domingo, 18 de janeiro de 2026

No fundo do baú 80 - Emanuel Lomelino

Pensar os nossos dias é, mais do que um exercício de decifração de comportamentos, um calvário emocional – esgotante, inócuo e sem sentido – tantas são as incongruências, desvios e variantes surreais (para não dizer idiotas).

Por mais que tente dissertar nesta temática, os pensamentos saem-me mais absurdos do que usar barbatanas na Serra da Estrela; esvaziar piscinas com vassouras; ou fazer a maratona de costas e colocar caril em pudim de leite.

Por mais teorias físicas ou gramaticais que encontre, nenhuma tem aplicação lógica na inversão de polaridades e sinergias apáticas que grassam neste tempo, preocupantemente disforme.

Por mais que insista em encontrar uma hipótese filosófica da modernidade, acabo sempre por ser inundado pelo ócio sem conseguir escrever umas quantas linhas a respeito.

Então, nas vésperas da loucura, sacudo a cabeça, louvo a minha laicidade e besunto o corpo com álcool para confirmar a existência de matéria corpórea.

No que concerne à racionalidade… apenas descubro que até eu a perdi. 

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 10) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Foi assim que aprendi a pedir carona para ir à praia ou ao centro da cidade. Uma vez na “carona”, me comportava de maneira a mostrar que procurava somente um meio de transporte. Nessa trajetória, vem uma série de caronas atípicas, como um furgão de polícia, uma ambulância...! Para ir à praia, os condutores de caminhonetes ou de caminhões sempre paravam.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

sábado, 17 de janeiro de 2026

No fundo do baú 79 - Emanuel Lomelino

Entendo a aversão aos dicionários. Há quem se intimide com a volumetria desses compêndios.

Entendo o desinteresse na definição das palavras. Há quem prefira usar os termos mais básicos da linguagem.

Aquilo que eu não entendo é a incapacidade que muitos têm no momento de usar o bom-senso. Porque há palavras cujas definições não são essenciais para saber aplicar o conceito base.

Dou como exemplo a gratidão (e o seu oposto – ingratidão).

A gratidão é um sentimento que enobrece quem demonstra reconhecimento por uma ajuda, um conselho, um ombro amigo.

Um ingrato é aquele tenta ficar com os louros de algo (uma acção, atitude, proeza) sem reconhecer o auxílio que teve ou a ajuda que lhe foi prestada, para alcançar esse sucesso.

O problema surge quando aquele que presta auxílio pensa que o seu acto merece gratidão eterna e o “ajudado” deve retribuir sempre que for solicitado, e nas condições ditadas pelo “bom samaritano”. Caso não o faça passa a ser considerado ingrato.

A gratidão deve existir na forma como vem definida nos compêndios volumosos: reconhecimento pelo benefício que a acção de outrem nos outorga.

Peço desculpa pela objecção que deixo aqui, mas a verdade é que a gratidão não é como uma dívida bancária que é paga durante toda a vida e com juros de mora.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

No fundo do baú 78 - Emanuel Lomelino

Não preciso molhar-me na fúria desta chuva madrugadora para conseguir dissertar sobre a impermeabilidade que me escasseia.

Cada gota que desliza da nebulosidade do céu negro para abater-se sobre mim, com a ferocidade tropical de todas as tempestades, apenas cumpre o seu destino - e o meu.

Gotícula a gotícula, de mãos dadas com a liquidez desconfortável, transformo-me num leito de rio cujas correntezas percorrem de nascente à foz, sem resistência de dique ou barragem.

Inundo-me desde as margens até ao âmago em cascatas incessantes de rebeldia, qual desfiladeiro íngreme com protuberâncias escorregadias.

No centro do dilúvio, sou como um navio sem leme nem rumo, e o vento – irregular como só ele – não me permite mais do que andar, trémulo, à deriva.

Depois, como uma criança inocente, mas travessa, o céu afasta as nuvens e sorri um arco-íris, sem remorso por ter lançado toneladas de água sobre este pobre coitado que apenas saiu à rua para ir trabalhar, num sábado, e agora vai gastar os ganhos de um dia em paracetamol.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

No fundo do baú 77 - Emanuel Lomelino

Mais do que direito adquirido, escrever é um dever que poucos assumem. Uns por preguiça, outros por ignorância. A maioria recusa a responsabilidade, a minoria acredita que a escrita deve cingir-se aos pensadores, filósofos, doutrinados e eruditos. Boa parte escreve apenas porque sim, a outra parte, espartilhada entre crenças e rivalidades, contesta tudo o que se escreve, qual oposição sem programa alternativo.

Escrever é a liberdade do pensamento, mas alguns “seres iluminados” advogam que a escrita só o é se for feita de acordo com os novos cânones e, por consequência, com a negação dos anteriores. Exigem que se eliminem todos os conceitos, regras e definições do passado, que acreditam ser agrilhoadores da criatividade, e impõem a permissividade restrita dos seus valores literários. Estes sábios da contemporaneidade, quais profetas da verdade absoluta, pensam a escrita de acordo com as fraquezas das suas próprias limitações. Estes censores da modernice, quais escravos das tendências anti autoridade, querem que a escrita se resuma à incoerência das suas crendices anti regras.

Aos arautos dos paradigmas elitistas, eu digo: Mentis! A arte é democrática! Não tem cor, sexo, idade, cultura, religião, política padrão, nem corrente estética ou estilística.

Aos negacionistas do legado que todos carregamos, eu digo: Mentis! A arte de hoje só existe, como é e se molda, porque o passado é o somatório de todas as correntes que nos conduziram até aqui.

Aos génios do desgoverno, eu digo: Mentis! A arte sempre terá regras, mesmo que não sigamos as normas clássicas ou doutrinas pré-existentes, porque até o vosso anarquismo é, por si só, uma regra que vos exige serem contra todas as outras regras.

EMANUEL LOMELINO

Estopim (excerto 1) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era uma noite de dezembro. O céu parecia de chumbo, pesado como o coração de Marcos. Ele chegou cansado, o olhar vidrado. Jantaram em silêncio, com os talheres tocando os pratos como pequenos sinos de alerta.

Mais uma discussão. Mais um abismo entre palavras feridas.

— Se você não pode ser minha, não vai ser de mais ninguém! — gritou ele, com a voz rasgando o ar gelado do apartamento.

Avançou sobre ela. Mariana recuou, o medo nos olhos acendendo como farol em noite de tempestade. Ele a segurou com força, mas algo o fez parar. Talvez a lembrança de tudo o que foram. Talvez a sombra do que se tornava. 

Entre tremor e silêncio, ela trancou-se no quarto.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

No fundo do baú 76 - Emanuel Lomelino

Há um aqueduto de frases por escrever entre as areias do Hudson e as praias vicentinas.

Os verbos correm ferventes desde as encostas do Corno dos Romanos até à mais recôndita ilhota do Pacífico.

Os adjectivos viajam desde as grutas que nunca foram de Salomão até às cidades perdidas na tropical Amazónia.

Cada substantivo percorre as planícies subsarianas rumo aos planaltos Tártaros.

Existem estepes de versos inovadores, entre as tundras escandinavas e os pomares nipónicos, com ânsia de nascerem virados para as águas santas do Ganges, mas idolatrando as correntes de Yangtzé. 

Há complementos empalados nas calotas polares, em ambos os hemisférios, só a aguardar o degelo para irem em busca de Everestes sujeitos e predicados.

Existem virgulas a bolinar ventos alísios (algumas de pontos às costas), com o mesmo ímpeto que as reticências cavalgam as dunas do Saara, em busca de dois pontos, parágrafos e travessões.

As ondas do Índico são tiles disfarçados, por não quererem ser vistos na companhia dos apreensivos circunflexos. Assim como os graves só querem ver os agudos pelas costas.

As interrogações não são mais do que exclamações vergadas ao peso de múltiplas dúvidas sugeridas pelas irrequietas marés lunares.

E assim se juntam dois mundos numa chuva descritiva cheia de figuras de estilo e com o epílogo esperado (ponto final).

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 9) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Mais de metade da população trabalhava no sector primário, nomeadamente na agricultura, com índices de produtividade muito baixos. O país apresentava uma grande assimetria: o sul, onde predominavam os latifúndios, prevalecendo uma escassa mecanização, e o norte, constituído por zonas de pequena propriedade, praticando-se uma agricultura tradicional.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Contos que nada contam 52 (Faina) - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Faina

A praia esvazia-se de olhos postos nas pranchas que deslizam na ondulação costeira, enquanto, na barra, as traineiras são preparadas para a faina, assim que terminar o pôr-do-sol.

As mulheres de negro aglomeram-se no pontão para sacudir os lenços brancos, na angústia dos céus carregados, na incerteza eterna dos ventos e na esperança do retorno breve.

O farol ilumina a liquidez da noite, mas o horizonte fica escondido entre a penumbra e a maresia. O ambiente sepulcral só não é total porque as águas martelam a vulnerabilidade das embarcações ao ritmo das preces afãs. 

Às ondas do mar pouco importa se os grãos de areia fina já foram, um dia, seixos lisos ou se as gaivotas poisam para palitar os bicos nas conchas abandonadas. Tampouco querem saber se as estrelas-do-mar são incendiárias jurássicas a preparar terreno para outras espécies ou se, nessa noite, as redes serão capazes de expulsar a fome.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 9) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando chegávamos em casa, havia sempre discussões, pois tentava sempre ter um pedaço maior no meu prato. Minha irmã Verônica, que conhecia minhas intenções, não tinha nenhuma confiança em mim, e ela tinha razão, pois quando me servia nas panelas na cozinha, escondia um pedaço de galinha sob o arroz para comer um pouco mais.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

No fundo do baú 75 - Emanuel Lomelino

A augusta Casa dos Altivos Artífices do Sétimo Saber Consagrado convoca todos os órgãos de informação competentes para a Gala Anual dos Credenciados Anónimos Voluntários que irá realizar-se em espaço, dia e hora e designar, na esperança de conseguir, em tempo útil, recolher a verba necessária para liquidar os valores propostos, em caderno de encargos, para aquisição de dois contentores de fogo de artifício, duzentos metros de passadeira vermelha, quinhentos cadeirões manuelinos, três mil velas de sebo envelhecido em casta milenar e um vaso de flores sazonais, com dimensão ainda por determinar.

Com o referido certame, pretende-se celebrar as alcoviteiras do Jardim Constantino, os cangalheiros da praia de Carcavelos, as divas de São Sebastião, os ciciosos de Mata-Cães e as jovens promessas do núcleo de perfumistas azeiteiros da Abóbada Celeste.

A todos os participantes serão entregues certificados de presença e mérito, além de coroas de louro, personalizadas, e um porta-chaves alusivo à efeméride.

Se sobrar dinheiro, contamos requisitar os serviços dos gaiteiros de Milfontes que, caso aceitem, brindarão todos os presentes com uma sinfonia de acordes à moda de Viena ou, em alternativa, um fandango albicastrense.

A todos os convidados será solicitado traje de gala, que pode ser adquirido nas nossas instalações até dois dias antes do evento. O uso de chapéu é facultativo e os sapatos não podem ser rasos.

Este será o primeiro de muitos encontros previstos. A seu tempo honraremos os percursos dos gagos assobiadores de andaime, as costureiras de corta casaca à tesourada e os arquivistas de manuscritos da Biblioteca que vai ser construída nos antigos terrenos da Feira Popular.

Informamos que o acesso pode ser feito através de qualquer meio de transporte, com excepção dos aéreos porque é muito difícil encontrar um espaço com heliporto.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 11 de janeiro de 2026

No fundo do baú 74 - Emanuel Lomelino

Há quem acredite no altruísmo das palavras, mas só um incauto pode perspectivar bondade numa conjugação verbal que impõe em vez de sugerir ou, quanto muito, ordena no lugar de colocar à consideração.

Até as pedras, sejam de calcário ou basalto, conseguem transmitir mais leveza do que os discursos militarizados, mesmo ao som de polcas e corridinhos, feitos à medida dos substitutos dos tubos catódicos.

Deixou de existir temperança e vergonha nas faces artificialmente bronzeadas porque o Zé do Manguito continua a preferir sopas e descanso em vez que tirar os suspensórios e mostrar o Judas arranhado.

Havendo música, couratos assados e uma reles esferográfica timbrada, aparecem logo magotes de desocupados intelectuais predispostos a agitarem bandeiras e bandeirolas ao vento carvoeiro, enquanto os copos não secam a cevada quente.

O despertar vem depois, quando os mesmos fidalgos movidos a rancho folclórico, descobrem que, afinal, a caridade é um caça-níqueis faminto e sem escrúpulos, e resolvem lançar outras bandeiras ao vento, soltar verbos pedintes e arrastar as carcaças pálidas no meio da urbe de cintos apertados, como fossem todos sócios-fundadores da liga dos revoltados surpreendidos, mas sem cotas pagas e com o tempo caducado.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 10 de janeiro de 2026

No fundo do baú 73 - Emanuel Lomelino

Não existe melhor forma de exercer a individualidade plena, sem cair no descrédito de confundir o seu significado, do que a arte de pensar, e desta premissa nasceram todas as preciosas definições de liberdade, mas também alguns enganos – porque nem todos os filhos do pensamento são sensatos.

Há aqueles que renegam, mais de três vezes, a equidade e preferem as pirâmides (mesmo invertidas) em detrimento de linhas rectas (mesmo paralelas).

Esses podem ser identificados pelo som elevado das suas vozes argumentativas, pois, acreditam na imposição e nos dogmas, e desconhecem o que significa pluralidade e livre-arbítrio.

Depois temos os que desconhecem que os pensamentos podem ser como o ferro forjado e que, quando nas mãos de um bom artesão, podem transformar-se em autênticas preciosidades, mas, quando molhados pela ignorância ou preguiça, também enferrujam. E um pensamento enferrujado, por mais forte que pareça, facilmente é quebrado.

EMANUEL LOMELINO

Limites - Adriana Mayrinck

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Marcos tentou mais uma vez. Negado. Tentou trabalhos temporários. Insuficiente. Sentia-se à deriva.

Mariana recusou a transferência para o Brasil. Era um emprego que levara anos para conquistar. Os dois se amavam, mas estavam se apagando.

Ele comprou uma nova passagem. Decidiu: seria sua última tentativa. Ou o amor resistia, ou desabava como areia entre os dedos.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No fundo do baú 72 - Emanuel Lomelino

Não se pode ter horror da morte sem a experimentar. Não se deve ter pânico da morte por desconhecimento. Sabendo da sua existência, e tendo a consciência tranquila, não é lógico temê-la.

Não se podem recear as mordidas dos necrófagos nem o triturar dos ossos pelas suas potentes dentadas. Não se deve ter pavor do desmembramento que fazem, na hora de devorar os corpos inertes e sem vida.

Não sei nada sobre a morte, para além do seu carácter definitivo. Por isso não lhe tenho medo.

Sei que Lavoisier tinha razão quando disse: …Na natureza nada se perde, tudo se transforma, por isso tampouco temo os necrófagos.

Aquilo que me faz transpirar a espinha, arrepiar os ossos e descrer da justiça divina, são os abutres. Esses têm o dom de cheirar, à distância, o sangue dos golpes recentes e, sem esperarem a morte, estão sempre prontos para aproveitarem as fragilidades e alimentarem-se das feridas ainda por cicatrizar.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 8) - Tita Tavares

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Para surpresa sua, descobriu que as suas raízes estavam bem enterradas debaixo de uma enorme rocha que, mesmo assolada por vendavais e fortes intempéries, nunca bulira ou se desviara. Essa rocha, fiel guardiã de uma história, estava no ponto mais setentrional da vila, de onde se localizava a direcção dos ventos e também o meridião.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

No fundo do baú 71 - Emanuel Lomelino

Por vezes, nos momentos de ócio, dou por mim a questionar a importância das palavras que gravo, com força desmesurada, nas pobres folhas brancas que coloco diante dos olhos.

Nesses instantes de lassidão e desinteresse, revejo tudo o que escrevi e deixo que a dúvida se instale no mais recôndito espaço da mente, como quem recheia um qualquer doce conventual.

As perguntas sucedem-se, frenéticas, sem encadeamento lógico ou propósito definido. Simplesmente materializam-se como quem nos visita de forma aleatória e sem motivo.

Mesmo podendo esclarecer a origem de cada texto, não consigo explicar a impetuosidade, quase violenta, com que firmo cada letra no corpo de papel, como irradiasse uma fúria incontrolável e desmedida.

Não tenho sido capaz, talvez por falta de habilidade, de encontrar uma justificação coerente para essa atitude desproporcional, nem sei se algum dia conseguirei.

Quanto à questão inicial, se houvesse um mínimo de valor naquilo que escrevo, jamais teria discorrido sobre a forma exaltada como o faço.

Resta-me continuar a fazer como até aqui e seguir o conselho do poeta W. D. Roscommon: escreve com fúria, mas corrige com fleuma.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 8) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Verônica pegou a galinha pelos pés, e eu a segurei pela cabeça. Sabia que se matava a galinha pelo pescoço, mas não sabia o lugar exato. Além do mais, estava morrendo de medo de praticar tal gesto. Criei coragem e cortei o pescoço da galinha, e ela parou de se debater. Minha irmã pegou um recipiente para aparar o sangue, que mais tarde deveria ser colocado na panela para fazer o tal “molho pardo”.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

No fundo do baú 70 - Emanuel Lomelino

Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.

Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.

Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.

Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.

Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

No fundo do baú 69 - Emanuel Lomelino

Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.

Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.

Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.

Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.

Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.

A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.

Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.

EMANUEL LOMELINO