terça-feira, 24 de abril de 2018

EU FALO DE... UM DIA CHEIO


O dia começou aziago com chuva intensa tocada a vento. Péssimo para quem decide envergar, sob o casaco impermeável, camisola branca e tem de carregar nos braços uma caixa, com 80 livros, protegida por um saco de plástico, cuja cor preta ocultou na perfeição a sujidade que o revestia. Resultado: todo o dia, de manhã à noite, pela necessidade de agenda, com a camisola manchada de ferrugem, como se estivesse com o conteúdo de uma chávena de café estampado no peito.

Foi neste preparo que enfrentei o público que marcou presença no I Painel In-Finita, subordinado ao tema Poesia e acção social, com o autor Manuel Machado e seus convidados, Sara Teiga e Ricardo Fonseca.

Sobre o evento muito poderia ser escrito tal a enxurrada de assuntos interessantes abordados. Durante hora e meia, que passou num piscar de olhos e sem que dessemos conta, dissertou-se sobre matérias sensíveis, com empolgamento, diversão, seriedade e emoção extrema. Os testemunhos e ideias expressas pelos três membros do painel refletiu-se na assistência e a interacção do público presente ajudou que, no final, todos sentíssemos o sabor amargo de uma conversa que poderia, muito bem, ter continuado não fosse a crueldade de um tempo, que não o atmosférico, que não perdoa na sua passagem e não há meio de conseguirmos esticá-lo.

À In-Finita resta agradecer, aos que enfrentaram uma manhã chuvosa, pelo fantástico evento proporcionado e manifestar o regozijo pela satisfação que nos foi transmitida por todos os intervenientes.

O almoço, junto de alguns autores, ajudou a acalmar as emoções sentidas durante a manhã, até da camisola manchada, mas fez nascer a incerteza sobre o que ainda nos esperava às 15 horas, com o lançamento das primeiras antologias da In-Finita: Conexões Atlânticas (só com autores brasileiros), coordenada pela Adriana Mayrinck, e Toca a Escrever (só com autores portugueses), coordenada por mim. Ambos com a participação indispensável e essencial da Julia Mayrinck, a melhor designer que poderíamos ter – e temos a sorte de ter.

Por diversas circunstâncias, e tal como referi publicamente no evento de Sábado, estava à espera de uma assistência reduzida. No entanto, para minha surpresa e nossa satisfação, a sala foi-se compondo e os números superaram, em muito, a minha fraca perspectiva.

O início deste evento, tão importante para os membros da In-Finita, pode ter sido entendido, por quem esteve presente, como enfadonho e repetitivo mas, tanto eu como a Adriana sentimos a necessidade de, nesta fase ainda embrionária do projecto, explicar aquilo que nos move e quais os nossos objectivos. Queremos deixar bem claro que a In-Finita não aparece para dividir mas sim para agregar; que não aparece para substituir mas sim para complementar. E essa nossa mensagem só pode ser entendida se o repetirmos exaustivamente.

Mas depois da parte chata e das explicações sobre as razões que levaram ao aparecimento das antologias CONEXÕES ATLÂNTICAS e TOCA A ESCREVER, surgiu o momento de partilhar a nossa satisfação com os presentes e fazer aquilo que mais gostamos de fazer e, sem modéstias, sabemos fazer bem: DIVULGAR AUTORES.

Durante o evento foram projectadas imagens de todos os autores brasileiros que contribuiram para que o Conexões Atlânticas seja o primeiro projecto realizado totalmente de acordo com o que idealizámos. Todos os presentes na sala (autores participantes da antologia Toca a Escrever incluídos), receberam um exemplar CONEXÕES ATLÂNTICAS, posaram para a posterioridade e assim, a partir desse momento, passaram a conhecer 54 autores do outro lado do atlântico, de diversos pontos do Brasil. E de imediato houve quem se dispusesse a ler alguns poemas desse trabalho.

De forma resumida, posso dizer que 21 de Abril foi um dia em cheio para a In-Finita, com mais uma confirmação do quão acertados estamos no caminho que decidimos percorrer e que, continuando fiéis às nossas convicções e propósitos, o resultado só pode ser um: mais dias em cheio.

Quanto à camisola manchada… está na lavandaria!

MANU DIXIT


segunda-feira, 23 de abril de 2018

AS CRÓNICAS DA AVÓZITA... DOIS EM UM



Nem sempre se consegue num só dia, ou melhor, numa só tarde, estar em dois eventos distintos, em locais diferentes, e começando ambos praticamente à mesma hora. No entanto, quando se quer e a distância entre ambos é curta, até se consegue.

Foi o que fiz, num sábado entre calor e frio.

Abracei e beijei conhecidos e amigos. Conversei e troquei ideias. Revi alguns desconhecidos. Cusquei e se calhar até critiquei, apenas com o olhar.

De seguida, e a poucos metros, também beijei e abracei conhecidos e amigos. Revi alguns desconhecidos. Depois, entre palavras e cantares, ouvi, sorri, pasmei, também falei e fiquei enquanto teve que ser.

Também cusquei e critiquei, pois os olhos continuaram a trabalhar ao serviço da mente.

E pronto, consegui numa tarde “DOIS EM UM”

MARIA ANTONIETA OLIVEIRA





domingo, 22 de abril de 2018

ADRIANA FALA DE... PROJECTO IN-FINITA



A IN-FINITA, no Brasil produzia eventos culturais em diversos segmentos e ao atravessar o Atlântico veio determinada em seguir um único caminho: divulgação da poesia, prosa, e todas as vertentes que inclui a língua portuguesa.

E dentro desse formato, eu e Emanuel Lomelino, decidimos que jamais iríamos trilhar os passos das editoras, mas por visão, conhecimento, percepção e necessidade, chegámos à conclusão de que uma lacuna no mercado deveria ser preenchida e assumimos essa árdua missão, em fazer um caminho diferenciado do comum, do que todos buscam, do que todos estão acostumados.

Não queremos levantar bandeiras, ou apontar dedos para o que é certo ou errado, existem apenas pontos de vistas, necessidades, exigências diferentes, e cabe ao autor escolher o que melhor lhe satisfaz. Pensando assim, a IN-FINITA, independente dos trabalhos que seus colaboradores realizam para outras editoras, decidiu começar a produzir  suas próprias antologias, dentro do que é possível realizar e, principalmente, do que acreditamos.

Temos todos os atributos necessários para um excelente resultado, pois despidos de vaidade e ambições, queremos apenas realizar. Orientar, contribuir, acrescentar, seja numa revisão consciente das normas e regras gramaticais e literárias, nos cuidados ao escolher os textos, na paginação atenta e bem feita, na qualidade gráfica e, acima de tudo, na transparência e honestidade com que os trabalhos são realizados.

Princípios que não abrimos mão pois é assim que estamos construindo um novo caminho que seguia em trilhos paralelos. Temos as nossas ferramentas de divulgação com os blogues e as redes sociais, com o TOCA A ESCREVER, o TOCA A FALAR DISSO e as páginas de facebook, instagram e twitter. Temos o espaço, na parceria com o Palácio Baldaya, para dar voz aos autores em saraus, painéis e tertúlias, entre outros. Temos o espaço para divulgar as obras, que são as nossas mini feiras e além disso, nossas doações a biblioteca Baldaya - uma forma de fomentar e divulgar ainda mais quem vem até nós.

Temos tudo. A competência, os profissionais,  a vontade, a garra, as ferramentas de divulgação, o conhecimento e as possibilidades de realização, sem utilizarmos artifícios tão comuns e pouco nobres para angariar esse ou aquele autor ou contato.
Estamos aqui, celebrando um passo que foi realizado dentro de tudo o que acreditamos e que sempre será nossa linha de conduta.

As antologias, cada uma com suas particularidades, pois cada coordenador tem total autonomia para fazer do seu trabalho o que lhe achar mais conveniente, mas sempre em uníssono consentimento e concordância com o que nos une e nos conduz para os passos seguintes.

Comemoramos um trabalho que nos satisfez plenamente e que além de ensinar, conduziu exatamente ao que pretendíamos mostrar. As Antologias TOCA A ESCREVER e CONEXÕES ATLÂNTICAS são a nossa expressão, dentro do que já fazemos há tantos anos... agregar, divulgar e mostrar que com menos se ganha muito mais, pelo menos em satisfação pessoal e profissional.

Gratos a todos que acreditam e caminham junto com a gente. Em breve, anunciaremos novos trabalhos, pois os projetos são continuados e atentos às necessidades dos autores, editoras e ao que queremos deixar em contributo para a nossa língua portuguesa e à cultura de nossos países, pois é com uma gota que se faz... o oceano.


DRIKKA INQUIT

sábado, 21 de abril de 2018

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO (XXVIII)


Alteridade entre passarinhos

São Jorge é um passarinho de quintais. Veja que este é um passarinho que anda mais que voa. Logo me assemelho a ele, porque sou do tempo da travessia dos quintais, do tempo do hortar e do orai por nós que se planteia na terra roxa. Sou desse tempo da gentileza que palavras firmes carregavam também suas belezas para além das maldições, e não eram só de praguejar; de maldizer. Então sou do pertencimento dos quintais, feito os pássaros que andam e transitam por pequenas escolhas de percurso. Tudo isso digo porque nesses dias vivi uma cena que muito me comoveu, uma cena que não era humana. E questiono sobre como se pode ser um São Jorge longe de quintais. Sim, porque ergueram muralhas sem traços de passarinho. Ergueram, aqui nessas cidades, essas grandes gaiolas que apertam e apartam passarinhos. Ergueram grandes ninhos de desumanos sem rastro de terra, sem roseira, onze horas, sem hera ou hora de ouvir bichos de quintais. Ergueram grandes muros com cercas elétricas. E enjaularam gente de asa por puro medo dos vôos dos bichos mais novos de aventuras.
Mas eu vivi uma cena de alteridade entre seres não humanos. Dois São Jorges no meio de uma travessa. Um deles ferido por algum tipo de atropelamento lá agonizava no paralelepípedo. Um dos São Jorges pulava de um lado pro outro e em volta do pássaro que estava em agonia. Eu vinha passando e vi a cena. Acho que por algum efeito inexplicável de alquimia virei um terceiro São Jorge e peguei o bichinho na mão, ainda no quente de seu frágil corpo, que foi logo se acalmando, se preparando pra morrer, diminuindo. Dentro de minha mão o corpo quente da morte de um passarinho. O outro São Jorge então se foi, buscando calçada. Percebi que era ali uma preservação não da vida da espécie, mas da morte da espécie, um amor fati dos quintais e rituais que perdemos. Tirar o corpo da rua para não ser esmagado. Morto, não esmagado. E nós, os tolos humanos contemporâneos conversadores de umbigo, vamos entendemos cada vez mais de aprisionamentos, armadilhas e da violência das arma duras, das dita duras, das palavras duras. Caçadores implacáveis da própria espécie. Nós matamos é na rua e esmagamos cabeças de São Jorge com balas perfurantes sem gesto que lembre a preservação da morte da espécie, a da humana ainda mais rara.
Lá fui eu subindo a Rua do bairro do Pé Pequeno, me sentindo a pequena, talvez menor que um passarinho. Velando o corpo no trajeto fiz a oração de Maria. Agora e na hora de nossa morte. Agora e na hora de nossa morte.
Enterrei o São Jorge aninhado entre as folhas fortes de uma amendoeira. Fiz afeto na terra discreta, no jardim da infância, onde busco minha criança, enterrei aquele ser de asas. E senti pena. Dele? Não. De mim. Da minha espécie. Por um triz quis entrar no corpo dele e me enterrar com gentileza e amor com minhas próprias mãos. Mas não sou passarinho.
E eles não passarão se não tirarmos os corpos em agonia dos outros de nossa espécie que se quedam ao chão. A isto se chama alteridade: olhar o outro quando tudo é plena extinção.

mini-Biografia: Patricia Porto

Graduada em Literaturas Brasileira e Portuguesa, Doutora em Políticas Públicas e Educação, professora e poeta, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas).

sexta-feira, 20 de abril de 2018

EU FALO DE... ANTOLOGIA TOCA A ESCREVER



Aqueles que me conhecem há mais tempo sabem que não sou de fazer grandes manifestações de regozijo, seja em que matéria for. Inclusive, já aconteceu, um par de vezes, terem-me questionado sobre o modo, quase frio e distante, como reajo quando os meus trabalhos editados chegam-me às mãos. Nesses momentos, a minha racionalidade sobrepõem-se ao lado emotivo/emocional e, por essa razão, aceito sem contestação esse apontar de dedo.

Contudo, as minhas reacções esfíngicas não significam total indiferença. Acho que esse modo de reagir está intimamente ligado ao elevado grau de exigência que coloco nos projectos em que me envolvo e nunca fico completamente satisfeito com os resultados obtidos porque tudo pode ser melhor do que se apresenta.

Seja como for, e não querendo perder mais tempo com auto-análises, cito o provérbio antigo: “Quem vê caras não vê corações”, para explicar que, apesar do aspecto circunspecto e sisudo, há sempre uma centelha de aprazamento na hora de ver mais um projecto chegar ao fim. É o caso da antologia TOCA A ESCREVER.

Não vou voltar a explicar as razões que deram origem ao projecto, nem os conflitos interiores que com ele surgiram e ainda me fizeram reflectir na possibilidade de não avançar, quero antes deter-me no percurso e dissertar um pouco sobre o balanço entre o que me propus realizar e o resultado final.

A ideia inicial, partindo sempre baseada no trabalho que tenho feito, era criar e possuir mais uma ferramenta de divulgação de autores e respectivas criações poéticas, que não se esgota com o aparecimento físico da antologia porque ainda falta fazer o pré-agendamento, dos poemas, no blogue TOCA A ESCREVER, e partilhar todos eles nas diversas páginas e grupos das redes sociais, onde costumo divulgar a poesia lusófona. E este é um dos aspectos inalterados e inalteráveis de todo o projecto.

Apesar de acreditar que este trabalho poderia ser bem sucedido, fiz questão de colocar, no regulamento que redigi para o efeito, uma cláusula que referia a necessidade de atingir o mínimo de 50 poemas, para que tudo fosse viável. Hoje, chego à conclusão que essa “defesa” foi quase premonitória, uma vez que foram seleccionados apenas 56 poemas.

Muitos poderão estranhar a reduzida participação, tendo em conta o elevado número de autores que conheço e com quem tenho trabalhado frequentemente. No entanto, e sem querer passar a ideia de premonição, eu estava realmente à espera de números semelhantes. Passo a explicar as razões.

Levando em consideração que esta antologia é a primeira em que o meu envolvimento é total e absoluto, edição incluída, nunca quis tomar proveito das carteiras de e-mails, a que tive acesso enquanto coordenador de outras antologias, ao serviço de editoras. Então, limitei-me a fazer a divulgação do projecto apenas nas redes sociais e desse modo evitar ser acusado de beneficiar-me com mailing alheio. Com esta postura, e no caso de projectos futuros semelhantes, terei a minha própria carteira de contactos.

Por outro lado, mesmo com alguns autores amigos e outros, já divulgados no blogue, aparecerem na lista de participantes, também não enviei mensagens privadas pedindo para integrarem o projecto. Todos, sem exceção, aderiram por decisão própria e espontânea, como melhor lhes aprouve, e apenas porque, num qualquer momento, cruzaram-se com a divulgação feita.

Durante o período de recepção tive que decidir entre três critérios de selecção: aceitar tudo; aceitar apenas textos pelo valor criativo; ou aceitar somente textos isentos de erros ortográficos e de pontuação.

Como sou defensor que qualidade é um conceito amplo e abstracto, optei por escolher a terceira via e dar preferência a textos isentos de erros. Preferi escolher a perfeição à criatividade. Felizmente consegui reunir os referidos 56 poemas.

Confesso que, no início, tive algumas dificuldades em lidar e gerir todos os passos que a produção de um livro exige mas, com o passar do tempo e a cada obstáculo ultrapassado, fui-me sentido mais confortável e confiante e todo o processo começou a fluir. O resultado final, independentemente dos aspectos que eu referi ao longo deste texto, acaba por deixar-me satisfeito e com a certeza que também consigo fazer bons trabalhos sem a rede de segurança (que tive em projectos idênticos) que as estruturas das editoras fornecem.

Mas a minha opinião, por mais argumentos que surjam e utilize, acaba por fazer de mim juiz em causa própria e, por isso, vou deixar que sejam os autores, no próximo dia 21 de Abril, às 15 horas, no Palácio Baldaya, a avaliarem a antologia TOCA A ESCREVER e a decidirem qual a sentença aplicável a este meu atrevimento.

MANU DIXIT