quinta-feira, 15 de maio de 2025
A criação (excerto 3) - Rose Pereira
quarta-feira, 14 de maio de 2025
Prosas de tédio e fastio 44 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
44
Sim, aos poucos têm-se evaporado os nenúfares e pintarroxos da criação para darem espaço aos gumes afiados das pedras enegrecidas pelas vaidosas fogueiras, alimentadas de toros vulgares, que pululam neste novo desenho de intenções.
Mergulha-se a autonomia expressiva dos voos livres nas masmorras do convencional e os arco-íris são engavetados nas sombras dos profetas eleitos pela unanimidade da preguiça, que graça nos bustos esculpidos pela ignorância.
Assim perecem os fios do irrepetível e nasce a pura absolvição dos espelhos, para contentamento dos usurpadores de ideias que usam sapatos largos e luzes ofuscantes.
Este é um tempo raso que flui, na precipitação do seu descaso enraizado, como um rio daninho que oferece lodo às margens e ceifa, dos salgueiros, a seiva que não precisa nem merece.
EMANUEL LOMELINO
Missão fada dos dentes (excerto 2) - Daniele Rangel
terça-feira, 13 de maio de 2025
Prosas de tédio e fastio 43 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
43
Juro que tento ressuscitar em algumas mortes, mas é difícil devolver a vida a raízes que passaram por impiedosa trituração.
Deixou de haver remédio para colmatar o desconforto provocado pelos engodos permanentes e intencionais. Já não existe antídoto para os embustes perversos. Tampouco há milagre que inverta a falsidade hipocondríaca.
As compressões no peito já não desobstruem os incómodos pérfidos originados pelas frases feitas, lugares-comuns e puxões de tapete.
Nem a manobra de Heimlich consegue desengasgar-me as goelas dos sapos, viscosos e intragáveis, que tentei engolir na crença esperançosa de novos horizontes.
Assim, por razão de sanidade mental e para evitar a putrefação de todos os sentidos, deixei de perder tempo em reanimações e sou mais célere na confirmação dos óbitos em mim.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 12 de maio de 2025
Pensamentos literários 25 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
25
As dores deixaram de ser passageiras e as sílabas tónicas jamais serão analgésicos para a contemporaneidade.
Por mais pensadas que sejam as frases, a criatividade é um ente falecido por excesso de penas ocas.
Há um movimento de passadeira boémia tão ébrio quanto uma reunião de enólogos descredibilizados e os rótulos estão fora de validade para safras novas.
A mesmice é uma obstinação desta época, sem contrastes, como fosse sinónimo de capricho bafiento.
Há uma tendência autofágica que amputa o simples porque as manchetes da moda requerem odes à vulgaridade.
Valha-nos o santo papel reciclado.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 11 de maio de 2025
Devaneios sarcásticos 16 - Emanuel Lomelino
Devaneios sarcásticos
16
Na penumbra dos becos, os tijolos quebrados são testemunhas assíduas das vidas que se cruzam, entre pestilências, azares e necessidades, regadas a vícios e adições.
Abrem-se pernas e goelas ébrias, em rituais de praxe mundana, enquanto roedores e varejeiras, alheios aos marujos caídos e carochos ressacados, procuram as águas-furtadas de um contentor chamariz.
As sombras são armários onde os cobardes aconchegam as vertigens, os corcundas ganham linearidade, as pegas aliciam sob pressão de lâminas e chumbo, e os vasilhames dividem espaço com latex e filtros alcatroados.
No aconchego da escuridão noturna, os corretores de fumo e caldo especulam piercings, ao ritmo dos batuques abafados que saem das caves guardadas por adoradores de halteres.
Há um gato que mia, um caixote remexido, um pneu que derrapa, um copo que se estilhaça, um isqueiro que é acendido, um rosto que se ilumina, uma baforada que se cheira, um tumulto que se gera, um grito que se escuta, um vulto que tomba, uma poça que se forma, passos que fogem e o silêncio cúmplice que nada viu ou ouviu.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 10 de maio de 2025
Prosas de tédio e fastio 42 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
42
Quando a Tília oferece os seus botões ao mundo, o ar fica impregnado pelo cheiro de renovação, que nem as águas choradas tardiamente conseguem disfarçar.
O vento assobia uma valsa, apenas bailada pelas alvas gaivotas desnorteadas e alguns pardais zombeteiros, que ainda não esqueceram a fábula de João Capelo e insuflam as plumas negras.
Há um grilo cantor a imitar cigarras roucas enquanto as formigas regressam, impávidas e indiferentes à cantoria, à sua vidinha de sempre sob o olhar guloso dos piscos e lagartixas que tomam banhos de sol.
O jardim verdejante é patrulhado por dois gatos vadios que desejam encontrar um pombo distraído ou um roedor imprudente, sem deixarem de ter um olho na refeição e outro em alerta canídeo.
Tudo isto acontece, entre calçadas, nas margens do movimentado asfalto, onde a vertigem é prioridade e os insectos atropelam para-brisas e olhos nus.
EMANUEL LOMELINO
A criação (excerto 2) - Rose Pereira
sexta-feira, 9 de maio de 2025
Pensamentos literários 24 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
24
Inflamam-se-me os genes da revolta quando os meus sentidos são atingidos pela imodéstia dos autodenominados vates da modernidade, que nem sequer sabem a diferença entre estrofe e estância, confundem haiku, tanka, limerick e poetrix, desconhecem o tautograma, fazem glosas sem mote, não sabem distinguir estruturalmente um soneto inglês de um italiano, de um monostrófico nem de um estrambótico e, valha-me Nossa Senhora da Língua Portuguesa, chamam acrónimos aos acrósticos.
Não se pede que todos saibam escrever odes, éclogas, elegias ou vilancetes. Tampouco se exige lirismo ou erudição específica, no entanto, saber identificar redondilhas, diferenciar trovas, canções ou baladas, não seria despiciente.
O que mais dói é conhecer alguns que até sabem muito do ofício, mas deambulam no universo da escrita com complacência pela ignorância colectiva, limitando-se ao silêncio por medo de perderem aplausos se mostrarem conhecimento acima da média.
Embora a voz deste burro não chegue ao céu, continuarei a afirmar que a maioria não sabe a diferença entre verso livre e prosa poética e que poesia e poema são duas coisas distintas.
EMANUEL LOMELINO
Missão fada do dente (excerto 1) - Daniele Rangel
quinta-feira, 8 de maio de 2025
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 32 - Emanuel Lomelino
07-04-2024
Por mais incompreensível que possa parecer, todos os silêncios têm um discurso acoplado e as asas das borboletas ficam mais fortes a cada batimento.
Nem todas as percepções correspondem à verdade dos factos e os hologramas, antes de serem avanço tecnológico, já faziam parte da vertente ficcional das prosas enxeridas e abelhudas.
Não esqueçamos que as pedras podem virar pó e este transforma-se em barro ou lama, dependendo da quantidade de água derramada.
Depois temos o vento que, num ápice reptílico, passa da carícia ao empurrão e tanto pode acelerar o passo como soprar contracorrente.
E santos são os caules espinhosos das rosas e os ferrões das vespas, menos perigosos do que os lábios famintos de qualquer drosera.
E tantas outras metáforas poderiam ser usadas para referir que há demasiada gente dissimulada e adepta da má-língua, da bisbilhotice, da difamação, da intriga e do falso-testemunho.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 7 de maio de 2025
Ao pé-da-letra 7 - Emanuel Lomelino
Ao pé-da-letra
7
Quisera ser tempestade ribombante para, com a luminosidade dos raios e rouquidão dos trovões, atormentar as dualidades das marés lunares.
Quisera ser vulcão e cuspir rios de lava abrasadora sobre as vulnerabilidades infundadas que, quais etiquetas inamovíveis, falsamente denigrem o carácter mais brando e casto.
Quisera ter a acidez vernácula para combater a violência covarde de quem se esconde nas sombras do anonimato e depois passeia, altivo e de saltos altos, nas vergonhosas passadeiras vermelhas do engodo.
Quisera ter todos os verbos à flor da pele para, com a língua afiada, romper a brandura dos discursos, chamar os bois pelos nomes e colocar os pontos nos “is”.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 6 de maio de 2025
Prosas de tédio e fastio 41 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
41
Reconheço a precaridade dos meus passos e as responsabilidades alheias que coloquei nas costas quando, eu próprio, sentia a necessidade de outras latitudes, outros encargos, mais sensatez.
Porventura, deixei-me ficar no lado de cá do horizonte por achar que escalar outros cumes seria um acto de egoísmo descabido e só conheci a indiferença depois de muitos sapatos gastos.
O discernimento conquista-se a conta-gotas e a consciência precisa ser destilada para que a razão venha à tona. Por isso, só agora, passado o equador da viagem, é que dei conta do caminho circular – para não dizer espiral – que tenho trilhado.
Arrependimentos! Na prática nenhum porque, instintivamente, nunca fui acumulador de tralhas e abandonei algum lastro basáltico nas margens do esquecimento. Mas não se aflijam os ambientalistas porque deixei tudo bem acondicionado em embalagens recicladas e nos respectivos aterros.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 5 de maio de 2025
Papaguear cultura 13 - Emanuel Lomelino
Papaguear cultura
13
Os aforismos vivem e respiram em cada verso criado pelas almas noctívagas, sedentas por estancar silêncios e arruinar sossegos mentais.
As penas – nunca plumas – são torneiras abertas aos discursos atormentados, sem saberem que as tormentas maiores estão nos olhos da posteridade.
O maior sofrimento é sentido pela folha de papel por reciclar, por não ter história além daquela que lhe tatua o corpo em pigmentos desbotáveis e com prazo de validade.
Quanto ao vate… de pouco lhe serve o entendimento e um descodificador de ideias e processos porque tudo fica perdido na ausência de rasuras e notas de rodapé.
Mas, apesar de tudo ser efémero, desde a concepção até à fogueira, existem momentos de poesia que respondem às leis da natureza. Porque nada se perde, tudo se transforma e renova.
EMANUEL LOMELINO
A criação (excerto 1) - Rose Pereira
domingo, 4 de maio de 2025
Papaguear cultura 12 - Emanuel Lomelino
Papaguear cultura
12
Os olhos, hipnotizados pela maré vazante, ficam presos no coração do Tejo que pulsa, indiferente às traineiras e aos voos das gaivotas, com espelhos a surfar na serena agitação, das suas águas turvas, provocada pelo rastro de um catamaran. Há uma brisa que beija os rostos transeuntes como que anestesiando-os do abraço solar, fora de época, e oferecendo a maresia como perfume de consolo e paz.
Ouve-se, ao longe, a banda-sonora indistinta saída da garganta rouca de um violão, acompanhada pela voz melodiosa, mas murmurada, de uma cantora gospel, que faz da rua o seu anfiteatro, junto a um malabarista de sapateado clássico.
Só falta um pintor, de tripé em riste e as mãos ocupadas com pincéis e uma paleta mais colorida do que o arco-íris, para que se forme o cenário perfeito: a natureza, ela própria uma obra de arte, rodeada de artesãos vários.
EMANUEL LOMELINO
Entre mãe e filho não se mete a chupeta (excerto 3) - Daniele Rangel
sábado, 3 de maio de 2025
Prosas de tédio e fastio 40 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
40
Como não bastasse a densidade do bosque, com as suas altivas árvores de copas escuras e tão espessas que o sol não as trespassa, ainda se pôs este nevoeiro cerrado que cega o início do olhar.
Apenas ruído. Uma espécie de assombro canalha que gela pedras e raciocínio. Um tilintar indistinto, contudo macabro, fúnebre e tão encantatório como um coro de sereias à caça de náufragos.
O caminho, à margem das vespas e espinheiros, faz-se irregular, qual montanha-russa num parque de diversões devoluto.
Ouve-se o piar de uma coruja-das-torres e um indefinido restolhar, ténue e miúdo, tão rasteiro como uma subcave invisível, mas presente.
Subitamente, num passo de mágica, abre-se uma clareira tão larga quanto negra, como fosse o leito de uma gigantesca fogueira antiga, que oferece três trilhos. Um de seixos brancos e lisos de erosão, outro coberto por um tapete de folhagem calcada, o terceiro enlameado, íngreme e invadido por troncos tombados.
Os dois primeiros reentram no bosque. O último, menos convidativo, circunda a clareira e embica na direcção oposta. Por via das dúvidas, incorpora-se o espírito de Régio e segue-se adiante.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 2 de maio de 2025
Pensamentos literários 23 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
23
Começam a faltar-me fórmulas para explicar o gosto pela leitura e o prazer de ler livros em catadupa.
Chamem-lhe obsessão, vício, dependência, mania, sede de conhecimento, paixão, até loucura. Aceito todos os epítetos com a mesma naturalidade com que passo de Celan para Agustina, de Tchekov para Sophia, de Quintana para Hatherly, de Camilo para Pasternak, de Orwell para Vergílio, de Márai para Torga, de Eugénio para Gógol, de Pessoa para Steinbeck, enfim, de livro para livro, sem olhar a filosofias, épocas, proveniências ou géneros literários.
Sou um bicho das letras auto enclausurado nas badanas de um mundo paralelo, por onde deambulo em busca de respostas às perguntas que nunca fiz porque, só assim, consigo justificar a esquizofrenia que me abraça e faz-me sentir, bem vincado no âmago, este desenquadramento temporal.
Ler transformou-se numa epopeia lúcida com o objectivo de afastar a angústia de estar onde não pertenço, nem quero estar, e descobrir o espaço e tempo onde poderia encaixar-me como uma peça de puzzle.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 1 de maio de 2025
Prosas de tédio e fastio 39 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
39
De nada serve abrandar ou ziguezaguear a vida por medo da morte. Fazê-lo é prescindir das cores que a primeira contém, substituindo-as pela beleza daltónica da segunda, sempre em tons esbatidos e duvidosos.
Não adianta colocar pé no travão da existência porque as pétalas do tempo não se comovem com o abrandamento do passo e seguem, flutuantes, rumo à finitude da sua queda.
Não há fontes de água-benta que impeçam o pólen de Hades de espalhar-se entre a humanidade e aumentar a sua colecção de almas.
Mais confortável é aceitar com naturalidade o fim assegurado, deixando-o navegar nos mares da ignorância, como quem espera o sorteio da lotaria sabendo que as hipóteses de ganhar são superiores a qualquer outra sorte.
EMANUEL LOMELINO



















