quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
O paraíso são as memórias (excerto 9) - Tita Tavares
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Contos que nada contam 52 (Faina) - Emanuel Lomelino
Faina
A praia esvazia-se de olhos postos nas pranchas que deslizam na ondulação costeira, enquanto, na barra, as traineiras são preparadas para a faina, assim que terminar o pôr-do-sol.
As mulheres de negro aglomeram-se no pontão para sacudir os lenços brancos, na angústia dos céus carregados, na incerteza eterna dos ventos e na esperança do retorno breve.
O farol ilumina a liquidez da noite, mas o horizonte fica escondido entre a penumbra e a maresia. O ambiente sepulcral só não é total porque as águas martelam a vulnerabilidade das embarcações ao ritmo das preces afãs.
Às ondas do mar pouco importa se os grãos de areia fina já foram, um dia, seixos lisos ou se as gaivotas poisam para palitar os bicos nas conchas abandonadas. Tampouco querem saber se as estrelas-do-mar são incendiárias jurássicas a preparar terreno para outras espécies ou se, nessa noite, as redes serão capazes de expulsar a fome.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 9) - Samaritana Pasquier
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
No fundo do baú 75 - Emanuel Lomelino
A augusta Casa dos Altivos Artífices do Sétimo Saber Consagrado convoca todos os órgãos de informação competentes para a Gala Anual dos Credenciados Anónimos Voluntários que irá realizar-se em espaço, dia e hora e designar, na esperança de conseguir, em tempo útil, recolher a verba necessária para liquidar os valores propostos, em caderno de encargos, para aquisição de dois contentores de fogo de artifício, duzentos metros de passadeira vermelha, quinhentos cadeirões manuelinos, três mil velas de sebo envelhecido em casta milenar e um vaso de flores sazonais, com dimensão ainda por determinar.
Com o referido certame, pretende-se celebrar as alcoviteiras do Jardim Constantino, os cangalheiros da praia de Carcavelos, as divas de São Sebastião, os ciciosos de Mata-Cães e as jovens promessas do núcleo de perfumistas azeiteiros da Abóbada Celeste.
A todos os participantes serão entregues certificados de presença e mérito, além de coroas de louro, personalizadas, e um porta-chaves alusivo à efeméride.
Se sobrar dinheiro, contamos requisitar os serviços dos gaiteiros de Milfontes que, caso aceitem, brindarão todos os presentes com uma sinfonia de acordes à moda de Viena ou, em alternativa, um fandango albicastrense.
A todos os convidados será solicitado traje de gala, que pode ser adquirido nas nossas instalações até dois dias antes do evento. O uso de chapéu é facultativo e os sapatos não podem ser rasos.
Este será o primeiro de muitos encontros previstos. A seu tempo honraremos os percursos dos gagos assobiadores de andaime, as costureiras de corta casaca à tesourada e os arquivistas de manuscritos da Biblioteca que vai ser construída nos antigos terrenos da Feira Popular.
Informamos que o acesso pode ser feito através de qualquer meio de transporte, com excepção dos aéreos porque é muito difícil encontrar um espaço com heliporto.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 11 de janeiro de 2026
No fundo do baú 74 - Emanuel Lomelino
Há quem acredite no altruísmo das palavras, mas só um incauto pode perspectivar bondade numa conjugação verbal que impõe em vez de sugerir ou, quanto muito, ordena no lugar de colocar à consideração.
Até as pedras, sejam de calcário ou basalto, conseguem transmitir mais leveza do que os discursos militarizados, mesmo ao som de polcas e corridinhos, feitos à medida dos substitutos dos tubos catódicos.
Deixou de existir temperança e vergonha nas faces artificialmente bronzeadas porque o Zé do Manguito continua a preferir sopas e descanso em vez que tirar os suspensórios e mostrar o Judas arranhado.
Havendo música, couratos assados e uma reles esferográfica timbrada, aparecem logo magotes de desocupados intelectuais predispostos a agitarem bandeiras e bandeirolas ao vento carvoeiro, enquanto os copos não secam a cevada quente.
O despertar vem depois, quando os mesmos fidalgos movidos a rancho folclórico, descobrem que, afinal, a caridade é um caça-níqueis faminto e sem escrúpulos, e resolvem lançar outras bandeiras ao vento, soltar verbos pedintes e arrastar as carcaças pálidas no meio da urbe de cintos apertados, como fossem todos sócios-fundadores da liga dos revoltados surpreendidos, mas sem cotas pagas e com o tempo caducado.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 10 de janeiro de 2026
No fundo do baú 73 - Emanuel Lomelino
Não existe melhor forma de exercer a individualidade plena, sem cair no descrédito de confundir o seu significado, do que a arte de pensar, e desta premissa nasceram todas as preciosas definições de liberdade, mas também alguns enganos – porque nem todos os filhos do pensamento são sensatos.
Há aqueles que renegam, mais de três vezes, a equidade e preferem as pirâmides (mesmo invertidas) em detrimento de linhas rectas (mesmo paralelas).
Esses podem ser identificados pelo som elevado das suas vozes argumentativas, pois, acreditam na imposição e nos dogmas, e desconhecem o que significa pluralidade e livre-arbítrio.
Depois temos os que desconhecem que os pensamentos podem ser como o ferro forjado e que, quando nas mãos de um bom artesão, podem transformar-se em autênticas preciosidades, mas, quando molhados pela ignorância ou preguiça, também enferrujam. E um pensamento enferrujado, por mais forte que pareça, facilmente é quebrado.
EMANUEL LOMELINO
Limites - Adriana Mayrinck
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
No fundo do baú 72 - Emanuel Lomelino
Não se pode ter horror da morte sem a experimentar. Não se deve ter pânico da morte por desconhecimento. Sabendo da sua existência, e tendo a consciência tranquila, não é lógico temê-la.
Não se podem recear as mordidas dos necrófagos nem o triturar dos ossos pelas suas potentes dentadas. Não se deve ter pavor do desmembramento que fazem, na hora de devorar os corpos inertes e sem vida.
Não sei nada sobre a morte, para além do seu carácter definitivo. Por isso não lhe tenho medo.
Sei que Lavoisier tinha razão quando disse: …Na natureza nada se perde, tudo se transforma, por isso tampouco temo os necrófagos.
Aquilo que me faz transpirar a espinha, arrepiar os ossos e descrer da justiça divina, são os abutres. Esses têm o dom de cheirar, à distância, o sangue dos golpes recentes e, sem esperarem a morte, estão sempre prontos para aproveitarem as fragilidades e alimentarem-se das feridas ainda por cicatrizar.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 8) - Tita Tavares
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
No fundo do baú 71 - Emanuel Lomelino
Por vezes, nos momentos de ócio, dou por mim a questionar a importância das palavras que gravo, com força desmesurada, nas pobres folhas brancas que coloco diante dos olhos.
Nesses instantes de lassidão e desinteresse, revejo tudo o que escrevi e deixo que a dúvida se instale no mais recôndito espaço da mente, como quem recheia um qualquer doce conventual.
As perguntas sucedem-se, frenéticas, sem encadeamento lógico ou propósito definido. Simplesmente materializam-se como quem nos visita de forma aleatória e sem motivo.
Mesmo podendo esclarecer a origem de cada texto, não consigo explicar a impetuosidade, quase violenta, com que firmo cada letra no corpo de papel, como irradiasse uma fúria incontrolável e desmedida.
Não tenho sido capaz, talvez por falta de habilidade, de encontrar uma justificação coerente para essa atitude desproporcional, nem sei se algum dia conseguirei.
Quanto à questão inicial, se houvesse um mínimo de valor naquilo que escrevo, jamais teria discorrido sobre a forma exaltada como o faço.
Resta-me continuar a fazer como até aqui e seguir o conselho do poeta W. D. Roscommon: escreve com fúria, mas corrige com fleuma.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 8) - Samaritana Pasquier
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
No fundo do baú 70 - Emanuel Lomelino
Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.
Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.
Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.
Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.
Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
No fundo do baú 69 - Emanuel Lomelino
Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.
Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.
Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.
Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.
Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.
A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.
Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
No fundo do baú 68 - Emanuel Lomelino
A verdade dói quando escutada. Causa-nos dano pelo impacto do momento, talvez despreparo nosso, mas é uma dor fugaz e momentânea, que dificilmente deixa marcas permanentes porque, com o tempo e pelo seu carácter irreversível, ela consegue ser o elemento-chave para alcançarmos a paz de espírito necessária para prosseguirmos.
Já a mentira mata pela sua perversidade intemporal, contínua e nefasta. Atinge-nos na plenitude da sua fogosidade, qual sol abrasador, e queima todo o sentimento como palha ressequida. Desse incêndio destruidor sobra apenas negritude e terra árida sem possibilidade de renovação. E tudo passa porque a vida assim o permite.
Mas há algo mais obsceno e devasso. A dúvida. Essa é cruel, vil, maléfica e sádica. Mantém-nos num limbo de incertezas e esperanças, porque fere, arranha, machuca, tritura, rasga, perfura, esfola, aflige, ao mesmo tempo que se nega e pinta de cores suaves, hipnóticas e anestésicas, qual atriz no auge das suas capacidades interpretativas.
Esta trilogia de inegáveis “influencers” da vida nunca foi tão bem definida como fez Bob Marley, quando disse: A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.
EMANUEL LOMELINO
Fragmentos - Adriana Mayrinck
domingo, 4 de janeiro de 2026
No fundo do baú 67 - Emanuel Lomelino
Não sou saudosista porque tudo tem o seu tempo e quem fica agarrado ao passado perde tempo presente que poderia estar a dedicar à construção do tempo futuro. Contudo, porque nestas coisas da memória há sempre uma saudade, sinto falta das conversas, sobre escrita, que tive em algumas tertúlias, com gente que sabia da temática e como partilhar conhecimento.
Sinto essa ponta de nostalgia porque as verdadeiras tertúlias, as genuínas, mesmo sendo escassas, eram momentos de reflexão compartilhada que enriqueciam cada um dos envolvidos. Debatiam-se ideias, conceitos e formas de trabalhar as palavras, num ambiente que, não sendo de erudição absoluta, permitia pensar com mais critério o ofício das letras.
A saudade fica por aqui porque tudo o resto, em redor destas tertúlias, era movido pela paixão do exibicionismo inútil e bacoco, um género de vaidade pessoal, que muitos sentiam necessidade de exibir com a urgência de quem precisa de alimento para a boca. Para não falar da burrice de alguns sobre o que é uma tertúlia. Mas não vamos por aí senão este texto transforma-se numa vulgar ode de escárnio e maldizer.
A verdade é que sinto tantas saudades dessas poucas discussões inteligentes que, perante a reduzida franja de autores interessados em partilhar opiniões e crescer, sou obrigado a conversar com os de outrora – apreciadores de tertúlias – como quem tem amigos imaginários.
Assim, varro a minha biblioteca, de ponta a ponta, e mantenho diálogos com os clássicos da literatura e tento absorver o que me dizem na esperança de que essa aprendizagem me seja benéfica, como úteis foram as conversas com Alexandre Carvalho, Celso Cordeiro, José Félix, António Boavida Pinheiro, António MR Martins, Xavier Zarco, Alvaro Giesta, João Carlos Esteves, Francisco Valverde Arsénio, Paulo Afonso Ramos, Joaquim Evónio e, especialmente, Vítor Cintra, com quem aprendi a descobrir a minha voz literária.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 7) - Tita Tavares
sábado, 3 de janeiro de 2026
No fundo do baú 66 - Emanuel Lomelino
Esta inquietação vulcânica, que explode de mim, como instinto primitivo, conduz-me na busca eterna pelas palavras que podem fazer-me ajoelhar, como quem se prostra diante de imagem consagrável.
Este desassossego eruptivo, que sangra em mim, como as correntes mais agitadas de magma e lava, guia-me na infinita demanda dos verbos que podem obrigar-me a curvar, como quem faz vénias ao ministério divino.
Esta perturbação efusiva, que irrompe de mim, como intuição ancestral, escolta-me na procura desenfreada pelos vocábulos que podem forçar-me a vergar, como quem se derruba em devoção ao ofício celestial.
Este tumulto tempestuoso, que estoura em mim, como o mais tenebroso ribombar dos céus, acompanha-me numa insana caçada aos motes que podem impor-me a dobrar, como quem se inclina aos méritos angelicais de uma prece.
Esta profusão catastrófica, que eclode de mim, como ímpeto espontâneo, leva-me na bizarra urgência de encontrar as nobres sentenças que podem justificar os motivos, pelos quais, não consigo criar sem parecer que estou em permanente oração aos deuses da erudição.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 7) - Samaritana Pasquier
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
No fundo do baú 65 - Emanuel Lomelino
Eu gostaria de ser clássico como Séneca e poder aconselhar: apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Gostaria de ser erudito como Oscar Wilde e poder falar: a vida é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas só existe.
Eu gostaria de ser lúcido como Bob Marley e poder declarar: não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.
Eu gostaria de ser profético como James Dean e poder sentenciar: sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.
Eu gostaria de ser pretensioso como Picasso e pintar numa tela: eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro.
Eu gostaria de ser engraçado como Chaplin e poder mimicar: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela.
Eu gostaria de ser complexo como Nietzsche e poder dizer: torna-te aquilo que és.
Como não posso ser nenhum deles nem falar, com mais propriedade, o que já disseram, limito-me a seguir a dica do Friedrich e, sendo eu mesmo, vou parafrasear Pessoa, dizendo: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Apenas decidi deixar de correr atrás deles.
EMANUEL LOMELINO