sexta-feira, 14 de junho de 2024

Estou aqui! - Cecília Dias Gomes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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“Quando tiveres vontade de chorar, não chores Podes chamar-me, eu choro por ti... Quando tu sentires vontade de sorrir, vem, avisa-me, eu venho para nós dois sorrirmos juntos... Quando tu sentires vontade de amar, vem, chama-me, que eu venho amar-te! Quando sentires que tudo está destruído, chama-me, que eu venho ajudar-te a reconstruir tudo de novo... Quando tu achares que o mundo é pequeno demais para tuas tristezas e meditações, vá não evites, chama-me, que eu faço desse momento grande para tua felicidade... Quando precisares de uma mão amiga, chama-me, pois a minha história será exemplo para a tua vida... Quando precisares de companhia, naqueles dias nublados e tristes, ou nos dias ensolarados, onde a dor é companheira, eu venho, venho sim, conta comigo! Quando estiveres a precisar ouvir alguém dizer... Eu quero, preciso tanto de tua amizade! Chama-me que eu digo-te as palavras precisas! Pois o meu amor é imenso pela tua amizade e nosso amor... Quando não precisares mais de mim, avisa-me, pois eu sei precisar o momento certo para sair, simplesmente irei embora com leveza, orando por nós!”

EM - LIBERDADE - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 338 - Emanuel Lomelino

Imagem agrolink

Diário do absurdo e aleatório 

338

Neste tempo que é o meu, os anos são cúmulo de água, cloreto de sódio, sangue, reticências, pontos e vírgulas.

Reúnem-se dores e lamentos que se transformam em bagagem-de-mão e escalam-nos até aos ombros, para terem uma vista privilegiada dos horizontes que nos esperam.

Os caminhos; os elementos; as ideias; os anseios; as esperanças; as derrotas; os contratempos; tudo são facas de gumes afiados preparadas para cortar a derme à primeira oportunidade; ao primeiro deslize; à primeira desatenção; ao primeiro baixar de guarda.

Noutro tempo que também foi o meu, as cicatrizes (físicas e mentais) eram medalhas de crescimento e a sensibilidade recusava ficar à flor-da-pele e nunca despertava por dá-cá-aquela-palha.

Os monossílabos não originavam depressões. As encruzilhadas não provocavam ansiedade. Os arrufos não geravam separação. Os atritos não empunhavam belicismo. Todos sabiam que a banha da cobra era escorregadia e o óleo-de-fígado-de-bacalhau sabia mal, mas nem por isso havia dúvidas existenciais nem associações de apoio a seres cheios de não-me-toques.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 21) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Longe dos cuidados pela sobrevivência dos outros pôde pensar na própria. Guadalupe se via como indivíduo. No princípio do passeio foi assim. Olhando o mundo passar pela janela e os pneus devorando a estrada. Andar de carro, afinal, não era tão ruim. Nem nauseou. 
Depois, a pobre cozinheira sente os bichos que prepara em vasilhas, a quem dera a comer em piquetes. Na clínica da capital mais próxima, Arco Branco, aplicam a massa gelada nas partes. Já foi bem difícil de esquecer. Depois entram com bracinho mecânico. Lá dentro a coisa, sem olhos, enxerga.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 337 - Emanuel Lomelino

Imagem dgartes

Diário do absurdo e aleatório 

337

Olho pela janela aberta ao mundo. Deixo-me seduzir pelos voos intermitentes dos piscos e procuro, entre as gaivotas, alguma que se assemelhe a Fernão Capelo.

Há um desejo de ver piruetas infames e cambalhotas irreverentes, como quem só consegue sentir-se quando deambula entre os precipícios da esquizofrenia e o jazigo frio.

Reduzo o horizonte ao solo espraiado diante de mim e surpreendo-me com um gato sem botas nem florete que usa o seu crédito pessoal de vidas ao desafiar, com mortais cabriolados, dois rafeiros parcos de senso e língua salivante.

Detecto no felino essa fome de liberdade criativa e adrenalina presunçosa que é a ascensão de um espírito aventureiro e vagabundo, como um qualquer Tom Sawyer cansado dos Sid desta vida, sempre prontos a demonstrar a sua originalidade formatada, em palcos carmins sob iluminação lilás.

Regresso ao interior da casa com o intuito de transformar os meus devaneios oculares em algo ligeiramente parecido com literatura, no entanto, fica reforçada a ideia de que, por mais voltas e reviravoltas que dê, as minhas palavras nunca terão a elasticidade das fábulas e serão sempre a representação por extenso da minha inaptidão gímnica.

EMANUEL LOMELINO

Abismo da Sombra do Esquecimento (excerto) - Alvaro Giesta

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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É inevitável que nestes dias, ainda tão próximos, mas que se vão afastando cada vez mais de nós que os vivemos (na pele) – os dias das Grandes Revoluções que mudaram a história que muitos teimam em afastá-los da memória pela indiferença – é inevitável, dizia, que haja quem faça questão de recordar esses dias por palavras escritas com ênfase e entusiasmo, e deixadas para a posteridade em obra impressa para os seus legentes. Uns, porque a esses dias, que mudaram a história, devem a quebra do jugo que lhes negou a liberdade durante décadas da sua existência e às revoluções ficaram eternamente gratos; outros, conquanto as desejassem também pelos mesmos e outros motivos, as encaram hoje com alguma desilusão e desesperança, porque elas não foram mais do que uma utopia que os governantes, que se lhes seguiram na condução das rédeas dos novos governos, se encarregaram, mais e mais, de transformar as ilusões de novos e melhores dias em mega-utopias.

EM - LIBERDADE - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 11 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 336 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

336

Ausento-me de mim nas horas mais longas, à espera do momento certo para abraçar os pensamentos que me elevam.

Sou como um filtro de malha finíssima no garimpo da consciência, sem espaço para deixar-me enredar por irracionalidades pueris, que nada mais fazem do que emburrecer quem a elas se entrega.

Por não ser fácil manter a disciplina necessária para ganhar indiferença ao irrelevante, habituei-me a inundar a mente nos mergulhos que faço na literatura clássica - o meu eremitismo ajuda.

Com isto volto a reforçar a minha adoração pelo isolamento consciente e propositado; pelo silêncio solitário; pelas conversas mudas com os literatos do passado; com as minhas discussões internas. Mesmo que isso me coloque mais dúvidas do que certezas e mais perguntas do que respostas.

EMANUEL LOMELINO

Renasce a teia (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nôrzinha chorou copiosamente ao ver que a teia... Madame Aranha... Aranhol... haviam sido destruídos pela chuva. 
Naquela manhã, ela não quis correr pelo jardim, como sempre fazia: estava triste demais, para brincar. 
E assim, passaram-se um... dois... três... até que, no quarto dia... 
A pequena que, durante todos aqueles dias havia corrido até o jardim na esperança de que um milagre acontecesse, não acreditou quando novamente viu tecida no jasmineiro (como antigamente) a mesma teia, com a mesma aranha branca nela!

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 335 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

335

Malditas são estas noites brancas onde sobressaem os sonhos interrompidos e impropérios, porque no raiar do dia tudo será exponenciado numa frustração inigualável por viver nesta época em que já não há fugas revoltosas.

Quem dera poder, sem problemas de consciência e isento de responsabilidade, recriar os teus passos de adolescente despreocupado e pegar a estrada rumo a qualquer lugar, que não este.

Ao contrário de ti, não posso simplesmente preparar um farnel com fruta, pão e enchidos, e fazer-me ao caminho, por dias e dias, deixando a vida para trás das costas. Tenho de honrar contratos, pagar contas e amparar uns quantos.

Por conta desta nobreza de carácter, tão inoportuna como castradora, sobra-me a resignação e razões de sobra para lançar, entre dentes (por ser madrugada), mais umas quantas obscenidades. Cada um no seu tempo e com o seu fado.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 9 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 334 - Emanuel Lomelino

Imagem istockphoto

Diário do absurdo e aleatório 

334

Tive uma trabalheira desgraçada para refazer o pré-agendamento das páginas deste diário, de forma a poder encaixar este texto, no entanto, a pertinência temática obrigou ao esforço extra, para não se perder a actualidade.

À hora que escrevo estas linhas (10.50) já exerci o meu direito/dever, como cidadão eleitor, e votei em consciência.

Ao contrário de sufrágios anteriores, desta vez as mesas de voto estavam pouco concorridas e essa circunstância leva-me a tecer algumas considerações.

Se por um lado, ainda é cedo para aferir a percentagem de abstencionistas, não deixa de ser preocupante a abissal diferença de adesão comparando com as últimas eleições. Pode ser que até ao fecho das mesas de voto as coisas mudem.

Todos reconhecemos que, nas Europeias, os portugueses nunca foram muito participativos, contudo, dado o extremismo que se tem instalado na política nacional, não deixa de ser incómodo este comodismo.

Por mais que nos sintamos de mãos atadas perante a absurda incompetência e arrogância da classe política, as urnas são uma forma de mostrarmos proactividade e interesse pelos assuntos que realmente importam.

Confesso que durante muito tempo, também eu, pertenci ao grupo de abstencionistas e o meu argumento era, e talvez continue a ser, muito válido: se os políticos usam bastante a abstenção nas votações da assembleia, porque não hei de agir da mesma forma?

A resposta pode ser encarada de vários ângulos e, infelizmente, aquele que me fez voltar a usufruir do meu direito/dever, consagrado na constituição, está relacionado com o facto de não ser abastado e ter no registo dos cadernos eleitorais a única forma de desbloquear burocracias nas edilidades.

Por muito que custe admitir, os processos nas juntas de freguesia, autarquias e outras entidades públicas, só avançam tendo-se dinheiro ou comparência assídua nas eleições. De outra forma é difícil até receber licença para plantar orquídeas.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 8 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 333 - Emanuel Lomelino

Imagem freepik

Diário do absurdo e aleatório 

333

Felizmente, há coisas sobre as quais já não escrevo. Não é autocensura, tampouco é cansaço das temáticas. Simplesmente escrevi tudo o que queria, e podia, sobre cada um desses assuntos e nada mais me resta dizer do que silêncio.

O ofício da escrita – e destes exercícios – também inibe a exclusividade e exige uma faceta criativa múltipla e diversificada, sob pena de martelar sempre as mesmas teclas e parecer um gravador em looping.

Depois, existem toneladas de palavras que merecem a minha atenção redobrada pela amplitude dos ângulos que posso abordar, tantos são os sinónimos à procura de emprego.

Por outro lado, caso seja necessário apontar dedos e culpados, peçam-se meças aos livros que se abrem aos meus olhos e aos raciocínios que afloram nesta mente irrequieta e esquizofrénica.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 20) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Chegado dia dois, dos mortos, o povoado fica vazio. Povo atento às datas religiosas, marés. Naquela hora viram. Simão era o gênio, bem humorado e perspicaz. Paulo tinha um gênio. A violência de seu pai–patrão o tornou não brutal, mas arguto e espirituoso. Deixa nele rastro de silenciosa inteligência. O bom companheiro de viagem, marca, anota tudo que Paulo precisará depois. Inteligência fina, Paulo, a esfinge, chama-o “o filho adotado que um dia me será útil”. Nem na volta, economizará no português litorâneo das bandas de Pedras Ternas.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

sexta-feira, 7 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 332 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

332

É nestes exercícios de escrita que me abandono e encontro, vezes sem fim, por inteiro, sem lamentar a sorte nem chorar fados.

As palavras sabem como despir-me a alma (sem pudores nem tabus) e vestir-me o âmago (sem estéticas ou estilismos) porque todos os trajes são assessórios dispensáveis, que só existem por convenção e vaidade.

Um dia pensei ser criador de frases (aprendiz de qualquer coisa semelhante a literatura), mas a realidade esbofeteou-me e agora sei que são elas (as frases) que me constroem, me definem, me escrevem.

O que escrevo não sou eu, nunca fui.  Aquilo que escrevo é o que a escrita quer que eu pareça ser. E tudo isto porque eu medito no que ela me dita.

EMANUEL LOMELINO

A Árvore da Liberdade (excerto) - Alexandra Ferreira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Libertas vivia numa pequena vila encantada, escondida entre as colinas verdejantes. Tinha um amor profundo pela natureza e passava os seus dias a explorar as florestas circundantes, descobrindo os segredos das ervas, das folhas, das raízes e escutando histórias antigas sobre bruxas e feiticeiras que as criaturas mágicas contavam.
Um dia, enquanto vagava pela floresta, Libertas encontrou uma árvore secular e majestosa. Conhecida como Árvore da Liberdade, era famosa por conceder desejos àqueles que tinham o coração puro. Cheia de esperança, decidiu fazer um pedido.
– Árvore da Liberdade, – sussurrou com reverência – conceda-me coragem para seguir os meus sonhos e encontrar a minha missão.

EM - LIBERDADE - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 331 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

331

Esta coceira subcutânea é uma reacção alérgica à imodéstia que voga nos ares circenses do universo individualizado das palavras.

Há um formigueiro que alastra corpo acima, como um farol de incómodo, e um outro, de jactância, que sobrevive à base de ácidos, pompa e circunstância.

A questão central é, precisamente, ser tudo lateral, periférico, limítrofe, marginal, à essência da arte. Tudo é engodo e subversão. Um chamariz veneziano para um corso de elitismo pedante.

O problema não está na vaidade presunçosa, mas sim nos rostos de plástico e sorrisos acetilenos, que escondem facas nos cós e fatuidade nos gestos, como se o mundo dependesse de esturjões e cosméticos, ao som de pífaros e violinos, numa noite de fábula e histórias da Carochinha, de portas cerradas aos pés-no-chão e olhos-abertos.

E não há metáforas suficientemente impactantes para descrever a arrogância pífia desta nova tendência aristocrata que grassa, e se alastra como sarna, nas letras Iscariotes.

EMANUEL LOMELINO

Chuva na teia (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A chuva continuou a cair, ininterruptamente, pelo resto do dia... pela noite inteira. 
Cada um dos recantos da Fazenda União pagou tributo à fúria da natureza pois chuva e vento, vento e chuva, tomaram conta de tudo e bateram janelas... molharam degraus... abriram e fecharam portas... resfriaram cômodos. 
Foi tanta chuva... mas tanta chuva... que tudo ficou fora do lugar: pedras rolaram... flores ensoparam... árvores inclinaram... folhas arrancaram. 
Não houve grandes danos na casa-grande, pois o mundo dos humanos sabe se resguardar devidamente da chuva e do sol. 
Mas no frágil mundo aracnídeo as coisas não funcionam dessa forma e uma chuva forte, muitas vezes, pode significar destruição, fim, desintegração! 
Pois bem... foi justamente isso que aconteceu com a ensolarada Aranhol: a chuva a fez despencar teia sobre teia, de uma só vez, sem perdão!

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 330 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

330

O vício de conhecimento empurra-me para leituras inquietantes que, apesar do desconforto da não identificação, têm o condão de plantar algumas sementes com fortes probabilidades de germinarem em algo útil.

Esta circunstância ocorre amiúde porque, por alguma razão que a própria razão me oculta, formatei-me de modo a conseguir ver qualidade literária naquilo que está fora dos parâmetros do meu gosto pessoal.

Quando isto acontece, fico sobressaltado pela indigestão que a leitura me provoca, no entanto, porque tenho um número considerável de neurónios sempre predispostos a saber mais, dou por mim a funcionar como uma esponja que absorve de forma selectiva, mas consciente, conceitos que posso aplicar nas criações por vir.

Este processo é a soma de duas máximas ancestrais: “O saber não ocupa lugar” + “Nada se perde, tudo se transforma”.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 4 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 329 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

329

Deste lugar privilegiado, o horizonte é céu, terra, um rio navegado por inúmeras embarcações, uma ponte percorrida por uma infinitude de veículos, e todo o tempo que o meu olhar demora a perceber a totalidade da paisagem.

Igual extensão temporal existe na construção de puzzles, na leitura de dois capítulos dos Maias, ou na elaboração dos exercícios de escrita que, indiferente, partilho.

A mesma cadência existe no entrançar de pensamentos desta mente irrequieta, que se dedica (de corpo e alma; de fio a pavio) a dar voz à esquizofrenia que me define.

Não há nada mais nefasto para um ser-escrivão do que a ociosidade das mãos e a preguiça de uma pena.

Por isso, quando não escrevo sinto-me inútil e faço das tripas coração para que as folhas de papel (ou a tela do PC) estejam de bom humor e aceitem receber as palavras que nascem de mim.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 328 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

328

Abrem-se as portas da introspecção e na balança do deve e haver são pesados todos os passos, recuos e avanços.

Na avaliação, somam-se virtudes, méritos, nobreza, honra e altruísmos, e subtraem-se defeitos, vícios, transgressões, imperfeições e fraquezas.

O resultado desse exercício meditativo nem sempre corresponde à realidade porque existe uma tendência para a parcialidade, contudo, sendo-se honesto, chega-se a conclusões interessantes que podem ser benéficas, se usadas para limar arestas e alterar comportamentos.

Seja como for, a reflexão é a base holística do autoconhecimento e jamais pode ser reprimida, bem pelo contrário, deve ser entendida como uma oportunidade única para analisarmos as diferenças entre aquilo que queremos ser e o que somos na realidade. Só depois poderemos concluir se temos a fibra necessária para nos transformarmos no nosso ideal.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 19) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Paulo amuou-se a viagem inteira e nos fez voltar mais cedo. Como Pedro, negaria três vezes no dia que lhe perguntaram se nos conhecia. Eu sem a imagem da captura do chocolate, teu riso bobo, e a morta da cova rasa vinha o tempo todo de volta à cabeça. Adequadamente assuntará depois. Era puro impulso, às vezes, assim, é só fogo.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

domingo, 2 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 327 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

327

Estou cansado destes ares poeirentos que teimam em frequentar os espaços, sem ventilação, onde exerço o labor que me mortifica.

Não há um dia sem que essa presença fétida e mórbida fique a pairar sobre mim, como nuvem de tempestade iminente, mesmo resguardado no vazio das ideias e na leveza dos passos.

É uma fadiga crescente, ácida e pérfida que, acima de tudo, consegue perpetuar todos os desconfortos mais tempo do que o necessário, como um post-it esquecido e com lembrete desatualizado.

É inglório chegar-se à madurez da existência, apto para gerir colateralidades e administrar as doses certas de equilíbrio, e ter de inalar todos os vapores inválidos e fora de prazo, expelidos pelas chaminés do infortúnio, como um despertador que recusa silenciar-se.

Neste contexto, há muito deixei de acreditar ser possível escrever direito por linhas tortas. Por mais que as estique voltam sempre a encarquilhar.

EMANUEL LOMELINO