domingo, 25 de janeiro de 2026

No fundo do baú 85 - Emanuel Lomelino

 

Entrar numa livraria é transpor um portal, que nos leva, qual máquina do tempo, a viajar por mundos que, de outro modo, nos estariam vedados. Transformamo-nos em turistas literários de visita a outras civilizações, geografias, experiências e saberes.

Ingressar numa biblioteca pode ser uma odisseia pungente que nos obriga a oscilar entre as emoções mais díspares, como estivéssemos na montanha-russa mais sinuosa, rápida e íngreme. Saltamos da apreensão para o humor, do medo para a alegria, da serenidade para o caos.

Cada estante é uma paleta de conhecimentos à distância de um simples gesto. Um contentor de sabedoria ao alcance da vontade de aprender. Podemos abraçar povos, culturas, metamorfoses, histórias e experiências.

Cada livro é um postigo que, depois de aberto, revela realidades passadas, explica o presente e nos faz acreditar em múltiplos futuros paralelos. Atravessamos mares, desertos e labirintos; sentimos gostos, odores e deslumbramento, confrontamos ideias, conceitos e filosofias, testamos razão, lucidez e improviso.

Enfim, entrar numa livraria, ou biblioteca, analisar estantes e prateleiras, pegar um livro e folheá-lo é abrir as portas ao máximo das possibilidades.

EMANUEL LOMELINO

Partida - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Marcos entrou no trem. Não resistiu. Sabia que perdera tudo. 

Mariana de longe, observava. As luzes do trem atravessaram seus olhos marejados. Ele olhou pela janela, mas não a viu.

O trem partiu. Ela permaneceu ali, estática, com as mãos frias e o coração em ruínas.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

sábado, 24 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 50 - Emanuel Lomelino

Arthur Schopenhauer
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Caro Arthur,

É extraordinariamente actual essa ideia de que o sofrimento é a essência da vida e a felicidade é apenas um intervalo entre padecimentos. Por mais difícil que seja aceitar a crueza, quiçá violência, desta proposição, a realidade assume-se indesmentível. Todos nós, sem exceção, levados por imposições sociais, políticas e, até, de fé, somos impelidos a aceitar, como necessidade absoluta, o mercantilismo da existência. Sim, as diferentes fases da vida são estágios do sofrimento que nos acompanha desde o nascimento. Sim, apenas as fontes de dor, aflição, desespero, mágoa, calvário e martírio diferem com o passar dos anos, mas o sofrimento permanece. Sim, as alegrias são entidades avulsas e esporádicas e os momentos de verdadeira felicidade são efémeros e rapidamente se transformam em simples memórias irrepetíveis.

Em nome da felicidade, há no humano um desejo de aceitação que ultrapassa as fronteiras da racionalidade e o impele a louvar doutrinas e conceitos tão fugazes quanto nocivos. Essa necessidade de pertença, nascida de um inconsciente formatado pelo entorno, revela-se como uma vontade imperativa que mascara a realidade dos factos: o actual conceito de comunidade celebra e glorifica o individualismo egoísta porque não existe empatia, solidariedade genuína, tampouco comunhão. A felicidade nada mais é do que uma cobiça cega que, quando alcançada, revela-se infimamente fugaz, enquanto todos os desejos, vontades, ambições, sonhos e caprichos são génese do sofrimento que engole esses fogachos de euforia.

Lúcido

Emanuel Lomelino

O paraíso são as memórias (excerto 11) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Um fenómeno interessante foi o desenvolvimento e a criação de bandas e filarmónicas, que se espalhou por todo o país, tendo tido um papel de grande importância, especialmente nas regiões do interior.
A história das bandas e filarmónicas em Portugal está intimamente ligada ao associativismo e remonta a meados do século XIX. Atribui-se às bandas militares a sua criação.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

No fundo do baú 84 - Emanuel Lomelino

Dizem os sábios mais velhos que a verdadeira honestidade é exclusiva do mar. Segundo a experiência destes anciãos sem idade, não há elemento da natureza mais fiel a si mesmo, em todos os seus estados, formas e geometrias, independentemente de meridianos ou paralelos; latitudes ou longitudes; pontos cardeais ou hemisférios.

A sua essência mantém-se inalterada quer se evapore, solidifique ou liquefaça. Manifesta-se sem artimanhas nem engodos, tampouco escangalha de véspera nem reclama o que não lhe pertence porque é força dominante que responde apenas por si, nos seus domínios.

Mas, apesar de todas estas características íntegras, é no cheiro que a honestidade é mais flagrante. Ao contrário de outros elementos (fogo, terra e ar) que exibem odores emprestados, o mar exala somente o seu perfume de encanto (maresia) com que nos enfeitiça, sem truques ou ultrajes.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 11) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Outro fato marcante da minha adolescência ocorreu quando minha mãe e minha irmã mais velha viajaram
para o Rio de Janeiro, numa longa viagem de 72 horas de ônibus. Mamãe, além de todos os seus irmãos que moravam lá, tinha também uma filha, minha irmã Avê Maria, e fazia anos que não tinha nenhum contato com eles.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

No fundo do baú 83 - Emanuel Lomelino

A vida reinventa-se a cada alvorada. Os dias correm lentos ou céleres, dependendo dos humores, ócios e tédios que devoram as horas. Todos os instantes, por mais díspares que se apresentem, rumam no mesmo sentido, como fossem de via única.

Os pensamentos sucedem-se em turbilhões, ou a conta gotas, sempre sujeitos às dispersões, ou falta delas, para que o marasmo se ausente. Cada momento é único, por mais repetitivo que possa parecer.

A labuta diária é executada a diversos níveis e com múltiplos desafios que levantam ou derrubam o ânimo. Há expedientes e artimanhas que ajudam a ultrapassar tempos mortos que perturbam as ânsias e originam inquietações.

Só o crepúsculo carrega sossego nos ombros e a paz de um sono justo e contínuo, porque até os Espartanos merecem repousar das batalhas diárias, mesmo sabendo que as forças restituídas nos poços de todas as noites esfumam-se nos sufocos que a luminosidade transporta.

Por tudo isto, logo pela manhã, há um obtuso, febril, mas sincero, desejo de fechar os olhos e transformar cada minuto em descanso noturno, porque os sonhos são mais gentis do que a realidade.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

No fundo do baú 82 - Emanuel Lomelino

Olho o passado de relance, mas não deixo de moldar o barro do presente com a experiência adquirida, sabendo, de antemão, que as construções futuras serão, também elas, edificadas de modo distinto.

Por mais que nos instruamos na arte da concepção, o tempo, na sua maestria incontestável, arranja sempre forma de condicionar cada momento, provando, assim, que a vida, embora pareça uma sucessão de círculos, é uma espiral contínua e as linhas que separam os tempos (passado, presente e futuro) são mais ténues do que uma célula hexagonal.

É por isso que o acto de escrever é o próprio passado a acontecer.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

No fundo do baú 81 - Emanuel Lomelino

 

Mesmo sendo uma era de pedra e osso, a história fazia-se, entre peregrinações instintivas e paragens para sustento. Também havia espaço para registos toscos do dia-a-dia, em tons quentes, porque únicos, mas ninguém grunhia opinião.

Salto no tempo…

Da necessidade fez-se luz e o progresso gerou conforto e ideias novas. A paleta de cores, agora alargada aos tons frios e neutros, já originava comentários, mas, acima de tudo, justificava erudição elitista, porque religiosa e abastada.

Salto no tempo…

A evolução contínua quebrou algumas barreiras invisíveis, substituindo-as por outras - nem melhores nem piores, apenas outras. O arco-íris, com as suas tonalidades e outras que são meios-termos, universalizou-se e ramificou-se, dando origem a múltiplas referências. Nasceu a crítica, o contraponto e os opostos assumidos, mas nada entendido como mais sério que o momento.

Salto no tempo…

Hoje, como em tempos idos, a história constrói-se e desvaloriza-se a arte. No entanto, são poucos aqueles que entendem que só sabemos sobre o passado porque os ociosos gravadores primitivos, os escrivães medievais e os revolucionários aristocratas oitocentistas – para falar apenas nestes – deixaram as referências artísticas fundamentais para a compreensão dos seus quotidianos.

Quer se queira, quer não, o mundo só conhece a sua história porque nos legaram arte rupestre, literatura científica, ensaios, crónicas, poesia e ficções.

Por muito que resistam, a verdade é só uma: não fosse a arte de cada tempo jamais saberíamos nomear os estágios do passado que nos conduziu até este nosso tempo.

EMANUEL LOMELINO

Estopim (excerto 2) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Na manhã seguinte, ele apareceu na cozinha com um sorriso pálido e um convite: “Vamos caminhar no final da tarde? Só um passeio...”

Caminharam por um parque envolto em bruma, onde os galhos nus pareciam mãos suplicantes. À beira de um lago escuro, Marcos a olhou em silêncio. Um silêncio denso, como quem conversa com monstros interiores. Quando a noite caiu como um véu, ele a empurrou.

O corpo dela afundou como uma lembrança negada. Mas antes que as águas a levassem, ele mergulhou e a trouxe de volta. Tremia — de medo, de arrependimento, de tudo que havia se partido.

Mariana adoeceu. O frio e o trauma a levaram ao hospital. Foi lá, entre lençóis brancos e silêncios sufocados, que os detalhes vieram à tona. A mão dele em suas costas, o olhar vazio antes do empurrão. Ela soube. Com a nitidez de quem acorda de um pesadelo.

Marcos havia tentado matá-la.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 49 - Emanuel Lomelino

Walter Benjamin
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Caro Walter,

Cada vez mais, escrever é como caminhar num trapézio sem rede. Por mais confortável que o autor se sinta, na execução do seu ofício, está sempre sujeito ao desequilíbrio e, consequentemente, à queda. Mais ainda quando o público é composto por gente munida de atenção qualificada e pronta para apontar os desacertos alheios. Sendo mais vulgar que a assistência seja formada apenas pelos opinadores de ocasião - aqueles que dão palpites sobre tudo, sem terem ideia de nada.

Quem escreve deve ter consciência de que, ao mínimo deslize, seja de que natureza for, haverá sempre alguém predisposto à crítica, qual corrector automático infalível, sem pretensão maior que não seja ridicularizar o próximo – neste caso o autor.

Poucos são aqueles que criticam por opinião divergente, mas fundamentada, ou na intensão de proporcionar um debate construtivo. Creio, aliás, que essa espécie deixou de existir há muito tempo.

Também perigosos, para quem escreve, são os observadores de cortinado (camuflados), sempre em pulgas para descontextualizar uma ou outra frase, de modo a, no mínimo, comprometer a índole de um pensamento e dar conotação negativa a uma narrativa, como quem procura nódoas em lençóis imaculados.

O mais grave de tudo é o facto de a grande maioria dos autores contemporâneos deixar-se intimidar, por esta corja de críticos de pacotilha, e limitar-se a escrever banalidades consensuais, fugindo assim à responsabilidade inerente ao ofício da escrita: desafiar, provocar, revolucionar, chocar e instigar a reflexão. 

Consciente

Emanuel Lomelino


O paraíso são as memórias (excerto 10) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Culturalmente o país também sofria de um grande atraso. O grau de analfabetismo era muito elevado, cerca de 50%. Eventos culturais, tais como espectáculos, óperas e concertos ou salas de cinema e teatro, eram privilégio de elites, nas principais cidades do país, sobretudo em Lisboa, a capital, e no Porto, a segunda cidade mais importante a nível nacional.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

domingo, 18 de janeiro de 2026

No fundo do baú 80 - Emanuel Lomelino

Pensar os nossos dias é, mais do que um exercício de decifração de comportamentos, um calvário emocional – esgotante, inócuo e sem sentido – tantas são as incongruências, desvios e variantes surreais (para não dizer idiotas).

Por mais que tente dissertar nesta temática, os pensamentos saem-me mais absurdos do que usar barbatanas na Serra da Estrela; esvaziar piscinas com vassouras; ou fazer a maratona de costas e colocar caril em pudim de leite.

Por mais teorias físicas ou gramaticais que encontre, nenhuma tem aplicação lógica na inversão de polaridades e sinergias apáticas que grassam neste tempo, preocupantemente disforme.

Por mais que insista em encontrar uma hipótese filosófica da modernidade, acabo sempre por ser inundado pelo ócio sem conseguir escrever umas quantas linhas a respeito.

Então, nas vésperas da loucura, sacudo a cabeça, louvo a minha laicidade e besunto o corpo com álcool para confirmar a existência de matéria corpórea.

No que concerne à racionalidade… apenas descubro que até eu a perdi. 

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 10) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Foi assim que aprendi a pedir carona para ir à praia ou ao centro da cidade. Uma vez na “carona”, me comportava de maneira a mostrar que procurava somente um meio de transporte. Nessa trajetória, vem uma série de caronas atípicas, como um furgão de polícia, uma ambulância...! Para ir à praia, os condutores de caminhonetes ou de caminhões sempre paravam.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

sábado, 17 de janeiro de 2026

No fundo do baú 79 - Emanuel Lomelino

Entendo a aversão aos dicionários. Há quem se intimide com a volumetria desses compêndios.

Entendo o desinteresse na definição das palavras. Há quem prefira usar os termos mais básicos da linguagem.

Aquilo que eu não entendo é a incapacidade que muitos têm no momento de usar o bom-senso. Porque há palavras cujas definições não são essenciais para saber aplicar o conceito base.

Dou como exemplo a gratidão (e o seu oposto – ingratidão).

A gratidão é um sentimento que enobrece quem demonstra reconhecimento por uma ajuda, um conselho, um ombro amigo.

Um ingrato é aquele tenta ficar com os louros de algo (uma acção, atitude, proeza) sem reconhecer o auxílio que teve ou a ajuda que lhe foi prestada, para alcançar esse sucesso.

O problema surge quando aquele que presta auxílio pensa que o seu acto merece gratidão eterna e o “ajudado” deve retribuir sempre que for solicitado, e nas condições ditadas pelo “bom samaritano”. Caso não o faça passa a ser considerado ingrato.

A gratidão deve existir na forma como vem definida nos compêndios volumosos: reconhecimento pelo benefício que a acção de outrem nos outorga.

Peço desculpa pela objecção que deixo aqui, mas a verdade é que a gratidão não é como uma dívida bancária que é paga durante toda a vida e com juros de mora.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

No fundo do baú 78 - Emanuel Lomelino

Não preciso molhar-me na fúria desta chuva madrugadora para conseguir dissertar sobre a impermeabilidade que me escasseia.

Cada gota que desliza da nebulosidade do céu negro para abater-se sobre mim, com a ferocidade tropical de todas as tempestades, apenas cumpre o seu destino - e o meu.

Gotícula a gotícula, de mãos dadas com a liquidez desconfortável, transformo-me num leito de rio cujas correntezas percorrem de nascente à foz, sem resistência de dique ou barragem.

Inundo-me desde as margens até ao âmago em cascatas incessantes de rebeldia, qual desfiladeiro íngreme com protuberâncias escorregadias.

No centro do dilúvio, sou como um navio sem leme nem rumo, e o vento – irregular como só ele – não me permite mais do que andar, trémulo, à deriva.

Depois, como uma criança inocente, mas travessa, o céu afasta as nuvens e sorri um arco-íris, sem remorso por ter lançado toneladas de água sobre este pobre coitado que apenas saiu à rua para ir trabalhar, num sábado, e agora vai gastar os ganhos de um dia em paracetamol.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

No fundo do baú 77 - Emanuel Lomelino

Mais do que direito adquirido, escrever é um dever que poucos assumem. Uns por preguiça, outros por ignorância. A maioria recusa a responsabilidade, a minoria acredita que a escrita deve cingir-se aos pensadores, filósofos, doutrinados e eruditos. Boa parte escreve apenas porque sim, a outra parte, espartilhada entre crenças e rivalidades, contesta tudo o que se escreve, qual oposição sem programa alternativo.

Escrever é a liberdade do pensamento, mas alguns “seres iluminados” advogam que a escrita só o é se for feita de acordo com os novos cânones e, por consequência, com a negação dos anteriores. Exigem que se eliminem todos os conceitos, regras e definições do passado, que acreditam ser agrilhoadores da criatividade, e impõem a permissividade restrita dos seus valores literários. Estes sábios da contemporaneidade, quais profetas da verdade absoluta, pensam a escrita de acordo com as fraquezas das suas próprias limitações. Estes censores da modernice, quais escravos das tendências anti autoridade, querem que a escrita se resuma à incoerência das suas crendices anti regras.

Aos arautos dos paradigmas elitistas, eu digo: Mentis! A arte é democrática! Não tem cor, sexo, idade, cultura, religião, política padrão, nem corrente estética ou estilística.

Aos negacionistas do legado que todos carregamos, eu digo: Mentis! A arte de hoje só existe, como é e se molda, porque o passado é o somatório de todas as correntes que nos conduziram até aqui.

Aos génios do desgoverno, eu digo: Mentis! A arte sempre terá regras, mesmo que não sigamos as normas clássicas ou doutrinas pré-existentes, porque até o vosso anarquismo é, por si só, uma regra que vos exige serem contra todas as outras regras.

EMANUEL LOMELINO

Estopim (excerto 1) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era uma noite de dezembro. O céu parecia de chumbo, pesado como o coração de Marcos. Ele chegou cansado, o olhar vidrado. Jantaram em silêncio, com os talheres tocando os pratos como pequenos sinos de alerta.

Mais uma discussão. Mais um abismo entre palavras feridas.

— Se você não pode ser minha, não vai ser de mais ninguém! — gritou ele, com a voz rasgando o ar gelado do apartamento.

Avançou sobre ela. Mariana recuou, o medo nos olhos acendendo como farol em noite de tempestade. Ele a segurou com força, mas algo o fez parar. Talvez a lembrança de tudo o que foram. Talvez a sombra do que se tornava. 

Entre tremor e silêncio, ela trancou-se no quarto.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

No fundo do baú 76 - Emanuel Lomelino

Há um aqueduto de frases por escrever entre as areias do Hudson e as praias vicentinas.

Os verbos correm ferventes desde as encostas do Corno dos Romanos até à mais recôndita ilhota do Pacífico.

Os adjectivos viajam desde as grutas que nunca foram de Salomão até às cidades perdidas na tropical Amazónia.

Cada substantivo percorre as planícies subsarianas rumo aos planaltos Tártaros.

Existem estepes de versos inovadores, entre as tundras escandinavas e os pomares nipónicos, com ânsia de nascerem virados para as águas santas do Ganges, mas idolatrando as correntes de Yangtzé. 

Há complementos empalados nas calotas polares, em ambos os hemisférios, só a aguardar o degelo para irem em busca de Everestes sujeitos e predicados.

Existem virgulas a bolinar ventos alísios (algumas de pontos às costas), com o mesmo ímpeto que as reticências cavalgam as dunas do Saara, em busca de dois pontos, parágrafos e travessões.

As ondas do Índico são tiles disfarçados, por não quererem ser vistos na companhia dos apreensivos circunflexos. Assim como os graves só querem ver os agudos pelas costas.

As interrogações não são mais do que exclamações vergadas ao peso de múltiplas dúvidas sugeridas pelas irrequietas marés lunares.

E assim se juntam dois mundos numa chuva descritiva cheia de figuras de estilo e com o epílogo esperado (ponto final).

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 9) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Mais de metade da população trabalhava no sector primário, nomeadamente na agricultura, com índices de produtividade muito baixos. O país apresentava uma grande assimetria: o sul, onde predominavam os latifúndios, prevalecendo uma escassa mecanização, e o norte, constituído por zonas de pequena propriedade, praticando-se uma agricultura tradicional.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA