sexta-feira, 14 de junho de 2024
Estou aqui! - Cecília Dias Gomes
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 338 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
338
Neste tempo que é o meu, os anos são cúmulo de água, cloreto de sódio, sangue, reticências, pontos e vírgulas.
Reúnem-se dores e lamentos que se transformam em bagagem-de-mão e escalam-nos até aos ombros, para terem uma vista privilegiada dos horizontes que nos esperam.
Os caminhos; os elementos; as ideias; os anseios; as esperanças; as derrotas; os contratempos; tudo são facas de gumes afiados preparadas para cortar a derme à primeira oportunidade; ao primeiro deslize; à primeira desatenção; ao primeiro baixar de guarda.
Noutro tempo que também foi o meu, as cicatrizes (físicas e mentais) eram medalhas de crescimento e a sensibilidade recusava ficar à flor-da-pele e nunca despertava por dá-cá-aquela-palha.
Os monossílabos não originavam depressões. As encruzilhadas não provocavam ansiedade. Os arrufos não geravam separação. Os atritos não empunhavam belicismo. Todos sabiam que a banha da cobra era escorregadia e o óleo-de-fígado-de-bacalhau sabia mal, mas nem por isso havia dúvidas existenciais nem associações de apoio a seres cheios de não-me-toques.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 21) - Geórgia Alves
quarta-feira, 12 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 337 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
337
Olho pela janela aberta ao mundo. Deixo-me seduzir pelos voos intermitentes dos piscos e procuro, entre as gaivotas, alguma que se assemelhe a Fernão Capelo.
Há um desejo de ver piruetas infames e cambalhotas irreverentes, como quem só consegue sentir-se quando deambula entre os precipícios da esquizofrenia e o jazigo frio.
Reduzo o horizonte ao solo espraiado diante de mim e surpreendo-me com um gato sem botas nem florete que usa o seu crédito pessoal de vidas ao desafiar, com mortais cabriolados, dois rafeiros parcos de senso e língua salivante.
Detecto no felino essa fome de liberdade criativa e adrenalina presunçosa que é a ascensão de um espírito aventureiro e vagabundo, como um qualquer Tom Sawyer cansado dos Sid desta vida, sempre prontos a demonstrar a sua originalidade formatada, em palcos carmins sob iluminação lilás.
Regresso ao interior da casa com o intuito de transformar os meus devaneios oculares em algo ligeiramente parecido com literatura, no entanto, fica reforçada a ideia de que, por mais voltas e reviravoltas que dê, as minhas palavras nunca terão a elasticidade das fábulas e serão sempre a representação por extenso da minha inaptidão gímnica.
EMANUEL LOMELINO
Abismo da Sombra do Esquecimento (excerto) - Alvaro Giesta
terça-feira, 11 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 336 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
336
Ausento-me de mim nas horas mais longas, à espera do momento certo para abraçar os pensamentos que me elevam.
Sou como um filtro de malha finíssima no garimpo da consciência, sem espaço para deixar-me enredar por irracionalidades pueris, que nada mais fazem do que emburrecer quem a elas se entrega.
Por não ser fácil manter a disciplina necessária para ganhar indiferença ao irrelevante, habituei-me a inundar a mente nos mergulhos que faço na literatura clássica - o meu eremitismo ajuda.
Com isto volto a reforçar a minha adoração pelo isolamento consciente e propositado; pelo silêncio solitário; pelas conversas mudas com os literatos do passado; com as minhas discussões internas. Mesmo que isso me coloque mais dúvidas do que certezas e mais perguntas do que respostas.
EMANUEL LOMELINO
Renasce a teia (excerto) - JackMichel
segunda-feira, 10 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 335 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
335
Malditas são estas noites brancas onde sobressaem os sonhos interrompidos e impropérios, porque no raiar do dia tudo será exponenciado numa frustração inigualável por viver nesta época em que já não há fugas revoltosas.
Quem dera poder, sem problemas de consciência e isento de responsabilidade, recriar os teus passos de adolescente despreocupado e pegar a estrada rumo a qualquer lugar, que não este.
Ao contrário de ti, não posso simplesmente preparar um farnel com fruta, pão e enchidos, e fazer-me ao caminho, por dias e dias, deixando a vida para trás das costas. Tenho de honrar contratos, pagar contas e amparar uns quantos.
Por conta desta nobreza de carácter, tão inoportuna como castradora, sobra-me a resignação e razões de sobra para lançar, entre dentes (por ser madrugada), mais umas quantas obscenidades. Cada um no seu tempo e com o seu fado.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 9 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 334 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
334
Tive uma trabalheira desgraçada para refazer o pré-agendamento das páginas deste diário, de forma a poder encaixar este texto, no entanto, a pertinência temática obrigou ao esforço extra, para não se perder a actualidade.
À hora que escrevo estas linhas (10.50) já exerci o meu direito/dever, como cidadão eleitor, e votei em consciência.
Ao contrário de sufrágios anteriores, desta vez as mesas de voto estavam pouco concorridas e essa circunstância leva-me a tecer algumas considerações.
Se por um lado, ainda é cedo para aferir a percentagem de abstencionistas, não deixa de ser preocupante a abissal diferença de adesão comparando com as últimas eleições. Pode ser que até ao fecho das mesas de voto as coisas mudem.
Todos reconhecemos que, nas Europeias, os portugueses nunca foram muito participativos, contudo, dado o extremismo que se tem instalado na política nacional, não deixa de ser incómodo este comodismo.
Por mais que nos sintamos de mãos atadas perante a absurda incompetência e arrogância da classe política, as urnas são uma forma de mostrarmos proactividade e interesse pelos assuntos que realmente importam.
Confesso que durante muito tempo, também eu, pertenci ao grupo de abstencionistas e o meu argumento era, e talvez continue a ser, muito válido: se os políticos usam bastante a abstenção nas votações da assembleia, porque não hei de agir da mesma forma?
A resposta pode ser encarada de vários ângulos e, infelizmente, aquele que me fez voltar a usufruir do meu direito/dever, consagrado na constituição, está relacionado com o facto de não ser abastado e ter no registo dos cadernos eleitorais a única forma de desbloquear burocracias nas edilidades.
Por muito que custe admitir, os processos nas juntas de freguesia, autarquias e outras entidades públicas, só avançam tendo-se dinheiro ou comparência assídua nas eleições. De outra forma é difícil até receber licença para plantar orquídeas.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 8 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 333 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
333
Felizmente, há coisas sobre as quais já não escrevo. Não é autocensura, tampouco é cansaço das temáticas. Simplesmente escrevi tudo o que queria, e podia, sobre cada um desses assuntos e nada mais me resta dizer do que silêncio.
O ofício da escrita – e destes exercícios – também inibe a exclusividade e exige uma faceta criativa múltipla e diversificada, sob pena de martelar sempre as mesmas teclas e parecer um gravador em looping.
Depois, existem toneladas de palavras que merecem a minha atenção redobrada pela amplitude dos ângulos que posso abordar, tantos são os sinónimos à procura de emprego.
Por outro lado, caso seja necessário apontar dedos e culpados, peçam-se meças aos livros que se abrem aos meus olhos e aos raciocínios que afloram nesta mente irrequieta e esquizofrénica.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 20) - Geórgia Alves
sexta-feira, 7 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 332 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
332
É nestes exercícios de escrita que me abandono e encontro, vezes sem fim, por inteiro, sem lamentar a sorte nem chorar fados.
As palavras sabem como despir-me a alma (sem pudores nem tabus) e vestir-me o âmago (sem estéticas ou estilismos) porque todos os trajes são assessórios dispensáveis, que só existem por convenção e vaidade.
Um dia pensei ser criador de frases (aprendiz de qualquer coisa semelhante a literatura), mas a realidade esbofeteou-me e agora sei que são elas (as frases) que me constroem, me definem, me escrevem.
O que escrevo não sou eu, nunca fui. Aquilo que escrevo é o que a escrita quer que eu pareça ser. E tudo isto porque eu medito no que ela me dita.
EMANUEL LOMELINO
A Árvore da Liberdade (excerto) - Alexandra Ferreira
quinta-feira, 6 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 331 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
331
Esta coceira subcutânea é uma reacção alérgica à imodéstia que voga nos ares circenses do universo individualizado das palavras.
Há um formigueiro que alastra corpo acima, como um farol de incómodo, e um outro, de jactância, que sobrevive à base de ácidos, pompa e circunstância.
A questão central é, precisamente, ser tudo lateral, periférico, limítrofe, marginal, à essência da arte. Tudo é engodo e subversão. Um chamariz veneziano para um corso de elitismo pedante.
O problema não está na vaidade presunçosa, mas sim nos rostos de plástico e sorrisos acetilenos, que escondem facas nos cós e fatuidade nos gestos, como se o mundo dependesse de esturjões e cosméticos, ao som de pífaros e violinos, numa noite de fábula e histórias da Carochinha, de portas cerradas aos pés-no-chão e olhos-abertos.
E não há metáforas suficientemente impactantes para descrever a arrogância pífia desta nova tendência aristocrata que grassa, e se alastra como sarna, nas letras Iscariotes.
EMANUEL LOMELINO
Chuva na teia (excerto) - JackMichel
quarta-feira, 5 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 330 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
330
O vício de conhecimento empurra-me para leituras inquietantes que, apesar do desconforto da não identificação, têm o condão de plantar algumas sementes com fortes probabilidades de germinarem em algo útil.
Esta circunstância ocorre amiúde porque, por alguma razão que a própria razão me oculta, formatei-me de modo a conseguir ver qualidade literária naquilo que está fora dos parâmetros do meu gosto pessoal.
Quando isto acontece, fico sobressaltado pela indigestão que a leitura me provoca, no entanto, porque tenho um número considerável de neurónios sempre predispostos a saber mais, dou por mim a funcionar como uma esponja que absorve de forma selectiva, mas consciente, conceitos que posso aplicar nas criações por vir.
Este processo é a soma de duas máximas ancestrais: “O saber não ocupa lugar” + “Nada se perde, tudo se transforma”.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 4 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 329 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
329
Deste lugar privilegiado, o horizonte é céu, terra, um rio navegado por inúmeras embarcações, uma ponte percorrida por uma infinitude de veículos, e todo o tempo que o meu olhar demora a perceber a totalidade da paisagem.
Igual extensão temporal existe na construção de puzzles, na leitura de dois capítulos dos Maias, ou na elaboração dos exercícios de escrita que, indiferente, partilho.
A mesma cadência existe no entrançar de pensamentos desta mente irrequieta, que se dedica (de corpo e alma; de fio a pavio) a dar voz à esquizofrenia que me define.
Não há nada mais nefasto para um ser-escrivão do que a ociosidade das mãos e a preguiça de uma pena.
Por isso, quando não escrevo sinto-me inútil e faço das tripas coração para que as folhas de papel (ou a tela do PC) estejam de bom humor e aceitem receber as palavras que nascem de mim.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 3 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 328 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
328
Abrem-se as portas da introspecção e na balança do deve e haver são pesados todos os passos, recuos e avanços.
Na avaliação, somam-se virtudes, méritos, nobreza, honra e altruísmos, e subtraem-se defeitos, vícios, transgressões, imperfeições e fraquezas.
O resultado desse exercício meditativo nem sempre corresponde à realidade porque existe uma tendência para a parcialidade, contudo, sendo-se honesto, chega-se a conclusões interessantes que podem ser benéficas, se usadas para limar arestas e alterar comportamentos.
Seja como for, a reflexão é a base holística do autoconhecimento e jamais pode ser reprimida, bem pelo contrário, deve ser entendida como uma oportunidade única para analisarmos as diferenças entre aquilo que queremos ser e o que somos na realidade. Só depois poderemos concluir se temos a fibra necessária para nos transformarmos no nosso ideal.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 19) - Geórgia Alves
domingo, 2 de junho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 327 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
327
Estou cansado destes ares poeirentos que teimam em frequentar os espaços, sem ventilação, onde exerço o labor que me mortifica.
Não há um dia sem que essa presença fétida e mórbida fique a pairar sobre mim, como nuvem de tempestade iminente, mesmo resguardado no vazio das ideias e na leveza dos passos.
É uma fadiga crescente, ácida e pérfida que, acima de tudo, consegue perpetuar todos os desconfortos mais tempo do que o necessário, como um post-it esquecido e com lembrete desatualizado.
É inglório chegar-se à madurez da existência, apto para gerir colateralidades e administrar as doses certas de equilíbrio, e ter de inalar todos os vapores inválidos e fora de prazo, expelidos pelas chaminés do infortúnio, como um despertador que recusa silenciar-se.
Neste contexto, há muito deixei de acreditar ser possível escrever direito por linhas tortas. Por mais que as estique voltam sempre a encarquilhar.
EMANUEL LOMELINO














