quinta-feira, 27 de março de 2025

Prosas de tédio e fastio 15 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

15

Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.

Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.

Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.

EMANUEL LOMELINO

A dúvida (excerto 24) - Zélia Alves

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Como padrinhos do noivo e da noiva, apenas a Dra. Alice e o amigo José. Não tinham querido mais ninguém. A cerimónia decorreu sem incidentes e quando os noivos, à saída, levavam com a habitual praxe das pétalas de rosas, foram abençoados com uns borrifos de chuva que uma nuvem que por ali passava decidiu presenteá-los, como que a abençoar aquela união. Nada que impedisse que seguissem, em cortejo, para o Parque Manuel Braga para tirarem as fotografias.

EM - A DÚVIDA - ZÉLIA ALVES - IN-FINITA

quarta-feira, 26 de março de 2025

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 30 - Emanuel Lomelino

14-02-2024

E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?

E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?

E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?

E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?

Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 25 de março de 2025

Prosas de tédio e fastio 14 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

14

Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.

Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colagénios porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.

Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.

Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 24 de março de 2025

Lomelinices 100 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

100

Quando era criança, e estava constantemente a ralar os joelhos ou a esfolar outras partes do corpo, ouvia os mais velhos dizerem que as dores, que então pouco sentia, viriam com a idade. Sempre achei muito estranho esse vaticínio e até o esqueci durante grande parte da vida.

Eis senão quando, chegado ao equador da existência secular, o corpo, qual despertador orgânico, começou a tocar e não há forma de o silenciar.

Dói caminhar, dói sentar, dói mexer, dói ficar estático, dói mover, dói tocar, dói ouvir, dói ver, dói falar, enfim, dói tudo, por tudo e mais alguma coisa, inclusive pensar.

Esta dor, que são várias dores em sequência, faz-me acreditar que, mais do que avisos, aquilo que os mais velhos faziam, quando eu era criança, era dar voz às suas próprias dores, demonstrando empatia pelas dores que hoje sinto e eles bem conheciam.

A diferença entre os dois tempos está no facto de, agora, não existirem crianças a brincar na rua e a ralar joelhos ou a esfolar outras partes do corpo. E, sobre essa dor, que desconheço, eu não sei como demonstrar empatia.

EMANUEL LOMELINO

Rogai por nós (excerto) - Malu Baumgarten

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Não consigo lembrar o rosto dela. Apenas três vezes estivemos juntas e ela arrasou meu coração. Disse que eu não era nada. Não sou. Tão vulnerável. Sem palavras quando, no telefone ela disse que meu desejo era falta do que fazer. Ocupada ela, muito, para pensar em mim. Só uma foda, fui. Aqui estou, uma foda, mas dói a minha pele. Fina, queima ao longo do corpo. Ovo descascado, pêssego macio, Maria Madalena sou. Choro também por ter ficado para trás quando era a hora da minha mãe. E feliz estava aquele dia, o anseio do amor depois de anos sem.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 23 de março de 2025

Lomelinices 99 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

99

Oiço o som metálico do trompete, que sai das colunas, e na mente ecoa-me um cenário distante, no tempo e no espaço, como uma lembrança acabada de nascer no improviso de Coltrane. Mas não é jazz, nem memória. É uma imagem vívida de outra era, outra realidade, talvez desejo, quem sabe sonho irrealizado.

Confuso, quedo-me, de olhos fechados, a escutar a sinuosa melodia que flutua indiferente ao impacto que me aplica, e vejo, tão nitidamente como o agora, um episódio de vida que, tenho a certeza, nunca foi meu. Existem dejá vus de momentos jamais vividos?

Abro os olhos pela urgência ofegante de voltar a mim e à realidade que me rodeia. O som dissipou-se, não sem deixar-me o corpo perturbado e trémulo.

As pernas bambas, prestes a colapsar, pedem-me que encontre um lugar para me sentar até que as palpitações regressem à normalidade. Receoso, caminho devagar até ao único banco vazio que vislumbro. Sento-me após uma caminhada eterna e tento colocar as ideias em ordem.

O coração desacelera e a lucidez é-me devolvida. Respiro fundo e, com a maior tranquilidade que o raciocínio me concede, concluo que estive, mais uma vez, à beira de uma síncope.

EMANUEL LOMELINO

Retrato de família (excerto) - Solange Cianni

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Os homens bebem vinho e riem das piadas machistas. Ele, José, ria tímido com canto da boca mas por dentro... que graça tinha? Que homem tem que fazer muitos filhos, que mulher tem que obedecer o marido calada, que lugar de mulher é na cozinha e por aí vai.
Ele não podia contar que quem manda é ela, que grita com ele porque não engravida, xinga de frouxo, bate a porta, dorme no outro quarto. Não podia.
Água fervendo no fogão, joga a massa na panela e tampa. Uma pica a cebola com os olhos cheios, a outra corta as tiras de tomate sem as sementes. Na frigideira o azeite já está no ponto para fritar a beringela com pimentão.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IX - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 22 de março de 2025

Prosas de tédio e fastio 13 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

13

Quando existe vontade tudo é possível.

Faço contas de cabeça, procuro soluções, testo ideias, exercito modelos e fórmulas até conseguir colocar em prática conceitos elaborados por mim.

Insisto, com resiliência, tentando provar que há sempre uma possibilidade e nada é inviável quando não nos desviamos de um propósito, de um objectivo, por mais difícil que ele possa parecer à partida.

Tal como este texto que, apesar de estar longe do seu epílogo e talvez necessitar de uma eternidade para ser terminado - porque tudo leva tempo -, tem sido escrito com esmero, e atenção redobrada, para que possa chegar ao seu final de forma satisfatória. Ou pelo menos convicto de que sou capaz de ser bem-sucedido.

Tive de reformular duas frases, lá atrás, pois duas letras tentaram escapar ao meu crivo e isso prejudicaria este exercício de escrita.

Afinal, não precisei de muito tempo. Bastou meia hora para provar que é possível escrever um pequeno texto sem recorrer à utilização de artigos definidos. Quem sabe, um dia, tentarei fazer algo semelhante com artigos indefinidos ou preposições.

EMANUEL LOMELINO

Pouline (excerto) Sara Timóteo

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A esposa de José era dotada de uma estatura baixa e muito harmoniosa de formas. O rosto era eclipsado pelos olhos bordejados por pestanas longas. Olhar extraordinário esse, que parecia nada ter retido de todos os horrores que já vira. Maria encontrava-se na posse de um medalhão de prata com a imagem da Virgem Maria sobre o qual ela e a tia Amélia (pouco antes do passamento desta última) haviam realizado um sortilégio com a finalidade de garantir o regresso de José da guerra.
Contudo, Maria acordara sobressaltada nas últimas noites, após sonhar com José sufocando com o próprio sangue. Devido a estes perniciosos momentos de pesadelo, ela encontrava-se cansada, desmotivada; inclusive, já fora repreendida pela enfermeira-chefe.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IX - COLETÂNEA - IN-FINITA

A dúvida (excerto 23) - Zélia Alves

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O Mondego corria mansamente, em contraste com os pensamentos de Joana, os quais se desenrolavam num turbilhão. Desta vez estava sentada na muralha do parque Manuel Braga e com o pensamento a mil, mas ia reparando num jovem que estava a lavar o “Basófias”. Basófias é um pequeno barco que faz mini-cruzeiros no Mondego. É muito agradável a viagem de cerca de uma hora junto às margens. Do alto, perguntou ao jovem quanto custava a viagem e a que horas partiria. “São 9,50€ e parte às quinze horas!”

EM - A DÚVIDA - ZÉLIA ALVES - IN-FINITA

sexta-feira, 21 de março de 2025

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 29 - Emanuel Lomelino

Imagem pngtree

11-02-2024

Oiço toda a gente a queixar-se da vida, a contestar o aumento disto e aquilo, a alardear falta de tempo e de oportunidades, a apontar o dedo às elites e aos estranhos, mas nunca admitir a culpa por ter ficado estagnada e pouco fazer, além de se opor ao mundo em causas banais, para mudar o rumo da própria vida.

Escuto os discursos patéticos, antitudo e mais alguma coisa, de pessoas que “educam” os filhos à base de consumismo, colocando-os entretidos em frente de telas, entregues à sua sorte e vontade, enquanto, os progenitores, gastam a sua falta de tempo e oportunidades a acompanhar “reality shows” e a ambicionar a vida glamorosa dos “nascidos com o cu para a lua”.

Sinceramente, já não acredito que o rumo seja revertido. Neste espaço-tempo em que estou, erradamente, inserido, vejo uma sociedade em cacos, com os valores morais invertidos e a contribuir para que as novas gerações nada mais tenham do que cabeças ocas e dependência em fármacos psicadélicos.

EMANUEL LOMELINO

Não cancele a corrida (excerto) - Rose Pereira

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Certamente, na profissão de motorista de aplicativo, qualquer um passaria horas contando histórias do dia a dia, especialmente dada a inevitável condição de ouvinte dos passageiros, que por vezes, relatam casos, falam de si, ou até pedem opiniões e fazem sugestões ao seu bel prazer.
Do trágico ao engraçado, tem de monte. Nos abatemos diante de realidades inacreditáveis e cruéis, remoendo dores durante um turno e outro, e que por isto, mais pesado se torna o ofício. Por outro lado, as situações que acontecem e que nos fazem sorrir, são tão boas, divertidas, que colecionamos com gosto para correr o dia. Eu mesmo, costumo relembrar, e me pego feito um louco, sorrindo sozinho no meio de um trânsito engarrafado.
Entre tantas, uma recentemente me fez refletir na profissão que escolhi, que feliz, apropriei como missão.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IX - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 20 de março de 2025

Lomelinices 98 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

98

Com o acúmulo de dias pardacentos, que não me transportam a lugar algum, vou-me vestindo de silêncios e indiferença.

Olho em redor e apenas vislumbro números circenses banhados de vulgaridade e executados por carrancas enfadonhas, como se a originalidade moderna fosse uma repetição contínua de carnavais passados, contudo, a preto e branco.

Esta matização básica, insonsa de significado ou propósito, inflige-me dotes de frivolidade e frieza, como se todo o meu ser físico fosse constituído por blocos de gelo oxigenado pelas insignificantes aragens polares.

Mas desenganem-se aqueles que veem nesta insensibilidade austera um temperamento acomodado e cego. A mudez, além de boa conselheira, permite observar a transparência de todas as matizes e intenções.

Silêncio não é sinónimo de apatia, inércia, passividade ou alheamento.

EMANUEL LOMELINO

A casa dos ursos (excerto) - Maíra Baumgarten

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A tarde cai lentamente, as calçadas encontram-se cobertas de névoa outonal e a rua da margem ostenta ricas sombras de arvoredo no interior do córrego. O caminho até a Casa dos Ursos é longo e acidentado. Passa pelo grande edifício que oculta uma favela urbana inserida bem no meio de um quarteirão e segue até o colégio em direção à pracinha que fica na confluência de três ruas. Depois, a lomba híbrida que leva de uma avenida a outra através dos muros do Cemitério Israelita, de um lado, e dos estudantes de marketing, de outro. Na esquina o crematório de más lembranças.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 19 de março de 2025

Lomelinices 97 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

97

Hoje as sombras estão mais presentes que nunca. A escuridão estende os braços frios sobre cada esquina, beco e viela, tentando envolver no seu manto de breu tudo o que intenta luzir.

Há um sopro de mau agoiro personificado num uivo felino, rouco, contudo, tão monocórdico quanto arrepiante, intercalado com o som metálico de uma goteira ritmada e o ronco de uma árvore chacoalhada pelo Zéfiro persistente.

À distância de um receio fundado escuta-se o embate de saltos com os paralelepípedos da calçada, numa corrida acelerada, quase em duplo desespero.

No céu ribombam trovões em sequência, como elos de uma corrente interminável. Mas dos raios luminosos, que normalmente se seguem, nem sinal. Só som e escuridão.

Esta noite as sombras estão mais presentes que nunca.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 18 de março de 2025

Lomelinices 96 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

96

Apesar do grau de exigência que me coloco, adoro a minha falibilidade. É certo que me irrito com todos os passos mal medidos, com todas as derrapagens, com todos os deslizes, no entanto, entendo que as falhas fazem parte do processo e a melhor forma de as combater é admitir o erro e seguir adiante.

A parte confusa de tudo isto está na primeira afirmação que fiz neste texto: “… adoro a minha falibilidade”. Como pode alguém, que se diz exigente, ficar satisfeito com o facto de ser falível? A resposta é tão simples quanto óbvia.

Se refletirmos um pouco, facilmente entendemos que existe uma relação de causa-efeito a unir os dois conceitos. A exigência só faz sentido havendo imperfeição e esta é impulsionadora do carácter exigente.

No fundo, aquilo que advogo é a conscientização de que a génese da minha personalidade está umbilicalmente associada ao facto de ser, ad aeternum, um Ser imperfeito. Logo, se não fosse falível também não seria exigente.

EMANUEL LOMELINO

O caso calcinha anônima (excerto) - Lílian Maial

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– De quem é essa calcinha? A pergunta de Flávia, em tom incisivo, pegou Paulo de surpresa.
– De que calcinha você está falando, mulher?
– Dessa aqui, essa vermelha, obscena, sexy e, ainda por cima, tamanho P!
Flávia há muito deixara de ser tamanho P. Fazia de tudo para não passar para o G, apertando-se num M esgarçado e sempre de algodão e lycra, bem mais elásticas.
Paulo mostrou-se tão surpreso quanto Flávia, exibindo uma tranquilidade irritante:
– Olha, Flávia, você pode não acreditar, mas não faço a menor ideia de quem seja a dona dessa calcinha, muito menos o que ela faz no porta-luvas do meu carro. Você usou o carro ontem, deve ter colocado aí e nem se lembra.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 17 de março de 2025

Lomelinices 95 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

95

Já perdi a conta às vezes que metaforizei este paradoxo que existe em mim.

Por um lado, sou espírito eremitão, com sede de deserto e vontade de ficar em contínua meditação, abraçar os silêncios mais profundos, sentir a sangue pulsar nas veias, enxergar a passagem de cada segundo e alcançar o máximo de epifanias que o conhecimento possa outorgar.

Noutro prisma, sou o eterno amante do sedentarismo conformista; recluso num tempo que não me pertence, aonde me sinto desenquadrado, sem desejo de mudança – por revolta ou rebeldia – existindo apenas.

Por outro lado, sinto-me um nómada sem endereço certo nem rumo concreto, sedento por encontrar o lugar perfeito para instalar esta carcaça envelhecida e criar um entreposto de isolamento premeditado. Sou um beduíno, sempre irrequieto, em busca de um espaço para assentar arraiais, longe deste outro espaço que me restringe, aprisiona e bestializa.

Depois, enquanto me debato com esta triplicidade esquizofrénica, olho em redor e vejo inúmeras caravanas de camelos que circulam nos mesmos desertos que eu, com a diferença a residir nos holofotes que os acompanham. Então multiplica-se a necessidade visceral de metaforizar este labirinto temporal aonde me sinto enclausurado e de onde tenho ânsias de libertar-me.

EMANUEL LOMELINO

A dúvida (excerto 22) - Zélia Alves

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Daí, o ter sentido necessidade de o trair… como que para o obrigar a que ele mostrasse o amor que sentia por ela. Sabes o que é mais triste? É, por vezes, encararmos tudo o que saia do padrão considerado “normal” e tomá-lo como anormal e acharmos que devemos espicaçar, magoar para que possamos sentir alguma “segurança”, quando a insegurança existe apenas em nós. Mas quando não enxergamos que essa insegurança é nossa e só nossa, magoamos, recriminamos e exigimos dos outros.

EM - A DÚVIDA - ZÉLIA ALVES - IN-FINITA