sábado, 19 de julho de 2025
Onde está a mamãe? (excerto) - Daniele Rangel
sexta-feira, 18 de julho de 2025
Devaneios sarcásticos 24 - Emanuel Lomelino
Devaneios sarcásticos
24
Os dias tecem-se como macramé. Entrelaçam-se os nós à velocidade dos ponteiros, e a estética nunca é ditada pelo tecelão, mas sempre pelos fios do tempo. Os minutos são franjas e as horas urdem-se de forma aleatória, porém harmoniosa.
Hoje teci um dia pardo, entre refeições. Quis Aracne – deusa do ofício –, de porte altivo, como todas as divindades devem apresentar-se, que o padrão das pausas, para descansar as mãos doridas de tantas agulhadas, fosse obtuso, contudo geométrico. E os desenhos de mais um dia ficaram-me tatuados na pele.
A minha sorte é ter esta obsessão redundante pela etimologia das palavras e descobrir que, ao contrário de todos os “dejá vu” deste dia, macramé não tem origem francesa, antes árabe “migramah”, ou talvez do turco (língua aliada) “miskrama”.
Seja como for, assim que a noite se predispuser a embalar-me as escaras, enrolar-me-ei na tecelagem deste dia e dormirei na certeza de que na próxima alvorada serei artesão de outra arte qualquer.
EMANUEL LOMELINO
O branco e a preta (excerto 4) - Pedro Sequeira de Carvalho
quinta-feira, 17 de julho de 2025
Pensamentos literários 37 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
37
Durante anos, por acreditar que a escrita é, mais do que um direito, um dever, e a ninguém deve ser retirada a possibilidade de o fazer, tive dificuldade em entender uma das frases mais icónicas de Saramago, em que ele considerava ser um crime continuar a escrever não havendo mais nada a dizer.
Rebati essa afirmação por ser apologista de que a escrita, independentemente do conteúdo, mesmo vazia e isenta de propósito literário, é um instrumento válido para a literacia e desenvolvimento intelectual das sociedades.
Mas, como muitas vezes acontece na minha vida, só mais tarde, ao ler uma entrevista de Bukowski, onde ele afirma que é preferível não fazer nada do que fazer as coisas mal feitas, explicando que o grau de autoconfiança dos maus autores iguala o grau de incerteza dos bons autores (algo que pude confirmar em diversas ocasiões) e, por esse motivo, os primeiros são mais requisitados para darem palestras, quase sempre enfadonhas como a sua escrita, para plateias compostas, essencialmente, por outros maus autores, esperançosos em serem os próximos palestrantes, é que consegui enxergar a profundidade da sentença no Nobel português.
Nesse momento de epifania, ao entender que ambos os ícones da literatura, embora distintos, tinham a mesma linha de raciocínio - um mais polido (Bukowski) outro mais cru (Saramago) -, passei a acreditar ainda mais que a escrita é um dever de todos, mas isso não significa que todos tenham direito a verem-se escritores.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 16 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 76 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
76
Quando a mente é acometida pela tempestade do questionamento as dúvidas relampejam, antecedendo o trovejar das perguntas mais estrondosas.
Há uma energia voltaica que eriça a curiosidade e chove uma urgência de respostas definitivas, como se os ventos da tormenta acalmassem às primeiras gotas de sabedoria.
Nesses momentos de intempérie não existem boias de conhecimento que ajudem a flutuar nas marés da ignorância nem botes de erudição à prova de tsunamis docentes.
À falta de solução para amainar o temporal, o melhor a fazer é navegar ao sabor da corrente e esperar que as ondas de interesse sejam atenuadas a cada nova conclusão, na esperança de não sermos empurrados para um porto rochoso e ter de enfrentar outro género de desafio mental.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 15 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 75 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
75
Quando os passos se tornam um fardo pesado, a mente, incoerente como só ela, afasta-se ainda mais do corpóreo e abraça o caos das ideias, como quem só consegue cumprir-se na desordem.
Então, num caleidoscópio de propósitos e desígnios emaranhados, surge o alheamento às mazelas do corpo e respirar volta a ser um gesto sem aflição.
Todos os hematomas, cicatrizes e feridas abertas transformam-se em galardões impessoais, como se, num golpe de mágica, os ardores e agonias dolorosas ganhassem a virtude da insensibilidade.
Os horizontes deixam de ser distância angustiante e invertem-se as prioridades – os sonhos dissipam-se e a verdade está nos detalhes do impalpável.
O tempo perde o brilho. A realidade é difusa. As pálpebras são cortinas. As vozes esfumam-se. O bocejo solta-se. E por fim adormeço anestesiado por esta esquizofrenia jazzística.
EMANUEL LOMELINO
O juramento (excerto 3) - Rose Pereira
segunda-feira, 14 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 74 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
74
Resisto ao desespero de ver-me despetalar por estes ventos raivosos que cismaram na minha erosão permanente.
A mente, que por vezes despede-se de mim, tende a ganhar sulcos áridos, com o simples propósito de transformar as ideias em desertos ásperos, onde predominam as sombras que detonam quaisquer certezas que a vida me tenha emprestado.
É no seio de uma lucidez dúbia que questiono as horas céleres, os passos enviesados, as plantas rasas, os voos dos pelicanos e aquele sentimento inútil de estar a ver os navios passarem, sem rumo nem porto pré-definidos.
Os horizontes ocultam-se numa penumbra de vozes contraditórias e há línguas de fogo em cada encruzilhada, dificultando a passagem, seja qual for o caminho escolhido, como se todas as direcções levassem ao mesmo mar de lava e desfortúnio.
O destino é um fardo afastado do entendimento lógico.
EMANUEL LOMELINO
Depois (excerto 3) - Daniele Rangel
domingo, 13 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 73 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
73
Todas as manhãs, aos primeiros raios de sol, amanhece-me uma revolta sufocada cujos sintomas são precações murmuradas e súplicas heréticas.
Estas sublevações mentais vespertinas nada mais são do que gritos rebeldes e contestatários pela contínua repetição dos dias, que nascem, correm e terminam sempre da mesma forma como fazendo parte de um looping infinito.
Mas este espírito amotinado peca pela incoerência porque a génese da insurreição é a mesma que suporta a via alternativa.
O problema que transtorna o âmago não existiria se a rotina fosse outra; se o rácio entre ónus e bónus fosse distinto; se as horas de responsabilidade não esmagassem as de placidez; se o tempo não se espartilhasse entre obrigações e deveres; se a respiração fosse compassada e não houvesse sangue, suor e lágrimas…
Enfim… as coisas são como são e amanhã, quando o sol raiar, cá estarei para sussurrar, entre dentes, mais alguns jargões e preces ofensivas, porque pior do que ter uma rotina indesejada é não ter rotina alguma.
EMANUEL LOMELINO
O branco e a preta (excerto 3) - Pedro Sequeira de Carvalho
sábado, 12 de julho de 2025
Pensamentos literários 36 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
36
Os bons livros nunca são aqueles cujo enredo, a trama, ou a estória, são construídos na perfeição da lógica. Tampouco são aqueles em que o sol sempre brilha ou a chuva é louvor.
Um bom livro é aquele que incomoda, que incendeia os pensamentos, que agita o solo que pisamos, que estupra a mente deixando sementes de incógnita e desconforto.
Um bom livro é aquele que dá raiva, que inflama os sentidos, que provoca terramotos emocionais, que nos faz duvidar de todos os dogmas e acreditar que é utópico pensar em utopias.
Um bom livro é aquele que enfurece, que queima as pálpebras, que abala todos os alicerces, que nos chocalha de forma intermitente, que nos sacode a alma com violência.
Um bom livro é aquele que desperta as nossas sombras mais profundas, que faz brotar luz nas trevas do nosso ser, sem tabus nem condicionantes.
Um bom livro é aquele que nos revolta, que nos engessa, que nos decapita, que nos mutila, mas mesmo assim liberta-nos do fastio, da mesmice e das masmorras da ignorância.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 37 - Emanuel Lomelino
30-06-2024
Ei-los, os prisioneiros do infortúnio que deixaram de ver quando colocaram as vendas costuradas pelas próprias mãos e insistem na inocência, outorgando todos os delitos a terceiros.
Ei-los a marchar altivos nas suas algemas de sofrimento reptiliano, com lágrimas insonsas e esgares lamuriosos copiados de folhetins radiofónicos.
Vejam quão intensas são as improvisações cénicas, com gestos eloquentemente fátuos de exagero, gritos estridentes de vergonha alguma e prantos de vexame enlameado.
Vejam como se amontoam nos muros da choradeira e alardeiam em danças uníssonas os seus pesares comuns, como insectos a comunicar novos lugares de colheita.
Ah, essas vítimas de culpa alheia que sofrem nos labirintos da comiseração enquanto apontam o indicador em todas as direcções esquecendo-se de observar os outros dedos.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 10 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 72 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
72
Soltam-se as plumas da noite e a lua – porta-estandarte de todos os astros – deixa-se ver no máximo expoente das suas crateras, como quem exibe umbigos e brotos. E nem a obscuridade dos cúmulos noturnos lhe retira o brilho emprestado.
Na sua nudez aristocrática e presunçosa derrama uma áurea hipnótica, quase magnética, que cativa os uivos caninos, o trinar das guitarras e os apetites canalhas dos malandros mais ousados.
Também os gatos, felinos com refletores nos olhos, demonstram boémia ao luar e por isso fazem dos telhados os seus lugares de eleição para escrutinarem eventuais descuidos de roedores audazes, juntando-se, assim, às corujas de olho grande e aos morcegos acrobatas.
E quando os aspersores molham os jardins, a horas fora-de-horas, são mais os sonos consumados do que as insónias imprevistas ou propositadas, e os pirilampos – quais vigilantes de turno – iluminam os caminhos aos louva-deus e às formigas que perderam a noção do tempo, por terem preferido assistir ao concerto integral das cigarras vagabundas.
EMANUEL LOMELINO
O juramento (excerto 2) - Rose Pereira
quarta-feira, 9 de julho de 2025
Pensamentos literários 35 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
35
Os escritores são seres camaleónicos, quase trapezistas, que deambulam, em equilíbrio precário, na ténue linha que separa a realidade da ficção.
Tanto vestem as suas cores como outras peles, de acordo com a sensibilidade que têm ou desejariam ter, numa busca incessante da perfeição que sabem não existir.
Percorrem trilhos de convicção, por vezes contrária aos seus princípios morais, apenas para dar humanismo às suas letras e ficarem mais próximos das verdades daqueles que os leem.
Os escritores são personagens com múltiplas caras e outras tantas esquizofrenias, em benefício da criação, em nome da obra, em prol da literatura, em proveito próprio.
Afirmo. Por mais que se consigam interpretar os textos, é impossível conhecer um escritor através das palavras. Até se pode identificar a origem de algumas feridas ou detectar cicatrizes, mas nunca a essência das escaras.
EMANUEL LOMELINO
Depois (excerto 2) - Daniele Rangel
terça-feira, 8 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 71 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
71
Esgotou-se-me o sono, como acontece em todas as madrugadas de preguiça, e fico aqui, estaticamente deitado, a observar o silêncio aleatório da noite alta.
Na fluorescência dos pensamentos, que roem as sobras da modorra corporal, dou por mim a vaguear entre sonhos esbatidos, convicções dormentes, desejos impertinentes, certezas dúbias e outras leviandades do espírito, que só o próprio poderia explicar se fosse essa a sua vontade (que nunca é).
No meio desta sessão de tramas tão absurdas quanto despropositadas – porque a clareza das ideias nocturnas hão de esbater-se nos labirintos do mundo real – oiço o início da sinfonia piadora das aves, empoleiradas nos inexpressivos salgueiros, como estivessem a culpar-me pela sua insónia.
Abeiro-me da janela e solto um chiu mental para não acordar a vizinhança, e os pássaros, que parecem entender-me durante meio segundo, regressam às suas reclamações chilreadoras com vigor redobrado.
Perante a insolência canora, volto ao leito que esfria e sou esbofeteado pelo único pensamento lúcido que os primeiros raios solares iluminam: ainda estou de estômago vazio.
EMANUEL LOMELINO
O branco e a preta (excerto 2) - Pedro Sequeira de Carvalho
segunda-feira, 7 de julho de 2025
Prosas de tédio e fastio 70 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
70
Afastei-me do mundo na consciência deste egoísmo que conservo, nas coisas que me são próximas, nas ideias que me motivam, na defesa de um legado (que também carrego nos ombros, em virtude de uma paixão autoalimentada, à base de crença e platonismo assumido).
Afastei-me do mundo na convicção deste interesse que mantenho, na paz do silêncio, na tranquilidade da reflexão, no apego ao equilíbrio emocional, na estima pela herança imaterial deixada por literatos coerentes, cujas palavras (leia-se obras) conseguiram, de alguma forma, indicar-me os caminhos a percorrer até encontrar a minha voz literária.
Afastei-me do mundo para deixar de sentir incómodo pela postura ébria e circense das letras contemporâneas, que apenas existem porque as luzes e ribalta anarquizaram-se em nome de uma originalidade desordenada, que nada mais é do que oposição aos clássicos por evidente falta de capacidade inovadora.
Afastei-me do mundo, simplesmente, porque o mundo nada me diz, eu já disse tudo o que havia para dizer, e agora apeguei-me a este outro mundo que tenho entre mãos.
EMANUEL LOMELINO



















