quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Vão da Vida (excerto 2) - SOL DE PAULA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Muitos não suportaram, sucumbiram. Outros, solitários, recuaram. Sofreram. Alguns buscaram alívio através das janelas. Mesmo longínquas, serviram de refúgio da dor.

O raio de luz invadiu, iluminou, incomodou, energizou. Incinerou a poeira que encobria a falta de esperança.

Ao tocar o limite entre o vão da vida e o fundo do oco, agarrei-me ao laço invisível da cooperação. Mãos se tocaram no imaginário coletivo, abraços foram ofertados com o olhar marejado, o aconchego latente tornou-se o melhor lugar de amparo. Ancoradouro.

Busquei acolhimento no tempo líquido por onde a sombra do sofrimento transformou-se em tempo de reflexão e inspiração.

Ainda bem que todo ser humano é movido pelo desejo. Desejo de superação, compreensão, sanidade, equidade. Humanidade.

Entre o vão da vida cultivei amizades, centelhas e lampejos. Adubei o solo com desejos recíprocos de superação. Ando colhendo avencas, lírios e gotas de felicidade para enfeitar a janela da empatia, renovação e do horizonte iluminado pela fagulha do encantamento.

Os tempos sombrios serviram de bússola e farol para iluminar o que de melhor há na vida. Respiração.

EM - SOMBRAS - TEMPOS DE ESCURIDÃO. TEMPOS DE LUZ - COLETÂNEA - IN-FINITA

O livro de Anita (excerto 3) - TEREZINHA PEREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O vigário que substituiu o padre holandês, quando na cidade chegou, já estava bastante idoso. Custou a se acostumar com aquela menina espigada, de olhos azuis e cabelos avermelhados, que morava na casa paroquial. Porém, a menina tinha uma incomum capacidade de cativar pessoas com seu jeito matreiro e com suas maneiras respeitosas. Além disso, era estudiosa e gostava muito de participar de todas as arrumações da casa e da igreja. Aos doze anos de idade, já cuidava de todas as jarras, de todos os altares, de todos os tapetes, de todos os forros de linho. Enfim, ela cuidava de todas as coisas da igreja com perfeição. Quando via o idoso vigário triste, fazia a ele um belo sermão, com um português todo enrolado, como havia aprendido com o padre holandês. O sacerdote ria tanto que até se esquecia das tentações do sa-ta-a-nás.

EM - CONTOS E CASOS - TEREZINHA PEREIRA - IN-FINITA

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Vão da Vida (excerto 1) - SOL DE PAULA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sem consentimento, transbordando sentimentos contraditórios e repletos de dúvidas e dualidades, o fluxo da vida foi interrompido. Pausado. Suspenso. Tenso.

O medo real, invisível, desconhecido, pairou sobre todas as cabeças, impondo um comportamento diferente. Era como se o modo inoperante tivesse sido acionado por tempo indeterminado e ninguém, inicialmente, soubesse como desarmá-lo.

Todos se armaram numa total solidão. O pânico do que estava contido no vão da vida, provocou atitudes diversas e dispersas. Ficamos à beira do abismo. Sem rumo.

As faces foram cobertas por máscaras, ferramentas de proteção e evocação ao sagrado. O sorriso ficou perdido entre as interrogações. O olhar estático esteve ferido pela falta de luz e sinalização.

Os corpos reclusos, as mentes girando em torno do próprio eixo, o silêncio das ruas invadindo os portões trancados em mil pedaços. Alucinações. Divagações.

O caos. A suspeita. A confirmação sendo marcada pelas batidas do relógio e do coração. O tempo esvaindo. Sangrando. A ampulheta se esvaziando.

EM - SOMBRAS - TEMPOS DE ESCURIDÃO. TEMPOS DE LUZ - COLETÂNEA - IN-FINITA

Dezembro Natalino - JACKMICHEL

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Assim que Dezembro chegava, a grande e bela residência, das irmãs Jajel e Mimú, vestia-se de festa.
Um enorme pinheiro verde era armado bem no meio da sala de visitas e cuidadosamente adornado com bolas vermelhas e laçarotes de fita da mesma cor.
Nos corrimões das escadas eram dispostos festões de folhagens verde-musgo, dos quais pendiam muitas botinhas, estrelinhas e bengalinhas.
No cantinho principal da mesma sala de visitas era posto um magnífico presépio antigo com as figuras sagradas de José, Maria e do menino Jesus na manjedoura, cercado por pastores com ovelhas, pelos três Reis Magos e por anjos; o qual era arrematado pela grande Estrela de Belém, que parecia querer guiar todos os destinos.
Muitos ramos de azevinho com sinos, bolas e laçarotes vermelhos pendiam de todas as portas e janelas, emitindo um som característico, presente somente naquela época do ano.
Tudo, enfim, naquela casa, estava envolto num suave clima de natividade que embalava as duas irmãs em lindos sonhos furta-cores.

EM - ALMANAQUE PALHAÇO - JACKMICHEL - IN-FINITA

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A cruz haitiana (excerto 1) - IARA LEMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Em Jérémie, cidade localizada a cerca de 280 quilómetros da capital do Haiti, Porto Príncipe, onde eu acordava naquela manhã quente de março, o sol penetra as peles negras e sem qualquer tipo de proteção como um chicote que flagela e deixa cicatrizes. Naquele dia, era eu quem acordava sob o açoite do sol.
“O café já está passado. Só falta pegar uns pães”, falou Adorema Dall’Ongaro para alguma das outras freiras que moravam na casa onde eu estava hospedada, embora enquanto despertava eu não soubesse identificar qual delas seria. Eram tantos ruídos externos a se misturarem com as vozes que vinham da cozinha que contribuíram para prejudicar uma melhor observação do local.
Recordo-me de ter permanecido por alguns minutos imóvel na cama, provocando meus sentidos a se abrirem ao novo mundo que me aguardava. Não demorou muito para que os ruídos das motocicletas invadissem os meus ouvidos sem pedir permissão. Foi ali que percebi que, embora o adiantado da hora, a vida em Jérémie já estava em movimento.
Tudo naquele local desconhecido começava muito cedo. Meu olfato percebeu logo a provocação, incitado pelo cheirinho de café recém-passado, que vinha dançando desde a cozinha, desviando das paredes até chegar ao meu nariz. Como foi bom acordar com aquele aroma que lembrava o aconchego do lar.

EM - A CRUZ HAITIANA - IARA LEMOS - IN-FINITA

domingo, 4 de dezembro de 2022

As nossas almas solitárias (excerto 1) - C. GONÇALVES

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Acabo de os deitar. São 21:40. Quando olho para eles, tudo faz sentido. As forças surgem-me inexplicavelmente, mesmo que ainda seja quarta-feira de mais uma semana árdua de trabalho.
Os jantares na casa da Sara, renovam sempre o meu espírito e a minha alma. Como é hábito, pomos a conversa em dia, falamos da semana e dos nossos problemas, e hoje não foi excepção. Sinto-me sempre mais leve, menos sozinha. A Sara é a irmã que nunca tive. Conhecemo-nos durante um estágio que fizemos juntas numa empresa de recursos humanos; eu como jurista, ela como junior researcher. Desde então, ficámos amigas inseparáveis e acompanhamos sempre que possível, a vida uma da outra. Apoiamo-nos, ajudamo-nos; no bom e no mau, nas tristezas e nas alegrias. Por isso, fico muito feliz por ela. Finalmente conseguiu entender-se com o Santiago e caminham para um relacionamento tranquilo e apaixonado. Combinámos passar o fim-de-semana no Alentejo, na casa dos pais do Santiago. A princípio recusei; não quero dar trabalho nem impor a presença dos meus filhos. Também não quero ser um fardo para ambos, agora que querem estar sós. No entanto, e perante a insistência da Sara, acabei por ceder. Estou a precisar de descontrair e de me abstrair, de relaxar. Adoro o Alentejo, e espero poder usufruir da calma e da paz que a planície me transmite. O trabalho tem-me ocupado o pouco tempo que tenho disponível para mim e preciso de uma pausa para repor energias. Para respirar um pouco de ar puro. Os miúdos estão comigo nesse fim-de-semana, e vai saber bem gozar de algum tempo livre com eles.

EM - AS NOSSAS ALMAS SOLITÁRIAS - C. GONÇALVES - IN-FINITA

sábado, 3 de dezembro de 2022

Viagem ao passado... - NUNO DOS SANTOS

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Num movimento repetitivo no apagar de frases que surgem como as gotas que caem num dia tempestuoso, quero compor o desejo de traduzir e explicar os meus mais profundos pensamentos e sentimentos.

Encontro-me rodeado de folhas, que se acumulam umas após outras tornando o meu canto de escrita num recanto de leitura de pequenas notas, onde os manuscritos se misturam com os rolos de papiro antigo e a pequena máquina de datilografar num quadro idílico dos tempos idos...

Sou eu, grande, forte, em satisfação.

O sentimento de cansaço não tem lugar no saco que carrego nestas viagens a pequenos e belos monumentos de História, levando-me a uma descoberta que me deixa pleno de satisfação e emoção.

Em cada rua, fonte, mesmo aquela pequena e simples janela pintada de azul contrastando com o cinza do telhado e o castanho barrento das paredes construídas de pedras colhidas e areia que esconde cada fresta.

E assim fica protegida de todas as tempestades que descem a serra...

EM - SOMBRAS - TEMPOS DE ESCURIDÃO. TEMPOS DE LUZ - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

dois de julho, visitação (excerto) - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Para o Thio Therezo, o dia de seu aniversário, o tal dois de julho, tem um simbolismo todo especial. Não é só por ser esse o dia dos bombeiros ou o da independência da Bahia ou mesmo o do famoso Palio de Siena. Sim, esses três fatos já seriam mais do que suficientes para que ele se sentisse orgulhoso de sua relação com essa data. Mas há mais, há muito mais.
Dois de julho é o 183º dia do ano, bem no meião dele, com 182 dias antes e outros tantos 182 dias depois. Fácil entender então por que Thio Therezo olha o seu passado com o mesmo carinho com que encara o seu futuro, metade que está, sempre, do seu caminho por aqui, simbolicamente falando...
Essa simetria em torno do dia dois de julho, óbvio, não vale para os anos bissextos, que são "meras anomalias do calendário, tão infames que sequer deveriam ser levados a sério", de acordo com o singular pensamento do Thio.
É claro que, devido a essa simetria presente em anos não bissextos, e o Thio Therezo é fanático por elas, ele evita comentar o ano em que nasceu. Mamãe, sua irmã predileta, um dia nos confidenciou que sim, nosso Thio tinha de fato nascido em um ano bissexto, para seu desespero interior, poucas vezes manifestado publicamente.

EM - HISTÓRIAS DO THIO THEREZO - FLÁVIO ULHOA COELHO - IN-FINITA

Acreditar é conseguir - NUNO DOS SANTOS

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Após tanto tempo de espera em que sonhava pintar aquele quadro junto à água sentindo as pequenas ondas que lhe beijavam e acariciavam os pés como lhe dando as boas-vindas, mesmo tempo querendo satisfazer a curiosidade...
Lá estava finalmente, numa corrida contra o tempo para deixar os principais traços antes que a maré começasse a subir, mudando o cenário em que as pequenas conchas se colocavam a jeito na companhia de todo um conjunto de pequenos seres marinhos que igualmente não queriam perder a oportunidade de ser imortalizados naquela tela branca e pura.
Obra que começa a ficar repleta de cor em certas partes, alterando-se com os salpicos de água que batia nas rochas não muito longe, sendo transportadas pela leve brisa que componha o momento.
Em toda esta sinfonia esteve presente desde o primeiro instante o cheiro único que caracteriza bem a região e o mar, na melodia de gaivotas que dançavam num vaivém até junto de sua cabeça querendo ver o esvoaçar do pincel.
Num respirar profundo a alegria preenchia o rosto ao ver que a peça compunha com exactidão o nosso Portugal, várias pinceladas que descreviam a vontade de vencer e as conquistas da terra a esta vasta força que é o oceano.

EM - SOMBRAS - TEMPOS DE ESCURIDÃO. TEMPOS DE LUZ - COLETÂNEA - IN-FINITA

O livro de Anita (excerto 2) - TEREZINHA PEREIRA

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Quem sabe seria melhor começar a história de outra maneira...
Anita não teve pai nem mãe. Quer dizer, eles nunca se manifestaram. Recém-nascida, ela foi encontrada, enrolada em trapinhos, chorinho manso, perto do altar de Sant’Ana, dentro da igreja. O maior rebuliço na cidade. Quem seria o pai, quem seria a mãe daquela que havia sido colocada perto do altar de Sant’Ana? Por certo não seria filha da santa. Aconteceram muitas buscas, muito sermão, muita falação: um prato cheio para as beatas de igreja como também para todo o povo da cidade. A menina acabou sendo batizada com o nome de Ana e criada pelo vigário estrangeiro. Dona Cecé, empregada da casa paroquial desde quando não se lembrava mais, e o vigário estrangeiro afeiçoaram-se tanto à menina que acabaram ficando com ela. Não faltou gente para dizer que a garota era filha da dona Cecé com o... Deixa pra lá.
O padre estrangeiro que batizou a menina encontrada perto do altar de Sant’Ana era um holandês gordo, rosto vermelho, olhos azuis. Havia chegado na cidade cerca de um ano antes de a menina ser encontrada perto do altar da santa. Falava um português todo enrolado. Quando fazia o sermão da missa, deixava os fiéis com ar de quem não havia entendido nada, mas pensando que o padre havia falado muitas palavras difíceis e bonitas o suficiente para deixá-los livres das tentações do – como ele dizia – sa-ta-a-nás. O padre holandês cuidou da menina Ana com carinho e quase devoção. Quando ela completou oito anos de idade, um ataque fulminante do coração o levou, deixando-a como que órfã pela segunda vez. Dona Cecé, um tanto envelhecida e tristonha com a morte do padre, desdobrou-se em cuidados com a menina.

EM - CONTOS E CASOS - TEREZINHA PEREIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Ida ao circo - JACKMICHEL

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Quando o domingo chegou Tutuca foi ao circo com seus tios e pode, enfim, realizar o seu tão esperado sonho de ver o espetáculo e todos os artistas de perto.
Mas o que ele nunca mais esqueceria seria da canção que Palhacito e Palhacento cantaram em seu inocente número musical:
“Era um Palhacito/Era um Palhacento/ Um, ria franzido/ Um, ria tremendo/Era um Palhacito/ Era um Palhacento/Um ria franzindo/ O outro, tremia para o vento.”

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domingo, 27 de novembro de 2022

O livro de Anita (excerto 1) - TEREZINHA PEREIRA

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O livro caiu no chão. Um baque seco. Foi como se a história da própria vida de Anita houvesse desmoronado.
Há três anos, havia começado a escrever a biografia de padre Francisco, o atual vigário da cidade. De alguma maneira, Anita sempre participara da vida dele. Dividira com ele todos os momentos, desde quando ele chegara há trinta anos, guarda-chuva desbotado pendurado no braço, mala de papelão com os cantos quebrados, batina puída e empoeirada. Contraste perfeito com o rosto jovem e com o porte elegante. No dia em que ele chegou à cidade, ela foi esperá-lo na praça onde parava a jardineira. Fazia sete dias que o vigário idoso havia morrido. Velhinho, cabeça branca, pele encorrujada. Tivera o domínio da cidade por uns dez anos. Anita o assistira por todos os dias de seu domínio. Era seu destino: cuidar da igreja, da ornamentação, da marcação de missas, da casa paroquial, dos jardins.

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sábado, 26 de novembro de 2022

O sentir ao refletir para transformar - Da sombra à luz (excerto 2) - GLÁUCIA LARA BORJA

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Para que tenhamos um novo padrão, se faz necessário, mergulharmos no vazio, observarmos o caos, afim de estabelecer uma reorganização propiciando o surgimento uma nova maneira de enxergar e lidar com os altos e baixos que a vida impõe, emergindo uma nova forma de ser e estar. Despertando o sentimento de pertença, onde nos sentimos responsáveis por nossas ações e seus impactos, tendo a consciência de que toda ação gera uma reação e que estamos todos juntos neste mundo, consequentemente todos seremos afetados.

Mas a boa notícia é que nada dura para sempre, e que no desconforto buscamos através do diálogo, da criatividade e da união, a harmonia. Sim, na dor nos unimos, isto é instinto de vida que está intrínseco ao ser humano. Paremos para observar, sempre após um momento de caos há uma reorganização, um salto qualitativo, tendo isto em vista, podemos nos encorajar e ir em busca da troca e soma dos saberes a força para seguirmos em frente, esta dialética surge trazendo a esperança focada nos objetivos da vida.

Porque nunca é tarde para recomeçar!!

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Pedido ao tio - JACKMICHEL

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Enquanto tomavam o café da manhã, Tutuca criava coragem para fazer o seu pedido. No entanto, mesmo sem querer, tia Graça notou que seu pequeno sobrinho estava nervoso; pois a xícara de café tremia em suas mãos infantis e, então, ela perguntou:
“Você está sentindo alguma coisa, Tutuca?”.
“Não, senhora.” Respondeu ele em voz muito baixa.
Tio Donato, por sua vez, também percebeu que o garotinho queria falar e, assim sendo, perguntou:
“Quer pedir alguma coisa, Tutuca?”.
O menino, enfim, tomou coragem e pediu:
“Tio Donato, será que o senhor e a tia Graça podiam me levar ao circo, no domingo?”.

EM - ALMANAQUE PALHAÇO - JACKMICHEL - IN-FINITA

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O sentir ao refletir para transformar - Da sombra à luz (excerto 1) - GLÁUCIA LARA BORJA

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Através da história da humanidade observamos que de tempos em tempos ocorrem momentos sombrios, sejam através das doenças às guerras, impactando diretamente na existência das pessoas. Estes fatores mexem muito com todos, desestruturando não só a rotina, mas impactando na visão de futuro e nas emoções, reverberando a desesperança, mediante o contato real com a finitude, derrubando assim, o sentimento de onipotência.

Vale a pena refletir o caminho que estávamos trilhando antes da pandemia e da guerra, cada um vivendo em suas bolhas, fugindo do sentir e em uma busca cega em preencher o vazio e as frustrações com prazeres supérfluos e imaginários, drogas lícitas e ilícitas através de um mundo imaginário alimentado pelas redes sociais onde só há riqueza, satisfações e alegrias, além dos resultados instantâneos, sem empenho nenhum, como um passe de mágica.

Vale ressaltar que todos os sentimentos são necessários e importantes, são sinalizadores e possibilidades de nos rever, isto é autoconhecimento. O qual nos possibilita transformar e buscar novas estratégias para seguirmos a vida com mais qualidade. Sendo quem somos na essência e não agindo no embalo inconsequente que nos robotiza, nos fazendo atender somente as expectativas dos outros, destruindo os sonhos pessoais, as relações, nos tornando egoístas a ponto de ignorar o meio ambiente, nossa fonte de vida. Com isto, de forma inconsciente vai surgindo um efeito borboleta, onde podemos acabar sendo o que não queríamos ser, vivendo num mundo hostil, como se a realidade não fosse fruto das decisões que tomamos.

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terça-feira, 22 de novembro de 2022

A Alma das Coisas (excerto 2) - FERNANDO ROSENDO

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Quantas feridas... Quanto cansaço...
Ao longo dos anos, se pensarmos no tanto de pés e de passos que já pisotearam, quantos tropeços, quantas chuvas já lavaram, quanto peso e malho suportaram...
Isso é história... Isso é a alma das coisas... Nesse caso, a alma dessa rua, ou a alma dessas pedras que carrega uma multidão de recados, desejos, credos, açoites, conquistas...
Quantos calos secaram nas mãos dos calceteiros... Quantos calos nas ruas desfilaram... Quantos passados reunidos formaram esse presente...
Quantos passos hoje vem desfrutar de sua elegância única, de seu esmero e de sua trajetória...
Quantos operários se machucaram? Quantas lágrimas vertidas? Quantos dissabores embargaram na voz esses heróis anônimos, esquecidos no tempo...
Quantos costumes, quanta fome saciada pelo trabalho, ou quanto trabalho saciado pela fome...
Isso é a alma dessas pedras... O que escuto por entre essa multidão que passa e que trafega sem pressa... A voz dos alheios... A canção dos sofridos... O riso das infâncias, a saudade... O grito das esperanças... O olhar de contemplação de um dia de Domingo, onde toda essa gente transita maravilhada pelo sossego de uma paisagem que leva a um pôr do sol inesquecível...
Isso é a alma dessas coisas, à qual devemos todo o respeito sagrado e gratidão...

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Mulher feliz (excerto 3) - TEREZINHA PEREIRA

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Foram para a cozinha. Sozinhas, tomaram o café. O Mário foi ver a pequenina que se remexia no berço. Quando o Inácio saiu é que falaram comigo. Então, disse a eles que precisávamos programar a nossa vida. Que não tínhamos mais o pai. Mas que éramos cinco. Cinco pessoas saudáveis... E a vida continuou. Só Deus sabe a falta que o João nos fez. Só Deus sabe o tamanho do vazio que ficou dentro de mim. Um vazio que existe até hoje. Os meninos continuaram colhendo ovos no mato, achando galinha choca perdida e bezerro agarrado no cipó; arrancando matinho da horta; lavando louça no rego; carregando água para encher as bilhas e latões. Iam à escola também. Perto da casa da estrada havia uma escola. Uma professora vinha duas vezes por semana e juntava todas as crianças numa sala e ensinava a ler, a escrever, a fazer contas. A horta foi ficando viçosa. As plantações proporcionavam boas colheitas. Os animais também produziam boa renda. A vida tomou um bom rumo. Um rumo, talvez, diferente daquele para o qual o João nos guiava. Mas, continuamos. Como uma família alegre e unida.”

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segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A Alma das Coisas (excerto 1) - FERNANDO ROSENDO

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No meu bairro há uma rua de pedras...
Pedras disformes, recortadas, desiguais e dispostas numa via que cria um existencialismo singular... A mais antiga rua e a primeira pavimentada de nosso estado.
Se olharmos por entre essas pedras seculares, viajarmos por sua história e todo o seu caminho de desconstrução e construção... Os pedreiros que arrancaram as rochas das montanhas e criaram os matacões, e depois rolaram até aos operários que puncionaram, recortaram esses matacões aos pedaços e posteriormente lapidaram de maneira irregular, desenhando através da punção, do cinzel impulsionado sob o macete e a picareta...
Quantos suores despendidos sob o sol e as intempéries... O volume de pedras lascadas e as dificuldades de empilhamento e armazenagem... Depois o carregamento e o transporte feito por animais de cargas até a rua de meu bairro que até então não era uma rua, talvez um caminho, uma passagem, e que sofreu os golpes das enxadas e das charruas para aplainar, alisar... Após a descarga dessas pedras sobre os depósitos e um novo carregamento, dessa vez, uma a uma, e dispostas como se fossem renda de bilro tecido sobre a terra... E a poeira... A lasca... O peso de cada uma, agrupadas artisticamente...

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Tutuca desperta - JACKMICHEL

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De manhã Tutuca acordou, lembrou do seu sonho e pensou como seria maravilhoso se ele fosse assistir, na companhia do Tio Donato e da Tia Graça, a apresentação dos artistas do Circo Eldorado e, principalmente, ver de perto seus ídolos Palhacito e Palhacento.
Ah! Como ele queria ir ao circo!... Mas como isso seria possível se ele era apenas uma criança, sem um vintém sequer no bolso?
Ele teria de ir ao circo de algum jeito, nem que precisasse vender sua tão adorada coleção de bolinhas de gude!
Tutuca continuou a pensar sem parar até que, de repente, teve uma ideia brilhante: pediria ao Tio Donato para irem ao circo, no próximo domingo.

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domingo, 20 de novembro de 2022

De luzes e sombras - FÁTIMA D'OLIVEIRA

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Bem escondida no meio de tudo e de todos, Belarmina ou Mina, como era conhecida, sentou-se no chão, cruzou as pernas e respirou fundo. Ali mesmo, em pleno areal ainda a borbulhar de gente que, preguiçosamente, iam adiando o regresso a casa, para, molemente, se irem deixando ficar. Naquela praia, meio perdida no meio de nenhures e meio achada pelo cada vez maior número de pessoas que teimavam em frequentá-la, Mina preparou-se, ou melhor, tentou preparar-se o mais possível para o espetáculo que se aproximava: um espetáculo feito de luzes e sombras, magistralmente acompanhado por uma orquestra feita de sussurros do mar, canto das gaivotas e assobios do vento.
Um espetáculo diário, mas que não era só um espetáculo: antes um poema, uma ode. Melhor, um hino, um verdadeiro hino à beleza, grandiosidade e simplicidade das melhores coisas da vida.
Um espetáculo descoberto por acaso, mas que se tinha transformado num autêntico ritual para Mina, assumindo proporções quase que… dominadoras.
Um mero pôr-do-sol, era disso que se tratava.
Já depois do astro rei se ter aconchegado nos seus lençóis de espuma e ainda com o céu com traços de laranja e violeta, Mina levantou-se, completamente extasiada pelo espetáculo a que acabara de assistir.
Olhou novamente para a tela imensa que se estendia à sua frente e suspirou. Amanhã, voltaria.

EM - SOMBRAS - TEMPOS DE ESCURIDÃO. TEMPOS DE LUZ - COLETÂNEA - IN-FINITA