sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

No fundo do baú 72 - Emanuel Lomelino

Não se pode ter horror da morte sem a experimentar. Não se deve ter pânico da morte por desconhecimento. Sabendo da sua existência, e tendo a consciência tranquila, não é lógico temê-la.

Não se podem recear as mordidas dos necrófagos nem o triturar dos ossos pelas suas potentes dentadas. Não se deve ter pavor do desmembramento que fazem, na hora de devorar os corpos inertes e sem vida.

Não sei nada sobre a morte, para além do seu carácter definitivo. Por isso não lhe tenho medo.

Sei que Lavoisier tinha razão quando disse: …Na natureza nada se perde, tudo se transforma, por isso tampouco temo os necrófagos.

Aquilo que me faz transpirar a espinha, arrepiar os ossos e descrer da justiça divina, são os abutres. Esses têm o dom de cheirar, à distância, o sangue dos golpes recentes e, sem esperarem a morte, estão sempre prontos para aproveitarem as fragilidades e alimentarem-se das feridas ainda por cicatrizar.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 8) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Para surpresa sua, descobriu que as suas raízes estavam bem enterradas debaixo de uma enorme rocha que, mesmo assolada por vendavais e fortes intempéries, nunca bulira ou se desviara. Essa rocha, fiel guardiã de uma história, estava no ponto mais setentrional da vila, de onde se localizava a direcção dos ventos e também o meridião.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

No fundo do baú 71 - Emanuel Lomelino

Por vezes, nos momentos de ócio, dou por mim a questionar a importância das palavras que gravo, com força desmesurada, nas pobres folhas brancas que coloco diante dos olhos.

Nesses instantes de lassidão e desinteresse, revejo tudo o que escrevi e deixo que a dúvida se instale no mais recôndito espaço da mente, como quem recheia um qualquer doce conventual.

As perguntas sucedem-se, frenéticas, sem encadeamento lógico ou propósito definido. Simplesmente materializam-se como quem nos visita de forma aleatória e sem motivo.

Mesmo podendo esclarecer a origem de cada texto, não consigo explicar a impetuosidade, quase violenta, com que firmo cada letra no corpo de papel, como irradiasse uma fúria incontrolável e desmedida.

Não tenho sido capaz, talvez por falta de habilidade, de encontrar uma justificação coerente para essa atitude desproporcional, nem sei se algum dia conseguirei.

Quanto à questão inicial, se houvesse um mínimo de valor naquilo que escrevo, jamais teria discorrido sobre a forma exaltada como o faço.

Resta-me continuar a fazer como até aqui e seguir o conselho do poeta W. D. Roscommon: escreve com fúria, mas corrige com fleuma.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 8) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Verônica pegou a galinha pelos pés, e eu a segurei pela cabeça. Sabia que se matava a galinha pelo pescoço, mas não sabia o lugar exato. Além do mais, estava morrendo de medo de praticar tal gesto. Criei coragem e cortei o pescoço da galinha, e ela parou de se debater. Minha irmã pegou um recipiente para aparar o sangue, que mais tarde deveria ser colocado na panela para fazer o tal “molho pardo”.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

No fundo do baú 70 - Emanuel Lomelino

Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.

Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.

Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.

Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.

Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

No fundo do baú 69 - Emanuel Lomelino

Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.

Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.

Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.

Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.

Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.

A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.

Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

No fundo do baú 68 - Emanuel Lomelino

A verdade dói quando escutada. Causa-nos dano pelo impacto do momento, talvez despreparo nosso, mas é uma dor fugaz e momentânea, que dificilmente deixa marcas permanentes porque, com o tempo e pelo seu carácter irreversível, ela consegue ser o elemento-chave para alcançarmos a paz de espírito necessária para prosseguirmos.

Já a mentira mata pela sua perversidade intemporal, contínua e nefasta. Atinge-nos na plenitude da sua fogosidade, qual sol abrasador, e queima todo o sentimento como palha ressequida. Desse incêndio destruidor sobra apenas negritude e terra árida sem possibilidade de renovação. E tudo passa porque a vida assim o permite.

Mas há algo mais obsceno e devasso. A dúvida. Essa é cruel, vil, maléfica e sádica. Mantém-nos num limbo de incertezas e esperanças, porque fere, arranha, machuca, tritura, rasga, perfura, esfola, aflige, ao mesmo tempo que se nega e pinta de cores suaves, hipnóticas e anestésicas, qual atriz no auge das suas capacidades interpretativas.

Esta trilogia de inegáveis “influencers” da vida nunca foi tão bem definida como fez Bob Marley, quando disse: A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.

EMANUEL LOMELINO

Fragmentos - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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As viagens tornaram-se como capítulos de um livro que se recusava a terminar. Viveram dias encantados em Bruges, entre canais e casas cenários de contos e filmes. Passearam pelo calçadão de Copacabana ao anoitecer, beijavam-se em cada esquina, como se o mundo inteiro coubesse ali.

Mas a paixão, tão intensa, começou a desfiar. As despedidas doíam mais. As brigas, antes pequenas rachaduras, tornaram-se fendas.

"Se você me amasse de verdade, largava tudo", ele disse.

"Se você me respeitasse, entenderia por que não posso", ela respondeu.

E o que antes era poesia virou silêncio entrelinhado.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

domingo, 4 de janeiro de 2026

No fundo do baú 67 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Não sou saudosista porque tudo tem o seu tempo e quem fica agarrado ao passado perde tempo presente que poderia estar a dedicar à construção do tempo futuro. Contudo, porque nestas coisas da memória há sempre uma saudade, sinto falta das conversas, sobre escrita, que tive em algumas tertúlias, com gente que sabia da temática e como partilhar conhecimento.

Sinto essa ponta de nostalgia porque as verdadeiras tertúlias, as genuínas, mesmo sendo escassas, eram momentos de reflexão compartilhada que enriqueciam cada um dos envolvidos. Debatiam-se ideias, conceitos e formas de trabalhar as palavras, num ambiente que, não sendo de erudição absoluta, permitia pensar com mais critério o ofício das letras.

A saudade fica por aqui porque tudo o resto, em redor destas tertúlias, era movido pela paixão do exibicionismo inútil e bacoco, um género de vaidade pessoal, que muitos sentiam necessidade de exibir com a urgência de quem precisa de alimento para a boca. Para não falar da burrice de alguns sobre o que é uma tertúlia. Mas não vamos por aí senão este texto transforma-se numa vulgar ode de escárnio e maldizer.

A verdade é que sinto tantas saudades dessas poucas discussões inteligentes que, perante a reduzida franja de autores interessados em partilhar opiniões e crescer, sou obrigado a conversar com os de outrora – apreciadores de tertúlias – como quem tem amigos imaginários.

Assim, varro a minha biblioteca, de ponta a ponta, e mantenho diálogos com os clássicos da literatura e tento absorver o que me dizem na esperança de que essa aprendizagem me seja benéfica, como úteis foram as conversas com Alexandre Carvalho, Celso Cordeiro, José Félix, António Boavida Pinheiro, António MR Martins, Xavier Zarco, Alvaro Giesta, João Carlos Esteves, Francisco Valverde Arsénio, Paulo Afonso Ramos, Joaquim Evónio e, especialmente, Vítor Cintra, com quem aprendi a descobrir a minha voz literária.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 7) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Rumara a Sul, no final da adolescência, sem perder de vista o Norte. Amava o Sul, mas gostava do Norte. Vivia no Sul, sempre com um pé no Norte. De vez em quando viajava até ao Norte, levando sempre o Sul na ideia. Viagens que, ao longo de três décadas, se repetiam, sobretudo no Verão. Primeiro, com mais frequência, para matar saudades frescas e evidenciar garbosamente os efeitos esplendorosos dos ares do Sul. Outras épocas, em que as diferenças entre a grande cidade e o interior eram bem mais acentuadas.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

sábado, 3 de janeiro de 2026

No fundo do baú 66 - Emanuel Lomelino

Esta inquietação vulcânica, que explode de mim, como instinto primitivo, conduz-me na busca eterna pelas palavras que podem fazer-me ajoelhar, como quem se prostra diante de imagem consagrável.

Este desassossego eruptivo, que sangra em mim, como as correntes mais agitadas de magma e lava, guia-me na infinita demanda dos verbos que podem obrigar-me a curvar, como quem faz vénias ao ministério divino.

Esta perturbação efusiva, que irrompe de mim, como intuição ancestral, escolta-me na procura desenfreada pelos vocábulos que podem forçar-me a vergar, como quem se derruba em devoção ao ofício celestial.

Este tumulto tempestuoso, que estoura em mim, como o mais tenebroso ribombar dos céus, acompanha-me numa insana caçada aos motes que podem impor-me a dobrar, como quem se inclina aos méritos angelicais de uma prece.

Esta profusão catastrófica, que eclode de mim, como ímpeto espontâneo, leva-me na bizarra urgência de encontrar as nobres sentenças que podem justificar os motivos, pelos quais, não consigo criar sem parecer que estou em permanente oração aos deuses da erudição.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 7) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Na realidade, presenciei uma cena chocante para a criança que era. Em um dos bairros onde morávamos houve um incêndio que se propagou numa casa, e o fato de serem casas cobertas de palhas e estarem próximas umas das outras, o fogo se espalhou com uma tal velocidade, e as pessoas só tiveram tempo de sair correndo na tentativa desesperada de salvar a própria vida.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

No fundo do baú 65 - Emanuel Lomelino

Eu gostaria de ser clássico como Séneca e poder aconselhar: apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.

Gostaria de ser erudito como Oscar Wilde e poder falar: a vida é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas só existe.

Eu gostaria de ser lúcido como Bob Marley e poder declarar: não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.

Eu gostaria de ser profético como James Dean e poder sentenciar: sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.

Eu gostaria de ser pretensioso como Picasso e pintar numa tela: eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro.

Eu gostaria de ser engraçado como Chaplin e poder mimicar: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela.

Eu gostaria de ser complexo como Nietzsche e poder dizer: torna-te aquilo que és.

Como não posso ser nenhum deles nem falar, com mais propriedade, o que já disseram, limito-me a seguir a dica do Friedrich e, sendo eu mesmo, vou parafrasear Pessoa, dizendo: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Apenas decidi deixar de correr atrás deles.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

No fundo do baú 64 - Emanuel Lomelino

Nos dias em que quase desfaleço sou acometido por uma amálgama de sintomas febris e hipotérmicos que se intercalam num frenesim impossível de descrever, mas que parecem conduzidos por laivos de demência.

Nesses instantes de nebulosas mortes, sem que encontre explicação plausível ou fragmentos de lógica, dou por mim a divagar pelas correntes artísticas, hoje em desuso (para não dizer extintas e proscritas), e faz-se luz sobre o meu mundo de criação.

Nesses quentes momentos de caos pacífico e agitada ordem, as epifanias sobrevoam-me a mente e os sentidos ficam hipnotizados pelos conceitos mais primários. Mesmo no desconforto das tonturas e com os olhos turvos (quase apagados), é quando melhor enxergo o que de mim pode advir, porque o que já fiz não me interessa, só penso no que ainda não fiz.

São vinte minutos, meia hora, isentos de percepção temporal, mas com o condão de clarificar-me ideias e conceitos, indicar-me outras tendências e possibilidades, abrir-me o espírito para enveredar por diferentes vias e novos caminhos.

Então dou por mim a estudar os antigos ismos das artes e a compará-los (sabendo que não há comparação) com o mesmismo que se instalou neste meu tempo.

Aprendo as diferenças entre o cubismo das telas e o surrealismo ou expressionismo dos poemas, de Picasso, e fico a adivinhar quantos serão os eruditos anti ismos de hoje que conhecem essa vertente do criador de Guernica.

Depois começo a escrever estes fracos textos sintéticos, com um sorriso irónico colado nos lábios, por saber que quase ninguém decifrará o conteúdo do último parágrafo.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

No fundo do baú 63 - Emanuel Lomelino

Há este querer sólido e verdadeiro, que me acompanha desde sempre, de encontrar a perfeição do vazio; o silêncio original.

Quanto mais me embrenho na solidão que cultivo, menor parece a distância que me separa de algo semelhante ao Nirvana. Aquele lugar puro, sem defeito, que não é celestial nem divino. Apenas um lugar de paz imorredoura que substitui uma vida inteira.

A cada passo dado dou conta de todo o peso inútil e desnecessário que tenho carregado nas costas. Desfaço-me de mais e mais, sem traumas de separação. Simplesmente largo lastro e caminho mais leve.

O percurso ainda é longo, mas completo na sua única via, num só sentido, perfeito porque é feito de coisa alguma, apenas nada. E estou a conseguir libertar-me de toda a bagagem, de toda a tralha que me tem freado o ímpeto.

Sei que ainda transporto baús encrustados no corpo, com amarras maciças e fechaduras encriptadas, cuja remoção terá um custo de luas e sal, mas blindei a minha resiliência com o aço da vontade suprema e tenho os olhos focados no amanhã, porque é para lá que caminho.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

No fundo do baú 62 - Emanuel Lomelino

Morrerei, orgulhosamente, ignorado pelos críticos das paragonas de tiragem erudita, porque sempre respeitei os legados e defendi os meus critérios.

Morrerei, orgulhosamente, na invisibilidade de todos os fóruns oligarcas, porque nunca me sujeitei a convenções nem a tratados de mal-escrever.

Morrerei, orgulhosamente, no desterro de todas as falsas elites sem condição, porque sempre acreditei que a universalidade criativa é, além de um direito, um dever global.

Morrerei, orgulhosamente, no exílio de todas as palavras que nunca escrevi, porque os meus textos foram construídos em exercício de liberdade e expressão individual sem apegos nem compadrios.

Morrerei, orgulhosamente, no confinamento de uma tumba desconhecida, porque bebi dos melhores néctares literários e trabalhei na inspiração dos ridículos saberes.

Morrerei, orgulhosamente, embrulhado na bandeira dos autores menores, porque nunca babei os grandes nem ignorei os pequenos.

Morrerei, orgulhosamente, na embriaguez dos meus paradoxos.

EMANUEL LOMELINO

Verão - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ele voltou. Disse que precisava respirar. Mariana o abraçou no aeroporto, os olhos carregando a previsão de tempestade. 

No Rio, o sol parecia zombar do inverno que ele deixara. Reviu amigos, aproveitou as tardes de verão como nunca, fotografou a vida que passava, viajou por entre cidades, registrou as diversas facetas do Carnaval brasileiro entre o frevo, o axé e o samba, desfilava com suas lentes e luzes, mas o sorriso era só fachada. Mariana fazia videochamadas, mandava mensagens, falava de planos e datas. Exigia uma decisão.

Em uma ligação, ela disse: "Vem me ver. Não aguento mais sonhar sozinha."

Ele foi — sem saber se para um reencontro ou despedida.

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Contos que nada contam 51 - Emanuel Lomelino

Sinfonia interrompida

Tudo começou com o trovejar dos bombos seguido de um choro colectivo dos violinos, primeiro sussurrado, depois bradado. Só depois o clarinete buzinou uma passagem de nível e as colinas deixaram-se florir numa sinfonia de cores exóticas.

Houve uma vertigem zumbida que polinizou um dente-de-leão e as glicínias olharam o céu em prece pedindo, aos deuses florais, permissão para o regresso dos colibris.

A mariposa sacudiu a transparência das asas para receber a simpatia da brisa e serpentear entre as peónias bailarinas.

As campainhas tocaram triângulos a compasso e o salgueiro-chorão aproximou-se do rio para ver, mais próximo, a família de carpas-dragão que manchava a serenidade cristalina das águas.

O pica-pau trauteou morse no tronco rijo de uma laranjeira e a orquestra edílica deu lugar ao silêncio absoluto porque apareceu uma mochila a empurrar um ser bípede que estava noutra sintonia e decapitava margaridas.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 6) - Tita Tavares

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Era como se acabasse de sair da sala de cinema. Projectado em retrospectiva, o filme de cenas fragmentadas permitia-me agora interligá-las. E em cada sucessão de imagens repetia-se a sensação de já ter lido a obra que lhe servira de argumento. Tão forte foi a vontade de cortar cenas, abolir capítulos, substituir episódios, rasurar passagens, quanto a certeza da total impossibilidade de retirar sequer uma vírgula, alterar um plano ou melhorar uma imagem.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

domingo, 28 de dezembro de 2025

No fundo do baú 61 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Por mais que admire o rigor e qualidade das tuas telas, por mais que aprecie os teus traços originais; por mais que me encante a singularidade das tuas pinceladas; por mais que respeite a profusão da tua extensa obra; não consigo deixar de te culpar, mestre Vincent, pela realidade impressionante dos meus dias.

Neste tempo de abundância e consumismo; de feitos banais e condutas impostoras; de sedentarismo intelectual; de improvisos estudados; de originalidades repetidas, a tua obra penetrou o lado mais recôndito das mentes desprovidas de conhecimento.

Nesta era de inversão de valores; desamor pelo passado; conflito com a história; contestação dos legados, a tua arte sobreviveu nos becos das memórias ocas e influencia os estranhos hábitos espontâneos de gerações tecnológicas.

A ti, Vincent, acuso de teres incentivado, ainda que sem conhecimento do facto, através do elevado número de autorretratos que produziste, este bizarro vício das selfies.

E só não te acuso dos instantâneos de repasto porque só conheço “Os comedores de batata” e nesse os pratos mal se veem.

EMANUEL LOMELINO