terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 106 - Emanuel Lomelino

O mundo está cada vez mais chato.

Está tão maçador que me fez recordar uma lengalenga do início da minha juventude (14/15 anos), que eu recitava quando estava a falar com um chato, e dizia assim:

“Um chato tem duas hipóteses: ou vai à tropa ou não vai. Se vai, está tudo bem; se não vai, tem duas hipóteses: ou casa ou não casa. Se não casa, está tudo bem; se casa, tem duas hipóteses: ou tem filhos ou não tem. Se não tem filhos, está tudo bem; se tem filhos, tem duas hipóteses: ou é uma menina ou um menino. Se é uma menina, está tudo bem; se é um menino, tem duas hipóteses: é, chato, ou não é, chato?…”

Alguns compreendiam as pontuações (entoações) finais, mas outros havia que faziam com que as reticências fossem substituídas pelo recomeço da lengalenga.

O mundo está tão chato que até exaspera e fico com saudades dos chatos da minha juventude. 

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 105 - Emanuel Lomelino

À medida que me embrenho na longitude da idade, reforço a certeza de ter sido integrado num tempo que jamais deveria pertencer-me.

Esta percepção – algo entre ingenuidade e sentimento de negação – fez-me acreditar, na juventude, que o meu carácter era inocente - por berço, natureza e fado.

Com os anos, esta leitura revelou-se-me, surpreendentemente sem espanto, na plenitude da sua erroneidade, permitindo-me identificar, como nunca antes vira, os pontos de união entre episódios isolados e o meu desenquadramento temporal.

Na ausência de via alternativa, procurei adaptar a minha essência à realidade, como um trapezista, em busca de equilíbrio entre dois mundos.

Esse processo de calibragem permitiu-me entender as motivações para a existência e aplicabilidade de inúmeros conceitos, que dariam para escrever mil ensaios e teses de comportamento humano. Quem sabe, um dia os farei.

Por agora limito-me a confirmar que vivo deslocado no tempo, num mundo que não é o meu e com o qual não me identifico.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 15 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 104 - Emanuel Lomelino

Naqueles dias em que esqueço de me equipar a rigor, fico suspenso nas escarpas íngremes da memória e os pensamentos nascem reféns pré-datados, como se a mente tivesse sido calibrada para uma só lembrança.

Por mais voltas que dê, por mais tentativas que faça, há sempre uma ou outra recordação a querer protagonismo, como quem procura ser reconhecido acima da sua própria importância.

Nesses momentos fico insuportavelmente incomodado com o desaforo do tempo, em querer ultrapassar a sua caducidade, porque sou apologista convicto, para não dizer radicalmente defensor, da máxima: “águas passadas não movem moinhos”.

Para além disso, é tedioso pensar em mono, ainda por cima, numa era em que a celeridade dos avanços tecnológicos é maior do que um piscar de olhos e, apesar de ser da velha escola, já me habituei às multiplataformas.

EMANUEL LOMELINO

Grito (excerto 3) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O corredor a engoliu. E então, um som — baixo, quase imperceptível, mas que não era silêncio. Como uma respiração suspensa atrás da porta do quarto. Ou uma presença.

Seus olhos buscaram o interruptor. A luz não acendeu.

E foi ali, entre o escuro e o presságio, que Mariana sentiu: ele estava ali.

Ou o fantasma dele.

Ou a lembrança viva do que tentou esquecer.

Ela abriu a boca — e o grito que saiu não era apenas de medo, mas de tudo que foi reprimido: o amor que virou labirinto, a esperança desfeita em pesadelo, o sonho destroçado, a mulher que renascia do trauma.

Gritou.

E o eco do grito ficou preso nas paredes.

Como um trem que nunca deixa a estação.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

sábado, 14 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 103 - Emanuel Lomelino

As pessoas têm um medo insano do silêncio que as leva a urrar as maiores atrocidades, como quem faz piruetas sempre que a luz dos holofotes incide sobre si.

São poucos aqueles que sabem valorizar a solidão consciente e reconhecer o silêncio como um lugar privilegiado onde ninguém, para além do próprio, deve ingressar.

Um espaço, bem no âmago, onde a consciência consegue respirar livremente e restabelecer-se num ambiente de intimidade e conforto, em que o vazio total é sinónimo de paz.

Infelizmente, há quem desconheça o carácter paliativo do silêncio e o confunda com solidão emocional, e por essa razão usam todos os artifícios para jamais ficarem fora do alcance dos olhares alheios. Esses, pobres vítimas do engodo, nunca serão capazes de compreender o quão falaciosa pode ser uma multidão e como é um engano pensar que caminhando em grupo se ludibria a solidão nefasta.

Mas o pior é não entenderem que existe quem faça do silêncio um porto de abrigo e reflexão, opte por trajectos alternativos, longe das ribaltas e sem grandes alardes, porque é dentro de nós que nos encontramos verdadeiramente.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 15) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O cortejo, deslizando entre carris, prosseguiu até à cidade da Guarda, onde o esperava um banquete, seguido de discurso digno do acontecimento, mas a que ninguém da minha família assistiu, por terem ficado muito empolgados com a minha chegada; para além de preocupados com a minha demora, na estação.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 102 - Emanuel Lomelino

A vida tem-me escamado os sentidos como se a minha existência fosse um cúmulo de estações que se repetem ciclicamente.

Sinto-me um objecto renascentista, nas mãos do destino, quando os dias revelam ser dejá vu em looping, uma e outra e outra e outra vez.

A aspereza vulcânica, que pensava ter exterminado e dera lugar ao reinado de uma gentil suavidade, nascida de uma necessária e útil cordialidade, e que me impedia de reagir em impulsos nefastos, regressou ainda mais explosiva, como quem retorna ao ponto de partida após uma ausência consciente, deliberada e com horas contadas.

A tolerância escoa-se em animalescas correntezas de impaciência, tal como o rio mais feroz e indomável.

Conclusão… por mais que embelezemos os cenários a essência jamais se altera porque as pedras serão sempre pedras, por mais que alisemos as rudes arestas pontiagudas.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 15) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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No enterro, a desolação dessa avó era imensa. Ela nunca se recuperou desse drama, dessa perda. Com o tempo, essas feridas ficaram “arquivadas” na minha memória, no mais profundo do meu ser.
Todas essas provações me mostraram também que se morte e vida são inseparáveis, é esta última que deve primar acima de tudo.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 101 - Emanuel Lomelino

Existem livros que nos permitem reencontrar a chama de vida que o tempo, inclemente, procura extinguir.

São páginas de sabedoria que enchem o âmago e conseguem entranhar-se no canto mais íntimo de nós, ressuscitando a vontade de sorrir para a lua e abraçar as estrelas.

Existem livros que nos falam as palavras certas, no momento mais necessário, como uma poção de energia rejuvenescedora.

São páginas paliativas que reforçam a nossa imunidade às maleitas desta era de inversão, de radicalismos fúteis e bacocos, de pragas analfabetas e desinteligência nata.

Existem livros que são portas e janelas abertas para mundos de ideias, pensamentos e raciocínios, cada vez mais escassos, e que provocam as nossas próprias reflexões, fazendo-nos exemplos perfeitos da máxima de Descartes “Cogito ergo sum”.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 100 - Emanuel Lomelino

Conheço-me por inteiro, de polo a polo, em todas as coordenadas e pontos cardeais. Sei os meus atalhos, desvios e encruzilhadas. Domino a minha geografia, até de olhos fechados, de trás para a frente e em linha recta. Vejo-me na plenitude do ser (pensante e corpóreo) e sinto-me na totalidade das fracções que me compõem.

Sou antropólogo, matemático e historiador da minha essência – para o bem e para o mal – ciente das multifacetadas circunstâncias e vicissitudes que me moldaram e, porque sou obra em permanente construção, continuarão a esculpir-me nos dias por vir.

Sou o mais feroz crítico dos meus defeitos e impetuoso defensor das limitadas virtudes que exalo, sem alarde, com plena noção de quão ténue é a linha que as separa da evitável soberba.

Sou como sou, na consciência dos actos e na legitimação de existir do meu jeito.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 99 - Emanuel Lomelino

Lancei, ao vento, um papagaio de papel, com o formato de diamante e frases que voam alto. Daquelas que nos levam a acreditar que as palavras fazem eco nos corações, mesmo os mais empedernidos.

A brisa acariciou cada letra, como quem beija o mais sagrado dos cálices divinos, e o ar ficou prenhe de plumas celestiais a oscilar como flocos de neve.

O céu chorou sete lágrimas pingentes, uma por cada cor do arco-íris que, sorridente, agraciou o mundo com a sua benevolência graciosa.

Duas cotovias ladearam o papagaio de papel, qual escolta imperial, numa sincronia notável. Ora para a esquerda, ora para a direita, ora planando, ora subindo, ora descendo, num voo perfeito de tão belo.

Rompi o fio, como quem corta o cordão umbilical, e deixei o papagaio de papel ganhar vida e escrever, nos céus, o seu próprio destino.

Ainda hoje escuto, nos murmúrios das aragens vespertinas, a sinfonia das palavras que escrevi no papagaio de papel. E sinto-me tão livre quanto ele. Só não tenho as cotovias ao meu lado.

EMANUEL LOMELINO

Grito (excerto 2) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Mariana aproximou-se. As chaves tremiam entre os dedos. A fechadura girou devagar, arranhando o silêncio.

Empurrou a porta.

Dentro, a penumbra parecia viva. O ar tinha cheiro de passado — aquele perfume amadeirado que ela jurava ter jogado fora. O corredor estendia-se à sua frente como um túnel sem fim.

— Marcos...? — sua voz saiu como sopro, quebradiça, engasgada.

Nada respondeu.

Deu um passo.

O assoalho rangeu como um grito preso.

Mais um passo.

Algo se moveu. Uma sombra sutil, talvez. Ou apenas o tremor dos olhos marejados.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 98 - Emanuel Lomelino

Muitas vezes, antes de dar asas ao cumprimento do meu ofício de lazer, revejo as primeiras páginas deste compêndio de exercícios e nasce em mim uma frustrante revolta pela pobreza franciscana que tenho derramado.

Apesar do número de fiéis leitores, sempre generosos no acompanhamento, os textos soam-me tão insonsos quanto miseráveis e dificilmente me satisfazem. Há sempre algo que, na hora da concepção, passa despercebido, mas na releitura ganha destaque como estivesse manchado de fluorescência.

Admito que o meu sentido de autocrítica ultrapassa, amiúde, os níveis de razoabilidade, mesmo na avaliação de meros exercícios sem pretensões literárias, porém, sem ele a minha escrita estagnaria.

E, convenhamos, os maus textos não só aborrecem como também emburrecem.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 14) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O meu pai, aprumado e perfilado entre os demais músicos, mantinha-se atento ao mínimo sinal de comando. Com o ouvido estendido no ar, à escuta do silvo, nada nem ninguém quebrava a sua atenção. Sem descanso, numa espera que parecia infindável, os olhos bailavam-lhe, num vai-e-vem entre o maestro e os carris, à coca do voo da batuta e do ressoar dos trá-fá-fás e pouca-terra.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Contos que nada contam 53 (À beira do lago) - Emanuel Lomelino

À beira do lago

As gaivotas estão alinhadas no pontão, à espera do momento certo para agitarem as asas, enquanto os cágados sobem aos solários para aquecerem as carapaças e os patolas dividem pasto com os pombos – oportunistas-mor do parque.

Na outra margem do lago, a avó delicia-se com o espanto infantil que a netinha demonstra ao ver o aspersor regar a relva luxuriosamente verde.

Os bancos de jardim começam a ficar ocupados por gente sem horário, viciados em ecrãs táteis, novos românticos e apreciadores de solidão ao ar livre.

Num canto resguardado, o PT da moda dá instruções gímnicas ao escanzelado que, banhado pelo esforço, tenta transparecer atleticismo para impressionar as loiras saradas que usam o trilho próximo.

Joggers, runners, ciclistas e trotineteiros cruzam-se invisíveis, na pista de alcatrão laranja, com a voluptuosa patinadora quase desnuda, cuja movimentação acelerada provoca alvoroço no pontão. Uma a uma, as gaivotas abrem as asas, levantam voo e grasnam à sua passagem. Os cágados mergulham para arrefecer as carapaças, os patolas refugiam-se sob a água aspergida e só os oportunistas-mor continuam, impávidos e serenos, entregues à rapinagem, numa indiferença pombalina.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 14) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Seu sofrimento era profundo. Acompanhei-a na sua viagem de retorno. Pegamos um carro e depois uma canoa para chegar à sua cidade. Tenho até hoje a lembrança nítida dessa mãe em lágrimas e do pequeno caixão perto dela. Após o enterro, passei alguns dias com ela e voltei para casa deixando-a na sua grande dor. Quanto ao meu irmão, ele estava viajando a trabalho.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

sábado, 7 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 97 - Emanuel Lomelino

Gosto de abrir os livros às vozes do passado e deixar-me envolver pelos trâmites de outrora.

Passeio nas diligências do saber pretérito, percorro trilhos e veredas, pernoito em albergues e estalagens, atravesso aldeias e lugarejos, escuto as modinhas camponesas, os fandangos ciganos, as valsas aristocratas.

Navego em caravelas, trirremes, faluas e outros batéis, lado a lado com marujos e outros navegantes.

Monto dromedários nos desertos, iaques himalaias, jumentos bérberes, cavalos mongóis, elefantes asiáticos, licórnios e outras mitologias.

Embrenho-me em jardins sumptuosos, bosques, florestas, searas, prados, castelos, palácios, cárceres, coliseus, fóruns, becos e tabernas.

Escuto filosofias e saberes milenares, observo comportamentos seculares, respiro superstições e crenças intemporais, bebo conhecimento universal, entro em estreito contacto com culturas eternas.

Depois fecho os livros e pondero no que aprendi sem acreditar na remissão da humanidade nem na absolvição dos desvios da modernidade.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 96 - Emanuel Lomelino

A necessidade de trabalhar nas palavras é, mais que um dever imperativo, a solução para desanuviar a mente depois das escoriações provocadas pela dureza de um dia interminável.

Há uma urgência de reflexão que lateja no âmago até roçar o desespero e o corpo exige uma pausa restauradora, só atingida num estágio de solidão física e na ausência de lucidez da dor.

Respiro fundo. Fecho os olhos. Abstraio os sentidos. Sacudo os incómodos. Abraço o silêncio. Entro no universo do vazio. Nada.

Inspiro lentamente, como quem absorve o tempo a conta gotas. Olho a folha branca que espera, pacientemente, o primeiro beijo de tinta. Expiro como quem dá o tiro de partida, deixo que as palavras fluam a seu bel-prazer e abracem, com serenidade, a paz instalada.

Com elas surge a libertação suprema. Através delas instala-se uma harmoniosa conciliação com o mundo; com a vida; comigo.

Escopros, ponteiros, macetas, hematomas, esfoladelas, sangue, suor, cansaço (não necessariamente por esta ordem) deixam de significar penosa realidade e, aqui, regressam à sua condição de meros vocábulos.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 95 - Emanuel Lomelino

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

EMANUEL LOMELINO

Grito (excerto 1) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Os dias passavam pesados como chumbo. Mariana sabia que o tempo era o seu único refúgio. Consumia-se entre lembranças, silenciosamente. Não ousava partilhá-las com ninguém. 

Ao regressar do trabalho, caminhou lentamente pelos degraus, ouvindo apenas o som dos próprios passos, cada um deles mais pesado que o anterior. Mas ao chegar à porta do prédio, o tempo pareceu quebrar.

Ali, repousando como se nunca tivessem saído do lugar, estavam os sapatos dele — alinhados com a mesma precisão obsessiva de sempre, como dois sentinelas guardando um segredo.

O frio que correu por sua espinha não era apenas do inverno. Era um pressentimento.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA