terça-feira, 9 de agosto de 2022

Jesus Cristo (excerto) - PEDRO SILVA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Conforme tem sido sugerido nos últimos tempos, o seu nome hebraico terá sido Yeshua, termo que significa “salvar”. Assim sendo, tem-se identificado Jesus como Salvador e Cristo como “o escolhido” por ter sido ungido (passar, por óleo, sobre o corpo de alguém era sinal de que essa pessoa era rei ou líder, fosse no campo político ou religioso).
Não deixa de ser curioso que uma questão, aparentemente secundária, tenha suscitado tanta investigação quanto o nome por que Jesus seria efectivamente conhecido, na época da sua vida terrena. Investigadores como E. P. Sanders, referem que há aproximadamente duzentos anos que se investiga a vida do Cristo. Porém, estamos em condições de afirmar que, provavelmente, jamais houve tanta curiosidade em torno da sua figura como na última década. Fruto de curiosidade da parte de muitos leitores e do maior interesse dos editores pelo tema, as obras multiplicam-se, proporcionando basta fonte de pesquisa.
Assim sendo, é comummente aceite que Cristo e os seus apóstolos falavam aramaico – uma língua semita, utilizada, na época, no Médio Oriente, que possuía um alfabeto próprio e uma longevidade de três milénios. A língua aramaica seria uma mistura de dialectos africanos e asiáticos que redundaram num estilo próprio que ainda é passível de ser escutado em locais do interior da actual Síria.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

domingo, 7 de agosto de 2022

Encontrando pistas (excerto 2) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Conforme avançávamos a quilometragem, meu coração acelerava, chorava, copiosamente. Como desejei aquele momento! Era um reencontro com a cidade, com o bairro, com a casa, com a família. Era um choro de alegria, de encontros. Abraçar minha netinha, minha filha, minha mãe, senti-las, era uma sensação inexprimível. Olhei para cada canto da casa e amei profundamente tudo o que ali tinha. Não era o aspecto material que me importava, mas a representação emocional que aquele lugar simbolizava naquele momento. Era o retorno ao meu lugar de pertencimento, de histórias, de constituições diárias.
Sem dúvida, essa experiência me oportunizou maior valorização da família, do lar, do meu lugar no mundo.
Meu emocional foi se equilibrando e, rapidamente, a cirurgia cicatrizou-se. Daí, a importância de entendermos que o fator emocional é muito importante para o tratamento de qualquer patologia. A medicina não fará milagres se o paciente não colaborar com o equilíbrio de seu emocional. É natural termos medo do desconhecido, é natural ficarmos mais introspectivo, mas não podemos deixar que isso seja uma constância, que isso nos domine. É preciso ter esperança e uma atitude positiva diante de si e da situação que nos chega.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Gênero e Imigração (excerto 13) - CAMILA FRANCO HENRIQUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

O primeiro caso escolhido foi de uma mulher, com mais de 30 anos, artista de profissão, regularizada em Portugal e sem filhos. Ela já não mora no Brasil há um tempo significativo. Se mudou para Portugal há pouco tempo, mas antes estava a morar no Reino Unido. Seu ex-companheiro também é imigrante e artista, se dedicando à música.

Durante o relacionamento, o seu companheiro passou a maior parte do tempo desempregado, então ela arcou com a - quase - integralidade das contas. Além disso, seu ex-companheiro tinha vício com bebidas e álcool, e pediu por diversas vezes dinheiro emprestado para manter o vício.

Ela recorreu à Rede Solidária da Plataforma Geni porque queria mais informações sobre os seus direitos na questão de cobrar o dinheiro que ele devia. Já havia cobrado diretamente dele por diversas vezes, mas ele, mesmo que assumisse que devia dinheiro a ela, sempre dava justificativas do porquê não podia pagar. Tentou falar com a mãe dele, que se eximiu de qualquer responsabilidade e não buscou dar qualquer tipo de suporte, apesar de saber que ela estava passando por dificuldades. E, no momento que pediu o aconselhamento, estava na tentativa de reaver o dinheiro pela via judicial.

EM - GÊNERO E IMIGRAÇÃO - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

Um domingo musical - ITANIRA SOARES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Era um dia musical feito domingo na mata.
Circo armado em dias de pandemia. Trapezistas, malabaristas, dançarinos, palhaços...
De galho em galho o soim se joga, e um assobio comprido atravessa os ares.
A cigarra deixa sua carcaça entre as árvores. Seu vestido preto do luto que foi deixado para trás, os restos mortais da vida que levou a cantar.
Onde está o beija flor que deixou beijos em cada pétala que lhe deixou beijar. Silencioso é o sugar de seu bico comprido, querendo entrar no âmago da flor que lhe inspirou o beijo doce e demorado da sua própria essência de vida.
Formigas de roça na luta pela sobrevivência, Bagagem no lombo, patinhas ligeiras, caminho desenhado numa procissão de fé na faina diária.
A passarada é o coral mais harmonioso desse domingo.
O cupido, o pássaro preto, deixa o dia findar e da palmeira de garganta afiada, encerra o sarau das cinco horas do todo dia.
A galinha d`angola dança na palha seca e faz charme aos seus seguidores.
O galo canta e se joga de gogó altivo no terreiro o seu cocorococó dominante.
A noite vem e o coaxar dos sapos no riacho ao lado encerra o domingo musical desmentindo as falácias do cri cri cri de um grilo irritante e repetidas vezes canta o Foi não foi! Foi não foi! de seu concerto musical.
Só falta o meu canto poético nesse domingo musical que essa pandemia me oprime cantar.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Maria Madalena (excerto) - PEDRO SILVA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Inexplicavelmente, Maria Madalena, nascida em Magdala (Galileia), próxima de Cristo, passou de “prostituta” a “portadora do sangue real”, por intermédio da obra mais impressa dos últimos anos e dos subsequentes estudos que se “colaram” ao famoso “O Código Da Vinci”.
Qual a razão para isto? Estamos em crer que é extremamente simples – o facto de a Humanidade ser constituída por mais mulheres do que homens leva a que a sociedade possa, facilmente, tornar-se em local agitado sempre que um texto tenha o mérito de fazer ressalvar o crucial papel da mulher na Humanidade e, naturalmente, frisando o amordaçar do sexo feminino por uma opressão machista.
E Maria Madalena tornou-se o expoente máximo da máquina de propaganda que, durante anos, serviu o Homem – supostamente, o Concílio de Niceia, nos primórdios da Nossa Era, teria sido concebido para abafar por completo o papel da Mulher na história. Assim, Maria, mãe de Jesus, primordialmente Grande-Mãe e similar à Grande-Deusa da pré e proto-história, foi excluída da primazia na Bíblia. Vários evangelhos teriam sido considerados apócrifos, isto é “falsos, falsificados ou forjados”, pelo facto de darem grande importância ao papel de duas mulheres na vida de Cristo (Maria Madalena e a própria mãe de Jesus) e de veicularem informações que não seriam “oficiais”. De esposa de Cristo, Maria Madalena teria sido transformada, pela pena habilidosa de alguns autores ou pela censura do Concílio, em mera prostituta.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Encontrando pistas (excerto 1) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Voltar para casa, após tanto tempo distante, era um bálsamo. Saímos de madrugada, nem dormimos direito. As restrições permaneciam em alguns setores da sociedade. Algumas coisas eram liberadas a retornar, mas com protocolos de segurança a serem seguidos.
Aquela viagem de retorno tinha um sentido muito especial pra mim. Eu desejava aquilo com todas as minhas forças. Durante o percurso íamos ouvindo músicas, lendo livro, conversando e assim, fomos vencendo as distâncias. Passamos para ver meu pai que sofria demais com tudo o que estava acontecendo. Ele mora na região norte do estado. Dormimos uma noite lá e seguimos para casa. Nosso destino era o Oeste.
Alguns quilômetros, após termos atravessado o rio São Francisco, senti uma atmosfera diferente. O céu era vibrante, limpo, poético. As plantas típicas do cerrado emolduravam a paisagem. Olhava para tudo aquilo, via e sentia poesia. Comecei a chorar.
A sensação que tinha era de liberdade. Era como se eu estivesse aprisionada, exilada. Como dói você desejar ir para casa e não poder. Fiquei imaginando o quanto sofreram homens e mulheres exilados, ao longo da história, sem poder retornar às suas origens.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

sábado, 30 de julho de 2022

Tempero de amor (excerto) - ITANIRA SOARES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Quero entrar nessa casa com cheiro de tempero fritos no óleo de coco, na gordura do porco, no gosto do gosto que ficou na memória do meu paladar.
Quero entrar com pés de criança que medem anos, pernas que correm em um corredor de recordações.
Olhos encharcados lavarão paredes tateadas de emoção, mãos agarradas as portas fechadas quase não querendo abrir-se para me deixarem entrar.
Teias de aranha nos cantos, bordam fios de histórias, páginas e páginas com nossos personagens pais, irmãos... cenários vividos pulando dos meus olhos, inquietude dos atores em encenações diversas, ouvindo pássaros engaiolados cultura antiga, comum na época, mas bem tratados. Um cupido de canto estridente dispensando caixas de som, acordando cada cena nos distintos compartimentos da casa.
Quero entrar como se o passado me desse um empurrão de cair no presente, como se me açoitasse o presente por querer voltar ao passado, essa vontade impregnada do que foi bom, do que foi proveitoso, do que foi alvissareiro.
Do cheiro do óleo de peroba nos móveis, da cera de carnaúba no piso de mosaico brilhante, cheiro dos lençóis lavados na água da bica, engomados pelo ferro em brasa, cheiro de criança, cheiro de gente, cheiro de amor.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

Episódio: O Mestre e o Discípulo (excerto) - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
Conheçam a IN-FINITA neste link

O mestre e o discípulo chegaram ao monte alentejano, num dia de frio e sol.
Mal pararam o carro, viram que, na enorme figueira, mesmo em frente da casa, estava um pássaro, preso na rede (que protege os figos dos devoradores), esbracejando, sem conseguir encontrar o caminho de regresso ao espaço.
O discípulo desceu a correr, para ir tentar soltá-lo, enquanto o mestre arrumava o carro.
A tarefa, a que se juntou o mestre, não foi fácil: a ave tinha uma pata completamente envolvida na rede e já ferida. Tiveram de cortar a rede, para retirá-la.
Depois, ambos começaram a ainda mais difícil tarefa de retirar os pedaços dr rede da pata ferida. Delicadamente.
À vez, um agarrava a ave entre as mãos e o outro ia desembrulhando…

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Gênero e Imigração (excerto 12) - CAMILA FRANCO HENRIQUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Ao participar como voluntária da Rede Solidária da Plataforma Geni, criada como forma de dar apoio a mulheres brasileiras que se encontravam em Portugal durante a pandemia da Covid-19, tive contato com diversos casos que guardavam em comum situações de violência. As violências dos casos selecionados para análise foram geradas, direta ou indiretamente, por relacionamentos amorosos, passados e presentes. E a verificação da situação de maior vulnerabilidade pela qual estas mulheres passavam, por meio de seus relatos, foi o principal motivo que levou à escolha do tema e desenvolvimento deste trabalho.
Assim, diante da constatação da soma de marcadores de vulnerabilidade da mulher imigrante e a partir dos casos da Rede Solidária, pretende-se responder a seguinte pergunta: “em que medida a condição de mulher imigrante brasileira em Portugal agravou sua situação de vulnerabilidade durante a pandemia da Covid-19, a partir das violências decorrentes, direta ou indiretamente, de seus relacionamentos amorosos?”. O objetivo geral é, então, relacionar as situações de violência vividas por mulheres imigrantes brasileiras, a partir de casos reais decorrentes de relacionamentos amorosos em Portugal, com suas situações sobrepostas de vulnerabilidade. 

EM - GÊNERO E IMIGRAÇÃO - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Superstições (excerto) - PEDRO SILVA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

- Alho: É um alimento muito importante no campo do misticismo. Ao que parece, será capaz de afugentar os vampiros, pois lhes provoca profundo terror. Em alguns países, uma cabeça de alho deve seguir dentro do bolso do casaco de alguém que pretende evitar o mau-olhado ou demais bruxarias, estando, portanto, no campo dos amuletos. Estamos em crer que, acima de tudo, sempre foi utilizado, com efeitos positivos, no campo da medicina, ganhando aí o seu nome positivo. Uma pequena erupção cutânea deve ser esfregada de imediato com o interior de um alho cortado ao meio, impedindo a infecção de avançar. Actualmente, as dificuldades em curar o cancro levam a que muitos comem alho cru na esperança de evitar o aparecimento ou propagação, no interior do corpo, dessa terrível e mortal maleita. O que é confirmado é que se trata de um bom tratamento para a hipertensão. Seja como for, egípcios e gregos não apreciavam o alho, proibindo em certos locais, mas sempre reconhecendo as suas propriedades contra algumas infecções. Os soldados romanos costumavam comê-lo antes das batalhas, por crerem na sua protecção e que lhes daria mais força.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Arco-íris - JOSELMA NOAL

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
Conheçam a IN-FINITA neste link

Demorou para dormir. Só fazia pensar na manhã seguinte. Adormeceu agarrada no ursinho. Sonhou com o passeio ao ar livre. Despertou com o barulho da trovoada. As lágrimas da menina competiam com as gotas da chuva, quando a mãe chegou gritando no quarto: Levanta, guria, já está tudo pronto para o piquenique!
No colo da mãe chega até a sala. No tapete: toalha xadrez, almofadas coloridas, bolinho, sanduíche, frutas, suco e achocolatado. Na janela, vários desenhos coloridos colados com fita adesiva: sol, árvores, flores.
Do rosto da menina, molhado de choro, brotou uma risada.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Grinalda de emoções (excerto 24) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Tivemos muitos dissabores e momentos em que não estávamos de acordo uma com a outra, as nossas opiniões divergiam em quase tudo. Ela era uma senhora muito conservadora e gostava de comandar em tudo e em todos. Eu era rebelde e queria viver, queria ser como as outras crianças e, mais tarde, adolescentes, mas nunca o fui! A opressão, as proibições e a forma como a minha mãe achava que me devia criar, formaram um abismo entre nós, que se prolongou pela vida fora. Mesmo já depois de adulta e ter compreendido que tudo o que ela fez e a forma como fez foi com a convicção de que era o melhor para mim, nunca consegui ultrapassar a barreira que fora criada entre nós.
Quando penso em tudo isto, muitas vezes sinto-me revoltada comigo mesma, por não ter sido adulta suficiente para conseguir resolver este problema dentro de mim. Peço perdão à minha mãe, olho-a de frente, na foto que tenho sobre a minha secretária, outro local onde gosto de me sentar a pôr em ordem os pensamentos e os sentimentos, e sei que ela me perdoou. Sinto-me aliviada até nova revolta.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Navegando juntos (excerto) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Muitas mulheres são abandonadas por seus companheiros quando mais precisam deles. É muito comum, infelizmente, mulheres diagnosticadas com câncer se verem sozinhas neste processo. Alguns homens dizem não suportar a convivência com a mutilação e com o tratamento que leva anos.
Quando escolhemos uma companhia afetiva para a vida, normalmente imaginamos a partilha de alegrias, cumplicidade na vivência, amparo nas torrentes. Não é uma realidade para muitas mulheres, pelo contrário, além dos desafios impostos pela doença, ainda há o sofrimento envolvendo a vida afetiva e familiar.
Fazer um tratamento de câncer significa sofrer alterações no corpo, seja em decorrência de uma cirurgia ou uso contínuo de medicamento. As cirurgias estão cada vez mais procurando preservar a mama, a autoestima das mulheres. A mama é símbolo da feminilidade, tem relação com a vaidade e estima de muitas mulheres.
Essa experiência dolorosa me mostrou a força do amor, como ele se faz presente nas sutilezas da vida, especialmente nas adversidades.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

terça-feira, 26 de julho de 2022

A sereia e o caminhante (excerto) - RUTH COLLAÇO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Naquela tarde, tinha decidido que ao chegar a casa, deixaria tudo para trás.
Ia encher a banheira, preparar o seu banho, hoje não queria espuma, queria apenas a essência de sândalo e as pétalas vermelhas que ao boiar em volta do seu corpo lembrariam o curioso toque dos dedos brincalhões que ontem a tinham tocado.
Pegou num livro de poemas, uma obra completa de uma outra alma que como ela conhecia as veredas da paixão marcadas na sua memória como a água do banho iria marcar as pontas dos seus dedos, engelhados pelo frio da saudade que a sua pele já sentia.
Pegou na sua esponja, submergiu-a na água e num gesto corajoso, procurando alívio espremeu-a sobre a sua cabeça, coroando o momento que ela tão vividamente gravara.
Que dia aquele, pensara enquanto gotas acariciavam o seu couro cabeludo, provando um leve arrepio, sensação gostosa... ela queria apenas o silêncio, não um silêncio qualquer, nem o som distante das ondas do mar, nem a brisa lhe chegaria.

EM - BEIJOS E CONTOS - RUTH COLLAÇO E HETERÓNIMOS - IN-FINITA

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Solidão - ITANIRA SOARES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Solidão não é estar só.
Uma parede onde o corpo se encosta é companhia.
A cama que concilia meu sono é companhia.
Meu próprio olhar faz-me companhia. Na confidência faz-me ver coisas de uma forma brilhante.
Não é solidão quando minha boca fala em silêncio enquanto grito companhia.
Entre a tristeza e a alegria não há solidão.
Até a morte encontra barulho na visita inesperada.
O mantra do silêncio acústico faz eco dentro de mim.
Até meus próprios braços me abraçam
Até a solidão tem parceria com o silêncio
Portanto não é solidão estar só.
Solidão tem sempre uma parceira. É uma música, o sopro do vento, a claridade, a escuridão, o travesseiro, o som ou o próprio barulho da solidão.
E no silêncio de todos os silêncios a oração é a minha companheira.
E dentro de todas as companhias que abordam o termo solidão está ELE que não nos desampara jamais.
Só lhe dão – sempre AMOR
Só lhe dão – constante CARINHO
Só lhe dão – nunca! SOLIDÃO.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

Gênero e Imigração (excerto 11) - MARIANA BRAZ

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

A experiência de coordenar o Brasileiras Falam tem sido muito positiva e gratificante porque através dele tenho percebido que também posso contribuir para que outras mulheres se sintam mais amparadas e menos sozinhas, e enxerguem que é possível enfrentar essas situações de violência e ainda assim conseguir alcançar os próprios objetivos no exterior. Ouvir as experiências de mulheres que estão vivendo fora do Brasil há pouco tempo também acaba por me lembrar os meus primeiros meses em Portugal e as dificuldades com que me deparei assim que cheguei aqui. Ter encontrado outras mulheres brasileiras que me ajudaram em diversas situações foi indispensável para que eu conseguisse me adaptar e ter motivação para continuar em busca dos meus objetivos, e é algo que ainda me ajuda e que é fundamental até hoje. Cada dia estou mais convencida de que essa união entre as mulheres brasileiras que vivem em outros países é extremamente necessária em todo esse processo de adaptação, e também no combate a discriminação e na desconstrução de estereótipos. Poder retribuir um pouquinho do apoio que recebi devolvendo isso a outras mulheres e a sociedade tem sido imensamente recompensador.

EM - GÊNERO E IMIGRAÇÃO - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

domingo, 24 de julho de 2022

Superstições (excerto) - PEDRO SILVA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

- Sexta-feira: O único aspecto positivo deste dia da semana é que se crê que desmamar uma criança, a uma sexta-feira, será torná-la mais forte para o resto da vida. Para além disso, é considerado, unanimemente, o mais aziago dos sete dias que compõem o ciclo completo semanal. A razão para tal parece provir directamente de Adão e Eva, sendo neste dia que o elemento masculino cedeu à tentação. Iniciar um emprego neste dia não augura nada de bom para a vertente profissional, ao passo que não é comum que alguém escolha contrair matrimónio neste dia. Mais recentemente, a sexta-feira 13 celebrizou-se pela negativa, pois junta o treze (doze apóstolos mais Jesus Cristo, em que um deles traiu o seu Senhor, assim como nunca convém colocar treze pessoas a uma mesma mesa pois um dela falecerá em breve) ao mau prenúncio natural da sexta-feira. Mas muitos defendem que o pavor à sexta-feira 13 se deve ao facto de ter sido nesse dia que Jacques de Molay, último mestre templário, foi queimado vivo, agonizando e amaldiçoando os seus algozes. Esta é uma das teorias mais correntes para explicar o facto de todos andarem mais atentos quando este dia da semana se cruza directamente com o número do azar.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

sábado, 23 de julho de 2022

A Amadora (excerto) - JANE LIMA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
Conheçam a IN-FINITA neste link

Quando uma mulher elegante, com rosto fino, pálido e vestida de preto sentou-se bem em frente à escultura-chafariz para apreciar o jardim do antigo Palácio do Catete, o sol já se alaranjava. De vez em quando ela passava o lenço nos olhos que lacrimejavam como se fosse possível regar o “jardim das musas”.
Ela sempre suspirava de saudades da Belle Époque carioca, toda vez que voltava àquele lugar. A sensação que dava ao visitar o passado era como se ela pudesse ouvir as fanfarras presidenciais em dias de festas e o sino do bonde que soavam como vozes em um sonho. Mary Sayão Pessoa tinha fortes motivos para justificar sua ligação às lembranças de muitos episódios indeléveis que ali ocorreram. Perfeito “Palácio de Memórias” que provocava um encontro com ela mesma.
Fluindo lentamente por aquelas frias salas e corredores, ia Mary sem esperar surpreender-se com mais nada. Mas de repente, um quadro a fez parar. Como ela amava seu autorretrato! E por um longo instante, ele transportou-a para seu tempo de aluna do mestre Rodolfo Amoedo, na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro. Foram duas exposições que participara. E mesmo tendo sido considerada uma excelente pintora amadora pela crítica, sua carreira fora prejudicada com a participação das mulheres, proibida, nas aulas de anatomia. É que na arte a mulher não era o sujeito, mas o objeto.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Grinalda de emoções (excerto 23) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

A seguir ao demorado almoço, pois alguns dos meus meninos-idosos já demoravam muito tempo a mastigar e também a engolir, por vezes, ajudava as trabalhadoras do lar, a dar os alimentos aos mais necessitados de apoio. Mas, ia eu dizendo, a seguir ao almoço, fomos para a sala das distracções, como nós lhe chamávamos, jogar e fazer puzzles, algo que eles adoravam e os ajudava a passar o tempo e que, por outro lado, também exercitava a memória.
Mais um dia muito bem passado, quer para mim, quer para os meus meninos-idosos.
Fui para casa, não sem antes, e como de costume, passar pelo café da Marianita para dois dedos de conversa e matar saudades de uma popia, acabadinha de sair do forno quente, da avó Joaquina. E o cheirinho a pão quente, acabadinho de sair do forno, fazia crescer água na boca, mesmo sem a manteiga feita pela tia Rosinda, que era pura e sem misturas, mesmo sem ela, aquele pãozinho sabia que nem o melhor manjar do mundo.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 22 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 5) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Hospital grande. O barulho de macas indo e vindo é enorme. Aquilo, aparentemente simples, causa-lhe uma expectativa, um frisson. Mais cedo estava ansiosa com a mudança de horário, mas as músicas e preces em áudio me ajudaram acalmar.
Ao despedir-me do meu marido, quis chorar, mas tentei conter. Fui para a minha jornada. A enfermeira passou o cinto e começou a empurrar a maca. Lembrei-me de várias mensagens recebidas dias antes, que diziam: confie na luz, entregue-se à luz.
Pensei por um instante: a luz aparecerá no centro cirúrgico? A luz será de um dos meus chakras? Irei me desdobrar e verei a luz próxima a mim ou em mim?
Eram tantas hipóteses para aquelas mensagens. Agora estava deitada, passando por inúmeros corredores e quando olhava para cima eram tantas luzes em sua extensão. Seriam aquelas luzes? – Pensava.
Se fosse, já tinha perdido várias oportunidades de mergulhar nelas, pois já tinha passado por diversas.
Enfim, chegamos no elevador. Subimos. Chegando ao destino, a porta se abriu. Era um ambiente animado, música suave. Dei um leve sorriso. Pensei: aqui é bom, tem uma atmosfera legal. Tinha um homem e uma mulher conversando, todos de azul, com aquelas roupas especiais. Já fui deduzindo que seriam os médicos responsáveis por minha cirurgia.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA