segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A MÃE DO RIO E OS ATAFAIOS - ERNESTO FERREIRA

Poesia sentia-se muito satisfeita por ajudar o Ti Reinaldo na lembrança das estórias. Desta vez, disse: Miguel, até aposto contigo como depois de ouvires a estória não serás capaz de ir para o rio, na zona do moinho.
Conforme já se disse o Ti Reinaldo exerce o ofício de moleiro, no moinho que existe anexo à ponte.
Como já viste, o moinho, sendo uma estrutura com peças em movimento, constitui um certo e real perigo para as crianças, sobretudo pelos mistérios que imaginam nos locais mais escondidos do moinho.
Assim, como potencial perigo existia a roda e a engrenagem no piso zero a que se chamava cabouco. Aí há engrenagens que transmitem o movimento circular vertical, em movimento circular horizontal. Dadas as potências em análise pode dizer-se que cada acidente pode ser mortal. O acesso mais fácil a essas engrenagens é possível através de uma passagem, tipo ponte sobre a regueira, que serve para acesso à manutenção e afinação.
Ora, o Ti Reinaldo tem que estar muito atento às crianças que por aí passam e então nada melhor que as assustar com os perigos que correm, se forem para esses locais perigosos. E então inventou perigos que as crianças, por mais que procurassem, não encontravam, mas sempre distantes do local onde havia os perigos.
Esses eram “a mãe do rio”, “os atafaios” e as “catacumbas”. E o Ti Reinaldo assim diz: Meninos a “mãe do rio” é uma cobra gigante, que tem umas correntes, que quando apanha os meninos a tomar banho agarra-os com as correntes, puxa-os para a água profunda - os pegos - onde morrem afogados.
Os “atafaios” são lacraus que tem uma unha enorme que quando apanham o pé de alguém lhe dão um golpe como fosse uma faca.
As “catacumbas“ são umas galerias de túneis que ninguém sabe onde acabam, começando no cabouco, e onde vivem fantasmas. Se alguém for ao cabouco poderá ser apanhado pelos fantasmas e nunca mais aparece.
O medo que a todos invadia, quando o Ti Reinaldo nos contava a sua e nossa realidade, da existência desses monstros, impedia qualquer desobediência. O resultado é que não havia miúdo que fosse sozinho para o Rio, e ir para próximo das rodas e engrenagens estava completamente fora de intenção.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

COMEMORAR A FELICIDADE... SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Uma explosão de orgulho incendiou-lhe a alegria. No coração desabrochou um jardim de emoções. O corpo dança-a sem cansaço, desliza nos saltos. O vestido longo de seda azulão nunca lhe exaltou tanto a elegância da alma rejubilante. Coisas dela e da intensidade que lhe vive em proporções astronómicas.

Felicidades de um ser com uma beleza interior invejável, uma simplicidade brutalmente sensual, um amar as pequenas vitórias como se fossem voltas no carrocel com o sorrir rasgado, vitórias que só ela sabe dar valor.

Não, não tem falta de humildade ou modéstia. Tem verdade, brilho natural e uma paixão ardente no juntar das letras. Escreve como lhe sai o sentir. Constrói do nada confissões, meio ao jeito de criar a sua própria obra, tão somente para dançar em júbilo o esculpir de quem é.

Hoje foi valorizada, reconhecida no que é para ela um gesto incondicional. Não é ninguém sem papel e uma caneta. Os papiros que vai deixando em jeito de herança para o grande amor da sua vida são joias no baú das memórias.

Esta vida vale tudo quando nestes pedaços de céu se enaltece por dentro, para ela e só por ela, vai à lua e vem cada vez que a música lhe move o corpo nesta pista de dança que a acolhe e ele lhe pede a mão para a sentir solta.

Ama sozinha todo o tempo emprestado que lhe é concedido. Agradece todos os momentos que respira, orgulha-se desalmadamente de ser quem é e ninguém a cala no papel. Esse é o seu reino, a sua fortuna, o reflexo da alma que cuida e que lhe é confidente em todas as horas.

Feliz, feliz, feliz... Comemora insanamente o crescimento e aprendizado no mundo dos poetas.

Um dia, ainda vai dançar nos braços de um amor que a saiba ler. Afinal, na felicidade já vive e a esperança parece mais nua e possível quando o universo a abraça.

Que se lhe solte o fogo de artifício, que as tristezas adormeçam, que o querer seja volúpia no poder, que este frenesim calmo aqueça a loucura e que se comemore sempre com felicidade e nuvens a garra de não existir apenas!

Que se lhe incendeie a alma infinitamente!

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto VIII) - MARIA MAGUEIJO

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Quando acordou deviam ser perto das sete horas, o sol começava a sorrir e decidiu tomar o seu duche e ir preparar o pequeno almoço para Isabella que ainda dormia.
Mas era cedo. Muito cedo e foi passear um pouco pelo jardim, sentindo os aromas das flores que já acordavam. Tinham sido uns dias cinzentos os que viveram, mas acreditava que a bonança chegaria com muita tenacidade e amor.
Entrou na cozinha e logo sentiu aquele inconfundível cheirinho a café acabado de coar. Era o que mais gostava. O pão fresco era a delicia que faltava, com o doce de amoras que a avó fazia como ninguém.
Olhou o relógio de cuco e reparou que já eram quase nove horas e nem se tinha apercebido.
Subiu para espreitar Isabella, dormia!

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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O CONTO DAS MOCAS (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, diz Poesia: dos contos do Ti Reinaldo, o Conto das Mocas é talvez o que melhor reflecte a amizade que tinha pelas crianças, sobretudo as que, como ele, tiveram uma infância com necessidades.
“Era uma vez um menino a quem morreu a mãe. O pai casou segunda vez e a partir daí a vida do menino passou a ser um inferno. A madrasta obrigava-o a trabalhar em serviços pesados, sem lhe dar de comer. Valia-lhe a madrinha para não morrer de fome. As madrinhas são como segundas mães. O menino andava triste e não sabia o que fazer à vida.
Um dia, mais desesperançado, resolveu fugir e correr mundo. E se assim pensou, melhor o fez. Aproveitou a saída do pai e da madrasta, que tinham ido para a feira da vila, e juntou a pouca roupa que tinha, colocou-a no alforge e aí vai ele a correr mundo.
Ao fim do dia, já ele tinha corrido cinco léguas, quando começou a cair a noite. Então é que se lembrou que não sabia onde dormir. A fome começou também a sentir-se, mas lá encontrou uma espécie de toca, debaixo de um penedo, onde dormiu toda a noite. Na manhã seguinte, cheio de fome, continuou o caminho, mas a cada passada que dava a fome ia sendo mais forte e as pernas iam ficando mais fracas. Até que a meio da manhã, cheio de fome e sem saber o destino, o menino sentou-se no chão a chorar. O desespero era maior que o choro. O sofrimento aumentava e a esperança rareava.
Mas de repente o menino sentiu um grande arrepio e olhando em frente viu uma senhora, raiando uma luz prateada, que de súbito lhe pareceu a madrinha que lhe dava de comer. E a senhora perguntou: Menino, porque choras?
O menino respondeu: Eu fugi de casa por causa dos maus tratos que me dava a minha madrasta e agora estou perdido e cheio de fome. Então a senhora deu-lhe um anel de ouro e disse-lhe: Pega este anel e sempre que quiseres, basta dizeres ao anel: “anel faz o teu dever”, e logo terás uma mesa, farta de comer. Dito isto, a senhora desapareceu. Era Nossa Senhora, mãe de Jesus, assim pensou o menino.
O menino quis experimentar e, ditas as palavras santas, logo apareceu uma mesa farta de comer... Comeu tudo o que quis, do bom e do melhor. Parecia que o céu se tinha aberto para ele. Estava neste mister quando lhe apareceu um viajante. Tratava-se de um homem de aspecto pobre, com um saco às costas, que, quando chegou ao pé do menino, perguntou-lhe porque estava ali a mesa. O menino explicou o milagre do anel.

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domingo, 3 de novembro de 2019

MORRER EM VIDA, NUNCA! (excerto) - SÓNIA CORREIA

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E será esta a definição de insanidade? Será esta a hora em que se deslaçam os cordões do colete de forças quase costurado por nós mesmos, em todos os anos que a vida nos prometeu serem de liberdade?

De que adianta esta viagem sem cumprir os destinos do desejo? O que mais fazemos nesta terra do que não seguir padrões e vestir imagens hipócritas que pareçam bem à sociedade?

Não estamos senão mortos sem ter havido funeral, em todos os dias, meses e anos que reprimimos a vontade de enlouquecer e gritar em uníssono todos os desejos escondidos, nos cantos secretos de nós. Vamos sendo cada vez menos nós, inertes, máquinas.

E se a cumplicidade demente, subitamente, respirasse ofegante por aí com o nosso nome? Se o estado constante de subir paredes desfuncionasse a monotonia e implodisse constantemente em chama ardente? E se a tesão da mente escorresse no corpo enquanto a alma cerrava todas as grades de aço ao redor de uma existência seca de emoção, haveria coragem?

O impensável existe, seja onde for. Ele vive e respira preso ao colete e internado num relógio onde os ponteiros apenas passam pelos minutos. Anda por aí, perdido nos caminhos, mas certo da minha morada que lhe pertence como jamais a alguém pertenceu.

Somos monumentos estáticos de hipocrisia, mentiras, veias entupidas de tanto reprimir a verdade, cínicos automatizados em estereótipos sem coragem de assumir a realidade, e muitos de nós nascem, crescem e morrem sem sair da cápsula desse tempo emprestado e veloz, mas que um dia acaba.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sábado, 2 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto VII) - MARIA MAGUEIJO

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– Desculpa, mas fui requisitar uns livros à biblioteca e dei de caras com alguém que te mandou um abraço e um beijo. A Anabela, da aldeia e imagina dei-lhe tamanho encontrão que deixei cair os livros todos. Enfim, isso agora não é o mais importante. Apenas o bem que disse da tua pessoa me interessou. Que foste o exemplo que deixou regras de conduta até hoje. Vês? Missão do Universo, mais que perfeita! Agora vamos jantar!
– Já reparaste que ainda não te calaste um segundo, Maria? Respira! E sim, fico feliz. Agora quero dormir.
– Não, não... primeiro o jantar.
– Tu és muito chata! Pior que quando nem te reconheci. Aí estavas calada!
– Menina Isabella fique sabendo que aprendi consigo esta beleza de ser uma verdadeira chata! Come e cala-te.
Isabella comeu e mesmo antes de adormecer perguntou a Maria porque queria ler para ela, se dormia?
– Para te lembrares que consegues fazer a diferença, agora serei eu a contar-te histórias lindas e enriquecedoras! E vais ouvindo a minha voz. Para não te esqueceres dela.
– Estou assim tão mal? Parece-te que me irei esquecer de tudo? Diz-me a verdade.
– Que grande tolice, tu dizes cada coisa, sabes... dorme! Eu vou ler um belo romance para me animar.
– Hummm, doida. Que vais ler? Balbuciou Isabella já meio adormecida.

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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

OS TOCADORES DE RABECA - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, o Ti Reinaldo vai contar-te hoje o primeiro conto do seu reportório. É um conto em que a Rabeca é um elemento importante. Era um dos instrumentos musicais mais prestigiados nos tempos que já lá vão. É um instrumento de origem árabe, antecessor do violino e de muito menor qualidade sonora. Na região do Alto Minho raramente se vê, mas era muito popular no sec XVIII. Sobre este instrumento há um belo trabalho feito por Giaccometi, artista que fez várias recolhas etnográficas na aldeia e que até hoje, infelizmente, não teve ainda a merecida homenagem. Daqui por diante ouve o Ti Reinaldo.

“Era uma vez uma aldeia que muito se questionava e o povo dividia-se na apreciação da qualidade de dois tocadores de rabeca, que aí viviam.
Um chamava-se Venâncio; o outro Valentim. Na realidade onomástica, para o povo nessa aldeia do Alto Minho, eram o Benâncio e o Balentim. Numa faceta, eram por todos igualmente apreciados: eram amigos e se alguma adversidade havia entre os dois, era desejo de cada um ser mais perfeito tocador que o outro.
Porém, uma concorrência sádia, que se traduzia no incómodo que ambos sentiam nas paixões por vezes menos doces que os respectivos apoiantes interpretavam.
Até que Venâncio encontrou uma forma de acabar com a dúvida sobre quem era o melhor artista: se ele, se o Valentim. Assim propôs a Valentim o seguinte desafio:
– Oh, Balentim, desafio-te a que seja o Senhor dos Passos a dizer qual de nós é o melhor. Para isso cada um de nós vai dar três voltas à capela, a tocar uma rabecada. Finda essa, entra na capela, ajoelha-se em frente ao Senhor dos Passos e toca uma rabrianada (assim chamavam a peça musical tocada em arraial). Ajoelhado espera pelo julgamento do Senhor dos Passos. Valentim aceitou o desafio e calhou ser Venâncio o primeiro a cumprir a sua demonstração musical.
Deve saber-se que nessa altura o Senhor dos Passos, além de ser o Padroeiro da aldeia, era tido por todos os aldeões como Santo de bons ofícios e milagres, e senhor de opiniões e sentenças como nenhum juiz de fora seria capaz.
Verdade que nenhum dos aldeões alguma vez ouviu o oráculo do Senhor dos Passos na presença de testemunhos. Era sempre uma conversa a dois.
Mas ninguém se atrevia a duvidar que alguém mentisse invocando o santo nome do Senhor dos Passos em vão. Pelo sim pelo não, era conveniente aceitar.
Bom, no dia aprazado para a resolução da contenda, todos os aldeões se juntaram no adro de capela para assistir ao mais belo momento musical e alguns, desconfiados, para aquilatar da justiça do Senhor dos Passos. Já havia alguns “pedreiros livres” dissimulados, como era mais seguro.
Até que chegaram os dois contendores, alvos do maior respeito dos presentes.
Começou então o Venâncio que iniciou a primeira das três voltas à capela e dando desde logo azo a que os seus adeptos se mostrassem confiantes no melhor resultado. Findas as voltas entrou na capela e perante o Senhor dos Passos deu início ao tema que melhor sabia interpretar. No final ajoelhado em frente ao Santo esperou o seu veredicto. Como disse, este acontecimento era tido sem testemunhos. Após uns momentos, Venâncio levantou-se e tomou a saída da capela. No adro e perante a curiosidade de todos, e ansiedade dos seus adeptos, disse: O Senhor dos Passos ouviu-me
tocar e não disse nada, mas as lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo, tão maravilhado estava com a minha actuação.
Seguiu-se o Valentim. De igual modo tocou a sua rabrianada, dando as voltas à capela e entrou na dita. Aí, em frente ao Senhor dos Passos, sozinho, como era de preceito, fez valer os seus dotes de tocador.
Cá fora a multidão esperava as palavras de Valentim para todos ficarem a saber a opinião, que seria lei daí em diante, do Senhor dos Passos.
Num silêncio sepulcral, Valentim disse:
– Oh, Benâncio, o senhor dos Passos para ti chorou, mas para mim até falou e disse: Ah Balentim, Balentim, podes ir tocar prá casa (dependia do ouvinte) que nunca ouvi tocar assim!
Opinião que passou a valer não só por vir de quem vinha, mas ainda pela força dos palcos onde podia actuar Valentim, na opinião do Senhor dos Passos.”

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domingo, 27 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto VI) - MARIA MAGUEIJO

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– És tu, Maria? Sabes, eu não fui tremendamente infeliz lá naquela aldeia. Apenas corrói a minha mente e vou enlouquecer. Receberam-me como um ser do Além... gentes de tantos lugares, de tantas raças, de tantas culpas e de tantas inocências... mulheres que apenas precisavam de uma ajuda Divina, uma ajuda de alguém que não pertencesse ali, que fosse a “anormal”, fora do contexto. Eu fui tudo isso. Com tanto esforço, com tanta convicção, com tantas lágrimas escondidas e mesmo assim, eu acreditava que podia criar um Mundo melhor para aquela gente tão revoltada, cheia de remorsos, ou não... Isabella era o nome mais ouvido naquele espaço e isso alegrava a minha existência. Era eu para ajudar alguém que se sentia mal, era eu porque alguém durante a noite precisava ler e de um conforto verbal. Era eu que sabia todos os segredos, alguns que me rasgavam por dentro sem o demonstrar, sempre no silêncio, na ausência de perguntas e tratava todas as gentes de igual modo.
– Isabella, querida, estás a cansar-te. Precisas dormir. Já passou! Quem sempre te Amou, continua a Amar-te. Quem não o faz... esquece essas pessoas. Foca-te em seres a Isabella que todos conhecem como um ser do Além, com feitio por vezes agreste, resmungona, mas, na realidade, isso é só máscara. Tu és de essência doce e assim serás sempre.

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sábado, 26 de outubro de 2019

AS ESTÓRIAS DO TI REINALDO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, fixa esta frase: Reinaldo, um Artista que devemos recordar, diz a Poesia.
Os mais novos da aldeia não o conhecem como tal, mas todos sabem que é moleiro e sabe contar contos fantásticos. Os mais velhos, aqueles que com ele convivem, têm-no na conta, mais das vezes, de um pobre diabo que se sustenta das parcas maquias que são a moeda de troca pelo trabalho de moagem. A dura vida da aldeia, na época de carência, não deixa tempo para apreciações mais cuidadas. Cada um vale pelo seu poder económico, que no caso em apreciação se aproximava do zero. Felizmente que os jovens da minha época ouviram dezenas de vezes as suas estórias, contos e peripécias, sempre com a emoção de quem as ouve pela primeira vez. O que de todo não era falso já que o Ti Reinaldo, cada vez que conta um conto, lhe empresta uma nova tonalidade e emoção. Como qualquer artista doutra área da cultura. Esses jovens, hoje já na 3ª idade e com uma formação mais cuidada, recordam o contador de histórias e menos o moleiro. Tenho a sorte de ainda pertencer a esse grupo etário. Ao escrever algo sobre o Ti Reinaldo quero pagar-lhe em memória, para todo o sempre, os fantásticos momentos que me deu e dá, de exaltação do imaginário.
Um imaginário por vezes assustador, pois alguns dos seus contos metem figuras sinistras e situações em que Satanás é a mais santa das entidades envolvidas. Mas não é apenas um contador de estórias. Tem uma voz maravilhosa que, aliada ao familiar dom da música, o torna um expert do cantar seja ao desafio, seja a cantar as Janeiras, seja nas “ramboiadas” que adorava e adora.
Uma das manifestações mais apreciadas são as “tainadas”, normalmente aos domingos, depois do terço, ou no dia de S. Martinho, a 11 de Novembro, quando o provérbio, “no dia de S. Martinho,
vai à adega e prova o vinho”, está sempre presente. Eu aí nunca estou presente, diz a Poesia. Os viticultores juntam-se para, pela primeira vez, apreciar e qualificar o vinho da colheita de Setembro/Outubro. A prova dos vinhos é “aconchegada” com a ingestão de umas tapas (broa e chouriça) e com facilidade a euforia se torna desafiadamente sonora.

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terça-feira, 22 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto V) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Alguém que não identificava aproximou-se, sentiu um suave sentar na sua cama e uma voz que lhe fazia perguntas. Ficou em silêncio, tentando reconhecer aquele timbre que afinal lhe era familiar.
Era a sua prima. Lembrou-se do chá e biscoitos naquela tarde que visitou a sua avó, confidente de tantos, bons e maus, momentos.
Tentou sorrir e escorregou a sua mão trémula até sentir o quente daquela que se lhe estendia.
– Conheces-me? Consegues ver-me? Já te lembras do meu nome? Sente apenas a energia da minha mão. Eu estarei aqui. Não fales se não conseguires.
– Eu sabia que estarias aqui perto de mim. Senti o teu coração bater perto do meu. A ternura da tua voz. Foste sempre tão delicada. Cometi muitos erros de forma ingénua e tonta. Tudo podia ter sido diferente. Mas o medo! Estou consumida e preciso dormir! Nem me lembro de me ter deitado. Quem terá sido? A verdade é que aqui estou de pijama e tudo. Foste tu! Só tu te lembrarias da minha cor de pijama favorita. Do suave aroma, que aqui se faz sentir, a alfazema. Obrigada. Mas eu urjo de uma paz interna. Pedes para me adormecerem durante um tempo?
– Para que queres tal coisa, Isabella? Com o tempo, uma vida nova, e vais conseguir esquecer.
– Eu preciso Maria, peço-te.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O MOINHO DE ASTURÃES (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, disse a Poesia, para melhor te identificares com o Ti Reinaldo, é necessário que conheças locais e factos, que ele possa recordar.
Um deles é o moinho, provavelmente o símbolo mais valioso da freguesia.
Não se sabe exactamente o ano de construção, mas pensa-se que teria sido nos meados do século XVII.
Sabe-se, isso sim por documentos e escrituras existentes, que foi adquirido por Ana Joaquina da Rocha, antepassada (pentavó) de Miguel, aos senhores Viscondes de Bertiandos em três de dezembro de mil oitocentos e quarenta e nove, cuja escritura se plasma em parte:
... uma azenha e engenho de serrar e uma insua, pelo fôro anual de dez mil reis em dinheiro, uma galinha de lutuosa e laudémio de vintena etc, seguido de condições de garantia.
Este moinho tinha duas funções: moer cereais, especialmente milho, e serração de madeira. Por essa razão tinha duas rodas verticais, sendo que, após cessação da serração, este equipamento motriz foi utilizado na produção de energia eléctrica.
A função “serração”, que cessou no final do século dezanove, era interessante e ela obrigou à existência de uma porta com acesso à ponte românica. Assim os toros de madeira entravam pela porta virada à ponte e saíam para o eido pela porta do lado sul onde as tábuas eram encasteladas para promover a sua secagem e arrumação.
A função moagem terminou no século passado, existindo ainda em condições de funcionar. O Ti Reinaldo trabalha aí há uns bons 40 anos.
O moinho tem cerca de 100 m2 e, enquanto morada do Ti Reinaldo, tem uma cozinha, um galinheiro, a sala do equipamento e um quarto, este de piso elevado em relação ao salão da mó para defesa das cheias do rio, que são vulgares.
Como podes ver Miguel, o moinho e a ponte parecem gémeas, pese embora terem sido construídos em épocas bem distantes.
E com o conjunto das duas ilhas, a jusante e a montante da ponte, mais a corrente de água límpida, constituem um quadro que qualquer pintor não resistirá em gravar. Com o privilégio raro de, sob qualquer posicionamento, sempre ter em frente de si, quadro de infinita beleza.
(Miguel não conseguiu comprovar, mas dizia-se que a Poesia teria nascido aqui. Verdade ou não, assim o afirmam os aldeãos).
No rio, nadando ao seu modo e conforme as épocas do ano, podemos ver lampreias, enguias, barbos, escalos, trutas, bogas e solhas e fugidiamente o seu predador “pica-peixe” pássaro, com penas de múltiplas cores e o seu principal predador, as lontras. As trutas constituem a espécie mais procurada pelos pescadores desportivos e pelos visitantes, cada um com seu interesse. Os primeiros
para disputa de troféus; os segundos para observar os saltos espectaculares das trutas, na caça aos insectos que sobrevoam a água do rio.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sábado, 19 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... EDSON MENDES



Edson Mendes, professor, escritor, malino, filho de Pedro Mendes, pernambucano do Limoeiro, e de Eva Rita, baiana do povoado Juá, nasceu na cidade de Pa, Bahia, em 16/09/1952. Em 2018 recebeu o Prêmio Edmir Domingues, da Academia Pernambucana de Letras, por sua obra inédita Quase Poesia. Se você lhe perguntar, vai se declarar um perguntador, mas como sabemos que isto não é profissão, como não o foi para Borges, que se dizia um leitor, pode ser que acrescente mais outras algumas coisas. Por exemplo, caminhar sob o sol, ou a chuva. Cinema nas manhãs de domingo. Ler. Qualquer coisa. Tudo. Uisque com coca-cola. Viajar de carro com a música no volume 40. Discutir filosofia. Dar aulas. Ver e rever todo mundo. Tem opinião sobre quase tudo, mas certeza mesmo só tem sobre quase nada... Ultimamente vem dizendo que o tempo urge ruge. Está preparando uma playlist para ser tocada no próprio velório. E aconselha, citando Horácio: carpe diem! Aproveitem o dia! E Paul Valery: Il faut être léger comme l’oiseau, et non comme la plume”. É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma. E Tonho, seu primo vaqueiro, acima de todos: “todo aquele que pode impedir um malefeito e não impede é um malfeitor, e do pior tipo”; Há três lugares onde se sente bem para escrever, beber e fumar: o apartamento no Poço da Panela, a casinha em Tamandaré e o oitão de seu Bilinho e dona Reco, na Fazenda Coração Aberto, povoado Barroca, em Paulo Afonso. Na alegria e na tristeza, sempre esteve com as cores branca do Santos FC e tricolores do EC Bahia. E avisa todo mundo: se não me acharem, procurem Pepa. Onde ela estiver, lá estará meu coração. E o mais? O mais é cinza...


Prólogo ENQUANTO AGONIZO 
O que realmente importa, e por quê Um olhar sobre o sentido e o propósito da existência, com apoio de W. Faulkner, Manoel Bandeira, Mauro Mota, André Gide, Carlos Pena Filho, Sócrates, Galileu, Vieira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Heidegger, Bach, Batatinha e outros Trilha musical 6 meias-músicas e 1 frase musical Conferencia. Palestra. Aula Ensaio 60’

Lançamento dos livros Quase Poesia Memorial do Raso da Catarina A Regra do Jogo Londres 19/10/2019, 19h Paris 26/10/2019, 16h Lisboa 8/11/2019, 19h



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

DEZ PERGUNTAS A... CARLOTA MARQUES CANHA


Agradecemos à autora CARLOTA MARQUES CANHA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 – O livro AGARRAR O TEMPO “Pensamentos sem tempo” foi lançado em dezembro de 2018. Conte-nos um pouco da história da caminhada entre a autora e o livro.

Este livro que, considero quase como um filho,  foi um processo inesperado numa fase pessoal da minha vida em que o meu sonho falou mais alto e a necessidade de fazer algumas mudanças na minha vida, contornar ciclos, uma fase de reinvenção deram-me a coragem,  a segurança que estava na hora de avançar com este projeto. Inicialmente foi uma edição de autor, mas a vontade pessoal de levar o livro mais longe fez com que o mesmo chegasse a algumas editoras e foi a Chiado Books que decidiu editar este livro que foi no tempo, no momento certo da minha vida.

2 – Como foi o processo criativo para a elaboração do seu livro AGARRAR O TEMPO “Pensamentos sem tempo”?

Alguns poemas já existiam de um passado da minha juventude em que abandonei a escrita durante quase 20 anos, mas a vontade de voltar a escrever foi enorme e senti esse grande apelo interior. No início, as ideias tinham alguma dificuldade em concretizarem-se, mas gradualmente foram aparecendo os temas e os poemas foram  sendo escritos a pouco e pouco, sendo o resultado de experiências pessoais do passado recente e outras mais antigas. A intuição e uma corrente criativa que foi suscitada na altura fizeram-me avançar, seguir este caminho em frente, mesmo com algum receio e dúvidas. Decidi apostar. Contei muito com o apoio que senti de alguns amigos, de realçar o incentivo e carinho que recebi da primeira pessoa que leu o livro em primeira mão, a  amiga  e jornalista do Jornal de Negócios, Carla Pedro que gostou desde o início do manuscrito e fez-me acreditar que estava no caminho certo e também a minha mãe que, na sua idade avançada e com uma saúde debilitada encorajou-me a seguir em frente, mesmo com todas as dificuldades e barreiras que iria enfrentar fez-me acreditar que era possível levar este sonho, este projeto avante. Para além da minha mãe, tive um “empurrão celestial” do meu pai já falecido e que sempre apoiou-me em todos os desafios que quis enveredar, fez-me ver que teria que lutar pelo que queria e, se queria muito algo tinha que lutar com todas as forças sem nunca baixar os braços. Embora tivesse, muitas das vezes, alguma rebeldia em aceitar os seus conselhos na minha juventude, hoje sei que foi pelo meu bem e para o meu crescimento e evolução como pessoa. Foi ele que me fez ver e perceber que era agora ou nunca o momento de arriscar. O prefácio do livro “Agarrar o Tempo” foi uma homenagem em forma de dedicatória que fiz ao meu pai que já partiu, mas que está sempre comigo numa conexão que diria quase espiritual. Sou muito grata aos pais que tive que sempre estiveram comigo em todos os momentos decisivos da minha vida, sem excepções. O livro acabou por unir a escrita e também a fotografia através de um amigo pessoal que surgiu na minha vida numa fase crítica, mas que foi o responsável pela produção fotográfica do livro de autor e, posteriormente com o livro “Agarrar o tempo – Pensamentos sem tempo”, o Miguel Vidal Pinheiro foi decisivo nesta fase de criação com a sua genuína e bonita amizade e também pela sua experiência como fotógrafo. Vários fatores alinharam-se,  permitindo que “Agarrar o Tempo”, título de um poema original que faz parte do mesmo livro tornasse-se numa realidade e que seria editado e publicado em Dezembro de 2018.

3 – Como foi a sua metodologia de trabalho na criação desse livro?

Foram escolhidos 100 poemas para fazerem parte deste livro, alguns foram escritos no verão de 2018 em que a intensidade da minha escrita começou de tal forma a produzir-se que chegava a escrever pela madrugada fora sem parar, porque a inspiração e a corrente criativa estavam tão presentes que não conseguia parar. Foi complicado articular a minha atividade profissional na altura com o tal “desejo” incontrolável de escrever, escrever sem parar. Sentia quase uma “maratona” sem fim à vista, mas deixava-me muitas vezes muito exausta. Os temas foram escolhidos de forma aleatória, mas gosto de escrever sobre as emoções, sobre o amor, a natureza, os outros e até sobre a minha pessoa foram temas  que falaram mais alto e com alguma profundidade como apontam alguns dos meus seguidores  e leitores.

4 – Em que corrente literária acha que a sua escrita se enquadra? Fale um pouco da sua poesia e do seu livro.

Não sei bem precisar que tipo de corrente literária poderia atribuir ao trabalho que tenho desenvolvido, mas considero-me uma autora das “emoções”, escrevo sobre quase tudo o que me fascina e interessa na vida. Gosto de sensações, gosto de observar, de vivenciar e penso que é isso que reproduzo no papel, uma escrita leve, despretensiosa, humilde porque estou a crescer como autora e disponível para receber tudo o que o mundo literário pode oferecer. Julgo que a corrente que mais me identifico será com Fernando Pessoa, poeta do século XX que reproduz as emoções, as sensações de uma forma muito peculiar e diria até única na nossa história literária. Considero este livro “Agarrar o tempo” um início para ser continuado com outro livro num futuro próximo.
                                                                                     
5 – Em que momento se sentiu preparada para publicar um livro e divulgar a sua poesia?

Foi no ano passado em finais de Março em que estive num processo de recuperação por motivos de uma cirurgia que tinha feito e numa recuperação complexa que senti esse ímpeto para avançar com a escrita, voltar a escrever poesia e, posteriormente a possibilidade de publicação do livro tornou-se uma realidade. Nessa altura, a minha  voz interior disse-me ou tentava agora ou seria nunca e como mulher não gosto de desistir de desafios na vida, gosto de pensar que pode não ser o momento, mas a hora iria chegar e graças a Deus a hora chegou.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Os pontos positivos da escrita são a liberdade que sentimos para reproduzir o que sentimos, pensamos, vivenciamos e até desejamos.
É um processo de auto-conhecimento que sinto na minha pessoa e faz-me olhar para dentro, perceber-me enquanto eu interior e como posso relacionar-me com os outros, o mundo. Gosto de pensar que a minha escrita tem uma mensagem positiva, de esperança, que é neutra dirige-se a todos e pode servir de motivação para os outros. Tenho leitores no Brasil que chegam a dizer-me em mensagens muito simpáticas e carinhosas que, a minha escrita é a sua companhia no dia e, quando não escrevo ou não publico na página “Pensamentos Soltos – Poesia Portuguesa” chegam a dizer-me que sentem falta desse contacto, dessa proximidade pelo mundo digital das redes sociais. Há um calor humano e uma proximidade tão bonita que parece que não temos um oceano que separa dois países. É a língua e o gosto de acompanharem o nosso trabalho que faz-me acreditar que farei alguma diferença na vida dessas pessoas que nunca vi pessoalmente, que nunca falei via telefone, mas sentimo-nos muito próximas como uma “família”.
Em termos de pontos negativos, escrever pode gerar, às vezes, algum stress quando queremos reproduzir algo no papel que não conseguimos naquele momento, não sai nada e o que sai não presta na maioria das vezes. A criação surge em momentos inesperados em que o gravador de voz ou um bloco de notas acompanham-me fielmente para reproduzir o que estou a pensar, sentir e concretizar  depois as ideias.  Às vezes debatemos-nos com falta de ideias, de criatividade, de veia de inspiração acaba por ser um processo solitário não que seja mau, mas é algo individual que só nós sabemos o que queremos expressar. Já aconteceu-me tantas vezes durante alguns dias não conseguir escrever nada de jeito, mas depois um dia estamos freneticamente concentrados nos pensamentos e sai tanta coisa bonita para o papel que chego a duvidar se fui mesmo eu que escrevi e nessa altura é uma grande emoção de felicidade e sentir que naquele dia acrescentei algo bom. É um momento de plena satisfação, grande realização.

7 – O que pretende alcançar enquanto autora?

Como autora gostaria de pensar que chego a todas as pessoas, independentemente da idade, alguns podem gostar, outros não, mas sobretudo que o público, os leitores em geral, descubram a minha escrita e façam o seu juízo de valor. O que escrevo é para todos para além da minha pessoa, mas não cultivo qualquer egoismo de escrever apenas para mim. Alguns escritores, poetas são vistos como pseudo egoístas porque só escrevem para eles, porque entendem a mensagem, mas não se preocupam em saber se quem os segue e lê percebe o que escrevem. Gosto de pensar que escrevo porque vale a pena e não um puro acto de “ego” exacerbado não me vejo de forma alguma dessa maneira. Escrevo é claro para mim, mas para os outros, o público em geral.

8 – Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A curto prazo está nos meus planos fazer formação na área da representação/interpretação como forma de dotar-me de ferramentas e valências próprias para construção, composição de personagens, dado que pretendo escrever uma narrativa de ficção, um romance a médio longo prazo. Para além deste ambicioso projeto, gostaria de continuar a escrever poesia, participar em projectos de antologias com outros autores e quem sabe voltar a editar um segundo livro de poesia, mais maduro do que o primeiro e que espelhe essencialmente a minha evolução e consolidação a nível de autora.

9 – Os poemas apresentados é um resgate de sentimentos pessoais ou a criação da autora?

Em termos gerais, os poemas escritos são, alguns,  fruto de sentimentos pessoais, de experiências vividas algumas com alguma dor e dificuldade diria, mas outras foram aprendizagem, foram amadurecimento. Outros poemas são puramente criação enquanto autora.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Qual é a tua verdade Carlota?
A minha verdade é ser ser o que sou, fui e serei num futuro, simples, autêntica, genuína, na forma de ser e estar com os outros e com a vida. Alguém que vive e atua em transparência sem mágoas, sem rancores, sem máscaras eu própria, a Carlota no seu jeito de ser. Quem gostar, ótimo deixa-me feliz, quem não gostar aceito e respeitarei. Serei fiel aos meus valores e princípios que edificaram o meu carácter e pessoa e espero continuar sempre a escrever desde que a minha mente e força interior assim o permitam.
Amo muito escrever e espero continuar nessa  base como um exercício mental saudável de expressão de sentimentos, ideias, pensamentos e, fundamentalmente contar histórias, não apenas as minhas “histórias”, mas o mundo que vejo.


BIOGRAFIA

Carlota Marques Canha

Nascida e natural de Lisboa é licenciada em Tradução económica-jurídica na vertente francês e inglês pela Universidade Europeia e com uma Pós-graduação em Gestão Comercial e Marketing pelo ISTE Porto.
Iniciou o seu percurso profissional em Assessoria de Direção em diversas empresas multinacionais onde se mantém em funções na área de legal no Grupo Jerónimo Martins.
É escritora com o lançamento do seu primeiro livro de poesia “Agarrar o Tempo” - Pensamentos sem tempo. Para além do género de poesia gosta de escrever prosa, crónicas, contos e letras originais de músicas.
Gosta de desafios e fazer coisas diferentes, o teatro e o gosto da representação acabaram por surgir ligados à vontade de compor personagens, compor histórias para um romance que pretende escrever a médio longo prazo. Nos seus tempos livres, para além da escrita, leitura, danças latinas, gosta de fotografia, captar momentos que servem de inspiração para a sua escrita, para a criação de pensamentos, ideias.
Sentir e escrever sobre a vida, os outros, as aprendizagens e experiências recebidas são o que mais a movem na sua busca constante de evoluir como pessoa, como mulher.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto IV) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eram tantos livros, mas que conhecia de cor e dizia-lhes: comportem-se!
Na hora da saída deixava a biblioteca, no maior dos silêncios, onde, mesmo assim, ouvia melodias de encantar, lia-se baixinho nas letras que um dia nos deixaram. Lágrimas de saudades também rolavam pelas capas daqueles que eram uma das suas melhores companhias. Eles continuavam vivos na loucura que não se acredita existir. Mas ela sabia que sim! Cada vez que pegava num livro sentia como se, por baixo das suas delicadas mãos, houvesse um coração a palpitar; e era apaziguador para quem também não os sabia tão presentes na sua vida.
Ontem, depois de fechar o local das leituras, dos momentos doces onde o Mundo era bonito, Isabella tinha ido jantar com mil pensamentos a pairar na sua mente dorida.
No dia seguinte, Isabella não foi tomar o pequeno almoço, acordou com um alvoroço fora do comum.
Ambulância, médico, enfermeiros e gente que cuidava das gentes.
Tinha nascido um bebé. Um menino embrulhado em lençóis imaculados e que erguiam para todas verem. Sendo a sua mãe um ser frágil, entrara na véspera na aldeia e receosa não contou que estava grávida. De manhã, ao pequeno almoço, tudo aconteceu desta forma rápida e desnorteante. A Teresa com o menino nos braços, e com um sorriso, gritou para todos a ouvirem: Milagre! Temos um menino de uma vitoriosa mulher, forte e de boa saúde. Por isso, Vítor será!

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

TI REINALDO - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eram cerca das 7 horas solares quando Miguel começou a despertar, não sabendo se de sono ou de um sonho.
O sol brilhava numa atmosfera límpida, é o mínimo que se pode dizer, de tão transparente e refrescante, que só poderia existir se todas as determinantes do Tempo fossem cumpridas. O que se verifica.
Miguel esfregou os olhos não acreditando no que estava a ver. Estava sobre uma ponte, tendo ao lado um moinho cuja roda vertical rodava lentamente. Um cheiro agradável e estranho o atingia:
era o cheiro da farinha que estava a ser produzida no moinho.
Sob a ponte, um rio de águas límpidas corria abraçando uma ilhota que por aluvião se havia formado ao longo dos séculos. Nessas águas, Miguel via os peixes que nunca tinha visto e, voando
rente à superfície, muitas aves, para além dos astures, faziam números circenses a grande velocidade. Tão extasiado estava com o espectáculo, que nem se apercebeu da chegada da Poesia, que o contestou:
– Então Miguel, já iniciaste a tua recolha? Ao que Miguel respondeu:
– Não e não sei quando vou iniciar, pois não é fácil sair deste paraíso.
– Eu sei, e por sabê-lo é que aqui estou para te lembrar que vais encontrar outros locais que te convidarão ao mesmo sentir. Diz-me Miguel: sabes os nomes dos peixes que estás a ver?
– Não Poesia, sei apenas que são um espectáculo de vida e beleza. Queres fazer o favor de me ensinares?
– Podia fazê-lo, mas vou dar-te a conhecer quem melhor te possa explicar. Não só o nome de todos estes peixes e aves, como te contará estórias fantásticas. Irás conhecer o mais fabuloso contador
de estórias que tenho a felicidade de ter como meu igual e amigo. Mas antes disso vou descrever-te algumas situações e lugares que ajudarão a melhor compreenderes as estórias.
– Quem é esse privilegiado?
– É o moleiro deste moinho e chama-se Reinaldo, mas para todos é o Ti Reinaldo. Eu vou chamá-lo. Oh, Ti Reinaldo. 
E uma voz vinda do interior responde:
– “Atão” quem vem lá? Pode entrar...
E perante Miguel aparece uma figura tão forte e simpática que deixou Miguel confundido. É que, ao apreciar a imagem do Ti Reinaldo, pareceu que era a Poesia! Só passados segundos viu que
afinal ao lado do Ti Reinaldo estava a Poesia, como se tratasse de dois irmãos...
– Ti Reinaldo, disse Poesia, o Miguel aceitou o desafio do meu pai Universo e vai precisar de vossemecê para conhecer tudo sobre Asturães.
– Pois muito bem, respondeu o ti Reinaldo. Ainda bem que o mal que anda por “baixo de carvalhais e por cima de silveirais” vai ser vencido. Pode o menino estar descansado porque tem aqui um aliado. Contar-lhe-ei coisas que jamais pensou ouvir.
– Então até logo Ti Reinaldo e muito obrigado.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

terça-feira, 15 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... - MOMENTO VIVO, DE RONALDO WERNECK


Ronaldo Werneck é poeta de décadas e livros. Suas obras amalgamam cidades, rios, amores, mares, sóis e poetas com a tipografia da letra, o branco da página, o estilhaçamento do verso. Tudo levado à plasticidade máxima do encontro do eu-lírico com o signo-significante-significado. Neste momento vivo é com este encontro que nos (re)encontramos.  De selva selvaggia (1976), seu primeiro livro de poesia, a o mar de outrora & poemas de agora, de 2014, Werneck, num processo cabralino de catar seus feijões, revisita aqui toda sua obra poética, com um plus de 21 novos poemas. 
Bruno D´Abruzzo, Editor/São Paulo

Em momento vivo a ação verbal do poema reescreve uma nova estética pontilhada por fragmentos e fraturas na horizontalidade do verso tradicional. Os versos de Werneck recortam o visual contínuo e espraiam-se em ilhotas de palavras e sintagmas, formando arquipélagos de uma nova geografia poética.
Cláudio Murilo Leal/Rio de Janeiro

momento vivo agudiza uma visão caleidoscópica de um escritor que constrói pontes estéticas. Em suas mais que festejadas cinco décadas de criação, percorrendo o vasto mundo dos signos e suas interações formais, Ronaldo Werneck vem construindo uma obra singular dentro do panorama da literatura brasileira.
Ronaldo Cagiano/Lisboa

Sobre o autor: Ronaldo Werneck é mineiro do mundo-Cataguases. Tem vários livros publicados de poemas, crônicas, ensaios. Os mais recentes: o mar de outrora & poemas de agora e Rosário Fusco - Sob o signo do imprevisto. Veja o que já se disse sobre os poemas de Ronaldo Werneck, neste e noutros mares:



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

DEZ PERGUNTAS A... ANTÓNIO MR MARTINS


Agradecemos ao autor ANTÓNIO MR MARTINS pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Escrever é uma necessidade ou um passatempo?

Tem dias! Mas é, sobretudo, uma agradável necessidade. É algo que me acontece, e me tem acompanhado, ao longo da vida, após ter feito o ciclo preparatório.

2 - Em que género literário se sente mais confortável?

Sem dúvida, e a questão não é propriamente o sentir-me mais confortável. Gosto de poesia. De escrever e ler poesia dos mais diversos poetas, de todos os parâmetros, todos os patamares, todas as vertentes. Viva a poesia!

3 - O que escreve é inspiração ou trabalho?

Não será bem inspiração, mas trabalho não é de certeza. É um gosto enorme poder criar um poema, um após o outro e assim sucessivamente. Embora, hoje em dia procure mais ler do que escrever. Já tenho muita coisa escrita, que ninguém conhece.

4 - O que pretende transmitir com a sua escrita?

Escrevo sobre sentires e observações. Os meus e as minhas e as de todos os meus semelhantes.

5 - Qual o seu público alvo?

Não procuro público para aquilo que escrevo, procuro sim escrever e ao concluir um poema sinto-me completo e preenchido.

6 - Em que corrente literária acha que a sua escrita pode ser incluída?

Não procuro, nem nunca procurei, definições, agrupamentos ou englobamentos para aquilo que escrevo. Se tal tiver de haver, que o façam os leitores e os críticos, se efectivamente me lerem e o quiserem fazer.

7 - Quais as suas referências literárias?

Gosto de ler tudo aquilo que seja poesia, e se relacione com a mesma, e dou imenso valor a todos o que criam e escrevem, nesse âmbito. Gosto de imensos autores contemporâneos, muitos deles meus amigos, mas para não ferir susceptibilidades, vou enumerar alguns consagrados dentro de diversas áreas e temas: Fernando Pessoa, no seu heterónimo Alberto Caeiro, Florbela Espanca e Bocage, nos sonetos, Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, no conteúdo social e Drummond de Andrade, que considero fabuloso, mas há muitos e muitos mais que gosto de ler.

8 - O que costuma fazer para divulgar o que escreve?

A divulgação que faço é publicando alguns poemas na minha página do facebook, na cronologia também, e no meu blogue de poesia “Poesia Avulsa”.

9 - O que ambiciona alcançar no universo da escrita?

Viver até ao termo da minha vida com mais alguma felicidade.

10 - Que pergunta gostaria que lhe fizessem e como responderia?

Tudo o que poderia dizer sobre uma questão deste tipo será inteiramente subjectivo.