Caro Franz
Não sei se foi propositado ou casual, mas a história absurda de Samsa, alertando para a existência de uma linha muito ténue entre o amor incondicional e a devoção interesseira, tem paralelo com aquelas fábulas em que ninguém quer saber do sapo ou do patinho feio e depois, após a transformação física, todos adulam. A única diferença reside no facto de Samsa, enquanto provia todo o mundo, abdicando de si mesmo, ter vivido na ilusão de ser amado e nunca ter percebido, até à metamorfose, que o seu altruísmo era recompensado com bajulação e não com amor verdadeiro.
Felizmente, nunca precisei de uma mudança tão radical para compreender que a maioria dos afetos recebidos raramente derivam do gosto pelo que somos, dizemos ou fazemos, mas sim pelo benefício que os outros conseguem retirar de nós.
Deixemo-nos de fábulas. Uma coisa é a precepção que temos do mundo, com todos os arco-íris e unicórnios, outra bem distinta é a verdade desse mesmo mundo.
É por tudo isto que sinto maior facilidade em acreditar na aspereza de um “não” do que na docilidade de um “sim”.
Fiel ao meu eu
Emanuel Lomelino
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