Fiódor Dostoiévski
Permita-me, prezado Fiódor Mikhailovich, que
simplesmente não o trate por Micha. Sei que reconheceria a gentileza do trato,
mas, creia-me justo, fazê-lo seria usar da mesma intimidade impostora que o meu
tempo sustenta, renegando os valores fundamentais dos ideais que se professam,
como se a incoerência fosse virtude e a franqueza um pecado capital.
A consciência, nestes meus dias, estimado
Fiódor Mikhailovich, há muito deixou de ser definida nos exactos termos
etimológicos, que tanto explorou na vasta riqueza da sua obra. Atrevo-me mesmo
a sentenciar, sempre com o seu consentimento, que ela – consciência –
evaporou-se ao longo do tempo, como gotas de água num deserto escaldante, tal a
profusão de actos prepotentes, praticados em nome das revoluções mais ociosas,
e sem sentido, que nem o seu elevado intelecto ousaria considerar.
Por isso, amigo Fiódor Mikhailovich, aviso-o
desde já que prefiro ficar, hora e meia do meu dia de sã loucura, retido na
solidão de uma cozinha, a confecionar legumes de caril, do que perder tempo a
ler as idiotas bajulações da modernidade, entre indivíduos que, apesar de
pertencerem à nossa espécie, vendem-se como se castanhas piladas fossem raras
pepitas de máximo quilate, desconhecendo que esse grau de pureza é incompatível
com joalharia.
Este novo paradigma, meu caro Fiódor
Mikhailovich, é tão complexo e paradoxal que, aos seus olhos, ouvidos e
inteligência, as minhas palavras soarão aos discursos de um dos seus mais
famosos personagens. Quem, senão um perfeito idiota, pode conceber que se outorguem
falsos epítetos em nome de um conceito igualitário, mas alicerçado no
individualismo egoísta, sem consciência da vulgaridade?
Hoje, Fiódor Mikhailovich, a verdade não vem
nos dicionários. Talvez, nem nos livros de culinária.
Com estima,
Emanuel Lomelino