamente todas as vertentes e nuances da sua arte, inclusive as que são contrárias ou opostas aos seus próprios conceitos.

Sendo evidente que cada autor deve assumir as características mais adequadas ao seu labor individual, não deixa de ser interessante conhecer os diversos modelos de composição, mais não seja para, com outra propriedade, poder expressar na sua arte os motivos pelos quais se é contracorrente.

Por outro lado, e seguindo a velha máxima “o saber não ocupa lugar”, ter um entendimento mais vasto do seu próprio universo permite ao autor um maior leque de ferramentas que, por sua vez, pode funcionar como estímulo à criatividade.

Esse conhecimento também pode ser aproveitado para meros exercícios de escrita, como o que agora termino, e no qual decidi dissertar sobre esta temática, da forma suscita e mais fluída possível, adicionando o extra, irrelevante, de fazê-lo em cinco parágrafos, terminando todos com uma palavra iniciada com a letra “C”. 

EMANUEL LOMELINO

O uso dos óleos essenciais (excerto) - Catarina Britto

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando entrei na perimenopausa, aos 52 anos, pouco sabia sobre o que estava acontecendo comigo. Eu não entendia aquela irritação constante, os fogachos que me faziam tirar toda a roupa em pleno inverno, a amenorreia (ausência de menstruação), a menorragia (excesso de fluxo menstrual), a baixa libido, a profunda tristeza que chegava a me fazer chorar por qualquer motivo, a confusão mental (brain fog) etc... Esses foram alguns dos sinais que tive, e a maioria deles aconteceu juntamente com a pandemia. Confundia alguns sinais com o pós-covid, mas, aos poucos, fui descobrindo que estava “entrando na menopausa”, como temos o hábito de dizer.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 218 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

218

Neste tempo, em que a ignorância ocupa quase todo o espaço das mentes, os “moicanos” são aqueles que buscam conhecimento.

Em muitos, esta fome de saber revela-se insaciável. Torna-se uma obsessão tão imprescindível quanto o acto de respirar.

E agora que escrevo estas linhas, que tinham o propósito de enfatizar a importância de todo e qualquer saber, independentemente da utilidade prática, ou ausência dela, fixei-me no substantivo “obsessão” e sinto necessidade de dissertar sobre ele, tendo em conta que é usado como depreciativo quando se refere a alguém com uma ideia fixa ou comportamentos repetidos.

Dentro do universo do “livroólicos”, onde se incluem os “moicanos” referidos no primeiro parágrafo, a obsessão manifesta-se quando o número de livros adquiridos está acima das reais possibilidades de leitura.

No entanto, para efeitos deste texto, a questão deve ser observada num outro prisma: por conta da ignorância global, todo e qualquer ser que declare o seu entusiasmo pela leitura e o coloque em prática – adquirindo livros (mesmo de forma, digamos, moderada) – é adjectivado como obcecado.

Posto isto, não tenho outra alternativa que não passe por confessar-me, orgulhosamente, um viciado em livros, impulsionado pela minha obsessão de conhecimento.

Quanto à questão da utilidade do saber… bem, essa fica para outro texto. 

EMANUEL LOMELINO

Silêncio ensurdecedor (excerto 1) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Faz hoje, dia 25 de Junho de 2022, quarenta e oito anos que o meu pai morreu. Não choro. Há muito que deixei de chorar. Mas a revolta que sinto aumenta à medida que o tempo passa. Não apenas por ter ficado sem ele tão cedo, mas pela forma horrível e trágica como tudo aconteceu. Não consigo perdoar aos deuses, aos astros ou ao destino, a crueldade com que mataram o meu pai. Ele que teve de suportar as dores físicas de alguém que ficou com ambas as pernas decepadas, mas sobretudo a angustiante certeza que a sua vida estava a terminar, muito perto do fim. Ia ficar sem a sua querida esposa e amados filhos. A dor da separação. A dor dum adeus tão indesejado. A impotência perante a morte assassina.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 217 - Emanuel Lomelino

Imagem blogdoims

Diário do absurdo e aleatório 

217

Ler um bom livro é meio caminho andado para a descoberta e aprendizagem, mas reler algumas obras transcende esse horizonte e, não raras vezes, leva-nos a um entendimento mais amplo e a novas revelações.

Isso acontece por uma razão muito simples, nem sempre presente no nosso consciente… a cada livro lido transformamo-nos em leitores diferentes, porque a informação absorvida é um complemento intelectual que nos ajuda a melhorar a capacidade de raciocínio e percepção.

Se, a este facto, juntarmos a nossa maturação, enquanto indivíduos, fica óbvio que uma releitura será sempre diferente do primeiro contacto com o livro. Da mesma forma que uma terceira leitura produzirá entendimentos distintos. E assim por diante.

Neste contexto, a última releitura que fiz, de um texto estoico, proporcionou-me uma epifania, que me surpreendeu por só agora, nesta fase adiantada da vida, ter percebido – antes tarde que nunca – sobre o quão estreita é a linha que separa a filosofia da psicologia.

Que me perdoem, Freud e Lobo Antunes!

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 21) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Apaixonava-se o Escutador pelo chamado a ouvir a todos do Casarão e depois trazê-los, disfarçadamente, de volta para seus lugares. Ele aceitou o convite feito pelos Organizadores do Casarão do Espanto. Iria colaborar com a política de reentrada dos estrangeiros no mundo igual. Foi alertado pelos Organizadores da cidade que os Habitadores poderiam voltar para suas casas, desde que não fizessem barulho. A ordem dos iguais ainda precisava ser respeitada! Para não acordar o pessoal, deveriam entrar pela porta lateral e não fazer carnaval.
O Escutador fez todas as suas contas. Refez seus planos e arrumou suas malas. Assim que chegasse ao casarão passaria uma única noite de descanso e no dia seguinte começaria sua escutação. Essa noite de boas-vindas era também de Réveillon.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 216 - Emanuel Lomelino

Imagem infoescola

Diário do absurdo e aleatório 

216

É impressionante como a humanidade tende a complicar a sua essência ao mesmo tempo que admite os benefícios do simples.

A toda a hora ouvem-se vozes a reclamar, por tudo e por nada, numa algazarra, por vezes colectiva, contudo parca de sentido ou em sentido contrário ao pensamento lógico.

A todo o momento, há um espírito de contestação que desce sobre alguém e logo todos se transformam em seres iluminados, sem sequer saberem o que contestam.

Cada vez mais abunda o seguidismo bacoco, que nada acrescenta para além de estupidificação.

Há uma cultura de preguiça, que não é compatível com os brados queixosos, mas que emerge como o valor moral mais alto e assertivo.

Há uma inversão na marcha da humanidade e parece que ninguém faz caso. O importante é saber o supérfluo e ter os olhos colados nas telas luminosas dos aparelhos portáteis e que se lixem os outros (inclusive aqueles que estão sentados à mesma mesa).

A humanidade reclama mais humanismo, no entanto, os passos a dar nesse sentido têm de ser dados pelos outros porque cada um está com falta de tempo e com coisas mais importantes em mente.

Qual a lógica disso? Quão cega está a humanidade para não ver o óbvio?

EMANUEL LOMELINO

Escolhas (excerto 4) - Renata Campos

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Sinto tristeza, ao ver de perto todo esse avesso quando falo da minha querida mãe. O custo de suas escolhas tem sido alto, o seu envelhecimento doloroso e bastante solitário. Uma sensação de desistência pela vida. O abandono por si mesma e incapacidade de ser feliz a transporta para uma vida sem sentido. Está adormecida diante de um mundo com tantas possibilidades. Seu humor oscila entre dias melhores e piores. Acorda, toma café, caminha e passa o dia assistindo televisão. Sua higiene é difícil de gerenciar, por muitas vezes diz que tomou banho e quando vamos olhar o chuveiro está seco. Hoje essa é sua real natureza.
Eu acredito que quando envelhecemos nos tornamos uma versão pior ou melhor do que fomos até aqui. Está em nossas mãos e coração escolher qual versão vamos carregar para nosso ato final.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 215 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

215

Durante anos defendi uma norma de vida que consistia em ouvir o dobro daquilo que falava, usando como argumento o facto de termos dois ouvidos e somente uma boca. O conceito é básico, quase pueril, no entanto, é dotado de uma lógica, quase, irrepreensível.

Por ter uma mente inquisitiva, comecei a pensar numa forma de ultrapassar o problema que o advérbio de modo “quase” colocava. Ele sugere falibilidade e também é lógico, porquanto, numa conversa entre duas pessoas, é impossível que ambas escutem o dobro do que falam.

Como resolver este paradoxo?

A solução parece ainda mais infantil ou rebuscada, mas a própria natureza deu-nos as pistas através da anatomia. As orelhas são laterais e simétricas, e isto significa que o importante não é ouvir em dobro, mas sim escutar de modo harmonioso.

Nesta perspectiva cheguei à conclusão de que o conceito inicial era falho e aquele que passei a usar traduz-se numa palavra aplicável à forma como se ouve (equilíbrio) e outra ao que se fala (temperança). E estes dois substantivos são indissociáveis.

EMANUEL LOMELINO

Águas Divinas (excerto 1) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A criança nascera perfeitinha apesar da pouca probabilidade, afinal foram muitos os contratempos durante a sua gestação. Mãe solteira, abandonada pelo pai da criança, sem emprego, sem família, sem nada.
Apenas uma rede no casebre em que morava e a sua pequena menina. Apesar de não ter tido instrução -cursou até o terceiro ano primário- a vida a fez uma mulher de grande experiência de mundo, apesar da gravidez indesejada.
Desempregada, passava horas deitada na rede com a sua pequena menina ao seio. Era a única coisa que não faltava naquele lugar, o leite da criança. E isso a deixava pelo menos mais tranquila com a sua sorte.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA