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Não
sou saudosista porque tudo tem o seu tempo e quem fica agarrado ao passado
perde tempo presente que poderia estar a dedicar à construção do tempo futuro.
Contudo, porque nestas coisas da memória há sempre uma saudade, sinto falta das
conversas, sobre escrita, que tive em algumas tertúlias, com gente que sabia da
temática e como partilhar conhecimento.
Sinto
essa ponta de nostalgia porque as verdadeiras tertúlias, as genuínas, mesmo
sendo escassas, eram momentos de reflexão compartilhada que enriqueciam cada um
dos envolvidos. Debatiam-se ideias, conceitos e formas de trabalhar as palavras,
num ambiente que, não sendo de erudição absoluta, permitia pensar com mais
critério o ofício das letras.
A
saudade fica por aqui porque tudo o resto, em redor destas tertúlias, era
movido pela paixão do exibicionismo inútil e bacoco, um género de vaidade
pessoal, que muitos sentiam necessidade de exibir com a urgência de quem
precisa de alimento para a boca. Para não falar da burrice de alguns sobre o
que é uma tertúlia. Mas não vamos por aí senão este texto transforma-se numa
vulgar ode de escárnio e maldizer.
A
verdade é que sinto tantas saudades dessas poucas discussões inteligentes que,
perante a reduzida franja de autores interessados em partilhar opiniões e
crescer, sou obrigado a conversar com os de outrora – apreciadores de tertúlias
– como quem tem amigos imaginários.
Assim,
varro a minha biblioteca, de ponta a ponta, e mantenho diálogos com os
clássicos da literatura e tento absorver o que me dizem na esperança de que
essa aprendizagem me seja benéfica, como úteis foram as conversas com Alexandre
Carvalho, Celso Cordeiro, José Félix, António Boavida Pinheiro, António MR
Martins, Xavier Zarco, Alvaro Giesta, João Carlos Esteves, Francisco Valverde
Arsénio, Paulo Afonso Ramos, Joaquim Evónio e, especialmente, Vítor Cintra, com
quem aprendi a descobrir a minha voz literária.
EMANUEL LOMELINO