quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Do Brasil à Suíça (excerto 8) - Samaritana Pasquier
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
No fundo do baú 70 - Emanuel Lomelino
Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.
Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.
Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.
Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.
Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
No fundo do baú 69 - Emanuel Lomelino
Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.
Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.
Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.
Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.
Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.
A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.
Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
No fundo do baú 68 - Emanuel Lomelino
A verdade dói quando escutada. Causa-nos dano pelo impacto do momento, talvez despreparo nosso, mas é uma dor fugaz e momentânea, que dificilmente deixa marcas permanentes porque, com o tempo e pelo seu carácter irreversível, ela consegue ser o elemento-chave para alcançarmos a paz de espírito necessária para prosseguirmos.
Já a mentira mata pela sua perversidade intemporal, contínua e nefasta. Atinge-nos na plenitude da sua fogosidade, qual sol abrasador, e queima todo o sentimento como palha ressequida. Desse incêndio destruidor sobra apenas negritude e terra árida sem possibilidade de renovação. E tudo passa porque a vida assim o permite.
Mas há algo mais obsceno e devasso. A dúvida. Essa é cruel, vil, maléfica e sádica. Mantém-nos num limbo de incertezas e esperanças, porque fere, arranha, machuca, tritura, rasga, perfura, esfola, aflige, ao mesmo tempo que se nega e pinta de cores suaves, hipnóticas e anestésicas, qual atriz no auge das suas capacidades interpretativas.
Esta trilogia de inegáveis “influencers” da vida nunca foi tão bem definida como fez Bob Marley, quando disse: A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.
EMANUEL LOMELINO
Fragmentos - Adriana Mayrinck
domingo, 4 de janeiro de 2026
No fundo do baú 67 - Emanuel Lomelino
Não sou saudosista porque tudo tem o seu tempo e quem fica agarrado ao passado perde tempo presente que poderia estar a dedicar à construção do tempo futuro. Contudo, porque nestas coisas da memória há sempre uma saudade, sinto falta das conversas, sobre escrita, que tive em algumas tertúlias, com gente que sabia da temática e como partilhar conhecimento.
Sinto essa ponta de nostalgia porque as verdadeiras tertúlias, as genuínas, mesmo sendo escassas, eram momentos de reflexão compartilhada que enriqueciam cada um dos envolvidos. Debatiam-se ideias, conceitos e formas de trabalhar as palavras, num ambiente que, não sendo de erudição absoluta, permitia pensar com mais critério o ofício das letras.
A saudade fica por aqui porque tudo o resto, em redor destas tertúlias, era movido pela paixão do exibicionismo inútil e bacoco, um género de vaidade pessoal, que muitos sentiam necessidade de exibir com a urgência de quem precisa de alimento para a boca. Para não falar da burrice de alguns sobre o que é uma tertúlia. Mas não vamos por aí senão este texto transforma-se numa vulgar ode de escárnio e maldizer.
A verdade é que sinto tantas saudades dessas poucas discussões inteligentes que, perante a reduzida franja de autores interessados em partilhar opiniões e crescer, sou obrigado a conversar com os de outrora – apreciadores de tertúlias – como quem tem amigos imaginários.
Assim, varro a minha biblioteca, de ponta a ponta, e mantenho diálogos com os clássicos da literatura e tento absorver o que me dizem na esperança de que essa aprendizagem me seja benéfica, como úteis foram as conversas com Alexandre Carvalho, Celso Cordeiro, José Félix, António Boavida Pinheiro, António MR Martins, Xavier Zarco, Alvaro Giesta, João Carlos Esteves, Francisco Valverde Arsénio, Paulo Afonso Ramos, Joaquim Evónio e, especialmente, Vítor Cintra, com quem aprendi a descobrir a minha voz literária.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 7) - Tita Tavares
sábado, 3 de janeiro de 2026
No fundo do baú 66 - Emanuel Lomelino
Esta inquietação vulcânica, que explode de mim, como instinto primitivo, conduz-me na busca eterna pelas palavras que podem fazer-me ajoelhar, como quem se prostra diante de imagem consagrável.
Este desassossego eruptivo, que sangra em mim, como as correntes mais agitadas de magma e lava, guia-me na infinita demanda dos verbos que podem obrigar-me a curvar, como quem faz vénias ao ministério divino.
Esta perturbação efusiva, que irrompe de mim, como intuição ancestral, escolta-me na procura desenfreada pelos vocábulos que podem forçar-me a vergar, como quem se derruba em devoção ao ofício celestial.
Este tumulto tempestuoso, que estoura em mim, como o mais tenebroso ribombar dos céus, acompanha-me numa insana caçada aos motes que podem impor-me a dobrar, como quem se inclina aos méritos angelicais de uma prece.
Esta profusão catastrófica, que eclode de mim, como ímpeto espontâneo, leva-me na bizarra urgência de encontrar as nobres sentenças que podem justificar os motivos, pelos quais, não consigo criar sem parecer que estou em permanente oração aos deuses da erudição.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 7) - Samaritana Pasquier
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
No fundo do baú 65 - Emanuel Lomelino
Eu gostaria de ser clássico como Séneca e poder aconselhar: apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Gostaria de ser erudito como Oscar Wilde e poder falar: a vida é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas só existe.
Eu gostaria de ser lúcido como Bob Marley e poder declarar: não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.
Eu gostaria de ser profético como James Dean e poder sentenciar: sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.
Eu gostaria de ser pretensioso como Picasso e pintar numa tela: eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro.
Eu gostaria de ser engraçado como Chaplin e poder mimicar: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela.
Eu gostaria de ser complexo como Nietzsche e poder dizer: torna-te aquilo que és.
Como não posso ser nenhum deles nem falar, com mais propriedade, o que já disseram, limito-me a seguir a dica do Friedrich e, sendo eu mesmo, vou parafrasear Pessoa, dizendo: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Apenas decidi deixar de correr atrás deles.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
No fundo do baú 64 - Emanuel Lomelino
Nos dias em que quase desfaleço sou acometido por uma amálgama de sintomas febris e hipotérmicos que se intercalam num frenesim impossível de descrever, mas que parecem conduzidos por laivos de demência.
Nesses instantes de nebulosas mortes, sem que encontre explicação plausível ou fragmentos de lógica, dou por mim a divagar pelas correntes artísticas, hoje em desuso (para não dizer extintas e proscritas), e faz-se luz sobre o meu mundo de criação.
Nesses quentes momentos de caos pacífico e agitada ordem, as epifanias sobrevoam-me a mente e os sentidos ficam hipnotizados pelos conceitos mais primários. Mesmo no desconforto das tonturas e com os olhos turvos (quase apagados), é quando melhor enxergo o que de mim pode advir, porque o que já fiz não me interessa, só penso no que ainda não fiz.
São vinte minutos, meia hora, isentos de percepção temporal, mas com o condão de clarificar-me ideias e conceitos, indicar-me outras tendências e possibilidades, abrir-me o espírito para enveredar por diferentes vias e novos caminhos.
Então dou por mim a estudar os antigos ismos das artes e a compará-los (sabendo que não há comparação) com o mesmismo que se instalou neste meu tempo.
Aprendo as diferenças entre o cubismo das telas e o surrealismo ou expressionismo dos poemas, de Picasso, e fico a adivinhar quantos serão os eruditos anti ismos de hoje que conhecem essa vertente do criador de Guernica.
Depois começo a escrever estes fracos textos sintéticos, com um sorriso irónico colado nos lábios, por saber que quase ninguém decifrará o conteúdo do último parágrafo.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
No fundo do baú 63 - Emanuel Lomelino
Há este querer sólido e verdadeiro, que me acompanha desde sempre, de encontrar a perfeição do vazio; o silêncio original.
Quanto mais me embrenho na solidão que cultivo, menor parece a distância que me separa de algo semelhante ao Nirvana. Aquele lugar puro, sem defeito, que não é celestial nem divino. Apenas um lugar de paz imorredoura que substitui uma vida inteira.
A cada passo dado dou conta de todo o peso inútil e desnecessário que tenho carregado nas costas. Desfaço-me de mais e mais, sem traumas de separação. Simplesmente largo lastro e caminho mais leve.
O percurso ainda é longo, mas completo na sua única via, num só sentido, perfeito porque é feito de coisa alguma, apenas nada. E estou a conseguir libertar-me de toda a bagagem, de toda a tralha que me tem freado o ímpeto.
Sei que ainda transporto baús encrustados no corpo, com amarras maciças e fechaduras encriptadas, cuja remoção terá um custo de luas e sal, mas blindei a minha resiliência com o aço da vontade suprema e tenho os olhos focados no amanhã, porque é para lá que caminho.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
No fundo do baú 62 - Emanuel Lomelino
Morrerei, orgulhosamente, ignorado pelos críticos das paragonas de tiragem erudita, porque sempre respeitei os legados e defendi os meus critérios.
Morrerei, orgulhosamente, na invisibilidade de todos os fóruns oligarcas, porque nunca me sujeitei a convenções nem a tratados de mal-escrever.
Morrerei, orgulhosamente, no desterro de todas as falsas elites sem condição, porque sempre acreditei que a universalidade criativa é, além de um direito, um dever global.
Morrerei, orgulhosamente, no exílio de todas as palavras que nunca escrevi, porque os meus textos foram construídos em exercício de liberdade e expressão individual sem apegos nem compadrios.
Morrerei, orgulhosamente, no confinamento de uma tumba desconhecida, porque bebi dos melhores néctares literários e trabalhei na inspiração dos ridículos saberes.
Morrerei, orgulhosamente, embrulhado na bandeira dos autores menores, porque nunca babei os grandes nem ignorei os pequenos.
Morrerei, orgulhosamente, na embriaguez dos meus paradoxos.
EMANUEL LOMELINO
Verão - Adriana Mayrinck
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
Contos que nada contam 51 - Emanuel Lomelino
Sinfonia interrompida
Tudo começou com o trovejar dos bombos seguido de um choro colectivo dos violinos, primeiro sussurrado, depois bradado. Só depois o clarinete buzinou uma passagem de nível e as colinas deixaram-se florir numa sinfonia de cores exóticas.
Houve uma vertigem zumbida que polinizou um dente-de-leão e as glicínias olharam o céu em prece pedindo, aos deuses florais, permissão para o regresso dos colibris.
A mariposa sacudiu a transparência das asas para receber a simpatia da brisa e serpentear entre as peónias bailarinas.
As campainhas tocaram triângulos a compasso e o salgueiro-chorão aproximou-se do rio para ver, mais próximo, a família de carpas-dragão que manchava a serenidade cristalina das águas.
O pica-pau trauteou morse no tronco rijo de uma laranjeira e a orquestra edílica deu lugar ao silêncio absoluto porque apareceu uma mochila a empurrar um ser bípede que estava noutra sintonia e decapitava margaridas.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 6) - Tita Tavares
domingo, 28 de dezembro de 2025
No fundo do baú 61 - Emanuel Lomelino
Por mais que admire o rigor e qualidade das tuas telas, por mais que aprecie os teus traços originais; por mais que me encante a singularidade das tuas pinceladas; por mais que respeite a profusão da tua extensa obra; não consigo deixar de te culpar, mestre Vincent, pela realidade impressionante dos meus dias.
Neste tempo de abundância e consumismo; de feitos banais e condutas impostoras; de sedentarismo intelectual; de improvisos estudados; de originalidades repetidas, a tua obra penetrou o lado mais recôndito das mentes desprovidas de conhecimento.
Nesta era de inversão de valores; desamor pelo passado; conflito com a história; contestação dos legados, a tua arte sobreviveu nos becos das memórias ocas e influencia os estranhos hábitos espontâneos de gerações tecnológicas.
A ti, Vincent, acuso de teres incentivado, ainda que sem conhecimento do facto, através do elevado número de autorretratos que produziste, este bizarro vício das selfies.
E só não te acuso dos instantâneos de repasto porque só conheço “Os comedores de batata” e nesse os pratos mal se veem.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 6) - Samaritana Pasquier
sábado, 27 de dezembro de 2025
No fundo do baú 60 - Emanuel Lomelino
A arte, nas suas diversas vertentes e dimensões, é uma actividade intimista que roça, quando não ultrapassa, o egoísmo. Mas este individualismo egocêntrico, que se exige ao criador, não é negativo, antes pelo contrário, é humanista porque permite que as dores da angústia criativa fiquem restritas ao universo da criação.
Aos apreciadores de artes deve ser apresentado o lado mais belo e sereno do objecto artístico, isto é, a arte finalizada.
Pouco importa o número de marteladas falhadas e quantas lascas de pedra rasgaram a pele do escultor, quando estamos diante de um busto. Ninguém quer saber quantas camadas de óleo foram colocadas sobre uma pincelada disforme ou quanto vapor de diluente paira no atelier do pintor, quando estamos a olhar uma tela. Não existe interesse algum no tempo que o escritor perdeu para dar vida à frase mais eloquente ou quantos rascunhos foram atirados ao lixo, quando lemos um livro. Não há relevância na quantidade de vezes que o actor titubeou ou se engasgou nos ensaios, quando estamos e ver um filme ou uma peça de teatro. Não é preciso saber quantas vezes as dançarinas tropeçaram ou erraram os passos nos treinos, quando estamos a assistir a um bailado.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
No fundo do baú 59 - Emanuel Lomelino
O provérbio popular diz que a esperança é a última a morrer. Já Balzac afirmou que o homem morre pela primeira vez quando perde o entusiasmo.
Juntando, a ambas as frases, todas as minhas distintas mortes, fica provado que o homem perece toda a vida até que a derradeira morte reclame o seu prémio e encerre o assunto de vez.
Contudo, no meio de toda esta filosofia necrológica, levantam-se algumas questões pertinentes:
Entre cada morte existe renascimento ou ressurreição?
Todas as mortes permitem renovação ou apenas ressuscitamento?
Há alguma morte mais nefasta que as demais?
Até que ponto o acúmulo de mortes não é, em si mesmo, mais uma morte?
Sejam quais forem as respostas a estas perguntas, existem duas garantias absolutas e incontestáveis sobre todas as mortes. As intercalares apenas nos amputam. A definitiva, tal como também disse Balzac: … é mais verdadeira – ela nunca renuncia a nenhum homem.
EMANUEL LOMELINO