domingo, 30 de agosto de 2026

Mágua (excerto 6) - Flávio Ulhoa Coelho

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Engoliu em seco...
Quando, já ambas na universidade, decidiram morar juntas, a única coisa que buscaram para a casa comum foi uma banheira. Os dias debaixo do chuveiro nos vestiários foram trocados por rápidos carinhos na apertada banheira que conseguiram. Talvez tenha sido esta tosca mudança de hábitos que significou afinal o começo do fim.
Me passa seu endereço, vou aí assim que puder.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Silêncio, o espaço entre as palavras (excerto 6) - Ana Carvalho

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E há ainda aqueles silêncios que não pertencem a ninguém, mas passam pela vida como nuvens que mudam de forma sem pedir licença. Silêncios que se penduram nos fios elétricos, vibrando com a eletricidade acumulada do dia. Silêncios que repousam sobre um livro fechado, aguardando a mão que o abrirá. Silêncios que se instalam nos ombros de quem carrega o mundo, não para pesar, mas para lembrar que é possível descansar.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Mágua (excerto 5) - Flávio Ulhoa Coelho

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Quando ele achava que já estávamos satisfeitas, e ele também, vinha bater à porta do vestiário, já é hora de ir, meninas, ele gritava. Na saída eu sempre olhava para ele e sorria. Ah, como conhecia aquele sorriso maroto da amiga!
Lembrou-se então que ela não, não sorria e, tímida, escondia o rosto de vergonha ao passar apressada pela porta de saída, torcendo para que ele nada dissesse. Nos tantos dias em que isso se repetiu, nenhuma palavra além do olhar irônico, e da calça um tanto quanto apertada do inconveniente porteiro.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Silêncio, o espaço entre as palavras (excerto 5) - Ana Carvalho

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Às vezes imagino que, se pudéssemos ver o silêncio, ele teria forma de vento, não aquele que arrasta telhados, mas o que apenas desloca uma folha, como vejo na minha rua, ou que faz vibrar um fio de cabelo, no meu cabelo. Seria transparente, sim, mas não vazio; carregaria consigo o perfume das lembranças alheias, os restos de conversas desfeitas, a poeira dourada de momentos que ninguém percebeu.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Mágua (excerto 4) - Flávio Ulhoa Coelho

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Os treinos de natação, anos a fio, até tarde na adolescência, a frugal conversa à beira da piscina enquanto outros e outras já se trocavam apressados nos barulhentos vestiários. Luzes quase apagadas e elas eram as últimas a saírem da piscina, as últimas a ocuparem os chuveiros já vazios de outros corpos e desejos, a tomarem banho juntas no denso vapor das incertezas, na penumbra das vontades, a umedecerem seus dedos e gemerem debaixo da água quente. Beijos e promessas efêmeras à espera do vigia bater escandalosamente à porta do vestiário e gritar que já era hora.

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domingo, 16 de agosto de 2026

Silêncio, o espaço entre as palavras (excerto 4) - Ana Carvalho

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De repente, estamos sentados numa sala qualquer, ou caminhando por uma rua qualquer, e uma sensação antiga, quase pré-histórica, se instala. É como se uma mão invisível tocasse o nosso ombro para lembrar: há mais do que isso, muito mais. Há algo por detrás, por debaixo, por dentro. Algo que não se apressa, que não deseja, que apenas observa. E que, ainda assim, sustenta tudo.

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sábado, 15 de agosto de 2026

Mágua (excerto 3) - Flávio Ulhoa Coelho

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Chegando ao final do atalho, mas com o rugir das ondas ainda presente em seus ouvidos, ela notou o carro vermelho, sempre vermelho, displicentemente estacionado à porta de sua casinha e imaginou que a abusada já tinha entrado nela e, quem sabe, já estaria mexendo em suas coisas, julgando-a como bem era o seu feitio. A porta estava destrancada, sim, mas quem é que tranca a casa naquele final de mundo?
Você ainda guarda essa foto?

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

Silêncio, o espaço entre as palavras (excerto 3) - Ana Carvalho

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Às vezes penso que o silêncio é aquele breve instante como o primeiro abrir de olhos de alguém que desperta sem saber se ainda sonha. Há uma oscilação, delicada, quase imperceptível, entre o que se vê e o que se pressente. Algo se move, mas não sabemos onde. Talvez seja a própria alma reajustando sua posição no corpo, tentando encontrar uma nesga de conforto dentro da vastidão do dia.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Mágua (excerto 2) - Flávio Ulhoa Coelho

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Mágua pura.
Quando finalmente aqueles anos todos já tinham, persistente e dolorosamente, percorrido sua retina, o olhar deixou para trás o infinito do mar, já era tempo, e voltou-se ao outro lado de seu mundinho atual, o lado intimista da quase isolada casinha onde vivia solitária há quinze anos. Voltou-se pragmaticamente ao que realmente a incomodava. Um pequeno atalho separava o mar de sua casa e ela o percorreu, descalça e ansiosa.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Silêncio, o espaço entre as palavras (excerto 2) - Ana Carvalho

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Você deve saber, antes de qualquer coisa, que eu não vim aqui para lhe contar alguma história. Eu vim aqui para falar de algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo: do modo como o mundo se mostra quando nós paramos de falar. Do modo como as coisas se revelam quando não tentamos explicá-las. Do modo como o silêncio pode ser, ao mesmo tempo, um conforto e um espelho.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Mágua (excerto 1) - Flávio Ulhoa Coelho

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Frente a seus olhos, água.
Água, mágoa, mágua.
Desde muito cedo daquele dia a água esteve diante de si, de tantas maneiras foram que ela até já se acostumara aos olhos úmidos. Já foram lágrimas, água fria no rosto ainda dormente, copos d’água quase cheios, chuva caindo por detrás das montanhas, mas, naquele momento, era o oceano imenso espumando a sua usual impaciência, impaciência que também é a dela hoje. O olhar no infinito reativou nela memórias, mágoas, deslizes imperdoáveis, inexplicadas atitudes e passados não tão remotos, coisas tantas que gostaria de esquecer para poder seguir a sua vida sem mais remorsos ou expectativas.

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sábado, 1 de agosto de 2026

Silêncio, o espaço entre as palavras (excerto 1) - Ana Carvalho

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A maioria das pessoas passa pelo silêncio como quem atravessa um corredor conhecido sem notar a cor das paredes. Eu, porém, e talvez você também, sinto que no silêncio existe algo mais denso, uma substância antiga, uma matéria que não se vê, mas que se apoia dentro de nós como uma pedra quente guardada na palma da mão. Talvez seja nele que tudo comece: o gesto de olhar, a vontade de compreender, a coragem de existir.

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