sexta-feira, 15 de abril de 2022

Ontem - VÍTOR PAIVA DUARTE

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Como foi ontem a minha existência se por coincidência, eu não te conhecia nem sabia da tua existência?
Como foi possível sobreviver a tantos anos de angústias, num mundo que sempre me pareceu imperfeito, e não saber de ti era o seu maior defeito?!
Ontem. Um tempo que passou numa eternidade escondida no escuro do passado, o lugar onde Deus fez o projeto de um mundo perfeito e se esqueceu que a perfeição só acontece quando o teu sorriso me encontra e me faz sorrir também!
Foi ontem que eu não te conhecia e o mundo era um lugar sem gosto, em que os gatos não gostavam de flores em agosto, e riam mais do que era suposto, enquanto as ondas eram cavadas na superfície negra do mar, com tempestades que fugiam do lugar, era um tempo em que não se podia amar, apenas porque ninguém sabia por onde começar!
Ontem tu tinhas-me esquecido sem que nunca antes me tivesses conhecido, e na lassidão amarela da viagem, tu tinhas adormecido, sem abrir a janela, por falta de coragem, ou por medo de que o mundo nunca tivesse existido!
Mas esse ontem feio e mau, não existe, já morreu, porque hoje o teu sorriso, descobriu o meu!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

quinta-feira, 14 de abril de 2022

O menino que não ria (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Pela estreita rua descia o rio estridente de alegria, como águas tumultuosas que voltavam a subir contra a corrente encontrando outros gritos, outras correrias e outros abraços, mais eternos do que qualquer uma daquelas crianças poderia imaginar, naquele momento.
Depois, tudo recomeçava, sem haver uma razão plausível para recomeçar. A miudagem nada percebia de lógica e o seu único fito era saborear instantes e arquivar memórias para um futuro que não fazia parte do vai-e-vem por cima do empedrado irregular que agarrava os pés e recebia os tombos de dores prontamente caladas e de lágrimas bem guardadas nas mangas das camisolas e nas costas das mãos para lavar, assim que voltassem a casa.
No entanto, por ali, havia um menino diferente, na maior parte das vezes. Descia a íngreme escada de madeira, com buracos tapados à pressa por onde os ratos, obstinados na sua faina, voltava eu a passar. Assim que a escada terminava, num pequeno patamar de pedra, logo à rua o recebia na corrente barulhenta, intrépida e agitada da rapaziada em constante movimento. Mas, em vez de seguir o rumo daquele caudal, sem azimutes definidos, aquele menino de olhar meigo, algo triste e ausente, encostado à margem esquerda de quem subia a rua, para não ser levado pela enxurrada sem freio que, sem cansaço, não se detinha nem conhecia obstáculos que a detivesse, o menino dirigia os seus passos para quatro portas acima, de postigo aberto para que a luz pudesse fazer-se presente e iluminasse as roupas que se agarravam as mãos de quem tão bem as tratado. O postigo aberto também permitia ver a vida correr fora de casa, da mesma que oferecia a visão de quem trabalhava à luz do dia a quem na rua passasse. Era assim que acontecia tantas e tantas vezes com aquele menino.

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Grinalda de emoções (excerto 3) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Este foi o pior dia das nossas vidas, a nossa menina ia para tão longe e sabe-se lá o que iria acontecer. Miguel ficou completamente transtornado, a sua menina, a princesa, ia para um país longínquo e em guerra, o que iria acontecer com ela?
Miguel, o amor da minha vida, ficara órfão muito cedo, ainda pequeno. Os pais morreram num acidente de carro, quando viajavam para Espanha, para uma reunião de trabalho; um carro desgovernado embateu de frente no deles e tiveram morte imediata. O outro condutor tinha adormecido ao volante e nem se apercebeu do que provocou, pois também ele morreu.
Miguel, filho único, ficou aos cuidados de uma tia, irmã da mãe, que o educou como se seu filho fosse. Deu-lhe tudo o que podia e fez dele um homem honrado e bem visto por todos os familiares e amigos. Mas Miguel não aceitou a morte prematura dos pais, foi um trauma que o acompanhou pela vida fora. Encontrou em mim a mulher, a amiga e a mãe.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

terça-feira, 12 de abril de 2022

Meninos do bairro (excerto 5) - LUÍS VASCONCELOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Na época estava a passar na televisão a primeira novela que inaugurou uma avalanche delas que se sucederiam, até aos dias de hoje. Mas aquela era a primeira. Toda a gente queria ver. Tudo o que é novidade suscita curiosidade! Chamava-se “Gabriela, cravo e canela”, baseada num romance homónimo de um dos maiores vultos da literatura brasileira, Jorge Amado. Nessa novela havia um espaço onde os homens se reuniam à noite, para se divertirem, chamado Bataklan cuja proprietária era a Dona Maria Machadão. Uma mulher detestada pelas falsas moralistas e beatas da pequena e sossegada cidade. Bom, nós os meninos da Estação, influenciados por esse local, supostamente de má vida, também arranjámos o nosso Bataklan, nas imediações do Bairro. Um lugar meio escondido onde nos reuníamos para jogar cartas, contar anedotas, falar de gajas e futebol, dar uma “passa” num cigarrito que tinha de chegar para todos, ver as páginas duma ou outra revista “menos recomendável” (se é que me entendem!), nada mais. O proibido tornava-se mais apetecido. Na pré-adolescência queremos muito viver novas experiências, novas sensações! É a adrenalina que começa a ferver nas veias, a vontade de desafiar, desbravar, explorar e ampliar o mundo!

EM - NINHO DE CUCOS - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

Muito Obrigada - Asante Sana (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Mais uma vez as acácias, pontilhando a paisagem, o postal de identidade de um continente. A entrada do parque nacional do lago de Nakuru, custou cerca de 200 shillings quenianos, se eu e o teu pai tivéssemos ido através de uma agência de viagens teríamos pago a dobrar mas com a matrícula do carro das Nações Unidas, a entrada foi quase gratuita. Os felinos predadores por natureza, nomeadamente, os leões, as chitas e os leopardos, já por si escassos e fugidios, não apareceram, o que foi pena pois tinha a minha máquina fotográfica preparada para o efeito, se bem que nos tempos atuais aparecem com mais frequência, para se deixarem fotografar.
Contudo, para contrabalançar, houve um grupo de macacos pequenos que se veio despedir de nós à saída. Eram três, se não me falha a memória um deles, mais afoito, subiu para o tablier do carro com curiosidade. Coloquei bem no seu centro uma maçã e ele levou-a com as suas mãozinhas mas mais à frente,, deixou-a cair, pelo que os outros macaquinhos começaram todos a brincar, como se de jogadores de futebol se tratassem, dando chutos na maçã.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Acordem, mulheres! (excerto) - BERNADETE SAIDELLES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Desconfie de grande amor que aterriza na sua vida feito pluma na flor. Um lindo homem que se encanta e se apaixona repentinamente vendo em ti o sal que busca para seu angu.
Conheci numa clínica uma viúva, menos de sessenta anos que, enlouquecida de “amor”, vendeu a casa para enviar o dinheiro ao tal “príncipe encantado” que tardiamente o encontrara com seu cavalo branco encilhado na porta do Messenger. Virtualmente ela montou, sentindo o sangue a ferver nas veias, galoparam pelos ventos da Web, mas de fato apenas seu dinheiro troteou pelos ares da insensatez e foi parar nas mãos de mais um covarde, sedutor, que abusa da boa-fé de mulheres inexperientes, que acreditam em juras de amor, tão verde, que jamais amadurecerá.
Quantas mulheres ainda caem nesse golpe? Mulheres de todas as idades, que conquistaram tantas coisas, mas não garimparam a autoestima dentro de si. Ninguém compra paixão, menos ainda, amor. Enviar dinheiro para alguém que mora longe, supostamente rico, com belas fotos em excelentes lugares, é ingenuidade de quem está carente. Mulheres que contam intimidades para pessoas que nunca viram, enviam fotos eróticas (nudes) sem saber onde irão parar, compartilham endereço, localização... quando até crianças estão bem alertadas para evitarem tais fatos.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Esperança no sorriso de cada criança (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Quando nascem têm aquele poder de nos tornar melhores e de rebuscar os mais suaves sentimentos.
Como se os pudéssemos ferir com palavras inconvenientes, vozes altas, ásperos diálogos... E talvez seja mesmo isso, feridas para o futuro deles... que podemos evitar... então sorrimos e murmuramos.
Tanto tempo permanecido em pseudo-silêncio e apenas tremores ligeiros dela, ao gargalhar por uma graça e aquelas vozes que o chamavam para lá do sol e da lua. No mundo deles ainda não existem estrelas, nem cometas... apenas vozes húmidas.
Ao gritar toda a dor, na boa hora...dor que a deveriam deixar naquela sala de hospital, eles soltam-se e na nova liberdade aprendem a amar.
O toque de um dedo timidamente próximo, o murmúrio de outras vozes e os perfumes do mundo são as boas-vindas.
E aqueles beijos prometidos e desconhecidos agora servem de aconchego e o seio que alimenta... de solar que acalma cada anseio, de refúgio e nos braços que o cobriram sem sentir, agora são o seu ninho, o melhor paradeiro.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

24 Setembro 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

– Diz-me uma coisa, se entenderes que deves responder, eu fui o teu primeiro caso após a morte do teu marido?
Lourenço arrepende-se imediatamente de tal pergunta, um assunto tão íntimo que não lhe deveria ter tocado. Mel apercebe-se da atrapalhação dele, afaga-lhe o rosto, deposita-lhe um beijo nos lábios e diz-lhe que sim, ele foi e é o seu único caso após Diamantino, acrescentando que também nunca ousara trair o marido, mais por medo que por falta de desejo em o fazer.
Lourenço, não se conseguindo conter por mais tempo, agarra-lhe no rosto, com ambas as mãos, baixa um pouco a cabeça e beija-a em plenos lábios, ao que ela responde na plenitude dos seus desejos:
– É engraçado, estava aqui a pensar para mim que talvez devesse pedir-te o contacto dessa tua psicóloga, mas acho que já não preciso, tu, se aceitares, serás a minha psicóloga, embora te avise desde já, que não te poderei pagar os devidos honorários. Só há uma coisa que me deixa preocupado. Disseste que essa tua psicóloga te terá dito que o mais normal é as primeiras relações após processos como os nossos, não resultarem, ora ao que me dizes, eu sou o teu primeiro caso, sucedendo que também tu és o meu primeiro caso após o divórcio, embora confesse que, ao contrário de ti, nem sempre fui fiel à minha mulher. Sinto medo de te perder. É verdade, pode até parecer um disparate da minha parte, pois só nos encontrámos duas vezes, mas sinto medo.
– Quanto aos honorários, não precisas de te preocupar, pagas-me com carinho, meiguice, atenção e paciência para as minhas pancadas. Em relação ao futuro, acho que seremos nós a ter de decidir o que queremos dele, sendo certo que há um aspecto que joga a nosso favor, não nos conhecíamos de parte alguma, portanto nem eu sabia a tua história de vida, nem tu sabias a minha, encontrámo-nos porque o destino assim o quis e voltámos a encontrar-nos porque assim quisemos.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

Um paradigma eco-ético social (excerto) - JOAQUIM SILVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Um novo Modelo, um outro Pensamento e paradigma diferente, perante uma nova civilização que combatendo a civilização industrial, na denominada terceira vaga de Tofler (de referir que resiste a civilização industrial ainda), no entanto, esta terceira vaga ainda não determinou o campo, e nós apontamos, como alternativa à destruição dos laços, das relações, das economias, das culturas, a reformulação pela preservação do essencial da organização ecológico-social, transformando no entanto o caráter destrutivo que a competição económica e financeira nos lega como molde desta vaga, numa caraterística cooperativa, partilhada, suficiente, de base económica-social, ou de economia social em escala alargada, controlando a erosão dos nichos ecológicos, e a ditadura da tecnologia.

EM - A VIA DA SÍNTESE III - JOAQUIM SILVA - IN-FINITA

domingo, 10 de abril de 2022

É o teu corpo que me atrai - VÍTOR PAIVA DUARTE

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Às vezes é o teu corpo que me atrai, assim sem mais nem menos. Só o corpo... A tua pele suave e branca que procura os meus olhos, se fixa neles e os faz sorrir com o desejo, assim como quem mendiga um beijo!
E os seios, essas pequenas montanhas que se elevam por cima do teu coração e te recortam o peito como um horizonte harmonioso e tentador, com mamilos tão salientes e atrevidos que apontam o céu como se desafiassem o próprio Deus e lhe quisessem tocar na lua, apenas para o deixar com fome tua!
O teu corpo, esse mundo por onde passeio os meus olhos deslumbrados e as minhas mãos com movimentos controlados, com toques variados e explorações por todos os lados, esse corpo é o que de ti, verdadeiramente me atrai e me fascina, tão doce esse teu corpo de menina!
E as tuas pernas, meu Deus, como são belas, como se fazem eternas assim dobradas, nem abertas nem fechadas, como se fazem admiradas, pelo meu olhar que por elas sobe desde os pés até ao vício de te amar, tão doce esse lugar!
E, enquanto o tempo se esvai... é o teu corpo que me atrai...

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

sábado, 9 de abril de 2022

A intuição e o medo (excerto) - ANGELA MARCIA DE SOUZA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Certo dia, eu estava na janela de minha casa que fica em um bairro muito bonito próximo ao Parque do Sábia. Chegou uma jovem em seu carro branco e começou a descer suas coisas materiais. Não demorou muito, desceu do carro um cachorro. Ele era de porte pequeno, na cor branca e muito peludinho. Assim que desceu, foi logo correndo, como quem quisesse conhecer todo o espaço. A garota, que eu não sabia o nome, continuou com os seus afazeres e seu cachorro a perturbá-la. Eu fiquei ali, expiando pela janela. Moça bonita de cabelos pretos e cacheados. Ela não me viu. Eu também não fiz questão. Passado uma hora e meia, lá vem ela novamente. Agora com uma gata na mão. Uma gata da raça siamesa, linda, toda embrulhada em seu casaco. Corro pra buscar meu celular. Queria tirar uma foto daquela cena tão cotidiana. Mas, quando voltei não tinha a gata e nem tão pouco a garota. O carro também já não estava mais lá. Fiquei inquieta e pensando.... Será que ela volta? Será uma nova moradora do bairro? Como eu gostaria de conhecê-la. Voltei para dentro e fui logo imaginando tudo sobre ela.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Diálogos entre avô e neto - A mentira (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

À entrada da porta, pendurado na maçaneta, estava um aviso que não admitia segundas interpretações: “Estou zangado! Deixem-me em paz!”. O avô leu calmamente e, depois, virou o aviso do avesso onde, em contraponto, se podia ler: “Estou bem-disposto! Entrem!”. Repôs a tabuleta como estava antes e sorriu compreensivo com o neto. Talvez nunca antes ele tivesse sido tão complacente mas, desde o nascimento do neto, tinha amolecido ou, como ele preferia pensar, estava agora mais sábio, melhor preparado. Acenou afirmativamente com a cabeça, como se desse razão a ele próprio ou a um outro homem que vivesse num universo paralelo, com todo o seu código genético e que consigo convivia amiúde.
Educadamente, bateu à porta com os nós dos dedos e esperou por uma resposta que sabia que não aconteceria. Repetiu o gesto, agora um pouco mais sonoro, mas o resultado foi, esperadamente, o mesmo. Então, passou ao plano “B”: deu início à imitação do chilreio de um pássaro imaginário que, tempos antes, tinha treinado com o neto e que tinham combinado ser uma chave secreta, que seria apenas do conhecimento de ambos, e serviria para situações de emergência, como aquela. Pensando não ter sido ouvido, o avô ia repetir o assobio quando a porta entreabriu uma nesga por onde podia ver apenas a metade da cara que o via a ele, por inteiro.

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Grinalda de emoções (excerto 2) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

No fundo da mala, a única recordação que me acompanhava e fazia questão que regressasse àquela casa, estava uma moldura em prata, com a fotografia da família: os avós, os meus queridos pais, eu, tu e os nossos filhos ainda bebés, o Rodrigo e a Cristina. Aos pés do avô Álvaro, estava deitada a Nany, uma cadela de raça labrador que veio para a família com apenas três meses e ficou até ao final dos seus dias, com quase quinze anos de vida. Aquela fotografia fora tirada num dia de imensa felicidade, no dia do baptizado da nossa princesa, tinha ela apenas seis meses. O príncipe, com três anos de idade, segurou a vela da irmã com a consciência do que estava a fazer, sabia que a partir daquele momento ela ficaria mais boazinha, até podia chorar menos e deixá-lo chupar na chucha dela. Recordações que ficam de momentos que não voltam.
Os avós partiram pouco tempo depois desta cerimónia religiosa, em que consagrámos a nossa menina à luz do Senhor tal como já tínhamos feito o mesmo ao nosso príncipe quando ele tinha sete meses de idade. Também foi um dia inesquecível. Também nesse dia houve a fotografia da família, mas, nessa, faltava a princesa.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Meninos do bairro (excerto 4) - LUÍS VASCONCELOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Estavam muito em voga as coleções de cromos. Sobretudo de jogadores de futebol, séries televisivas como “Espaço 1999”, “Caminho das Estrelas”, “Bonanza”, “Sandokan”, entre outras. Era com uma tremenda expetativa, coração palpitante que abríamos cada carteira! Será que vinha lá algum cromo que nos faltava e que os outros putos também ainda não tinham? Cada um de nós queria ser o primeiro a preencher por completo a caderneta onde meticulosamente os colávamos. Uma dessas coleções era sobre equipas e pilotos de Fórmula 1. Havia também alguns cromos que mostravam o traçado de cada pista. Tivemos então a brilhante ideia de começar a fazer as nossas próprias corridas, recorrendo à compra ou até ao gamanço das miniaturas dos carros verdadeiros. Havia os “Brabham”, os “Williams”, os “Ligier”, os “Renault” e por fim os míticos “Ferrari”! Com um giz desenhávamos cada pista no terraço da “SAPEC”, e depois lá íamos realizando as provas.

EM - NINHO DE CUCOS - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

Lamu - o povo suaíli (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Voltámos para casa já de noitinha, perdendo-nos por completo. Andámos às cegas por entre as árvores à procura do caminho de volta, correndo o risco de um de nós cair e magoar-se, sem haver a possibilidade de pedir socorro num lugar daqueles tão isolado do mundo. Também corríamos o risco de sermos assaltados, apesar de não haver nada realmente para roubar. Fomos, finalmente salvas pelo nosso guia que de forma inteligente e generosa, foi ao nosso encontro de lanterna na mão. Como a hora de jantar chegara e ele não nos via aparecer, resolvera tomar as suas devidas providências e pôs-se a caminho.
A entrada do jantar são três samosas de peixe, seguidas de uma salada de tomate, pimento e alface, temperada com lima, um sumo natural de limão e uma espécie de chapati, que nos enche tanto, impossibilitando-nos de comer mais. Foi um verdadeiro manjar. Entretanto, as ladainhas que saem de alguns altifalantes, chamando os fiéis para mais uma reza, já se fazem ouvir. A primeira foi a de uma voz de uma criança, outras se seguem, misturando-se no ambiente, cortadas pelo zurrar dos burros que também parecem querer participar do ritual.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

quarta-feira, 6 de abril de 2022

24 Setembro 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Lourenço não consegue esconder o que lhe vai no pensamento, nem o pretende, As lágrimas que lhe escorrem pelo rosto e fazem com que os pelos do peito brilhem ainda mais sob os raios solares de tão acalorada tarde de Setembro, são a prova real de como sofre ao ouvir a narrativa de tão dolorosos momentos.
Mel, mantendo-se de cabeça apoiada no ombro dele, olha-o comovida. Se há pouco tempo, lhe dissessem que ela voltaria a confiar em alguém, principalmente um homem, ao ponto de ali estarem, os dois completamente nus, pele com pele, ela teria achado que o autor de tal afirmação só poderia estar completamente louco. Afinal, agora vê-se a pensar que a única louca no meio de tudo, é ela. Não uma louca qualquer, mas sim uma louca pelo prazer e felicidade que sempre lhe foram negados e que agora ali estão à espera de serem colhidos e saboreados.
Lourenço, após se conseguir refazer do impacto provocado pela leitura daquele pequeno pedaço do passado de Mel, e como que adivinhando o que lhe vai no pensamento, roda um pouco o tronco, de modo a ficar olhos nos olhos com ela, agarra-lhe nas mãos e diz-lhe, novamente de lágrimas nos olhos, que muito do que ali se encontra escrito, se poderia aplicar a ele mesmo, na total perfeição das palavras.
Mel, dando asas ao que lhe vai no coração, chega-se a ele, empurrando-o até que fique deitado com a cabeça apoiada no braço do sofá, então deita a sua própria cabeça no suave peito masculino, ao mesmo tempo que coloca a perna direita sobre as deles e se vai chegando até que os dois corpos fiquem como que colados um ao outro:
– Explica-me uma coisa, se o conseguires, e quiseres. Como é que alguém que sofreu o que tu sofreste nas mãos do teu marido, e parece-me que ainda nem sequer sei nem uma milésima do teu verdadeiro calvário, consegue superar todos os traumas, vencer todos os medos, derrubar todos os fantasmas e em tão pouco tempo, volta a acreditar num homem, ainda para mais, tratando-se de um desconhecido como eu?

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

O pensamento ecologizado (excerto) - JOAQUIM SILVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Um novo padrão de pensamento, de paradigma ecologizado, é um padrão aberto, um reinicio sem dogma, sem rigidez, mas aberto às inter e retroações da cultura, da história, da sociologia, da espiritualidade, no fundo da síntese que a vasta noosfera do pensamento criou, em conjunto com biosfera e a evolução cósmica.
Um padrão, que é simultaneamente científico, porque assenta em processos de descoberta empírica, como física quântica, o principio da indeterminação, da lógica do terceiro incluído, do primado do conhecimento qualitativo na antropologia e também na sociologia como fator de reinterpretação do conhecimento antropo/social; mas também espiritual. Nas diversas cosmogonias, ou formas cognitivas proféticas do conhecimento tradicional, muito deste novo espectro civilizacional está plasmado.

EM - A VIA DA SÍNTESE III - JOAQUIM SILVA - IN-FINITA

Nasceste sim (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Nasceste do pecado, como se considerava na altura.
De uma união proibida, mas nasceste.
Bravaste os males do mundo, enfeitiçaste anjos e ondulastes no ventre fértil dela, ainda criança... 13 anos ainda se brinca, se sonha, se dorme em paz… Mas ela não mais! Da dor de perder a inocência, cresceu-lhe um ventre. Que a coisa alguma se assemelhava, não o compreendia, não lhe dizia nada.
Coisa estranha essa que a magoava, a perturbava, crescia sem fome e que por náuseas, a acordava.
Do sono profundo acordaram angústias e perguntas… Porque todos a olhavam assim?! Dia após dia, sem lhe perguntarem sequer, se ela sabia o que lhe sucedia enfim?!
Em casa, coisa boa não era, pois o mal tinha manchado o nome da família e tão tarde se aperceberam que a vergonha foi aceite e transformada em castigo…
Que o carregasse ela, a cruz da sua vida, já que para isso sua boca se tivera calado.
Maturidade forçada, meninice roubada, porém compactuada por membros carregados de arranjos preconceituosos e abomináveis. Passara então a ser o exemplo a não ser seguido, a obra de arte de outrora, a ser colocada em um sótão ou numa cave, para que só em caso de maior força fosse visto… Até as coisas se acalmarem, a poeira assentar e as bocas se cansarem de vomitar maldades em frases rosadas de desdém.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

terça-feira, 5 de abril de 2022

Intuitivamente (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Naquela manhã tinha acordado com uma rara sensação de choro, de tristeza, de algo pesado. No banheiro, depois de um bom banho quente, vesti o roupeiro e fui para a cozinha preparar um café bem forte, para me animar. Funcionava sempre a meio gás antes do primeiro café e precisava despertar daquele torpor. Preparando as torradas com mel e manteiga, embora sem apetite, senti-me melhor e de minutos a instantes ou mesmo momentos relaxei. Afinal estava de férias e o Marco deveria passar em casa e levar-me com ele para a montanha, para passarmos 3 dias juntos. Ele passava o tempo agitado, naquele frenesim do escritório e eu no hospital também. Merecíamos este retiro. Também para nos encontrarmos um pouco. Ultimamente ele andava ausente, estranho e irritadiço...A vida moderna, dizia a minha mãe. Mas eu por vezes tinha a sensação de que estava a mais na vida dele e esta sensação de certa forma, mantinha-me mais distante dele e até evitava tocar no assunto do casamento, para não pressionar. Afinal já nos frequentávamos há 2 anos, mas tínhamos a vida toda pela frente. Um dia chegaria a minha vez, a nossa vez!
Quase que tinha conhecido os pais dele um mês antes, mas como ele me esticou a mão de longe e entrou no carro com eles, nem pude cumprimentá-los. Também estava atrasada, ía começar o turno da noite e não me podia dar ao luxo de chegar mais uma vez atrasada. Com as greves os transportes públicos, a vida estava difícil para todos. Para os grevistas e nós.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

Dança-me! - VÍTOR PAIVA DUARTE

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Anda, vem com o teu brilho das manhãs e dança em mim o teu sorriso de beijos como se estivéssemos em jardins de brancas flores e nelas não sentíssemos nem os odores nem as cores, apenas a demência encantadora dos amores!
Anda, vem com a leveza do teu olhar das manhãs de neblina trazer-me a beleza do teu sorriso de menina e, mesmo que eu não mereça, dança-me dos pés à cabeça!
Anda, vem com a doçura da tua voz invadir o meu espaço e sentir a loucura que é para nós o aperto de um abraço. E dança desnuda em mim no toque do prazer que te faço.
Anda, vem dançar-me em suaves movimentos, para que sinta a melodia, das falas do teu corpo em nós, e encanta-me estes momentos com a harmonia do doce da tua voz!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA