segunda-feira, 26 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES



Os cinco sentidos anestesiados.
Rotina moderna atroz e sufocante - Chegar em casa, tomar banho, sentar no sofá e relaxar por alguns instantes antes do jantar. Ouvir o barulho sufocante da televisão,o barulho dos carros na rua ou ouvir a playlist que tortura os tímpanos. Ainda no sofá não conseguir se concentrar em nada. Manter-se preso ao celular, colocar o referido por sobre a mesa e comer rapidamente sem saborear o alimento. Sentar novamente no sofá e pegar um livro e não ver nada. Tocar o livro como quem passa a mão sobre qualquer coisa inútil. Não ser capaz de sentir o cheiro singular de um após a chuva. Sentir sono acessando obsessivamente o celular. Ver, ouvir, tocar, cheirar, este o gosto amargo de nosso tempo.
E se chegássemos em casa e olhássemos ao redor e apreciássemos na mobília, a delicadeza dos efeitos das luzes no cômodo, e se não ligássemos a televisão e ficássemos durante cinco minutos em silêncio, sem celular.
E se tomássemos um banho lento e pacífico, sentindo a água correr pelo corpo, de olhos fechados e mente aberta.
E se preparássemos mesmo que rapidamente nossa comida, tocando nas hortaliças e vegetais sem a brutalidade dos autômatos...
E se ouvíssemos os sons misteriosos que o silêncio nos proporciona...
E se realmente sentíssemos o gosto do alimento, um paraíso se abriria certamente.
E se todos pudessem ler romances e livros edificadores...
Uma nova atribuição seria dada aos sentidos.

ABRAÇO DO POETA.

João Ayres

mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.

Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.

domingo, 25 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ANDREA SANT ANNA


"Logo ali, na esquina do caos...
Essa crise falada, noticiada, prevista, orquestrada pela mídia, no mínimo nos faz refletir sobre o consumo excessivo e sobre a mentira social da civilização em que vivemos. Penso que com apenas 1/3 da grana que já foi investida para salvar bancos, resolveria a fome e a miséria gritantes neste mundo. A grana que se gasta em armamentos serviria à todos em alimentos.
Quanta estupidez humana! E tudo parece tão velho e surrado! Os mesmos erros, a mesma ganância predatória, a mesmíssima mesquinhez... E eu? Mais uma idiota apenas, pensando que estou acima deste lodo fétido... rs ... ilusão! Sou parte dessa lama e provavelmente cheiro como todos, à merda inconsequente!
No entanto, ainda sou capaz de me espantar e mesmo ainda emocionar-me com pequenas e simples coisas, , um beija-flor, um esquilinho lépido passando batido , com o vermelho pássaro Tiê, sangue bom! Ou, uma canção que me faça estremecer e sentir um descompasso no ritmo do meu coração... cantos de cigarras, sapos, grilos, corujas e pássaros... Tudo isso e outras coisitas mais me tocam tão fundo quanto a desilusão com o mundo... Contradições, as de sempre... Sensações que me deixam ausente...
Estou indo para mais algum lugar e uma vez mais sinto-me abandonar algumas cascas pelo caminho. Os fios brancos proliferam em minha titubeante cabeça e já perco alguns dentes e juízo. Sim, sou capaz de perder todo o juízo a qualquer momento! Toda a minha capa de lucidez esconde sempre, ou tenta, a mais aguda loucura disfarçada em um sorriso elegante ( nem tanto) de capa de revista fútil. Sou ridícula em minha falsa elegância. Sou infantil em meus disfarces, apesar da clara passagem do tempo pelos meus poros, pêlos, corpo e alma. Não sou mais capaz de sorrir alegre e levemente por muitas vezes, embora o faça. Tornou-se mais raro e é o preço caro da perda inevitável da inocência.
Somos uma grande mentira. Mas, digo isso, sem peso. Apenas reconheço uma tela ilusória que não é a Verdade Absoluta. Não mesmo."    Andrea Sant Anna - 2011

mini-Biografia: Andrea Sant Anna

Mãe, avó, contadora de histórias, arte-educadora, ceramista, oficineira, Terapeuta Corporal
Expressar-se é curar-se. Me interessam coisas de cura e expressão. Arte e saúde. Coisas de dentro e de fora. Coisas com as próprias mãos , como desenhar, tocar, escrever, modelar, massagear, comunicar, acarinhar, cuidar, acolher, nutrir.  Me interessam as pessoas, sobretudo, as crianças , melhor momento dos humanos! 
Não sei bem o que fazer  com tudo isso, mas vou fazendo.
E indo ...
E expressando,  criando
E me curando...

sábado, 24 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

A caminhada começa sempre com um primeiro passo, para o lugar, o desejo, o sonho, o encontro, o projeto, o objetivo.
Existe a vontade e a direção que impulsionam, mas inerente a isso, algo maior conduz.
E se deixarmo-nos levar... surpresas agradáveis podem fazer parte desse caminhar.
E assim, dando passos certos, firmes, às vezes hesitantes, vamos percorrendo estradas, pontes, oceanos.
Caímos em abismos, atravessamos desertos, vendavais, redemoinhos, tempestades, mas com alguns arranhões e cicatrizes, o entusiasmo, o acreditar, o ideal, aliam-se ao tempo e ao ponto onde devemos chegar e estar.
Com o autor também acontece o mesmo, temos a ideia, o impulso, a primeira palavra... mas o que vai se desenvolver a partir daí, é como começar uma viagem, cheia de aventuras por terras desconhecidas.
É para esse caminhar, essa aventura que convido a todos a participarem desse espaço bem brasileiro, com sabor tropical, caloroso e extremamente rico da nossa cultura, tão colorida, cheia de nuances, tons, ritmos, palavras...

E faço um convite aos moldes do nosso mestre da literatura Guimarães Rosa:
"Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia"

Vamos acompanhar, participar, divulgar, e nos deixar envolver por esse abraço da arte da escrita, com a participação de autores, poetas, escritores,
nesse cantinho bem brasileiro, aqui, no FALA AÍ BRASIL ...


Um abraço, do lado de cá, do oceano!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

FALA ÁFRICA... SOBRE MACVILDO PEDRO BONDE

JOSÉ MANUEL MARTINS PEDRO
(correspondente de autores africanos)

Eu vou convivendo, cada vez com mais dificuldade, com esta minha incorrigível mania de misturar poesia com a vida.

Não obstante esta minha dificuldade vou tentando racionalizar os problemas e refletir sobre eles.

Assim, em treino poético, é comum ver, e/ou ouvir – nas redes sociais – as inúmeras atividades literárias que através de um serviço de qualidade à cultura lusófona, novos autores se afirmam.

Aqui faço uma declaração de voto para explicar que – na atual fase da minha vida – tudo o que diz respeito à Arte da Palavra me torna particularmente sensível e daí dar o merecido contributo para a sua divulgação.

M.P.Bonde - Macvildo Pedro Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo, Moçambique.

Foi membro do projecto (JOAC) Jovens e Amigos da Cultura entre 2003-2004, com Mbate Pedro e outros jovens. Aqui, para além de declamarem textos em eventos culturais, realizados na cidade de Maputo, aprimoraram o seu gosto pela escrita.

Em 2004 foi convidado para fazer parte do grupo Arrabenta Xithokozelo (Leo Cote, Uraca Zulima, Salésio Massango e outros) onde animavam as noites de poesia e música no Modaskavulu do Teatro Avenida.
    
No coletivo, fez parte da organização da semana Noémia de Sousa, num espaço de discussão da poesia e pensamento da autora e de sua influência na literatura moçambicana entre 2007 a 2010.

Em 2010 foi agraciado com uma medalha e obras de autores moçambicanos, nas comemorações dos 123 anos da cidade de Maputo, no Jardim Tunduru.
A sua arte poética possibilitou o encontro com Cucha Carvalheiro e José Rui Martins, do teatro Acert de Portugal. Sandile Dhikeni, da África do Sul, no Teatro Avenida.

Apresentou, com Flávio Chongola, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, um artigo sobre a estética de José Craveirinha e sua influência na poesia moçambicana.
Tem textos publicados na coletânea Arqueologia da Palavra, e em revistas eletrónicas.

Em 2017 lança a sua primeira obra literária com o título “Ensaios Poéticos“ pela Editora Cavalo do Mar.

M. P. Bonde revela na sua escrita a influência de muitas leituras e dos grandes mestres da literatura. Ao lê-lo, várias vozes bem conhecidas da literatura moçambicana e universal, ressoam aos nossos ouvidos, num eterno diálogo intertextual.

Segundo Fernanda Angius, percorrendo as páginas de “Ensaios Poéticos”, chega-nos uma mensagem nostálgica da infância perdida, ou de um sonho adiado: “Pode ser que ao anoitecer as gaivotas se cansem da faina e partam para a nossa Ítaca do índico e, como elas, seguirei o rasto salgado do cardume aprisionado no sonho”. 

Estamos diante de um poeta que se interroga e nos interroga. Mas Bonde não segue o seu caminho, desalentado e solitário; ele dirige um apelo à sua geração para que os sonhos se reacendam e o futuro possa acontecer.

                                                                  José Manuel Martins Pedro
  (correspondente de autores africanos)
Lisboa, 23 de Junho de 2017


quinta-feira, 22 de junho de 2017

EU FALO DE... TOCA A FALAR DISSO E A PARCERIA


Por esta altura já todos estão, mais ou menos, familiarizados com a parceria TOCA A ESCREVER/IN-FINITA - dois projectos paralelos que se aliam com o propósito de alargar a base de público de um projecto maior, o de divulgação da lusofonia.

Neste contexto, a importância do blogue TOCA A FALAR DISSO aumenta, servindo de apoio à introdução de outras formas de divulgar autores da esfera lusófona.

Sendo certo que, ao longo dos anos de existência, o TOCA A FALAR DISSO sempre se disponibilizou para publicar textos de outros intervenientes culturais, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que aderiram e contribuíram.

Uma vez mais, por iniciativa das minhas parceiras da IN-FINITA, resolveu-se aproveitar uma ferramenta já existente e dar-lhe um uso mais regular.

Assim sendo e com efeitos quase imediatos, este blogue servirá também para dar voz a alguns autores através dos seus textos criativos e/ou críticos. (Já estão no prelo seis mas a tendência será tornar mais regular estas contribuições individuais.

Por outro lado e como escrevi num artigo anterior, este alargar de actividades obriga a adição de mais elementos ao projecto e, assim sendo, comunico desde já que teremos a partir de amanhã, e de forma regular (uma vez por mês), a participação de José Manuel Martins Pedro, como correspondente de autores africanos, que nos dará a conhecer autores dessa proveniência, numa rubrica chamada FALA ÁFRICA.

Pouco a pouco temos estado a limar algumas arestas, e continuaremos a fazê-lo, de forma que o projecto, no seu todo, alcance cada vez mais público interessado em acompanhar as artes lusófonas.

MANU DIXIT