quinta-feira, 14 de julho de 2022

Homem, um ser supersticioso (excerto) - PEDRO SILVA

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Ao contrário do que se possa pensar, é nos países onde a fé cristã tem maior impacto que a crença em superstições parece possuir uma força maior. Mesmo parecendo uma incongruência, talvez não seja tão estranho quanto isso. Se as religiões actuais podem ser consideradas como tendo pontos de contacto com mitos pagãos, então a superstição não poderia deixar de figurar no dia-a-dia do comum mortal.
Baseando-nos, primordialmente, em Portugal, o nosso país de nascença e onde nos formamos enquanto pessoas, o qual tem sido, reconhecidamente, desde a sua criação enquanto nação independente, de características cristãs, reconhecemos que os mitos populares e as crenças em fenómenos extranaturais são indissociáveis do seu povo.
Assim acontece, igualmente, em outros locais do planeta.
Mas, voltando ao caso que melhor conhecemos, desde sempre nos habituamos a lidar, de forma paralela, com os dogmas católicos e com fenómenos como a crença “no mal de inveja” ou, até, nos demónios que se pretendiam afastar com a colocação, por detrás da porta da casa de habitação, ou de uma cruz ou de um conjunto de artefactos como o corno, o signo-saimão, a meia-lua entre outros. Isto é, uma série de amuletos que derivam de várias culturas, como a muçulmana ou a judaica.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Grinalda de emoções (excerto 21) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Tentei relaxar no duche, mas não consegui. Queria recordar aquele dia como um dia relaxante, energético e feliz, nada mais do que isso mas, no meu pensamento, só apareciam aqueles olhos, aquele olhar perturbador.
Fiz um chá, que acompanhei com uns bolos secos, comprados na Zambujeira.
Não tomei atenção a nada o que se passava na TV. Olhei o relógio, já era tarde, e pensei que o melhor seria ir dormir… assim fiz.
Na cama, demorei a adormecer. Sentia o corpo cansado, pois há muito não andava tanto a pé como fizera naquele dia mas, o pensamento, esse malandro, não me deixava sossegar. Vi e revi todo aquele dia. Vi e ouvi toda a conversa que tivéramos, os desabafos que trocámos, os segredos que quase revelámos. Vi e senti o olhar que me deixou sem jeito.
Quando acordei, já o Sol ia alto e nem me apercebera que o Faísca estava sobre a minha cama, suplicando para que eu acordasse. Acariciei-o com muita ternura, ele continuava a ser o meu único companheiro, naquela casa onde outrora fora tão feliz.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

terça-feira, 12 de julho de 2022

A noite longa (excerto) - GISELA BIACCHI

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Essa é a história de um dilúvio que lavou o mundo como contaram os antigos. Virou uma lenda, passada de boca em boca como se passa o chimarrão no sul do Brasil. E para não ficar esquecida dentro dos galpões e perdida no tempo, reconto aqui essa história.
Houve uma chuva em uma tarde do calendário. Tudo começou como uma garoa, lustrando as folhas da relva e alegrando o pasto.
Os dias seguiram-se nublados como se fosse para sempre. A garoa foi-se adensando até formar uma cortina d’água. O aguaceiro que caía criou córregos, riachos, rios e corredeiras caudalosas. Encheu o que pôde até encontrar os volumes das coxilhas do campo para onde animais e homens correram a se abrigar. Os que conseguiram salvar-se.
A vida ficava ali isolada e parada, observando a enxurrada jamais vista na esperança de que uma hora viesse a sequia. E todos juntos aguardaram a estiagem, que chegou vaziando a terra e descerrando um rastro de destruição. À medida que a água descia, revelavam-se os monturos de carniças pelo terreno. Coisa mais feia de se ver.
Certo dia, a noite chegou devagarito.1 Não era uma noite conhecida, era uma noite longa. Tão longa, que já não se sabia o que era luz. Parecia que nunca mais haveria um dia. A escuridão era tal, que quase se podia tocá-la de tão densa. Nada se via, nem o clarão da lua, nem a luminescência dos insetos.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

À deriva em alto mar (excerto 3) - ANANDA LIMA

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O Hospital Aristides Maltez é um grande hospital, atende pessoas de toda a Bahia e até de outros estados. É especializado em câncer. Atende todo tipo de câncer, inclusive o infantil. Comecei a me conectar com aquele espaço, tendo admiração pelo trabalho empreendido pelos idealizadores e colaboradores.
Chegou o dia de internar-me para a cirurgia. Interna-se um dia antes para realizar os procedimentos pré-cirúrgicos necessários, adequadamente. Meu marido e minha irmã me acompanharam o máximo que puderam, mas chegou um momento em que eles não podiam mais.
Iniciava ali um deserto em alto mar. Nem sei se isso é possível, mas no sentido figurado, acredito que sim. Talvez seja mais plausível dizer que estava sozinha numa ilha, correndo forte risco de ser inundada pelas águas.
Feita a triagem, fui encaminhada para o quarto. Havia seis camas, algumas mulheres já estavam lá, já tinham feito cirurgia. Nos acomodamos. Quarto grande, arejado, organizado. Estava me acomodando. Deixaram meu marido entrar rapidamente. Ele viu que eu estava bem, acho que o acalmou um pouco. Como não podia demorar, logo teve que se retirar. Levei um livro, fone de ouvido para escutar algumas palestras sem incomodar minhas companheiras de quarto.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de julho de 2022

A Vertigem dos poetas (excerto) - RUTH COLLAÇO

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E foi assim, ali, que finalmente percebeu o que os poetas queriam dizer quando falavam sobre vertigem e cantavam o doce e profundo mergulhar...
Na impossibilidade de se fazer ouvir, de poder pedir o que tanto queria receber, escolheu conter a voz, emudecer as palavras. Humedeceram-lhe os olhos, e logo outro par brilhou.
Numa intensa telepatia, mergulhou no seu olhar e foi tal a vertigem que por momentos jurou que o chão havia desaparecido. Evaporavam-se os sons que enchiam a sala e toda a luz que naquele olhar a atraía, inundou-lhe o peito com ondas de aperto e desaperto, uma inquietude escondia outrora adormecida na carne, acordava agora. Esticava-se e espreguiçava-se tentando alcança-lhe o pensamento.
Ele sentindo o manancial que dela se projetava, acolheu também ele a vertigem, convidou-a com uma onda de desejo.
Despiram-se do mundo e vestiram-se um do outro, descobrindo a profundeza de um mar nunca dantes encontrado.

EM - BEIJOS E CONTOS - RUTH COLLAÇO E HETERÓNIMOS - IN-FINITA

domingo, 10 de julho de 2022

Gênero e Imigração (excerto 8) - GABRIELLA SIPAÚBA ROCHA COELHO DOS SANTOS

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Como bem observa o investigador Luca Mavelli, o neoliberalismo enquanto racionalidade afeta todas as esferas da atividade humana, disseminando o modelo do mercado, levando os Estados e as pessoas a se autoconduzirem como atores empresariais para maximizarem seus valores (Mavelli, 2018, p.482). Considera-se esse processo como “economização neoliberal”, onde as pessoas e os Estados “irão agir de acordo com as lógicas de competição, posicionamento estratégico e maximização do seu valor até mesmo nas instâncias onde o dinheiro pode não estar diretamente ou somente indiretamente em jogo” (Mavelli, 2018, p. 485, tradução da autora).

Nesse sentido, a entrada ou restrição dos migrantes nos países de destino torna-se um processo seletivo, dependendo das suas qualificações e se as mesmas correspondem às necessidades do local de acolhimento. Dessa forma, as/os migrantes são encarados como capital humano, ou seja, um investimento, que servirão para alavancar o desempenho e a competitividade financeira e econômica do país de destino (Mavelli, 2018). As/os migrantes detentores de capital humano possuem alto valor, sendo consideradas/os “recursos vivos que podem ser administrados e aproveitados para fins econômicos” (Mavelli, 2018, p.484, tradução da autora). Em contrapartida, automaticamente, excluem aquelas/es que consideram sem valor, sem capital humano, e, logo, não são vistas/os como vantajosas/os e lucrativas/os.

EM - GÊNERO E IMIGRAÇÃO - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

Parindo sentimentos - ITANIRA SOARES

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Daqui a pouco será outro dia... mais um dia... uma gestação!... No meu ventre fecundarei paz, amor solidariedade, humildade, harmonia, e vou parir tudo junto na mais linda melodia da minha alma, em bálsamo, incenso, nascença e renascença, paz e esperança no meu dia a dia.
Em cada contração um hino de amor à vida.
Em cada impulso um fervor a Deus por essa dádiva.
No meu ventre balés dessas sementes se coreografam, se organizam, se estrumam, se fecundam, se cronometram, se estruturam para uma linda apresentação de louvor.
Sem tempo, sem hora, sem dia no mais lindo cenário de uma brilhante constelação nos céus dessa galáxia escolhida para brilhar, vai ser dia de espetáculo, vai ser noite de encantamento nesse planeta terra de todas as cores, de todas as raças, de todos os homens de fé.
Dar à luz é receber luz.
Corpo iluminado casa deslumbrante!
Cortinas de prata descerrarão brilho.
Coração, moradia do amor englobado e embasado no que foi nascido, parido, ressurgido.
Esse dia vai chegar assim. Balões no ar explodindo ar, música na rua se encantando com os encantados, abraços apertados querendo não se soltar.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

sábado, 9 de julho de 2022

Klothos, a Moira... (excerto) - GEORGIA ALVES

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Doutor Érico Pinheiros confere os últimos detalhes, no microscópio, pode ver, com clara evidência, todos os efeitos da proteína, sim, aqueles sintomas em mais uma cobaia são mais e mais evidentes. Klothos, a Moira. Uma das parcas.
A parca, uma das parcas, o nome lembra a lenda, das Moiras a que tinha nas mãos o fio da vida. Klothos, sim, está decidido. Volta às leituras, apenas para checar as palavras de Darwin. A origem de tudo, a origem de espécies como a sua, a evolução humana não é apenas algo do passado, mas uma constante. Um fato atual em constante mudança, ainda que tenhamos evoluído durante milhares de anos, todos estes milhões de anos.
A vida, os sinais, os vestígios da criação da vida não estão numa gaveta de seu laboratório, mas bem diante das lentes de seus óculos e seus vivos olhos afundados no estreio de um microscópio. Não há mais espaço para melhoras, não se a civilização continuar no mesmo caminho que trilha hoje, grandes mudanças podem ser esperadas nos próximos duzentos anos, e ninguém liga, pois se não estaremos mais aqui...

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Inferno, um não-lugar ou uma realidade? (excerto) - PEDRO SILVA

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Se o Paraíso é o local para onde todos desejam ir, já o Inferno, em contraposição, é o sítio menos ansiado de todos. De acordo com a teologia cristã, trata-se de um sítio onde os pecadores irão arder eternamente, devido à condenação pelos pecados cometidos. Basicamente, está num plano similar ao da prisão terrena, para onde os culpados são enviados para cumprir a sua pena.
O próprio nome em latim, infernum, dá a noção real deste termo, pois está conotado directamente com o mundo das profundezas e lugar para onde são enviados os mortos.
“O Cristianismo, adotando na sua escatologia o inferno, isto é o Hades clássico ou Gehenna dos hebreus combinados com o mito egípcio do Juízo e Osíris, designou desde logo a pátria de todos os mitos anteriores condenados.
A insuficiência do saber deu, pela observação, um caráter, como que científico, ao inferno, cujas «boccas» continuaram sendo visualizadas nas grutas singulares onde há erupções gasosas ou termais e nas crateras dos vulcões activos, como o Vesúvio, o Etna e o Hecea.
É um fato sabido que, entre homens e deuses, os vencidos são igualmente condenados. A tremenda sentença que o latim formulou – Vae Victis! – aparece consagrada na esfera espontânea e ingénua da mitologia. A raça esmagada passa à condição de feiticeira, e os deuses vencidos, à de demónios.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Cú de Judas (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

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Há um nome muito presente na minha vida, que por já mais que uma vez deu origem a situações algo… caricatas.
Cú de Judas.
É esse o nome da minha terra. Ou melhor, do sítio onde vivo. Que nem sequer merece ser chamado de povoação. É só um lugarejo, com meia dúzia de casas. Segundo ouvi dizer, quando chegou a altura de arranjarem um nome para aquele conjunto de casas, houve alguém que sugeriu o nome Cú de Judas, que normalmente até significa “no fim do mundo”. Apesar de não ser esse o caso – bem pelo contrário: o local, bastante aprazível, fica relativamente perto de um centro urbano, com praticamente tudo bastante à mão de semear –, o nome foi aprovado. Mas se a ideia era ser original, não conseguiram, pois como todos os moradores deste Cú de Judas bem o sabiam, existia outro Cú de Judas: ficava na freguesia de Água Retorta, concelho de Povoação, Ilha de S. Miguel, no arquipélago dos Açores.
Apesar de ter crescido no seio de uma família relativamente numerosa, rodeada de 4 irmãos (2 mais velhos – o Silvestre e o Serafim, e 2 mais novos – o Sebastião e o Santiago), a memória que eu tenho é que o meu crescimento foi algo solitário.

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Grinalda de emoções (excerto 20) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

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Quase nem li a ementa, já sabia o que queria, escolhi uma açorda de marisco, há muito que não comia e já tinha saudades. Raul escolheu robalo grelhado. Para beber, veio vinho branco da Vidigueira. Durante a refeição, a conversa girou à volta da alimentação, saudável ou nem por isso, e percebi que ele era muito pela comida saudável. Um pouco coincidente com a minha opinião. Falámos também da juventude e da saudade que tínhamos dos nossos filhos ausentes. Para sobremesa, pedi uma fatia de ananás com gelado, Raul pediu também a fatia de ananás, mas simples. Seguiu-se o café e ainda ficámos um pouco sentados até pedirmos a conta que, muito contrariada, pois fui eu que o convidei, acabou por ser paga por Raul.
Demos um passeio pela vila, entrei e saí de várias lojas de venda de bijutarias e bugigangas sem jeito, mas sempre gostei e gosto de cuscar este tipo de lojas de souvenires. Voltámos à beira-mar. A maré estava a vazar. Na areia viam-se, aqui e ali, resíduos deixados para trás; também, aqui e ali, consegui vislumbrar umas conchas, eram grandes, daí as conseguir ver do local onde me encontrava. O cheiro a maresia era intenso. Respirei fundo, fechei os olhos e voltei a inalar aquele odor. Senti-me reconfortada e feliz. Há muito que não me sentia assim, tão bem comigo mesma.

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quinta-feira, 7 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 2) - ANANDA LIMA

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Alimentada pelo diagnóstico de uma doença grave, sentia-me corajosa a expressar meus pensamentos e ideias, muitas vezes sem filtro algum. Tinha hora que parecia estar ficando louca. Coisas que jamais falaria, estava encorajada a dizer. Comecei a notar o quanto estava ferindo as pessoas, isso foi me angustiando. Resolvi me afastar de algumas atividades que ainda permanecia de maneira remota.
Voltar para casa antes da cirurgia foi bom. A sensação de ter alguns dias para aproveitar a família e o meu cantinho era maravilhosa. Então, veio a ideia de alimentar um canal na plataforma YouTube com textos de minha autoria e algumas contações de histórias. Isso era, implicitamente, a expressão do drama que ora vivia, queria oportunizar às pessoas, caso ocorresse algo grave, o acesso ao que tinha produzido.
O câncer é uma doença milenar que causa pânico nas pessoas. Mesmo com os avanços na medicina, sempre tem um olhar de tragédia sobre ela. E eu estava ali me afetando dramaticamente.
Até então não tinha me preocupado em viver. Estava aflita com a família, com os meus escritos. Não tinha parado para pensar se o tratamento daria certo ou não. Era como se eu estivesse me sabotando, tentando bloquear o que estava vivendo.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Assim se evoca a paixão (excerto) - RUTH COLLAÇO

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Sentaram-se frente a frente. Abraçaram-se com os olhos e beijaram- se num sorriso.
Todo o momento com ela era mel, que ela recebia em cada beijo que imaginava.
Seu corpo firme, só de a ver incitou de imediato um ode ao desejo, com o veludo do seu olhar abraçou-a... tremeu... e ela estremeceu.
O momento fez-se verdade, e a verdade se fez vontade. Sem que fosse preciso um único toque, no meio de sorrisos confissão, trocaram palavras doces, puras, sinceras. Juras, veladas por gotas de orvalho que lhes subiam aos olhos.
O vinho foi dado a provar.... frutado... pedia mais, algo que recheasse a boca, que acordasse os sentidos das línguas, da pele, dos corpos.
Era assim que alimentavam cada vez que se encontravam. De tudo falavam sem nada dizer.

EM - BEIJOS E CONTOS - RUTH COLLAÇO E HETERÓNIMOS - IN-FINITA

A tempestade - ANA MENDES

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Chovia muito e já á algumas horas. Pilar espreitava entre as cortinas, se alguma luz se avistava, estava preocupada. Era tarde e Manuel não voltara da cidade.
Habituado às estradas enlameadas a cada inverno, tinham comprado um jipe e por isso ele aceitara mais horas no trabalho. Os tempos eram difíceis e Pilar estava grávida, mas eles eram jovens.
O vento uivava e o frio buscava abrigo nas frestas de cada recanto da velha casa em pedra. Ela acendeu a lareira, umas velas e cobriu-se com a manta rosa de solteira... acariciou-a com carinho, seria para o bebé também. Rezou para que ele chegasse e entre o sono e o avançar do velho relógio ele acabou por chegar. Beijo-a sem a acordar.
Quem tem fé... sempre alcança.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

terça-feira, 5 de julho de 2022

Gênero e Imigração (excerto 7) - GABRIELLA SIPAÚBA ROCHA COELHO DOS SANTOS

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O neoliberalismo, enquanto racionalidade, produz e modela as relações sociais, modos de existência e subjetividades (Dardot e Laval, 2013). Sendo o gênero parte das estruturas sociopolíticas, também acaba por ser afetado e modificado pelo neoliberalismo. Por isso, é tão importante estudar e entender essa racionalidade a fim de compreender os seus efeitos nas vidas das mulheres e dos homens.

Uma das consequências do neoliberalismo é a ampliação das desigualdades e hierarquias de poder. Dessa forma, tendo em vista o mundo contemporâneo globalizado em que vivemos, uma alternativa encontrada pelas pessoas para obter uma vida com mais oportunidades e que possam usufruir dos seus direitos é a migração. Como essa racionalidade atinge todas as esferas da atividade humana, a migração também é modificada, tornando-se um processo que Mavelli chama de “economização neoliberal” (Mavelli, 2018, 485). Assim, a migração também funciona de acordo com os princípios do mercado, como competitividade e maximização do valor, convertendo-se em um processo seletivo, onde os migrantes são encarados como capital humano.

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Olhos da madrugada - ITANIRA SOARES

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Os olhos da madrugada feito águia a voar, feito vagalume a brilhar, feito barco a navegar, desperta a certeza da incerteza, desmonta o castelo erguido, reduz o tempo, seduz a esperança.
Da janela de vidro a rua me espreita.
Da janela da minha vida o olhar da madrugada me conecta.
Assim na hora, assim no tempo, assim na vida.
Ora olhos de sol, ora olhos de lua.
Olhos de fogo incendeiam, encandeiam, mártires, sagazes, olhos de águia, felinos, ferinos.
Olhos de lua, serenos, brancos, translúcidos, de paz.
No silêncio a alma se entrega ao Deus uno e onipotente e se faz grande e engrandece o Senhor.
O silêncio da madrugada me dá a mão e pelas ruas de mim passeamos sem pressa,
E o sopro de Deus, me faz respirar.
E luz se faz dentro de mim.
Os insultos amedrontam as paredes que resguardam o meu corpo.
Os botecos se fecham em ressacas curtidas, enquanto a última música soa em baixo som, cantarolando saio... Quero que você me dê a mão vamos sair, por aí...
As horas são longas, lentas, sem tic tac.
E nas ruas de mim, avenidas, vielas, becos, encontros ousados, boêmios românticos, olhares amedrontados, vibram corpos etílicos de todos os prazeres.
Deito na minha cama olhando o teto branco e com o sonífero do amor que os olhos da madrugada me espreitam e me adormecem, adormeço cansada e cheia de esperança.
E os olhos da madrugada também já cansados, fecham as pálpebras sonolentos para enfrentar o novo dia.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Interpretação de alguns sonhos comuns (excerto) - PEDRO SILVA

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Não existe, neste subcapítulo em particular, uma preocupação de dar respostas concretas ou verdades absolutas pois, não sendo nós peritos em estudo do sonho, não o poderíamos, naturalmente, efectuar, a respeito do bom-nome da nossa própria actividade enquanto ensaístas. Para além disso, é reconhecido que ainda ninguém conseguiu, e por certo jamais conseguirá, criar uma interpretação correcta sobre aquilo que se sonha. Mesmo Freud ou Jung basearam-se em probabilidades, em teorias, e foram, provavelmente, os maiores estudiosos da História no campo dos sonhos.
Independentemente dessa questão, entendemos ser de interesse para o público leitor, reunirmos todas as obras estudadas por nós, dos mais diversos investigadores, e fazermos uma espécie de compilação sobre alguns dos sonhos mais comuns ao ser humano e respectivas tentativas de explicação. Acreditamos que, de um conjunto de ideias, pode nascer um consenso interessante.
E, não obstante, ser a área dos sonhos, principalmente por lidar com o cérebro (o órgão humano mais misterioso de entre todos) e com uma parte da nossa vida que não controlamos (o sono propriamente dito), optamos pela coragem de, numa obra que se pretende isenta e séria, aventar hipóteses interpretativas do que sonhamos, com base nos maiores mestres que a este tema se dedicaram.

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domingo, 3 de julho de 2022

Grinalda de emoções (excerto 19) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

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Pela primeira vez o tratei por amigo, mas era o que sentia, que tinha nele um amigo. Raul olhou-me ainda com mais insistência, senti-me incomodada com aquele olhar, e respondeu: - “amiga, cada um de nós sente à sua maneira. Também gosto do mar mas, desde que vi uma linda menina ser levada numa onda e nunca mais voltar, deixei de sentir no mar a beleza que ele tem”. Baixei os olhos, para que não visse uma lágrima que apareceu sem que eu quisesse. Sou assim, sinto em mim o sofrimento dos outros e, naquele momento, senti a tristeza da perda de uma criança.
Olhei o relógio, apenas para disfarçar a minha fome, e disse: - “Raul, está na hora de almoçar.” - Ele fez o mesmo, olhou o relógio e concordou comigo, pelos vistos também sentia fome. Dirigimo-nos a um restaurante que eu já conhecia. Em tempos, era frequente ir lá almoçar com Miguel, quando íamos para o Algarve e parávamos ali, quase sempre, para uma pausa e um almoço. Desde que Miguel partira, nunca mais lá voltara.

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sábado, 2 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 1) - ANANDA LIMA

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A pandemia avançava sobre o país e no mundo inteiro. As imagens da Itália, França e Estados Unidos impactavam a todos. Corpos sendo colocados em câmaras frigoríficas, enterros coletivos. Era desolador o que vivíamos.
O que parecia ser uma suspensão de atividades por quinze dias, estava se firmando sem data para retorno. As escolas, as universidades e o comércio estavam fechados, com suas atividades suspensas. A essa altura, encontrávamo-nos em alto mar, à deriva, à espera de um vento favorável ou de um milagre da ciência.
Os telejornais, as revistas, jornais eletrônicos estampavam a crise sanitária que o mundo vivia. O Brasil, ainda tinha outro agravante, tinha uma crise política ou para melhor denominar, uma guerra política. Não sabíamos se nos preocupávamos com a expansão do vírus ou com a briga de interesses e egos dos nossos gestores.
As pessoas estavam reagindo de diferentes maneiras. Muitas estavam em pânico; outras depressivas, por estarem há tanto tempo isoladas, com restrições na vida social; e outros, ainda, queriam viver como se não houvesse amanhã, de forma completamente irresponsável.

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sexta-feira, 1 de julho de 2022

Anjos Caídos (excerto) - RUTH COLLAÇO

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Naquele dia não se podiam olhar. Pelo menos não podiam deixar que o brilho dos seus olhos saltitasse malandro e esquivo de um para o outro.
Na mira um do outro, olhares sorriam secretamente, enquanto acreditavam que nada neles daria um alerta da febre que cada um trazia.
Com um fervilhar na ponta dos dedos, mexia nos caracóis tentando disfarçar o desconforto de estar perto e tão longe. Seu corpo vibrava em suaves tremores, tal era a frescura de memória que dele ainda trazia no corpo.
Ele de mãos nos bolsos, fingindo-se descontraído, cerrava os punhos por medo de denunciar aquela sede de a tomar nos seus braços e violá-la com beijos murmúrios, sabendo tão bem o gemido que dela beberia.
A brisa suave acompanhava ao de leve a música que enchia o arvoredo e este bailava, sedutor nos seus embalos de folhas verdes carnudas e luxuriantes.

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