sábado, 31 de janeiro de 2026

No fundo do baú 90 - Emanuel Lomelino

Todos criticam a existência do “Grande Irmão”, mas, em simultâneo, querem ter acesso livre à vida dos demais. (hipocrisia).

Não tenho problema algum em andar por ruas e edifícios inundados com câmaras de vigilância. A minha revolta (hipérbole) é com aqueles que se julgam no direito de saber todos os meus passos.

Sinto. Vejo. Compreendo. Mas jamais me comovo com a demonstração de interesse (eufemismo). “A César o que é de César”, inclusive a privacidade.

Há silêncio nos olhares que perscrutam o rosto, como quem procura decifrar-me no mais íntimo de mim (intromissão). As miradas mudas não perturbam a minha paz, porque conheço os intentos dessas buscas e sei vestir-me de invisibilidade.

E em tudo isto existe uma ironia (que não é figura de estilo) porque aprendo mais sendo observado do que os observadores aprendem sobre mim.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

No fundo do baú 89 - Emanuel Lomelino

Volta e meia deparo-me com momentos de feroz lassidão – como agora – em que sou inundado por uma chuva de memórias entrelaçadas, de tempos cruzados sem cronologia, de sangramentos, de glória, de lágrimas, de risos, de luto, de paz, de erupção, de anseios…

São períodos breves, mas intensos, que desgastam o ânimo até à fronteira da vulnerabilidade. Um cansaço indescritível apodera-se do espírito e do corpóreo, com a mesma violência irrespirável. 

São instantes esparsos, contudo, paridos pelo eterno dilema entre o uso da resiliência e a vontade de prescindir. A mente transforma-se num fórum e os argumentos jorram, com fúria combativa, criando um caos híbrido que deambula entre o desejo e a razão.

Nessas alturas – como agora – procuro refúgio na sabedoria clássica e entrego-me aos pensamentos de Schopenhauer, Púchkin, Nietzsche, Sá-Carneiro, Pessoa… para descobrir, na pele e com assombro, que a vida é como uma viagem de comboio e cada encontro é um apeadeiro.

EMANUEL LOMELINO

Inverno - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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De volta ao apartamento, Mariana sentiu um vazio. Cada objeto parecia gritar o nome dele. Chorou tudo o que havia contido. Ela se permitiu dormir por algumas horas. Precisava recompor-se. Mas o silêncio parecia guardar algo por dizer.

O inverno parecia mais rigoroso. Bruxelas estava muda. As ruas pareciam congeladas no tempo, como uma cidade submersa em um globo de neve onde tudo havia parado — exceto a dor. O apartamento, um túmulo de memórias. O silêncio da casa era denso, quase sólido, como se pudesse ser cortado com as mãos. Isolara-se de tudo. Fugia de si mesma. Enlouquecia.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 51 - Emanuel Lomelino

Anton Tchékov
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Caro Anton,

Aproveito este nosso dia para expressar a dimensão da estima e respeito que nutro por esse estro, tão profusamente exercido, qual rio de caudal infinito e intemporal. Não há conto, novela, nem peça de teatro que me tenha deixado indiferente.

Admito que, mesmo parecendo estar a revelar algum despeito pela abundância das tuas letras (antes fosse), não raras vezes sou acometido por laivos de cobiça, provocados pelo desgosto que me abraça por não conseguir produzir tamanha excelência.

Apesar de acreditar que a qualidade criativa tem ligação direta, que não fundamental, com aquilo que se lê – e como leio obras valorosas! – não deixa de ser verdade que, por si só, isso não é suficiente e a ausência de estímulos desta época tem mais impacto pela desmotivação que provoca.

Esta falta de entusiasmo resulta do desinteresse quase unanime dos letrados actuais e, também por isso, mais convencido fico de estar a viver num tempo que me foi outorgado por engano, abatendo-se sobre mim uma lassidão extrema, que entope as veias, seca a vontade e injeta doses insanas de preguiça criativa.

Creio que, acaso hoje o entendimento sobre as artes fosse distinto, sentir-me-ia menos desenquadrado e talvez conseguisse observar nas letras modernas algo semelhante ao que enxergo quando leio a tua obra.

Introspectivo

Emanuel Lomelino

O paraíso são as memórias (excerto 12) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Actualmente assiste-se a um fenómeno evolutivo no âmbito dos repertórios. As bandas e filarmónicas abordam vários domínios musicais desde a música popular aos arranjos de música tradicional, erudita e ligeira. Há uma maior abertura a temas modernos provenientes da música pop-rock e mesmo do jazz.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

No fundo do baú 88 - Emanuel Lomelino

Estou grato aos céus por ser filho de uma divindade menor – assim nomeada porque Zeus estava afogado em hidromel cítrico, logo, com as capacidades cognitivas alcoolicamente desvirtuadas – e por isso ter nascido sem a presunção de ser mais do que aquilo que realmente sou.

Não me autonomeio coisa alguma e sempre resistirei aos cognomes que muitos ostentam como medalhas imerecidas – para não dizer heréticas.

Percorro os caminhos que me traço sem pretensão de pisar tapetes urdidos para desfile de vaidades sensaboronas e sem motivo de existência. Recuso dar passos nas calçadas da visibilidade ganha pelo metal, nem quero trajar-me com fardas de cetim fabricado nos cárceres da aceitação.

Sou filho de um deus menor e tudo o que faço, digo, penso e escrevo é fruto dessa minha reduzida dimensão e iluminado pelas ténues luzes de um estro diminuto, quase invisível, por incompatibilidade entre a natureza que me formou e a fama que não me merece.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 12) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ao amanhecer, quando fui ao centro da cidade, em todos os jornais, estava a foto do meu irmão e um grande título: “Assassino!” Eu sabia que meu irmão não era um assassino. Ele não tinha coragem de matar nem uma mosca. Mas não podia dizer nada, não tinha nem mesmo alguém com quem falar. Eu me sentia tão desamparada, tão sozinha face a esse drama. Minha mãe e minha irmã mais velha estavam bem longe.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

No fundo do baú 87 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Não sei dizer se o obscurantismo das letras actuais é passageiro, como um fenómeno ondulante que se desintegrará nas areias do tempo, ou se, pelo contrário, é uma prática lúcida com desejo de tornar-se uma rotina permanente.

Para onde se olha, e até onde a vista alcança, pouco se vislumbra para além de penumbra. As palavras vestem-se de breu como se alguém, de forma consciente e deliberada, quisesse ofuscar o brilho das narrativas, fazendo imperar as definições mais negras de um qualquer dicionário apocalíptico.

Queiram os deuses que seja apenas uma tendência esporádica de protagonismo, sem ambições ditatoriais nem cobiça déspota.

Seja como for, este culto incessante de idolatria ao expressionismo sombrio faz-me indagar: Existem assim tantos adoradores de Nix? 

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

No fundo do baú 86 - Emanuel Lomelino

Converti as mãos em peneiras e deixei tombar, pelos caminhos trilhados, todos os grãos de ânimo que, misturados com o cimento da vontade, serviriam para fortificar os meus passos calculados e de rumo certo.

Os objectivos lúcidos amoleceram com o impacto das tempestades sem senso e, aos poucos, de forma camuflada e impiedosa, evaporaram-se sem deixar rasto.

A caminhada não terminou, mas os propósitos abraçaram a caducidade não deixando terra suficientemente fértil para que outras raízes germinem nem para que a determinação ganhe fôlego renovado.

A velha máxima “nada se perde, tudo se transforma” nunca foi tão pungente e, apesar da miopia destes meus olhos falhos, dei por mim a enxergar tudo com uma clareza tão pura quanto reveladora. Há quem lhe chame epifania. Eu prefiro dizer que despertei.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 25 de janeiro de 2026

No fundo do baú 85 - Emanuel Lomelino

 

Entrar numa livraria é transpor um portal, que nos leva, qual máquina do tempo, a viajar por mundos que, de outro modo, nos estariam vedados. Transformamo-nos em turistas literários de visita a outras civilizações, geografias, experiências e saberes.

Ingressar numa biblioteca pode ser uma odisseia pungente que nos obriga a oscilar entre as emoções mais díspares, como estivéssemos na montanha-russa mais sinuosa, rápida e íngreme. Saltamos da apreensão para o humor, do medo para a alegria, da serenidade para o caos.

Cada estante é uma paleta de conhecimentos à distância de um simples gesto. Um contentor de sabedoria ao alcance da vontade de aprender. Podemos abraçar povos, culturas, metamorfoses, histórias e experiências.

Cada livro é um postigo que, depois de aberto, revela realidades passadas, explica o presente e nos faz acreditar em múltiplos futuros paralelos. Atravessamos mares, desertos e labirintos; sentimos gostos, odores e deslumbramento, confrontamos ideias, conceitos e filosofias, testamos razão, lucidez e improviso.

Enfim, entrar numa livraria, ou biblioteca, analisar estantes e prateleiras, pegar um livro e folheá-lo é abrir as portas ao máximo das possibilidades.

EMANUEL LOMELINO

Partida - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Marcos entrou no trem. Não resistiu. Sabia que perdera tudo. 

Mariana de longe, observava. As luzes do trem atravessaram seus olhos marejados. Ele olhou pela janela, mas não a viu.

O trem partiu. Ela permaneceu ali, estática, com as mãos frias e o coração em ruínas.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

sábado, 24 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 50 - Emanuel Lomelino

Arthur Schopenhauer
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Caro Arthur,

É extraordinariamente actual essa ideia de que o sofrimento é a essência da vida e a felicidade é apenas um intervalo entre padecimentos. Por mais difícil que seja aceitar a crueza, quiçá violência, desta proposição, a realidade assume-se indesmentível. Todos nós, sem exceção, levados por imposições sociais, políticas e, até, de fé, somos impelidos a aceitar, como necessidade absoluta, o mercantilismo da existência. Sim, as diferentes fases da vida são estágios do sofrimento que nos acompanha desde o nascimento. Sim, apenas as fontes de dor, aflição, desespero, mágoa, calvário e martírio diferem com o passar dos anos, mas o sofrimento permanece. Sim, as alegrias são entidades avulsas e esporádicas e os momentos de verdadeira felicidade são efémeros e rapidamente se transformam em simples memórias irrepetíveis.

Em nome da felicidade, há no humano um desejo de aceitação que ultrapassa as fronteiras da racionalidade e o impele a louvar doutrinas e conceitos tão fugazes quanto nocivos. Essa necessidade de pertença, nascida de um inconsciente formatado pelo entorno, revela-se como uma vontade imperativa que mascara a realidade dos factos: o actual conceito de comunidade celebra e glorifica o individualismo egoísta porque não existe empatia, solidariedade genuína, tampouco comunhão. A felicidade nada mais é do que uma cobiça cega que, quando alcançada, revela-se infimamente fugaz, enquanto todos os desejos, vontades, ambições, sonhos e caprichos são génese do sofrimento que engole esses fogachos de euforia.

Lúcido

Emanuel Lomelino

O paraíso são as memórias (excerto 11) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Um fenómeno interessante foi o desenvolvimento e a criação de bandas e filarmónicas, que se espalhou por todo o país, tendo tido um papel de grande importância, especialmente nas regiões do interior.
A história das bandas e filarmónicas em Portugal está intimamente ligada ao associativismo e remonta a meados do século XIX. Atribui-se às bandas militares a sua criação.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

No fundo do baú 84 - Emanuel Lomelino

Dizem os sábios mais velhos que a verdadeira honestidade é exclusiva do mar. Segundo a experiência destes anciãos sem idade, não há elemento da natureza mais fiel a si mesmo, em todos os seus estados, formas e geometrias, independentemente de meridianos ou paralelos; latitudes ou longitudes; pontos cardeais ou hemisférios.

A sua essência mantém-se inalterada quer se evapore, solidifique ou liquefaça. Manifesta-se sem artimanhas nem engodos, tampouco escangalha de véspera nem reclama o que não lhe pertence porque é força dominante que responde apenas por si, nos seus domínios.

Mas, apesar de todas estas características íntegras, é no cheiro que a honestidade é mais flagrante. Ao contrário de outros elementos (fogo, terra e ar) que exibem odores emprestados, o mar exala somente o seu perfume de encanto (maresia) com que nos enfeitiça, sem truques ou ultrajes.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 11) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Outro fato marcante da minha adolescência ocorreu quando minha mãe e minha irmã mais velha viajaram
para o Rio de Janeiro, numa longa viagem de 72 horas de ônibus. Mamãe, além de todos os seus irmãos que moravam lá, tinha também uma filha, minha irmã Avê Maria, e fazia anos que não tinha nenhum contato com eles.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

No fundo do baú 83 - Emanuel Lomelino

A vida reinventa-se a cada alvorada. Os dias correm lentos ou céleres, dependendo dos humores, ócios e tédios que devoram as horas. Todos os instantes, por mais díspares que se apresentem, rumam no mesmo sentido, como fossem de via única.

Os pensamentos sucedem-se em turbilhões, ou a conta gotas, sempre sujeitos às dispersões, ou falta delas, para que o marasmo se ausente. Cada momento é único, por mais repetitivo que possa parecer.

A labuta diária é executada a diversos níveis e com múltiplos desafios que levantam ou derrubam o ânimo. Há expedientes e artimanhas que ajudam a ultrapassar tempos mortos que perturbam as ânsias e originam inquietações.

Só o crepúsculo carrega sossego nos ombros e a paz de um sono justo e contínuo, porque até os Espartanos merecem repousar das batalhas diárias, mesmo sabendo que as forças restituídas nos poços de todas as noites esfumam-se nos sufocos que a luminosidade transporta.

Por tudo isto, logo pela manhã, há um obtuso, febril, mas sincero, desejo de fechar os olhos e transformar cada minuto em descanso noturno, porque os sonhos são mais gentis do que a realidade.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

No fundo do baú 82 - Emanuel Lomelino

Olho o passado de relance, mas não deixo de moldar o barro do presente com a experiência adquirida, sabendo, de antemão, que as construções futuras serão, também elas, edificadas de modo distinto.

Por mais que nos instruamos na arte da concepção, o tempo, na sua maestria incontestável, arranja sempre forma de condicionar cada momento, provando, assim, que a vida, embora pareça uma sucessão de círculos, é uma espiral contínua e as linhas que separam os tempos (passado, presente e futuro) são mais ténues do que uma célula hexagonal.

É por isso que o acto de escrever é o próprio passado a acontecer.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

No fundo do baú 81 - Emanuel Lomelino

 

Mesmo sendo uma era de pedra e osso, a história fazia-se, entre peregrinações instintivas e paragens para sustento. Também havia espaço para registos toscos do dia-a-dia, em tons quentes, porque únicos, mas ninguém grunhia opinião.

Salto no tempo…

Da necessidade fez-se luz e o progresso gerou conforto e ideias novas. A paleta de cores, agora alargada aos tons frios e neutros, já originava comentários, mas, acima de tudo, justificava erudição elitista, porque religiosa e abastada.

Salto no tempo…

A evolução contínua quebrou algumas barreiras invisíveis, substituindo-as por outras - nem melhores nem piores, apenas outras. O arco-íris, com as suas tonalidades e outras que são meios-termos, universalizou-se e ramificou-se, dando origem a múltiplas referências. Nasceu a crítica, o contraponto e os opostos assumidos, mas nada entendido como mais sério que o momento.

Salto no tempo…

Hoje, como em tempos idos, a história constrói-se e desvaloriza-se a arte. No entanto, são poucos aqueles que entendem que só sabemos sobre o passado porque os ociosos gravadores primitivos, os escrivães medievais e os revolucionários aristocratas oitocentistas – para falar apenas nestes – deixaram as referências artísticas fundamentais para a compreensão dos seus quotidianos.

Quer se queira, quer não, o mundo só conhece a sua história porque nos legaram arte rupestre, literatura científica, ensaios, crónicas, poesia e ficções.

Por muito que resistam, a verdade é só uma: não fosse a arte de cada tempo jamais saberíamos nomear os estágios do passado que nos conduziu até este nosso tempo.

EMANUEL LOMELINO

Estopim (excerto 2) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Na manhã seguinte, ele apareceu na cozinha com um sorriso pálido e um convite: “Vamos caminhar no final da tarde? Só um passeio...”

Caminharam por um parque envolto em bruma, onde os galhos nus pareciam mãos suplicantes. À beira de um lago escuro, Marcos a olhou em silêncio. Um silêncio denso, como quem conversa com monstros interiores. Quando a noite caiu como um véu, ele a empurrou.

O corpo dela afundou como uma lembrança negada. Mas antes que as águas a levassem, ele mergulhou e a trouxe de volta. Tremia — de medo, de arrependimento, de tudo que havia se partido.

Mariana adoeceu. O frio e o trauma a levaram ao hospital. Foi lá, entre lençóis brancos e silêncios sufocados, que os detalhes vieram à tona. A mão dele em suas costas, o olhar vazio antes do empurrão. Ela soube. Com a nitidez de quem acorda de um pesadelo.

Marcos havia tentado matá-la.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Epístolas sem retorno 49 - Emanuel Lomelino

Walter Benjamin
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Caro Walter,

Cada vez mais, escrever é como caminhar num trapézio sem rede. Por mais confortável que o autor se sinta, na execução do seu ofício, está sempre sujeito ao desequilíbrio e, consequentemente, à queda. Mais ainda quando o público é composto por gente munida de atenção qualificada e pronta para apontar os desacertos alheios. Sendo mais vulgar que a assistência seja formada apenas pelos opinadores de ocasião - aqueles que dão palpites sobre tudo, sem terem ideia de nada.

Quem escreve deve ter consciência de que, ao mínimo deslize, seja de que natureza for, haverá sempre alguém predisposto à crítica, qual corrector automático infalível, sem pretensão maior que não seja ridicularizar o próximo – neste caso o autor.

Poucos são aqueles que criticam por opinião divergente, mas fundamentada, ou na intensão de proporcionar um debate construtivo. Creio, aliás, que essa espécie deixou de existir há muito tempo.

Também perigosos, para quem escreve, são os observadores de cortinado (camuflados), sempre em pulgas para descontextualizar uma ou outra frase, de modo a, no mínimo, comprometer a índole de um pensamento e dar conotação negativa a uma narrativa, como quem procura nódoas em lençóis imaculados.

O mais grave de tudo é o facto de a grande maioria dos autores contemporâneos deixar-se intimidar, por esta corja de críticos de pacotilha, e limitar-se a escrever banalidades consensuais, fugindo assim à responsabilidade inerente ao ofício da escrita: desafiar, provocar, revolucionar, chocar e instigar a reflexão. 

Consciente

Emanuel Lomelino