quinta-feira, 17 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 37 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

37

Sabes Fernando, tal como tu, eu também tenho uma divergência com o mundo porque o vejo com cores diferentes daquelas que ele diz estar pintado.

Até aceito que digas – Alberto – que o problema está nos meus olhos tristes e cansados, e que os tons pastel que observo são do desapontamento que a vida ostenta como medalhas.

Até admito que tu – Álvaro – por seres mais sábio e avisado nas multiplicidades terrenas, vejas nos meus olhos alguma cegueira febril e impostora, e o mundo continue a ser uma criança inocente.

Até reconheço que tu – Ricardo –, por seres poeta da prudência, tens legitimidade para me acusares de heresia e apontares os pecados que a minha visão perpetua em desfavor da terra que pisamos.

Até estimo que tu – Bernardo – tenhas uma opinião para cada entendimento que pulula a minha mente, e matéria suficiente para escreveres uma tese sobre este desassossego.

Não sei qual dos dois – eu ou o mundo – tem a razão do seu lado, no entanto, os esparsos momentos de observação lerda levam-me a acreditar na impostura luminosa do mundo.

Sabes Fernando, nem tudo o que luz é ouro e o brilho dele - o mundo - é terceirizado e engana.

EMANUEL LOMELINO

Os filhos de Maria (excerto) - Cynthia Rachel Esperança

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A história que será contada, facilmente, caberia não somente na boca de mulheres, mas em diversas vivências de mulheres negras que carregam consigo os filhos abortados pela figura do pai.

Maria tinha quatro filhos. Crias só dela. Mulher preta, desde sempre entendeu o que era aborto paterno. E não tinha muito estudo para chegar a essa conclusão. Um dia, Maria olhava para os quatro, ela não sabia nem o que fazer com aqueles meninos pretos, num suspiro, Maria deixou sair: “ainda bem que vocês têm a mim”. Os meninos ficaram ali, num ato de cumplicidade com a mãe, mesmo sem saber o que se passava com ela.

Todos os dias Maria saia de casa, trabalhava duro para sustentar os quatro meninos. “vida dura dessa menina”, comentava o povo da rua. Mas Maria não se deixava abater.
Depois de um dia cheio de trabalho ela sempre sentava no chão, chamava os quatro e perguntava “o que vocês fizeram na minha ausência?”. Os quatros se olhavam, entre caras e bocas e olhares, Paulo, o mais velho sempre começava a falar…
– Mãe, a gente ficou em casa mesmo. Eu arrumei o banheiro, Pedro lavou a louça, Alex varreu a porta e o Júlio ficou assistindo desenho o dia todo.
– Sério? – indagou a mãe.
– A gente está falando a verdade, mãe.

EM - ELAS E AS LETRAS: SEMENTE, PRESENTE - UM LIVRO PARA MARIELLE FRANCO - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 36 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

36

Esqueçam tudo o que vos ensinaram sobre a diferença entre os humanos e os outros animais. Por muitas características diferenciadoras que encontrem, há uma que sobressai, mas ninguém a menciona porque nos é desfavorável.

Como tenho uma página inteira para preencher, vou dar algumas pistas antes da grande “revelação”.

Algum de vocês imagina uma leoa decidir, mesmo que apenas por um dia, não caçar?

Algum de vocês concebe a ideia de um salmão recusar nadar contra corrente até ao local de origem?

Algum de vocês consegue vislumbrar uma ave de rapina ignorar uma presa avistada a um quilómetro de distância?

Algum de vocês julga possível uma abelha postergar a recolha de pólen?

Algum de vocês acha viável o cancelamento da migração das orcas, dos gnus, ou dos pelicanos?

Eu podia continuar a fazer questionamentos semelhantes, mas a página está a ficar sem espaço e é chegada a hora de revelar a maior diferença entre humanos e outros animais.

A humanidade é a única espécie que dá uso à preguiça.

EMANUEL LOMELINO

Emma Everston (excerto 4) - Ernesto Moamba

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando anoitecia, a cidade virava um caos, um verdadeiro filme de terror, o silêncio amedrontava até os cães que desesperadamente vadiavam naquelas margens, sair à rua e voltar para casa vivo, ou sem nenhum membro quebrado, era quase impossível, a noite estava completamente afetada, os vírus da criminalidade já não tinham regeneração e a quantidade de óbitos era infinita.
Para Emma e os colegas, permanecerem naquela cidade já passava de um enorme castigo, na realidade já não aguentavam o clima de terem de suprir tantas notícias ruins que se desenrolavam ao seu redor.
Duas semanas depois, Emma resolve dar um passeio, pelos subúrbios da Maxaquene, na companhia das suas amigas Rosey e Vivianne.

EM - EMMA EVERSTON, A UNIVERSITÁRIA DA CIDADE DE SANGUE - ERNESTO MOAMBA - IN-FINITA

Peabiru (excerto 16) - CARLOS DOMINGUEZ

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O desenho em lápis e giz de cera é simples. Os morros verdes ao fundo, o leito do rio, pedras e a queda d'água, o corte no rio, a cascata horizontal. Era a imagem artística de uma impressão única da imersão na natureza. Uma natureza que emite imagens ininterruptamente aos olhos que a contemplam. Aos olhos que se permitem contemplar o outro, o natural, o não criado por humanos e assim, por isso mesmo, permitem se impressionar e significar imagens na mente. Um recorte de luz em pigmentos sobre um papel e a imagem torna-se fixa nos cinco sentidos de quem esteve inserido no ambiente do Salto do Yucumã, com o barulho ensurdecedor, o calor que brota das pedras, o frescor das gotículas de água que saltam sempre em todas as direções, o aroma forte da floresta vizinha, os voos das incontáveis borboletas que pousam nos corpos suados dos que olham o salto. A imagem da imagem na imagem.

EM - PEABIRU - CARLOS DOMINGUEZ - IN-FINITA

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 35 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

35

Sou tão paradoxo como o Fernando. Só não dei nomes às minhas esquizofrenias, como ele, genialmente, fez, porque decidi assumir os meus delírios de personalidade e concentrá-los num só indivíduo. Assim, só se enferma e destrói um corpo.

Tal como ele – o Fernando – também escrevi sobre tudo e em vários registos, no entanto, heteronimizar os meus devaneios seria demasiado penoso e confuso, pela exigência de criar – além da criação que partilhamos – outros que, sendo eu, não passariam de pedaços minúsculos, pequenos fragmentos residuais, logo, sinopses perfeitas de redundância, e eu prefiro ser personagem ortónimo, por isso único, independente e lacónico.

Neste quesito, sou como o outro Pessoa – o Joaquim – que, quando questionado sobre as razões de, em determinado momento do seu excelso percurso, escrever num estilo e não noutros, respondeu que a sua escrita já tinha passado por todos os registos possíveis e não tinha de provar mais nada.

Adoptei este conceito – do Joaquim - e uso-o para justificar a descontinuidade de alguns temas na minha paleta criativa. Já provei que sei escrever sobre eles, ponto final.

E dou graças aos céus por não ter um heterónimo associado a essas temáticas arquivadas, no tempo que já foi, porque isso implicaria ter de inventar uma morte fictícia para um pleonasmo ambulante irreal.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 34 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

34

Em certos dias, mais incertos do que a dúvida existencial, derrama-se sobre mim um desejo de não ter necessidade de extravasar, nas palavras que de mim se manifestam, a síntese de tudo o que a minha mente, insaciavelmente, cria e inventa.

No cansaço dos dias modorrentos, e de outros mais fugidios, verte-se sobre mim uma vontade de não precisar juntar verbos aos complementos; sujeitos aos predicados; advérbios às conjunções, que em mim se formam, como hera incómoda e selvagem, e não consigo conter nas margens do anonimato.

Na fadiga das horas morrentes, e outras mais cheias, espalha-se sobre mim uma ânsia de dizimar este imperativo clamor de expelir as histórias que despontam a cada olhar, a cada som, a cada angústia, a cada pensamento, como quem sangra as debilidades do que não controla.

Nesses dias de lassidão e pouca pachorra, inundo-me de repulsa pelo assombro e inconveniência das palavras que germinam em mim e não sei como deixar aprisionadas nas prateleiras do descaso, como quem se renega três vezes diante da morte anunciada.

Na inabilidade de mim, em frustrar a criação, aborta-se sobre os meus ombros a força e querer de abdicar deste estro que não pedi e alguns juram que tenho.

E tudo isto porque, por mais absurdo que possa soar e parecer, mesmo sendo eu o criador, o que crio não me define e eu não me escrevo.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 13 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 33 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

33

Cada nova alvorada é um renascimento de oportunidades: uma proposta de ar respirável; um atestado de continuidade; uma declaração de intenções; uma moção de confiança; e uma promessa por cumprir.

A cada amanhecer, nasce-me a vontade de roubar a linearidade dos dias e construir outro tempo, menos volúvel e frívolo. Cresce-me o desejo de eliminar as súplicas do corpo cansado, abrir as asas ao horizonte e estender a toalha dos sonhos por concretizar.

A cada aurora, rejuvenesce-me o apetite de seduzir os raios de sol, como quem se prostra à beleza sagrada – porque perfeita – e cegar os caóticos medos que deambulam na mente, transformando-os em memórias esquecidas. Renova-se-me a sede de enfeitiçar o voo das aves, recolher o mel das cores vívidas e abraçar o arco-íris, como quem espanta os males por vir.

A cada madrugada, brota-me, dos olhos, um sorriso de confiança estoica no correto dedilhar de mais um instante de vida. Jorra-me um concerto de esperanças e fantasias por realizar, como estrela que guia os meus passos mais trémulos e imprecisos, rumo ao apogeu de mim.

E nos dias em que não me cumpro, morro-me ao pôr-do-sol.

EMANUEL LOMELINO

O abismo (excerto 21) - CARLA SANTOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Segui e, em frente, deparei-me com a Igreja e Convento da Graça, fundado no séc. XVI por eremitas calçados da Ordem de Santo Agostinho, agora apenas Igreja e o restante transformado em museu. Entrei no adro cercado por um gradeamento e olhei tudo em redor... era constituída por uma só nave, com uma abóboda de berço monumental e bela, um enorme retábulo na capela-mor, esculturas em madeira com imagens de santos... um pequeno nicho na parede com o túmulo de S. Gonçalo, Padroeiro da cidade. Dei a volta toda e achei muito interessante até... sai pela lateral que me levou aos claustros, com abóbodas de aresta e largos silhares de azulejos que ilustram a vida de frei Aleixo de Menezes, dali dando a volta dei com o museu municipal Leonel Trindade.

EM - O ABISMO - CARLA SANTOS - IN-FINITA

sábado, 12 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 32 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

32

Paira sobre mim, como auréola cintilante, uma angústia arrítmica que sinto, mas não vejo nem identifico. Sei que acompanha todos os meus passos e preenche todos os meus pensamentos, desde a alvorada bocejante até ao crepúsculo soporífero.

Para agravar a situação, sinto crescer-me nas costas duas asas de preocupação, que não conseguirão levitar-me – inúteis.

Tento decifrar a origem do sentimento para afastar de mim esta permanente vertigem, entre o desconforto e o vazio, que rouba o foco e a energia.

Olho em redor, como quem grita aos ventos pelo consolo de uma resposta que tarda em chegar, e nada vejo que sossegue a ânsia de outros ares, outros espaços, outros tempos.

Nos ouvidos sinto a pressão de um zumbido surdo e vago que inunda a mente de silêncio, como fosse um mar sem ondas nem rebentação.

Para impedir que eu descubra as razões deste incómodo e obrigar-me a voltar ao início de tudo, eis que tenho uma pedra no sapato, e preciso livrar-me dela. Oxalá que ao atirá-la para longe a angústia a acompanhe e, em mim, o alívio tome o seu lugar.

EMANUEL LOMELINO

De linhas que costuram resistências (excerto) - Francy Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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No dia 13 de abril de 2018, em uma sexta-feira 13, defendi a minha tese de doutorado. Há 15 dias, esta filha de dona Luciene, ex-empregada doméstica que estudou até a segunda série do ensino fundamental, e de seu Ramiro, trabalhador rural aposentado - que nunca teve acesso à educação formal -, tornou-se doutora em letras. Desde o dia da defesa, venho pensando em uma maneira de dizer da significância desta conquista na minha trajetória de mulher negra, pobre, nordestina, nascida em uma tarde ensolarada de primavera na pequena cidade de São José da Vitória, interior da Bahia.
Desde o dia em que me tornei doutora, as recordações das manhãs de sol escaldante, quando vendia frutas na feira para ajudar no sustento de casa, se fizeram mais presente em minhas memórias. Junto com essas lembranças desse meu primeiro trabalho, aos 9 anos de idade, muitas outras vieram.

EM - ELAS E AS LETRAS: SEMENTE, PRESENTE - UM LIVRO PARA MARIELLE FRANCO - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 31 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

31

Quando Júpiter, Thor e Zeus fizeram ribombar os céus, todas as divindades decidiram lançar, sobre a Terra, a promiscuidade para que os humanos fossem livres como os deuses.

Mas de boas intenções, Plutão, Hades e Hel, estavam cheios, por isso acrescentaram livre-arbítrio à enxurrada divina, na certeza de que isso originaria conflito entre os mundos celestes e terrenos.

Então a humanidade sublevou-se e decidiu fundar outras religiões e dirigir os seus agradecimentos, pelos poderes divinos, aos deuses recém-criados.

Os deuses originais enfureceram-se e formaram o maior exército de bestialidades alguma vez reunido. Ares, Marte e Odin eram os generais e tinham sob o seu comando Cérbero, Kraken e Minotauro, entre outras aberrações divinas.

Mas, com o livre-arbítrio em seu poder, a humanidade, que agora conhecia, de olhos fechados, o poder de Nirvana, nada temeu e tratou da saúde dos deuses, um a um, através de ludíbrio, engodo, embuste e promessa de memória eterna aos titãs Atlas e Prometeu, seus progenitores, Ásia e Oceano, e aos semideuses Hércules, Atena, Apolo, Dionísio, Baco e Perseu.

Muitas foram as maleitas que acometeram os deuses primevos através das doses de humanidade venenosa que lhes foram servidas em cópias de Santo Graal, forjadas pelos Ciclopes enganados por Minerva.

A história é longa e contém muitas outras histórias que não cabem aqui neste espaço. No entanto, deve ser dito que, apesar da artimanha montada, Plutão, Hades e Hel, cujas cabeças foram cortadas, tal como feito com Medusa, não escaparam à astúcia humana e foram substituídos por Lúcifer, o actual senhor das trevas que nos ensombram.

EMANUEL LOMELINO

Emma Everston (excerto 3) - Ernesto Moamba

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Para além de círculo de amigos, Emma Everston, amava livros, era viciada em ler, preferencialmente histórias que muitas das vezes envolviam o ramo da investigação criminal. Segundo ela, estava preocupada com o número de criminosos e era do seu interesse compreender os motivos pelos quais conduziam pessoas inocentes à prática destes atos, por isso, viera a abraçar o ramo da psicologia embora soubesse que se tratava de uma cadeira que exigiria dela muito cuidado. Enquanto o seu pai, na tropa, lutava com as armas para defender sua pátria da linha inimiga, Emma e a mãe, esforçavam-se para garantir a segurança da casa. Devem imaginar como era difícil para eles manterem-se resistentes sabendo que seu parente estava imerso no meio dos tiroteios. Uma guerra desnecessária, onde jovens inocentes se matavam, sem ódio e sem saber os motivos, a mando dos seus superiores, enfim, fazia parte de mais uma das injustiças sociais que muitas famílias ainda tinham que suportar.

EM - EMMA EVERSTON, A UNIVERSITÁRIA DA CIDADE DE SANGUE - ERNESTO MOAMBA - IN-FINITA

Peabiru (excerto 15) - CARLOS DOMINGUEZ

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A barba espessa de Marcos Corbari, jornalista, 45 anos, emoldura o rosto sincero e o sorriso firme, decidido, deste irrequieto ser humano que hoje trilha caminhos, conduzindo o ex-deputado Frei Sérgio Gorgen e fazendo a comunicação, em redes sociais, de um dos mais acirrados militantes por um mundo melhor de quem eu já tivera notícias.
Contemplo o quadro intrigado. Estava chegando do Salto do Yucumã. Há poucas horas, meus olhos vislumbravam e se extasiavam com a beleza e a força do Rio Uruguai, em sua maior cachoeira, o maior salto longitudinal do mundo. Naquele local, o leito do próprio rio afunda 110 metros para dentro da terra em um abismo escuro e invisível. El Mocoña, como dizem os vizinhos da Argentina, nesta fronteira natural e milenar local de passagem para as culturas locais.

EM - PEABIRU - CARLOS DOMINGUEZ - IN-FINITA

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 30 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

30

Eu, invariável e intransmissível paradoxo de mim mesmo, confesso a opressão que sinto no peito quando cavalgo as searas de calcário multiforme, ou os tapetes de cimento, que me deixam embrenhar nas verdes edificações vegetais desta imensa cidade que, não sendo minha, me pertence.

Sinto-me asfixiado pela grandiosidade desta floresta de pedra, como se a megalómana largueza das avenidas e praças se estreitasse a cada passo dado. Que vício, o deste pequeno país à beira-mar plantado, de deixar ocupar, desproporcionalmente ao seu tamanho, todos os monumentos, antigos e modernos, que não me representando são um pouco a minha imagem.

Sinto-me estrangulado pela altivez dos gigantescos espelhos que refletem a modernidade edificada, como estivesse a ver, nos céus multiplicados, uma encenação da urbanidade liliputiana enquanto espera a chegada prevista de Gulliver.

Sinto-me sufocado pela exuberante beleza das estações que, ciclicamente, cobrem os solos com as tonalidades mais díspares, raras e feiticeiras, permitindo que os faunos esquilos se camuflem aos olhos de quem é, pelos deuses, privilegiado.

Durante anos senti-me tolhido, no pensamento, pela monstruosa desfaçatez do Olimpo, achando que tínhamos sido criados com a presunção de sermos os maiores, com a mania das grandezas, e termos mais olhos que barriga. Mas depois descobri que a própria natureza teve a ciclópica generosidade de nos dotar com esta vontade de querermos ser vistos pelo que fazemos e não pelo tamanho que temos, ao criar o Canhão da Nazaré.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 29 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

29

De que serviria musicar um dia de sol com a alegria a dar ré por ter dó de si e deixar as outras notas no desconforto da solidão à espera de choverem, como se cada instante pertencesse a uma colcheia ou a um compasso, sem que existissem semibreves, pausas ou semínimas.

De que serviria pintar, numa folha de papel, as cores mais brilhantes de um arco-íris, se a paleta dos acasos só tem as tonalidades mais opacas e na palidez de um ápice não existe um pote de ouro, mirra ou incenso.

De que serviria untar as páginas de um caderno com as compotas do dia-a-dia, como quem barra manteiga na torrada, se o sabor de cada momento depende da fome que se tem, e às vezes uma fatia de pão seco é mais saboroso do que o repasto mais elaborado.

De que serviria temperar algumas frases, com as especiarias mais exóticas se a frescura das horas está no sal de uma lágrima, no mel de um sorriso, ou num olhar apimentado.

De que serviria escrever um diário, da forma tradicional que todos fazem, se fazê-lo implicaria dar nomes aos bois, e a outros jumentos, e perpetuá-los na história, enquanto o escrevente nunca alcançará melhor que o anonimato.

Mal por mal, é preferível pegar no absurdo acordeão das metáforas, rufar as gentilezas hiperbolizadas e tilintar os ferrinhos da ironia, porque o “querido diário” não é nada além de uma fanfarra eufemística, sem maestro, que só permite dançar quem saboreia o vinho de boa casta e desconhece a face do mosto, sem data, que lhe deu origem aleatória.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 28 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

28

Levantou-se um vento autoritário que varre tudo, inclusive a firmeza de ideias, qual censor desgaseificado.

Com a força do seu sopro, voam crenças, fés, certezas e uma ou outra resolução, que nem teve tempo para se vestir de gala porque, quando se perde a convicção, não vale a pena coser o bolso das calças.

Dizem que é tudo alteração climática, mas eu acho que é muito mais que isso. Sinto, na pele, que esta brisa desconfortável – que pica mais do que arame farpado ou agulhas de costureira – é uma onda de ar idiota e destemperado cuja missão é apenas instalar a discórdia.

Noutros tempos, talvez não tão humanos, mas com certeza mais, saudavelmente, filosóficos, haveria espaço para debate produtivo sobre a matéria e, entre os vários argumentos, encontraríamos alguma solução pacífica para combater este fenómeno.

No entanto, as sociedades modernas abraçaram o sedentarismo extremo e a preguiça não permite o pensamento livre. Os conceitos válidos são os básicos, que não demandam raciocínio e vigora a lei de quem gritar mais alto tem razão.

O único ponto positivo de tudo isto é que já existem por aí muitos moinhos de vento e a produção de energia eólica pode vir a ficar mais em conta e assim vai ficar mais barato comprar calças e sapatos novos.

EMANUEL LOMELINO

O abismo (excerto 20) - CARLA SANTOS

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Sábado chegou, peguei na Harley e segui o GPS até à cidade de Torres Vedras. Dei uma voltas para conhecer um pouco mais... Nunca aqui tinha vindo antes, pelo menos pensava que não, contudo, havia locais que me deixaram a sensação dum dejá vú...
Com a moto posso aceder a quase todo o lado o que me ajuda e muito... primeiro parei no posto de turismo para me facultarem um mapa da região e algumas informações plausíveis. Aproveitei e bebi uma bica acompanhada por um pastel de feijão, doce típico desta terra, à base de feijão, amêndoa e ovos... sentada na esplanada da Havanesa...
Ali perto tinha a Igreja da Misericórdia, construída entre 1681 e 1752, na porta podia ver, logo a encher os olhos, o brasão com as armas reais do reinado de D. João V e com a comenda da Ordem de Cristo. Uma igreja com altares em talha dourada, azulejos alusivos à Deposição da Cruz e a Nossa Senhora da Misericórdia, os seus frontais de altar em couro lavrado e pintado, muito raros. Em cima, no coro, um órgão de 1773 com oito registos.

EM - O ABISMO - CARLA SANTOS - IN-FINITA

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Diário do absurdo e aleatório 27 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

27

Já ninguém acode ao “aqui d’el rei” porque quem manda é o umbigo e os aflitos de hoje são mais que as mães.

Já ninguém acredita no “olh’o lobo” porque deixaram de existir cordeiros e todos estão iludidos com a possibilidade de serem predadores.

Já ninguém aceita “descalçar a bota” porque os caminhos são pontiagudos e não há quem se dê ao trabalho de grandes trabalheiras.

Já ninguém quer saber das “pedras no sapato” porque os sapateiros são espécie em vias de extinção e as meias-solas estão fora de moda.

Já ninguém grita “fogo” porque, em vez de bombeiros, os primeiros a chegar são os inúteis alarmes ambulantes pixelizados, que desconhecem a existência de baldes e mangueiras e, tampouco sabem como se abre uma torneira, ou o que é uma boca de incêndio.

EMANUEL LOMELINO

Carta para o Jardim Marielle (excerto) - Kika Souza

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Nunca vi. Nem pude estar perto. Dirá sentir o cheiro – dizem que tinha cheiro de girassol – e muito menos tocar. Apenas o adeus me foi permitido. Um vazio de oco. Lacuna no peito da existência. Incompreensão. Nó na orelha e na garganta. Anos todos nessas pirambeiras cariocas e eu sequer havia ouvido falar sobre a mulher do fim do Rio de Janeiro, mais precisamente a mulher do início e meio da Maré. E seria preciso muitas vidas para saber quem era essa mulher. Mas a vida quase sempre é injusta com as utópicas, sonhadoras, guerreiras; e a história desse mundo está para nos mostrar que com muitas de nós não será diferente.
Era noite, me recordo bem, abri uma aleatória rede social e li a notícia: “Vereadora Marielle Franco é assassinada.”. Se o tempo de Cazuza não para o meu parava e também ficava mudo naquele súbito instante. Um susto me tomou o corpo. Tremor e medo. Vi sua foto, mas naquele momento me assassinava mesmo a dor de Ser, ali, uma mulher, um corpo igual ao meu. E choveu, choveu, chovia, chovia. A terra quase se abrira entre raios e relâmpagos no céu obscuro. Iansã

EM - ELAS E AS LETRAS: SEMENTE, PRESENTE - UM LIVRO PARA MARIELLE FRANCO - COLETÂNEA - IN-FINITA