segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Primeiros passos (excerto 5) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Esse livro é embasado nas escolhas das quais acredito fazer parte de um envelhecimento saudável e inteligente. Seguiremos juntas rumo ao desconhecido, afinal, não conheço esse lugar, ainda não estive lá. Mas quero chegar nele com atitudes reais que me coloquem num percurso de construção e alinhamento. Não se trata de um guia ou mapa com rota definida, é apenas um convite para seguirmos juntas e criarmos uma narrativa sobre o envelhecimento, mapeando como estamos, identificando nossos atuais problemas e traçando, em conjunto, um caminho rumo a um envelhecimento positivo e digno de orgulho. Acredito em um planejamento baseado em princípios holísticos e integrativos. É através dessa perspectiva que convido vocês a buscarem comigo hábitos diários que possam fazer a diferença em nosso processo de envelhecer.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Empenhamento (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

De cabelo bem lavrado pelo pente, onde brancas se levantavam, davam-lhe um ar de empreendedor, respeitado naquela pequena vila, prestes a ser cidade.
Ao domingo era hábito frequentar o famoso café do senhor Meireles, com uma sala, reservada a senhores usadores de fato e gravata, desde o industrial bem na vida, ao empregado de escritório, banco ou loja comercial, mais senhores de ares do que de teres.
O cimbalino continuava a ser um vício incontrolável, tinha outo sabor a leitura do jornal, regada pelo sabor e cheiro intenso do néctar chamado café.
O filho foi educado no seio daquela família unida, abençoada pela avó que com eles viveu sempre, sendo a coordenadora das equipas da empresa.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

domingo, 21 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 194 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

194

Quando a imprensa noticiou a morte de Rodolfo Renan, uma onda de consternação e tristeza espalhou-se por toda a comunidade. Tinha falecido o intelectual mais respeitado e todo o mundo, desde o mais novo ao mais velho, do mais pobre ao mais abastado, sentiu a perda.

Depois, quando foi divulgado que havia sido suicídio, as opiniões começaram a divergir. Uns consideravam, tal facto, como um gesto de coragem. Outros viam como covardia. Durante semanas a fio, houve acesos debates e as coisas chegaram a aquecer de tal forma que ficou impossível não estar num ou noutro lado da contenda.

Curiosamente, no meio de tanta discussão, os motivos que deram origem ao suicídio nunca foram abordados. Só aquando da publicação do testamento é que as pessoas deram conta dessa falha e ganharam consciência de que, durante anos, tinham desfrutado das palavras de Rodolfo Renan sem entenderem que a beleza delas lhes ofuscara o entendimento e não tinham sido capazes de decifrar os seus lamentos, as suas angústias, as suas tristezas, os seus temores. Só aí entenderam que não tinham percebido os gritos de socorro do intelectual.

Todos sentiram que aquela morte, mais do que ter originado a discussão num tema fracturante, teve o condão de alertar para a necessidade de ver-se além da estética, pois nunca se conhece alguém sem saber dos caminhos trilhados.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 4) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Caso começasse pelas favoritas, o amargor de um dia exaustivo seria prontamente abrandado pelo doce e quando fosse comer as cítricas já estaria vitalizado pelo prazer. Passaram-se paisagens, entraram e saíram pessoas do ônibus e ele não resolvera como fazer. Gesto tão simples. Que sujeito mais complicado! Sinto-me impaciente com essa dúvida sem sentido. Irrelevante para tantos outros problemas que ele tem a resolver.
Olhava o pacote com uma dúvida bem comum a tudo que fizera até então. Começar pelo prazer ou pelo desprazer? Não chegara a nenhuma conclusão. Aliás, a partir daí passou a pensar em todas as escolhas que tivera feito até então na vida. Muitas vezes, começara pelas jujubas vermelhas e outras vezes tivera começado pelas amarelas. Quer exemplos? Jujuba vermelha: quando decidira separar-se da mulher e voltar a morar com mãe. Espantado? É verdade. Essa escolha era daquelas bem vermelhinhas e perfumadas com aromatizantes deliciosamente artificiais. Sua mulher fora um tipo fútil que a tudo exigira e pouco dera em troca. Nem carinho, nem nada.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

sábado, 20 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 193 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Diário do absurdo e aleatório 

193

Por mais habituado que esteja ao modo como sou visto e entendido, por quem, sabendo da minha existência, não interage comigo, continuo a esboçar sorrisos internos quando as percepções caem por terra e são verbalizadas manifestações de surpresa.

Há uma imagem que me tem acompanhado toda a vida, muito por minha culpa, confesso, e que induz em erro aqueles que só me conhecem das redes sociais ou do “ouvir falar”.

Quanto aos primeiros, nada pode ser feito porque, há muitos anos, só uso as redes sociais para trabalho de divulgação.

Em relação aos segundos, que apenas merecem uma reflexão mais aprofundada para efeito deste exercício de escrita, sobressaem duas ideias.

1 – Há quem se dê ao trabalho de incluir o meu nome em conversas com terceiros, dando-me uma importância que não reconheço nem almejo. E nada mais tenho a dizer sobre isto porque o que falam de mim não me diz respeito.

2 – Há quem faça deduções de carácter, apenas pelo que escuta. Esta constatação sugere-me alguns pensamentos.

a) há quem viva mais na ficção e no achismo do que com a realidade.

b) há quem prefira o rumor à verdade.

c) há quem dedique mais atenção à vida alheia do que à própria.

d) é mais confortável ver nódoas na toalha do outro.

e) quem fala dos ausentes também tem costas.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 192 - Emanuel Lomelino

Imagem vecteezy

Diário do absurdo e aleatório 

192

O substantivo que melhor define as sociedades modernas é “preguiça”.

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, ela disseminou-se, qual vírus contagioso, tornando-se quase uma característica genética da humanidade.

Podemos observá-la desde as pequenas coisas da vida – usar o carro para ir ao café, no fundo da rua; deitar lixo no chão havendo um caixote no outro lado da estrada – até às de maior impacto – resolver burocracias no final dos prazos; deixar para o dia seguinte a conclusão de um trabalho, que demoraria cinco/dez minutos, porque o patrão não paga horas extra.

Depois há a preguiça intelectual, que tem sido estimulada por aqueles que compreendem o fenómeno do seguidismo e sabem dissimular ideias e conceitos em actos e discursos tão cativantes que parecem dogmas infalíveis, sem pontas soltas, logo, sem necessidade de reflexão, mas fazendo crer, aos enfermos da preguiça, que são livres-pensadores e que a ideia original foi fruto do seu próprio pensamento (que nunca teve).

Dessa percepção de indiscutibilidade cria-se a apologia do não-pensamento, ou a sensação de que pensar é prescindível.

Assim nascem os rebanhos, educados a aceitar sem contestar e sem compreenderem que estão a ser formatados por pensamentos induzidos e a perder a capacidade de pensar pela própria cabeça.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 191 - Emanuel Lomelino

Imagem artmajeur
El escritor - desenho de Carlos Ardohain

Diário do absurdo e aleatório 

191

O momento mais angustiante na vida de um autor não é o fracasso das suas criações, tampouco o sumiço repentino do estro. A angústia maior, que trespassa a alma vezes sem conta e dilacera cada átomo, acontece quando as palavras atraiçoam e esgravatam o íntimo como punhais rombos, sem um pingo de compaixão nem misericórdia.

Para os mais desprevenidos, cada traição é recebida no limite do despreparo e, por isso, sentida no extremo da dor – lancinante, feroz, inclemente.

Os mais calejados, não sendo imunes às estucadas e sofrendo em igual medida, conseguem, apesar das lágrimas de desilusão, ultrapassar o desconforto com maior celeridade, cicatrizar as feridas, e retornar ao ofício mais fortes.

Depois há os outros. Aqueles que, por nunca terem estado seriamente empenhados na escrita e, por essa razão, não terem ganhado consciência de autor, ignoram quão ténue é a linha que separa a traição das palavras e a arte escriba.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 16) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

– Como prometemos, anteriormente, vocês não irão ter preocupação com nada. Tudo aqui é por nossa conta. Não precisarão tocar em moedas ou cédulas. A economia gira no Casarão como truque de mágica, é maravilhoso não ter que usar o vil metal e poder desfrutar de tudo aqui dentro, na verdade o nome da moeda corrente aqui é liberdade. Não se perturbem em andar na moda, a roupa no casarão é democrática e igual para todos, tamanho U. Documentos podem ser arquivados, lavrados no escaninho à direita, aquele que tem uma placa escrita: Invisíveis Preferidos. Outra coisa muito importante é a entrega dos pertences na recepção. Todos devem deixar seus pentes, espelhos, foto de parente, livro (caso tenham interesse por esse tipo de bobagem). Como podem perceber, objeto pessoal por aqui é usado na contramão, vira pessoal objeto. Serão todos, de uma forma sempre geral, bem cuidados, perfumados, e pro cabelo pentes dourados. Deixem vocês mesmos todos, por inteiro, do lado de fora. Perfilem seus restos, entrem e obedeçam à vontade.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 190 - Emanuel Lomelino

Imagem quo

Diário do absurdo e aleatório 

190

Entre muitos paradoxos que enfermam a humanidade, um dos mais óbvios, mas que foge à reflexão, é o dogma da perfeição.

Todos alardeamos que a perfeição não existe e, consequentemente, admitimos a nossa imperfeição natural. Estas afirmações acabam por ser taxativas e complementares, mas quase sempre colocadas de lado, dependendo das situações, sendo usada a versão mais cómoda ao interesse de cada um, ou o(s) seu(s) contrário(s), como quem escolhe que roupa usar em determinado dia da semana. Senão vejamos.

Não existindo a perfeição, por que raio todo o mundo anda em busca dela, em todos os momentos da vida? Por que se exigem relacionamentos perfeitos? Por que se exigem, ou recriminam, comportamentos e prestações, em nome da perfeição? Por que razão as pessoas sentem necessidade de qualificar toda e qualquer coisa que veem, ou tudo o que leem, como sendo “perfeito”? Por que carga de água se voltam as costas aos demais por falta de perfeição, ou pelas imperfeições? Por acaso a imperfeição só existe na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, em circunstâncias especiais, sendo que noutras é alimentada na segunda pessoa do singular ou plural? Será que o conceito de imperfeição tem restrições aplicativas? Será que estamos, também neste quesito, a perder a noção da realidade e a deixar-nos levar pelo politicamente correcto por conta da sensibilidade de um punhado de “cabeças-ocas”?

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 4) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Aos cinquenta e dois anos, estou levantando acampamento rumo a pessoa que quero ser aos noventa, organizando meus boletos para que minha fatura seja justa.
A morte é um fato, todos nós vamos morrer. Só não sabemos quando ela vai nos visitar. Mas enquanto estamos vivos, precisamos construir uma fortaleza dentro da nossa fragilidade. Mudar nossos comportamentos. Dar valor ao que realmente é essencial, seguindo na travessia da vida.
Juntas podemos seguir sem rótulos, com a liberdade para guardar o que achar útil e descartar o que não for necessário. Afinal, somos seres únicos e intransferíveis. O que serve para mim pode não fazer sentido para você, e está tudo bem.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Chega o amor novamente (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

A socialização, trouxe àquele homem renascido das cinzas, um novo sentimento que acolheu de braços abertos.
Apaixona-se por uma colega de trabalho, moça determinada, com quem interagia, mesmo sem esta descodificar a linguagem gestual.
Susana lentamente foi assimilando e em pouco tempo comunicava usando a linguagem gestual, para além da escrita.
Ambos formavam uma equipa, muito estimada pelos utentes idosos, e pelos responsáveis da empresa.
O sentimento que andava no ar, crescia a olhos vistos.
A primavera acabara de chegar, e em plena natureza, Tiago resolve colher papoilas, organizando-as num singelo ramo.
Ao oferecê-lo a Susana, declara-se, pedindo sua mão em casamento.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 189 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Diário do absurdo e aleatório 

189

Sempre que me preparo para mergulhar num novo livro, visto o meu escafandro de gala e lá vou eu, contra todas as fobias, em genuína apneia.

As primeiras páginas podem revelar-se irrespiráveis, mas a falta de ar oxigenado, em vez de afligir-me, tem o condão de despertar o meu autocontrolo e elevar os sentidos no máximo das suas capacidades, obrigando-me a dar corda às barbatanas e ir ainda mais longe e fundo. E quanto maior for a dificuldade para manter a respiração regular, mais embrenhado fico e mais adentro nos textos.

Garanto-vos, com o testemunho de mil e uma experiências, que todos os bons livros conseguem fazer-nos viver para lá de uma síncope respiratória, e trazer-nos de volta, sãos e salvos, mas enriquecidos, à superficialidade fatal do mundo a que pertencemos.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 3) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Neste momento se sentira o homem mais pobre do mundo. Um perdedor diante dos carros que passavam em alta velocidade pela cidade hostil e que nem se davam conta das paradas apinhadas de trabalhadores, estudantes e senhoras sozinhas com sacolas.
Enfim, o transporte, 456. Chegara mais lotado que nos outros dias. Não dera para esperar outro. Tinha pressa de chegar a casa e lavar-se da fadiga do dia. Afinal, a empresa obrigara os funcionários a trabalharem com camisas de mangas compridas e gravata, apesar do sol cáustico da cidade. Os refrigeradores de ar, do escritório, permaneciam desligados meio expediente por contenção de despesas. Pouco lucro, mas muito calor. Tronco moderno, chibata sutil. Por esse motivo, nada insignificante, estava sempre às bicas e vez por outra a morrinha tentava se aproximar.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 188 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

188

Sem tirar a importância a outras grandes preocupações das sociedades modernas, um dos maiores flagelos actuais é o sumiço, que está a ser permitido acontecer, de inúmeros locais de culto – as livrarias tradicionais.

Sobre esta triste realidade estão a ser usados argumentos que só convencem os cabeças-ocas que falam de clássicos, mas só leem livros de autoajuda, comprados em supermercados.

Os livros que valem a pena serem lidos raramente os encontramos nas grandes superfícies, porque nunca serão os de vendas mais expressivas.

Livros que fazem pensar, ou melhor, que obrigam a pensar, são incompatíveis com o negócio de consumismo imediato, porque, neste nosso tempo, o acto de pensar está a roçar a extinção.

Os verdadeiros leitores, aqueles que conhecem as diferenças entre as grandes obras da literatura e os manuais de formatação, optam por pensar e sabem que só é possível encontrar bons livros nas livrarias tradicionais.

Infelizmente, esses espécimes raros têm uma capacidade financeira reduzida e isso reflete-se no desaparecimento de espaços icónicos.

A manter-se este círculo vicioso, corremos o risco de necessitar ir ao supermercado mais próximo para encontrarmos um manual prático, que nos ajude a descobrir uma forma de fugirmos à estupidificação que está a instalar-se, e reaprender a pensar. 

EMANUEL LOMELINO

domingo, 14 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 187 - Emanuel Lomelino

Imagem dn

Diário do absurdo e aleatório 

187

Pensar dói. Ou melhor… dá dores de cabeça. Ok. Nem sempre. Há pensamentos que conseguem passar sem deixar vestígios, mas, quando assim é, isso significa que não tinham significado algum.

Aqueles que magoam são os pensamentos que vêm atrelados a outros pensamentos, como um comboio-bala interminável, cuja locomotiva é uma ideia simples que não gosta de andar sozinha nas trilhas da mente e, por isso, arranja sempre uma forma ardilosa de dar boleia a mais e mais ideias, cada vez mais complexas.

A dor de cabeça aparece nesse momento. Na altura em que as carruagens mais simples – porque leves – dão lugar às mais robustas – porque pesadas – e, como num passe de mágica, cada uma delas (ideias) se transforma numa nova locomotiva, dando origem a mais comboios. Tantos que a mente fica preenchida de carris, que entroncam, uns nos outros, de modo tão vertiginoso que, nasce a sensação, a qualquer instante haverá um descarrilamento ou um choque entre composições.

Se isto não fosse uma analogia eu estaria milionário só na venda de bilhetes, tantos são os pensamentos que viajam na minha mente.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 13 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 186 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Diário do absurdo e aleatório 

186

Os livros, tal como as conversas e as cerejas, estão sempre colados a outros. Descobri isto ao olhar atentamente para a minha biblioteca e ter visto Puchkin e Gogol em animada tertúlia com Camus e Pessoa. Noutra prateleira, Brecht e Celan concentravam olhares em Virgínia, Agustina, e nas irmãs Brontë.

Num canto mais resguardado, Proust, Benjamin e Todorov sussurravam críticas, como quem conspira literatura. Mais adiante, Almada Negreiros, de braço dado a Ramos Rosa e Torga, dissertava sobre poesia, como quem não sabe mais nada além de versos.

Wilde, com todo o vigor da sua juventude reciclada, olhava Botto com interesse redobrado, enquanto Ovídio, Plutarco, Horácio e Calvino tentavam descobrir as diferenças entre Vergílio e Virgílio.

Poe e Stevenson elogiavam Márai e Saramago, bem perto de Göethe e Nietzsche, que desafiavam Schopenhauer e Steinbeck, para deleite de Kant. Também vislumbrei o grupo de Tolstoi, Gorki, Nabokov e Dostoievski, a debater com Kundera, Marquez, Neruda e Natália.

Camilo, Dinis, Amado, Assis e Eça trocavam experiências, enquanto Vinícius e Ary ofereciam canções a Cecília, Sophia, Florbela e Natércia, que retribuíam com palavras meigas.

Cervantes, Dante, Shakespeare e Camões faziam vénias aos aplausos de Junqueira, Bocage, Drummond e O’Neill. Enquanto Baudelaire, Apollinaire, e outros franceses, viam peças de Gil Vicente e Pascoaes.

E mais não vou enumerar porque já ultrapassei o limite deste texto.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 15) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Se reuniram para pensar a nova solução: seria possível um lugar toldo que abrigasse as diferenças como parte das pessoas? O reino animal talvez tivesse algo a mostrar: o deformismo de um ocipodídeo, possuidor de uma quela maior que a outra, não lhe dá legenda de manco ou alcunha de deficiente. Ao contrário de estigmas que selam preconceitos, a elegante convivência da espécie composta por éticos crustáceos o batizou de caranguejo-violinista. Essa forma especial de caranguejo recebeu esse apelido justamente para afastar hostilidades, pois é entendido que enquanto pisa a areia de forma irregular, chama a maré ao som da imaginação. A natureza manda muito bem seus recados ao seu humano, informa que tudo é naturalmente desigual: cada um tem sua face de normal, cada um tem seu mancar musical.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 185 - Emanuel Lomelino

Imagem deco

Diário do absurdo e aleatório 

185

Depois de ter navegado tantas marés e enfrentado os seus diferentes humores, o sal impregnou-se na pele tão intensamente que os golfinhos e as gaivotas deixaram de ser novidade. A ferocidade dos ventos, que no início era sentida como chibatadas, agora é apenas afago. Içar e recolher velas passaram a ser tarefas executadas no automático.

Já me haviam alertado para a falta de atenção que tenho prestado ao meu entorno. Não tinha dado muita importância a esse reparo, no entanto, a bem da verdade, há algum tempo deixei de demonstrar interesse nas coisas irrelevantes porque serviam apenas como motivos de distração, para ajudar a passar o tempo nas viagens entre portos.

No entanto, hoje, ao embarcar para mais uma odisseia laboral, embrulhado na minha farda de profissional camuflado e com a máscara de marujo satisfeito no rosto, decidi voltar a dar uso à minha vertente observadora e pude constatar que o céu azul continua a ser riscado pelos aviões, a espuma das ondas permanece branca e, tirando os pinguins e albatrozes, os únicos seres que continuam a destoar são os corvos, que agora são mais urbanos litorais e não se emocionam ao ver espantalhos de camisa aos quadrados que, tal como eu, andam na faina para colocar bacalhau no prato.

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 3) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Hoje respeito a vida como ela é e tudo de melhor que pode me oferecer, mas nem sempre foi assim. Cresci em um ambiente que acreditava ser normal, mas hoje percebo o quanto era tóxico e cheio de abusos emocionais. Os pregos foram retirados, mas as marcas ainda existem. As cicatrizes são eternas. Mas, a jornada de busca e crescimento pessoal me levou a expandir minha alma com ensinamentos que mudariam meu olhar sobre as situações que a vida me apresentava todos os dias, construindo a minha história e moldando quem sou hoje. Foi através da dor que novas possibilidades me foram apresentadas. Passei a olhar para o sofrimento e transformá-lo em algo que pudesse fazer algum sentido.
Venho percorrendo um caminho livre de padrões, assumindo meus medos de cara lavada e orgulhosa das minhas linhas de expressão.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Sem rumo (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Sem trabalho, namoro acabado, Tiago começa a ficar sem rumo.
Orlando seu pai, é vencido pela doença.
O não desejado acontece. Mais uma perda dolorosa.
Começou, deste modo, um novo tempo e um novo viver na casa de Tiago.
A depressão agarra o rapaz, atira-o para o seu quarto fechado quase sempre dia e noite.
Sua mãe não sabia o que fazer.
Pedir ajuda médica, era coisa que ele recusava.
Um dia encheu-se de coragem e abriu portas e janelas obrigando-o a sair à força.
Foi dura, dizendo que quem não trabalha não come. Não conseguia aguentar as despesas da casa só com a misera reforma do pai e o seu faminto ordenado.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA