sábado, 10 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 214 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

214

Existem tantos predicados nascidos da leitura que, por mais qualificantes que possamos encontrar, nada adjectiva melhor a leitura do que a palavra “edificar”.

Com maior ou menor grau; com mais ou menos intensidade, cada livro engrandece o leitor a diferentes níveis.

Sim, ler edifica o individuo. E o melhor exemplo dessa realidade incontornável revela-se-nos quando damos conta de estarmos a reflectir sobre o que acabámos de ler.

Essas reflexões, cujo propósito, ou utilidade, nunca devem ser menosprezadas, sintetizam-se numa frase, que Carl Jung usou num outro contexto, mas que se aplica na perfeição:

Quem procura, fora de si, sonha, quem procura, dentro de si, desperta.

EMANUEL LOMELINO

Direitos para recomeçar na maturidade (excerto) - Anna Luiza Pereira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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As reuniões no Direito das Famílias nunca são práticas e objetivas. Não se trata de acertar meras cláusulas contratuais. Há a emoção batendo a cada frase dita, a cada relato de um momento daquela união, a cada lembrança de dias em que funcionaram perfeitamente como um casal e família. Ali, naquele momento, começava a se desenhar o que chamamos de dissolução formal. Para que a confiança entre cliente e advogado seja atingida, o ambiente acolhedor faz toda a diferença. Os lenços de papel por cima da mesa de reuniões e uma música ambiente tranquila tentavam trazer algum equilíbrio a um dos momentos mais delicados na vida de uma pessoa: o início do processo do divórcio.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 213 - Emanuel Lomelino

Imagem gebio

Diário do absurdo e aleatório 

213

Não importam as estações. Todos os dias, de uma semente-ideia, que rasga a membrana plasmática, germinam palavras, quais rebentos de engenho, com esperança de se transformarem em frutos literários.

Os estágios de crescimento correspondem ao ciclo natural da vida, desde o nascimento até ao amadurecimento.

É um processo normal, contudo, de imensurável aleatoriedade temática. Mesmo assim, não dispensa polinização e terra fértil.

Depois da ceifa, segados os caules mais robustos, peneira-se o trigo do joio e separa-se cada grão para o respectivo recipiente.

Uns vão para a mó, outros para a sequeiro, e os restantes ficam armazenados para que, naqueles momentos de colheita fraca, seja possível manter o estro gordo.

EMANUEL LOMELINO

Nada acabou (excerto 2) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Se já sofreu um ataque de pânico, a horrível sensação de estar à beira dum abismo, irremediavelmente perdido, e sentiu o sinistro arrepio da Morte, acredite, sei como é!
Se padece dum transtorno obsessivo compulsivo vive ou viveu enclausurado numa prisão de fobias, superstições, vícios, comportamentos obsessivos e rituais doentios, bem-vindo porque esse tem sido o estranho mundo em que tenho vivido há anos!
Se já foi tão obcecado pelo seu corpo inteiramente dominado por hábitos anoréticos ao ponto de ser internado num hospital com trinta e poucos quilos de peso, uma temperatura corporal inferior a vinte e três graus, inconsciente, desnutrido, desidratado, hipotérmico, quase um cadáver vivo, sabe bem do que falo. Se sobreviveu, voltar a repetir é suicídio, entrar numa viagem sem regresso!

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 212 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

212

Na aldeia, todos conheciam Abílio pela sua autoconfiança e abnegação. Em todos os projectos que abraçava, o nível de entrega só era comparável à esperança que depositava no sucesso da empreitada. E mesmo quando as coisas não funcionavam, o que acontecia maioritariamente, ninguém o via cabisbaixo ou entristecido. Logo enveredava por outros caminhos com a máxima determinação e positividade, como se tudo fossem flores.

Todos admiravam a sua capacidade de superação aos desaires, mas também sentiam pena que alguém tão firme e convicto tivesse mais fracassos do que sucessos. E mais pena tinham por ver que, a cada novo desafio, Abílio saia prejudicado, não por incompetência, mas por estar cercado de pessoas menos resolutas, de menor resistência às adversidades e que sempre roíam a corda, deixando-o arcar sozinho com as consequências.

Embora nunca se tivesse deixado abalar pelos inúmeros insucessos, bem pelo contrário, Abílio começou, pouco a pouco, a abdicar de ajudas externas, preferindo entregar mais de si do que depender dos demais. E isso porque, a experiência ensinou-lhe, por mais resiliente que alguém seja, de tantas pancadas sofridas, um dia a confiança capitula. Principalmente a confiança nos outros.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 20) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A notícia do fechamento do Casarão espalhou-se celeremente por todas as centenas de abóbadas da cidade. Chegou aos ouvidos e às escutas. A história do retorno dos Fala Estranha para o lugar do qual não deveriam ter saído, foi perfurando diversos tímpanos, tocando a gravidade do timbalão do chão até chegar na renomada escuta do Escutador. O Escutador sempre soube que isso não daria muito certo. Sempre foi opositor expresso da reclusão dos Fala Estranha, da expulsão de toda aquela forma tão singular de expressão do lugar onde nasceram e viveram e guardaram memória que viraram lembranças de suas histórias e de suas andanças. Ele passou a vida lendo dicionários com verbetes rebuscados, com imagens ilustrativas, com sílabas partidas, e antônimos bem parecidos com sinônimos, por isso torcia muito para que fosse feita a tão necessária reforma dos cuidados aos Fala Estranha.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 211 - Emanuel Lomelino

Poema PULSAR de Augusto de Campos

Diário do absurdo e aleatório 

211

Muito por conta do gene mais decisivo do estro e por não conceber criação sem literacia, imponho-me absorver o máximo de conhecimento sobre matérias essenciais, mesmo daquelas em que não me revejo, mas que podem aportar elementos teóricos úteis ao meu ofício, até por oposição.

Esta busca por entendimento mais vasto em géneros, estilos e propostas literárias distintas, que deveria ser transversal a todo o universo da escrita, proporciona-me muitos momentos de reflexão interessante.

Neste contexto, e apesar de perceber os conceitos base do concretismo, tenho uma dúvida que só pode ser esclarecida por quem navega neste movimento literário.

Como se conseguem ler textos concretistas a um cego, de forma que os elementos espaciais não sejam omitidos, ou prejudicados por descrições intermediárias?

EMANUEL LOMELINO

Escolhas (excerto 3) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Fico triste em ver as escolhas da minha mãe e como ela sufocou suas paixões. As escolhas dos pais, podem ter efeitos negativos na vida dos filhos na fase do envelhecimento. Por exemplo: Se um pai ou uma mãe, não se aposentou adequadamente, isso pode trazer problemas financeiros na velhice e exigir que os filhos forneçam ajuda. Se não tiveram hábitos de construção para uma boa saúde, podem ter sérios problemas, aumentando os custos com remédios e cuidados.
Hoje, estamos inseridos num cenário onde os papéis se inverteram, as responsabilidades são nossas, minha e do meu irmão e em certas ocasiões elas nos enfraquecem. Essa inversão é muitas vezes difícil e dolorosa. Estamos vivendo exatamente esse ponto da questão acima, tanto financeiro quanto em termos de remédios e supervisão.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 210 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet
Pintura: La mort du Fossoyeur de Charles Schwabe

Diário do absurdo e aleatório 

210

Desde a origem (nascimento), o humano tenta encontrar o seu propósito na vida, porque é absurdo a vida não ter um propósito. No entanto, pensando que todas as vidas fluem para a morte, é um absurdo que o propósito da vida conduza à morte. Mais absurdo é pensar em procurar um propósito para a vida sabendo que, encontrando ou não um propósito, tudo tem o mesmo fim: a morte.

Seguindo essa linha de pensamento, chegamos à conclusão de que o propósito da vida é a própria morte.

Contudo, na discussão deste tema, muitos alegam que o propósito da vida não é a morte, mas sim prolongar a própria vida, através da descendência. De certa forma arranja-se um sentido, mas nesse caso surgem outras questões: Sendo esse o propósito da vida, como se explica a existência de seres incapazes de procriar? Qual o propósito de vida daqueles que não podem criar descendência? A existência de procriadores e não-procriadores não significa, por si só, que o propósito da vida não é prolongar a vida?

Se, independentemente das respostas, deduzirmos que esta segunda linha de raciocínio pode estar correcta, embora seja um absurdo pensar que o propósito de vida só se aplica a alguns, então podemos concluir que o propósito de vida deambula entre o absurdo e o trágico. E, dos dois, não sei qual é pior.

EMANUEL LOMELINO

O Zé de Ninguém (excerto 2) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Primeiramente, trabalhou com o gado, mesmo que não soubesse lidar com animais de grande porte. Até que um dia, na presença da dona da fazenda, colocara uma flor com tanto cuidado em suas mãos, como se pegasse algo muito precioso; que mesmo a alma latifundiária da mulher foi sensível àquela manifestação de delicadeza. Assim, percebera que o homem poderia ser o responsável pelo jardim do lugar. Mais uma de suas atribuições.
Desde então, era ele quem fazia o milagre de uma terra inóspita e pouco produtiva gerar as mais belas flores da região. Sabia revolver a terra como ninguém; sabia o momento exato para plantar, podar e jogar água nas plantas; tarefas feitas com um cuidado e uma calma que impressionava a todos.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 209 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Diário do absurdo e aleatório 

209

O conceito de liberdade tem sido discutido, até à exaustão, pelos pensadores mais relevantes, mas estamos bem longe de atingir o consenso.

Há quem defenda que a liberdade existe a partir do momento em que estamos na presença do uso de livre-arbítrio. Outros defendem que a liberdade é uma ilusão porque as nossas decisões são sempre condicionadas por noções de “bem” e “mal”.

O problema é que ambas as ideias também introduzem na discussão o factor ética, que consegue ser um conceito ainda mais divergente.

Partindo do pressuposto que a liberdade de cada um termina no exacto ponto onde começa a liberdade do outro, façamos um exercício.

Imaginemos que estamos num autocarro e entra alguém a escutar música em alto som. Todos os passageiros têm o direito de não serem incomodados, no entanto, aquele que houve música tem o direito de fazê-lo.

Perante este cenário, e baseando-nos nas duas ideias expressas anteriormente, as perguntas imediatas são:

1 – Onde está o limite do livre-arbítrio de cada um?

2 – Que valor ético é aplicável neste caso e quem o determina?

3 – Que solução podemos encontrar para que, no exemplo dado, sejam respeitadas as liberdades de todos?

Confesso que não sei a resposta a nenhuma das questões.

Aquilo que sei é que, enquanto não se chegar a um consenso generalizado, continuaremos a ver a liberdade ser confundida com libertinagem.

EMANUEL LOMELINO

A borboleta Vagina - Andrea Tostes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando recebi a proposta de fazer uma ilustração que unisse borboleta, vagina e maturidade, minha primeira vontade foi a de fazer algo elegante e delicado, fluido, que retratasse a vagina de forma não óbvia. Optei pela transparência da aquarela para conseguir degradês em estilo boho e acrescentei detalhes em dourado. Sou apaixonada por borboletas e seu processo evolutivo, mas, na verdade, ilustrei uma mariposa. Mais misteriosa e muitas vezes exótica, com suas antenas que lembram plumas, está pronta para voar. Livre. Feminina.
Herdei a caixinha de aquarelas da minha nonna italiana e, desde então, passei a experimentar esta técnica, que me encanta cada vez mais.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 208 - Emanuel Lomelino

Imagem vecteezy

Diário do absurdo e aleatório 

208 

As guerras têm, por génese, motivações que, ao contrário do, publicamente, apregoado, são sempre de interesse particular e nunca colectivo. Foi assim no passado, é assim no presente, e será assim no futuro. Perante conflitos armados, as sociedades manifestam-se ruidosamente, durante algum tempo para, pouco a pouco, deixarem esmorecer a indignação até ficarem conformadas e, por fim, indiferentes, desde que seja longe das suas fronteiras.

Mas tudo poderia ser diferente se, em vez de solidariedade em garrafas de água e mantas quentes, aproveitássemos para, satisfazendo o apetite moderno pelos “reality shows” e com as ferramentas que a internet dispõe, criar uma superliga de combates, corpo a corpo, entre os líderes mundiais em beligerância. Vendiam-se os direitos de transmissão para as plataformas de “streaming”, faziam-se contratos de patrocínio com as maiores marcas desportivas e automóveis, e com as casas de apostas, criava-se todo um novo negócio em torno dos eventos e, cereja no topo do bolo, conseguia-se que os níveis de abstenção, nas eleições, diminuíssem drasticamente. Bem vistas as coisas, quem não iria, de bom grado, escolher o representante do seu país para essa competição? 

EMANUEL LOMELINO

Nada acabou (excerto 1) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Se já passou pela traumática experiência de perder os que mais ama duma forma trágica e brusca, então vai rever-se na minha história de vida!
Se foi alguma vez vítima de um bullying deplorável e covarde, então vai perceber o que senti!
Se quer saber como é aprender a viver num mundo da cegueira depois de quase toda uma vida passada a ver o mundo, entre nas páginas do meu livro!
Se já mergulhou numa depressão profunda, perdendo por completo a alegria e vontade de viver, sentindo-se sem chão e sem rumo na vida, eu também estive lá!
Se já se sentiu vazio, só, sem porto de abrigo, desamparado, nada lhe parecendo fazer sentido, eu sei como isso é, senti-o na pele!

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

sábado, 3 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 207 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

207

Passam os dias (sempre iguais) e cada um é uma vertigem de tempo que me afasta do mundo que nunca foi meu.

Eu, o único ser mutável nesta história, enfermo de saber-me deslocado, ora abraço ou rechaço a esquizofrenia lúcida que guia todos os meus passos, todos os meus pensamentos, todas as minhas angústias, que são nada quando comparadas com o mal maior.

O sol nasce todas as manhãs sem remorso nem infelicidade por ser o mesmo que já foi e igual ao que será. Já eu, que sei o meu amanhã, mesmo sem data precisa, jamais saberei o que fui – ou poderia ter sido – no tempo que me correspondia.

Esta dúvida, que deriva de uma certeza cada vez mais sentida como absoluta, é a bagagem que carregarei até ao final dos dias (sempre iguais), composta por baús de frustração, conformismo e desconsolo.

Pior do que estar encerrado num espírito esquizofrénico é ter consciência dessa fatalidade. 

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 19) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Esse alguém é um sujeito oculto porque tornou-se muita gente que se juntou para grafar a oração pelo entendimento que não existe loucura e muito menos normal. Pergaminho e Tinteiro também comentavam a situação em seus versos: “A civilização implica demais com a natureza, quer moldá-la, amarrá-la, amor da sala sem visitar a casa inteira, quer entender a espécie humana como um bolo sem fatias. Tudo errado. Cada um é único, ímpar. Essa história de seleção social só pode dar confusão e tumulto geral: quem destoa é louco e maltratado, porém quem da adaptação toma posse e assina o trat

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 206 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

206

Fanã, mesmo estando atrasado, como sempre, abrandou a passo, antes de entrar na casa de fados, onde Dália ia actuar, nessa noite. Esbarrou em dois sujeitos que bloqueavam a entrada. Pediu desculpas por ser desastrado e foi até ao balcão, com um sorriso ardiloso colado nos lábios e uma carteira acabada de colar-se aos seus dedos experimentados.

No momento em que se preparava para ver o produto da sua manha, ouviram-se os primeiros acordes da guitarra portuguesa. Apesar dos seus quase cinquenta anos e ter ganhado fama de durão, ele nunca foi capaz de fazer, fosse o que fosse, quando ouvia o trinar de uma guitarra. Era como se o instrumento tivesse um poder hipnótico sobre si.

No momento seguinte, aproveitando o silêncio que a música provocou na sala abarrotada de gente, a voz rouca, mas doce, de Dália ecoou-lhe até ao fundo da alma.

Quase por instinto, abriu a carteira que havia surripiado na entrada e a primeira coisa que viu foi uma foto de família.

- Maldita sejas, Dália! – murmurou entredentes.

Foi até à porta, onde ainda estavam os dois sujeitos, e disse, esticando a mão para um deles:

- Acho que isto lhe pertence.

Sem esperar resposta, voltou para o seu lugar, no balcão. Cruzou o olhar com Dália, que lhe sorriu, orgulhosa, enquanto cantava “O fado do malandro arrependido”

EMANUEL LOMELINO

Escolhas (excerto 2) - Renata Campos

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Viver de forma irresponsável, presa no passado, faz você repetir as mesmas escolhas ao longo da sua história. É preciso se colocar diante da questão e assumir a responsabilidade da vida que se tem levado, afinal somos responsáveis pela vida que construímos e carregamos diariamente. Senão aprendermos com os resultados passados novos caminhos não vão se abrir, nada mudará. Precisamos ter coragem para mudar nossas escolhas. Somente nós podemos fazer diferente. Pessoas ao nosso redor, fazem o que estão ao seu alcance para ajudar, mas somos nós que precisamos criar oportunidades todos os dias para fazer o que precisa ser feito da melhor maneira possível. Modificando nossas atitudes em relação às situações, mudamos a equação e obtemos resultados positivos. Quando fixamos em experiências negativas, por várias vezes repetimos os mesmos erros e acabamos tomando as mesmas escolhas erradas. Esse movimento pode impedir nosso crescimento pessoal e profissional, dificultando a realização dos nossos objetivos e sonhos.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 205 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

205

Eu, que me reconheço como um sujeito atento e bom observador, há algum tempo vinha reparando que as grandes chancelas editoriais deixaram de usar o título “Antologia”, nos livros dedicados a um só autor, substituindo-o por “Poesia reunida”, “Prosa reunida” ou “Contos reunidos”, dependendo do género literário, ou usando apenas “Poemas”, “Prosas”, “Contos”. Confesso que detectei esta alteração, mas nunca aprofundei as razões.

Pois bem, eis senão quando, por mero acaso, descubro que esta mudança de denominação antológica aconteceu por dois motivos essenciais que, a bem da verdade, derivam de um só: a contínua utilização dos termos “antologia” e “colectânea” como sinónimos e sequente retificação ao incluir esta nova prerrogativa nos dicionários.

A parte curiosa desta situação é que, apesar de passarem a ser sinónimas, estas palavras continuam a ter definições que se contrapõem. Vejamos:

Antologia: é o conjunto formado por diversas obras que exploram uma mesma temática, período ou “autoria”.

Colectânea: recolha de excertos de “diversos autores”, geralmente subordinada a determinado tema, género ou época.

Confrontado com esta revelação, congratulo os grupos editoriais pela forma como conseguiram contornar esta situação absurda.

Dito isto, fico à espera para ver quando é que os dicionários vão assumir como sinónimos “tertúlia” e “sarau”.

Aí a casa cai.

EMANUEL LOMELINO

O Zé de Ninguém (excerto 1) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Flores cultivadas pelas mãos daquele jardineiro não eram flores, eram a representação mais sublime das obras da natureza. Negro, abnegado, com seus cinquenta anos vividos ao lado das cores, dos aromas, das folhas e dos espinhos. Mais espinhos que pétalas.
Há pouco tempo ele era o caseiro da fazenda. Os patrões apareciam por lá, normalmente, nos feriados e os seus filhos, com as namoradas, em algum final de semana em que os pais não estivessem presentes.
Quando a família dava o ar da graça, o caseiro-jardineiro-pau pra toda obra fazia questão de confeccionar arranjos com as flores mais viçosas do seu jardim. A dona da fazenda cobria-lhe de elogios e esses eram muito bem guardados nos arquivos da memória, poucos elogios arquivara durante a vida; mas mesmos sendo gentil, a senhora o explorava como podia e não podia; existia a hora para começar o trabalho, mas nunca para terminar.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA