segunda-feira, 14 de março de 2022

Quando o avião voou E Lisboa me encantou - CELESTE PEREIRA

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Tenho os nervos em bulício. É sempre assim, quando subo as escadas rolantes do aeroporto, as pernas tremem. Já no interior do avião ouço o que a hospedeira recomenda, enfiada no lugar, a uma janela. Depois do cinto bem colocado, mais calma, vou agora sim, voar. E meio-dia o sol está a pino. Lisboa mostra-se cheia de luz e cor. O sol é seu ajudante. A janela é o ecrã, através do qual eu vou olhar, sentindo o belo da cidade onde o grego Ulisses chegou. a cidade das serpentes, segundo a lenda. Será por isso que o rio Tejo de cor azul prata, onde pernoitam as ninfas que Camões cantou e o oceano Atlântico porta de marinheiros, serpenteiam Lisboa. Tetos vermelhos de todas as cores num bairro de Lisboa dos anos 50, o Bairro de Alvalade. O Santo António, o casamenteiro, o santo das festas populares que faz dançar as suas gentes… O parque Eduardo VII de ruas largas ladeado por frondosas arvores de frescas sombras e no chão, pedras acalçadas a verde bordado. Extasio o olhar. Tantos verdes e tanto espaço na Tapada da Ajuda, e a ostentação do seu Palácio. O arvoredo compacto do parque de Monsanto onde Lisboa respira. Os Jerónimos feito de renda com fio de pedra. Ao lado, Belém, cheira a canela nos crocantes pasteis de nata. Finalmente as praias da Costa da Caparica de areias finas e de ondas de espuma. O espetáculo é interrompido pelo tapete de nuvens tão brancas que se confundem com a espuma das ondas.

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

Carta a uma amiga, em tempo de pandemia (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Minha Amiga,

A tua carta trouxe o encanto de me despertar, pois ela tem uma beleza nostálgica, algo curvada ao tempo e eu, também eu, já estava meio adormecido pela contagem das vezes em que o Sol passa pela minha janela. Também eu já me encontrava meio curvado, debruçado na pedra gasta do parapeito, virado para a rua vazia de mim e de outros tantos, tantos outros. Todos os outros!
A tua carta relembrou-me que muita da poesia começa em nós pela tristeza, pela amargura, por desamores, vazios, indiferenças… e mágoas que nem sempre sabemos traduzir por fonemas. Nem sempre temos arte para verbalizar o sofrimento.
Mas a poesia, a companhia do papel e da caneta, sempre nos fará sentir menos sós, sempre nos permitirá ausentar do corpo e sair para lá do horizonte possível visto da janela, para além daquilo que os outros vêem em nós, para além até do que supostamente nós vemos em nós.
Assim como vivemos no espaço, vivemos no tempo e o tempo é uma medida dinâmica da vida! Sendo mestre, sábio, amigo ou carrasco das nossas opções, avança depressa demais ou congela dramaticamente, sempre em contramão do que mais esperamos dele. No entanto, o tempo é imaterial! Nada faz! Somos nós que actuamos! Somos nós os intérpretes de casos, acasos e ocasos… Somos nós as consequências das opções tomadas e que surgem antes ou depois do esperado, mas quase sempre inevitáveis!

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

domingo, 13 de março de 2022

Dia cinzento (excerto 3) - LUÍS VASCONCELOS

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Se calhar ainda hoje poderia estar vivo, feliz, junto da sua Netinha, dos seus filhos e dos seus netos! Ainda poderíamos ouvir a sua voz macia para nos acalmar e animar, o seu conselho firme para nos ensinar, com uma vida de histórias para contar, cheia de experiências de vida para partilhar, e lições de vida que se iriam calar bem fundo dentro da nossa alma! Algum dia ele teria que morrer, mas não teria muito provavelmente sido naquele dia e daquela maneira tão cruel! Quem conhece o seu caminho de felicidade, para o bem ou para o mal, somos sempre nós, cada um de nós, mais ninguém! Se fazemos sempre a melhor escolha? Talvez não! Mas por vezes quando alguém se tenta intrometer e decidir por nós por melhores que sejam as intenções, acabam, sem querer, por causar danos irreparáveis! Desde que com isso não estejamos a pôr em causa a nossa integridade moral, mental e física, nem a de ninguém! Sem com isso pervertermos os nossos deveres, princípios, valores e direitos como cidadãos perante nós mesmos, enquanto indivíduos, bem como a família que pertencemos e a sociedade em que vivemos!

EM - NINHO DE CUCOS - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

sábado, 12 de março de 2022

Ocarina e Oboé (excerto) - CARLOS ARINTO

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Os fagotes, os “tubular bells” – restos de uma antiga civilização de órgãos eclesiásticos – sacodem-se como répteis serpenteando. As tatuagens são equimoses, cenas Bíblicas de tempos motards, eclusas de um alçapão que se esvai em ralo hidrográfico. Diabos e feiticeiros juntam-se aos andarilhos. Hollywood terminou. Venceu o cansaço. O mundo é ciência e os desertos estão cobertos de painéis solares enferrujados, que já nenhuma cidade usa. A recordação do tempo é apenas distância. Cilada!
O livro dos sismos, os símios encarnados encarnando tubarões pretos, são a roleta que esmaga a vaidade. Todos os prazos acabaram, por esgotamento, mesmo depois de prorrogados e dilatados. Resta-nos a hora em que o nosso relógio (biológico) parou. Como açúcar polvilhado em cima das estrelas.
Trombetas, que também são instrumentos de sopro anunciaram que o criminoso fugiu Como é costume os criminosos fogem para “parte incerta”, neste caso uma montanha num parque de reserva natural ou um “resort” de luxo num paraíso fiscal. A fuga, dos criminosos, não são uma acusação, são apenas uma declaração de distração. Fujo para não ser incomodado… é como pendurar na porta do quarto do hotel “do not disturb”. Estou apenas a preparar os barbitúricos e a meter na veia. Na versão dos espectadores
a receber “poeira nos olhos”.
Os cadáveres que costumam aparecer no chão, ou trazidos pela maré são varridos para os necrotérios, sem que se volte a pensar muito nisso. É trabalho. Tal como o viver num Lar para idosos é uma preparação aeróbica e espiritual para o sumiço. Depois, vai-se a ver…e aquela senhora entrevada, que não se levantava para nada, desapareceu. Foi chamada pelo… (preencher de acordo com a certeza)

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Em casa - Nyumbani (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

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Um dia ao final da tarde, tinha eu acabado de chegar a casa, encontrei o conteúdo das minhas malas todo espalhado pela sala. Segundo ela tinha deixado as luzes acesas todo o dia, o que significava uma perda de confiança na minha pessoa. O verdadeiro motivo, no entanto, foram os ciúmes quanto à tua mãe, por eu ter uma vida social muito ativa em Nairobi e não parar em casa, senão para dormir.
Já em Nairobi, a minha insegurança relativamente ao teu pai advinha do facto de ambos termos uma noção muito diferente do que é o amor. Para mim, o amor é algo que se constrói com alguém, e não existe nenhuma dicotomia entre a intimidade física e emocional. Para haver amor entre duas pessoas, estas devem ter a oportunidade de se conhecerem e passarem por várias provas de confiança mútua. O amor é a entrega total do nosso eu ao da outra pessoa, ao ponto de se fundirem. Esta noção retirei da educação dos meus pais, e acrescento a esta a minha vivência que é não perdermos ao mesmo tempo o que nos caracteriza enquanto pessoas e nos imprime individualidade, daí a importância de mantermos as nossa amizades e interesses vivos.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

Por um modelo eco-social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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Neste contexto, as finalidades passam, decisivamente para um processo de empoderamento dos cidadãos sobre a sua consciência de consumidor, das suas necessidades efectivas, através de organizações que limitem o poder das multinacionais, influenciem o Estado e os governos e na forma de democracia económica participativa, com a ajuda de peritos determinem os fatores alienação consumista e destruição do Ser (Fromm).
Polanyi (cit in Caldas, 2010), diz-nos em 1944, que o projecto de disseminação do mercado, ou dos mercados, como forma de gestão económica do mundo (visão mutiladora esta), como utopia então da terra plana, era uma distopia, ou seja, porque causaria uma destruição social e ambiental tal que levaria à reacção de contra movimentos contra esta utopia (á época nem ele pensou que a própria natureza fosse ela mesma a grande opositora!). Na verdade mais prosaicamente essa utopia está realizada hoje e se chama globalização, e os sofrimentos se concretizaram de modo dilacerante no campo social e no campo ecológico.

EM - A VIA DA SÍNTESE III - JOAQUIM SILVA - IN-FINITA

Cristo nasce no Brasil (excerto) - FRANCISCO DE CAMPOS

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A chegada do menino Jesus é festejada. Humildemente festejada. Não há poder para pompa. José e Maria, agora, só querem saber o que de melhor podem fazer para cumprir a missão que lhes foi delegada. Está ali o filho de Deus. Um ser, amado como filho, cortejado como representante do céu... Merecedor de zelo especial da parte dos pais. Nem a certeza de que se trata do filho de Deus permite a José e Maria arriscar um mínimo de descuido. 
OS TRÊS REIS MAGOS: Doze dias já se passaram do nascimento do Messias. Os degradados moradores do galpão enviam, dia 6 de janeiro de 1984, três representantes para um contato com José e Maria. Todos estão ansiosos por informação sobre a criança recém-nascida. Não têm a menor ideia de que ali, naquele espaço tão pobre, tinha nascido o filho de Deus. É esse um momento de enorme emoção. Um dos agentes nomeados presenteia o menino Jesus com a sua camisa. Outro deixa o seu boné que: “vai ficar muito bem no garoto quando estiver crescido”. O terceiro tem 10 cruzeiros no bolso e resolve doar para que o casal tenha condições mínimas de sustento ao recém-chegado.
PENOSA PEREGRINAÇÃO: Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, mas o filho de Deus tem que se virar. Sofre todo tipo de preconceito. É pobre. Não tem sobrenome. Não tem padrinho político. É um “João Ninguém”. Não dá carteiraço. Mesmo ciente de que é agente do céu na terra não se impõe. Pede esmola, carrega malas na estação rodoviária, faz breves espetáculos em semáforos... No mundo em que o colocaram ninguém sobrevive sem uma coisa que se chama “dinheiro”. Nem que seja pouco dinheiro é essencial para a subsistência. Sem um mínimo desse instrumento o sujeito morre de fome. Isto sem falar de que, no país onde está o Rio de Janeiro, até os ricos experimentam algum tipo de carência. Algum tipo de frustração. É verdade. A pessoa neste país chamado Brasil já nasce forte para suportar os deprimentes embates.

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sexta-feira, 11 de março de 2022

24 Setembro 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

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Mel, porque se esqueceu de todos os medos, porque acredita mesmo nele, ou porque se sente segura por se encontrar numa posição de superioridade financeira perante ele, a primeira vez que se sente, verdadeiramente, acima dos homens, decide ser hora de o levar até ao seu ninho de paz e tranquilidade, e deixá-lo entrar na sua vida como já o deixara entrar no seu coração. A verdade, embora não o queira reconhecer, é que ela sente vontade de se sentir amada na plenitude da palavra:
– Vou confessar-te algo muito só meu.
Lourenço assusta-se, será que Mel lhe tem andado a esconder alguma coisa? A verdade é que nada sabe sobre ela. Na única vez em que estiveram juntos, ela pouco lhe falou de si, enquanto ele lhe abrira o livro da sua vida. Não, a revelação dela não poderia surpreendê-lo mais do que acontece na verdade:
– Não sei o que vais pensar do que te vou dizer, mas sinto uma vontade enorme de me despir para ti. A verdade é que adoro andar toda nua por casa e com este calor, acho que vou perder todas as vergonhas contigo e despir-me mesmo toda. Na primeira vez que falámos, acabámos na cama e agora, na segunda vez, digo-te que adoro passear-me por casa, completamente nua, que me quero despir para ti. Imagino o que deves estar a pensar de mim. Que sou uma louca, ou alguma ninfomaníaca.
Lourenço agarra-lhe nas mãos, adora sentir o contacto com a pele dela:
– Estás completamente enganada. Na primeira vez, acabámos contigo a desaparecer por completo e quanto a esse teu outro prazer, o de gostares de andar nua, completamente nua, por casa, não é nada exclusivo teu. Acredita, estou desejoso de te ver despir para mim.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

Nas tardes de verão - VÍTOR PAIVA DUARTE

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Haverá um dia em que tu ficarás ancorada nas tardes de verão, com os olhos amarrados ao mar e bebendo a energia do pôr-do-sol, equilibrada entre o trapézio da espera sem êxito e a aventura de saltar para a realidade sem garantia de encontrar o amor.
E arriscando perder o tédio de estar viva sem viver, tu irás soltar o grito que vai acordar as gaivotas que dormem nos teus sonhos de menina quando o teu horizonte de vida ainda queimava as fronteiras do real, e são elas que irão agitar a tua praia de escombros levantando areia, fazendo sombra, chovendo sangue e rasgando com as facas da vida a paz dos que são apenas paz e nunca lutam matando sem glória o venenoso e viciante sabor da vitória!
E nesse tempo que virá sem aviso, os loucos perderão o juízo e os pecadores dominarão no paraíso e tu irás emergir da luz como uma nascente de fogo para que te amem os humildes e se ajoelhem, temerosos, os que ontem foram corajosos.
E nessa figura de deusa tu serás a minha rainha e eu serei o teu destino e o nosso beijo será o Graal onde os amantes fecundam as almas com a poção mágica dos prazeres da carne!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

quarta-feira, 9 de março de 2022

A ousadia de sonhar (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Digamos, talvez injustamente, que ele não tinha nascido para sonhar muito para além da árvore-mãe. Até a sua fronteira temporal era muito mais ampla do que os limites espaciais. À sua volta, encontrava muitos elementos da família que se tinham limitado a serem quem se esperava que fossem. E assim já estavam, resignados, pele rija e rugosa, definhados, olhando cada vez menos longe e aquietando-se no conforto do conhecido, na segurança que a falta de ousadia tinha enraizado na sua pernada.
No entanto, talvez para contrariar o relato deste pobre, mas atento, escrevinhador ou, mais acertadamente, porque assim mesmo se passava, ao longo da vida de muitos dos que com ele dividiam o seu dia-a-dia, a vontade da descoberta, da coragem, da ousadia, da loucura, levava a que a tentação do momento (in)certo acontecesse.
Contudo, o tempo (ah, de novo e sempre o tempo…), não parava nem esperava pelo golpe audaz, e o sonho adormecia, envelhecia, enfraquecendo e fenecendo, na dolorosa implosão da renúncia à diferença. “Por que razão teria que haver algo mais, para além do que nós já temos e somos, se sempre assim tem sido com todos quantos aqui já nasceram?”. E, com este pensamento pré-determinista, tão duro quanto acre, tão ácido quanto o seu pH 2.17 indica, assim volatilizavam os dias, vendo tombar uns quantos, no êxtase da bonomia ou, distraídos pela rotina do gesto, observando outros serem escolhidos pela mão do destino, para uma função que nenhum deles sabia ao certo qual, nem com essa dúvida se permitiam inquietar o seu viver.

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

terça-feira, 8 de março de 2022

Circos e Quintais (excerto) - CLÉVIA WESTPHALEN

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Quando o circo recolhia trupe e lona e partia da cidade nós já éramos acrobatas experientes. No quintal da casa dela tinha uma goiabeira grande e alta, como são as árvores que crescem sem podas e sem cuidados. Nosso número circense era uma mistura de equilíbrio, ginástica e nenhuma noção de perigo. Sempre mais ousada do que eu, ela subia mais alto, engatava o pé na forquilha do galho, se atirava de costas e ficava pendurada numa acrobacia sem rede e sem juízo.

As performances dela, certamente, eram mais perigosas do que as que assistíamos de olhos arregalados, empoleiradas nas arquibancadas precárias que circundavam o interior da lona. Sem rede e sem técnica, dávamos um trabalhão danado aos nossos anjos da guarda.

Passada a fase do circo, a brincadeira perdia a graça e fazíamos batizados de bonecas. Ela tinha muitas, de vários tamanhos. Eu não era muito fã de bonecas, mas batizado é outra coisa. Juntávamos alguns tijolos para fazer um fogão rústico e, com o fogo feito, uma lata de leite condensado servia de panelinha, cheia de arroz surripiado da cozinha. Começávamos a preparar o almoço. Assim que a água fervia, o arroz saía pelas bordas, caía no fogo e cheirava à queimado, o que atraía a atenção da mãe dela, que acabava com a brincadeira.

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Dia cinzento (excerto 2) - LUÍS VASCONCELOS

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Quem matou o meu pai? O comboio que passou por cima dele? A chuva que caía e o fez escorregar? Deus não tinha poder para o segurar? Então porque não o fez? O meu pai não era digno de ser socorrido, por ter dúvidas e incertezas quanto à Sua existência? O destino que já estava traçado nos astros ao qual ele não podia escapar? O diabo, porque tem um orgástico prazer em fazer e ver sofrer, principalmente aquelas pessoas, que lutam e se esforçam por tornar este mundo menos mau? O obsessivo sentido do dever que o meu pai tinha? Valia para ele mais um dia de trabalho perdido do que a sua felicidade pessoal ou até a própria vida?

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segunda-feira, 7 de março de 2022

O caso do enterro do Liu – TEREZINHA PEREIRA

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Estávamos numa praça, Antônio e eu, quando um senhor passou por lá. Disse um oi para Antônio e continuou andando. – É o Fio. Magro como sempre – comentou Antônio. Hoje está bem vestido, asseado, trabalho fixo. Antes, só bebia. Um dia, quase matou muita gente de susto dentro do cemitério.
Liu, amigo do Fio, vivia da pesca. Fazia sol, chuva, ventania, Liu saía no seu barco. A morte, era o que mais temia. Temia e não temia. Parecia. Demais, ele comia. Pinga e cerveja, todo dia bebia. O Fio? Nem pescava. Bebia.
No barco, sentado, Liu lançava rede, anzóis com isca e comia, que comia. Antes, dois amigos com ele iam. Sucede que o Liu deu para inflar. Ficou cada vez mais largo. A barriga pendia. Os pés, só em chinelos cabiam.  Vivia na paz, tratava a todos com cortesia, com o corpo pouco mexia. Dentro do barco, Liu nada temia. É seguro, motor novo, dos bons. Dizia. Acaba que os amigos outro barco assumiram. Todo dia, então, os dois barcos, para a pesca juntos saíam.
Num domingo, quando o sol fazia vésperas de se pôr, os dois amigos faziam o giro do barco para o retorno. De súbito, não mais viram o barco do Liu. Sumira. Liu, Liu, Liu. Gritavam, repetiam. Seus gritos atraíram pessoas que rogaram os bombeiros, que logo vieram. A noite caía. Nada a fazer naquele vir do escuro, disseram. Só no clarear do novo dia. Um amontoado de gente guardou a noite à beira do rio. Liu, Liu! E foram três dias e três noites de angústia, de agonia. Liu! Até que submergiu um corpo desfigurado, enorme, espantoso.
Como sepultar um corpo tão intumescido? O povo presumia: o portão do cemitério, tão estreito. Passaria? Urgia cavar uma cova especial, fora do comum. Um mundaréu de gente cumpriu o cortejo fúnebre. Passado o caixão pela estreiteza da entrada, a querer entrar de uma vez, o povo se espremia. Não supunham era que, em breve, sairiam dali na correria. Chegaram até próximo da cova. Despejar o caixão, não podiam. Um zunzum de ideias se ouvia. Como? Que peso! Força bruta para tirar o caixão do carro funerário exigia. Nisso, boomp! O caixão despencara ao chão. E despertou quem dormia.
De dentro da cova ao lado, um vulto surgiu. Descabelado, barba desgrenhada, imundo, uma garrafa na mão. Socorro! Poucos sobraram para o sepultamento do Liu. Por sorte, o muro do cemitério era baixo. Afinal, os que lá habitam não querem sair. Eu estava lá e vi tudo – disse Antônio. – O fantasma? Era o Fio, logo o reconheci. Não corri. Sei do Fio há anos −  completou Antônio – Hoje se cuida.  Anda arrumado. Trabalhador. Sempre magro.
O que houve com o barco do Liu e como baixaram o caixão dele na cova, Antônio não soube contar.

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

Em casa - Nyumbani (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

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Ao domingo vou à missa com a Sophia, na Igreja de St Paul que é uma igreja católica, mas apesar de eu ser batizada, não me considero católica, contudo não tenho muitos preconceitos relativamente a esta religião, só algumas reservas quanto ao seu passado sombrio, aquando da existência da Inquisição em Portugal que afetou de forma brutal sobretudo a comunidade judia. A Igreja de St Paul tem um sabor diferente pois a missa é cantada em suaíli e inglês, o ritmo da música marcado ao som do tambor é africano e todos os fiéis na altura dos cânticos levantam-se e dançam enquanto cantam. É por este motivo que aqui vou com a Sophia todos os domingos pois a missa tem um ambiente de espirituais negros.
Após a missa, à tarde vamos ao Café Thorn, para lá chegar temos que atravessar o parque Uhuru, comigo de pé atrás, dadas as histórias que se ouvem dos assaltos que ali ocorrem, embora mais à noite. A Sophia assegura-me que não há qualquer problema em andarmos por ali durante o dia. A cidade ao fim de semana parece outra, sem o seu barulho habitual de multidão e carros apressados. No entanto, vazia, coloca em destaque os sinais de verdadeira pobreza que durante a semana se camuflam na confusão urbana. Os miúdos de rua andam em bandos, mendigam junto aos sinais luminosos, snifando cola entre si, e alguns dormem ao relento no jardim.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

Por um modelo eco-social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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Das três tendências do nosso tempo (Touraine, 1994), a instrumentalidade tornada ação estratégica, o refúgio na vida privada e a globalização ecologista levantados pelos problemas da exploração tecnológica, só o último poderá ser tendência para a recondução do sentido e da ética humana. Porque enquanto avança esta decomposição social, em simultâneo, o caos, a exploração dos mercados sobre países, regiões e pessoas, cavando fossos enormes de posse e acesso, cresce a consciência que só um novo pensamento, Eco-Social, que integra a os direitos sociais e ação ecológica (no seu relevo global), pode recuperar o sentido, reorganizar o coletivo, refazer ação política, alterar a conceção de democracia, facilitar políticas Eco-sócio-económicas novas de equidade, redistribuição e ecologicamente sustentáveis.

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domingo, 6 de março de 2022

24 Setembro 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

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– Lourenço, vamos entrar neste banco, vais-me dar o teu número de conta e faço, imediatamente, uma transferência equivalente a meio ano dos teus salários actuais, isto é, se assim o aceitares, passas a ser meu empregado desde hoje.
Ele olha-a meio atónito, dando-lhe a entender que não consegue perceber nada do que se está a passar:
– É como te digo, se aceitares, passar o resto do meu dia de anos comigo, noite incluída, a partir deste mesmo momento passas a ser meu empregado. Não te preocupes, terás todo tempo que precisares para tratares das tuas coisas lá teu emprego e só quando estiveres completamente livre é que assumes o teu novo cargo a tempo inteiro. O ordenado, até lá, será igual ao que ganhas agora, depois logo falamos melhor. Ah, se, entretanto, te arrependeres, poderás organizar a tua vida como quiseres, sem teres de me devolver um cêntimo que seja.
Confrontado com tal evidência quanto às verdadeiras intenções dela para com ele, Lourenço limita-se a dizer-lhe que terá todo o prazer em lhe fazer companhia durante o resto do seu dia de anos:
– Diz-me só uma coisa, o que vou fazer como teu empregado?
Mel como que já esperava tal pergunta, pois sem hesitar pergunta-lhe se percebe alguma coisa de vinhos. A resposta dele não pode ser mais elucidativa, somente bebê-los. Ela não se dá por vencida, colocando-lhe nova questão, agora sobre os seus conhecimentos sobre importação/exportação. Quem a puder ver e ouvir, não poderá imaginar estar na presença de uma mulher que viveu mais de 20 anos da sua vida a ser humilhada, espezinhada e agredida, física e psicologicamente, pelo seu próprio marido, tal é a sua determinação.
Lourenço, perante a segunda questão e sentindo-se como peixe na água em tal ramo de actividade, consegue a lucidez suficiente para uma dedução lógica, está na presença de uma vinicultora disposta a apostar na internacionalização dos seus vinhos.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

Ama-me - VÍTOR PAIVA DUARTE

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Haverá um dia em que virás com os olhos turvados de lágrimas e carregando no peito as saudades sempre renegadas e as mãos abertas segurando a alma enegrecida pelo sofrimento que infligiste aos corações vitimados pelas algemas da tua sedução, como se o teu único prazer fosse a mutilação sistemática daqueles que se viciam em ti, como um vinho que embriaga e turva os sentidos, tu vens depositar nos meus lábios um beijo suave carregado de mel e com um sorriso vais fazer nascer em mim um dia de sol que me vai acalmar todas as tempestades e, como uma fogueira irá incendiar as nossas paixões antigas mal adormecidas e nunca lavadas com lágrimas, que as grandes paixões nunca se choram, festejam-se sempre, mesmo quando findadas, e mantêm-se vivas na memória esperando que os desígnios da fortuna lhes tragam fogo... e nesse dia, nesse beijo, nesse mel e nesse sorriso, tu irás dizer-me baixinho "voltei, sou tua, ama-me".

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

sexta-feira, 4 de março de 2022

A ousadia de sonhar (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Nasceu!

Nasceu no meio de tantos outros já chegados anteriormente… pele jovem e frágil, novos demais, como ele, para se queixarem do que quer que fosse, ao lado de muitos outros meio amarelados, todos ligados à árvore da vida por um caule a que se poderia chamar sonho, esperança, cordão umbilical ou pedúnculo, e que iam crescendo enquanto festejavam a chegada de uns, se resignavam à queda de tantos outros e raramente tendo a atenção devida à partida de todos.

Quase todos eles iam amanhecendo pela primeira vez na mesma época do ano e assim se tornavam tão indistintos, tão semelhantes e com características tão uníssonas que, deste modo, pouco se diferenciavam uns dos outros, quer fosse pela pele rugosa, ou pelo seu aroma fresco e campestre, pelo suave formato das linhas curvas dos corpos tendenciosamente ovalizados ou, ainda que fosse, pela cor dos corpúsculos da sua epiderme.

Também deles se poderia falar algo sobre a sua territorialidade. Não andavam a saltar de galho em galho, como os pássaros tontos que pareciam não saber o que queriam, sempre a palrar e a depenicar, sempre aqui, sempre ali, esvoaçando por entre eles, como que querendo ostentar a sua capacidade única de estar e logo não estar ou, talvez, fosse somente esta a sua forma de gritar a liberdade das suas asas! Mas, não… eles, não. Eles nasciam vistosos e cheirosos e jamais abandonavam o lar onde tinham nascido. Eram conservadores, senhores de ideias e gestos austeros e seguros da sua missão, enquanto não houvesse mão que os levasse.

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 3 de março de 2022

Sexo – SARA CARVALHO

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Gosto de sexo. Não vou mentir. Não vou dizer que foi pelo dinheiro, não. Foi pela diversão, pela adrenalina e excitação. Pelo novo e proibido. Saborear o perigo de caminhar na linha do comboio. Provar novas sensações. Viver fora dos limites. Beber o licor da liberdade. Claro que, entretanto, fiquei viciada no cheiro das notas. Não passo sem o que elas me proporcionam. 
 
Tudo começou com uma brincadeira, pouco inocente, regada com muito vodka. A minha colega de faculdade e o namorado quiseram brincar e filmar - um vídeo caseiro. Gostámos. Continuámos. Sem saber bem como, os vídeos foram divulgados e os convites começaram a surgir. Corpos jovens, nus, belos, que divertidos dançam alheios a olhares indiscretos. Os pedidos e as fantasias cresciam assim como o nosso desejo por mais. O dinheiro reproduzia-se e novas propostas surgiam em cima da cama. Lençóis brancos, puros como a neve, transformavam-se em masmorras devassas, tornando cativos todos os que lá tropeçassem.
 
As festas VIP, o champanhe, os vestidos de lantejoulas, os sapatos Louboutin, as malas Louis Vuitton, as joias que reluzem, os perfumes franceses, a maquilhagem de Nova Iorque, o cabeleireiro das atrizes, os SPA’s que amaciam a pele com óleos (e apagam todas as impressões digitais), os restaurantes da moda, as discotecas mais concorridas, a cocaína, o Personal Trainer que incha os glúteos e chapa a barriga, os implantes de silicone, as injeções de botox… tudo tem um preço – alto. E eu… eu acostumei-me a tudo isso.
 
É como uma escada que vamos subindo e não queremos descer, queremos continuar até chegar ao topo. Afinal, dizem que o céu é o limite. Mas está invertido. O céu acima é afinal o inferno. A liberdade que existia no patamar da escadaria foi-se. Agora somos reféns - de nós próprias, dos vícios, da roda imparável do sexo, dos luxos e da podre alta(mente) sociedade. Bens materiais, Instagram e outras futilidades afins passam a controlar um estatuto, uma capa, uma aparência. Uma inocência perdida para sempre, gravada e espalhada por todo um mundo ávido de prazeres obscuros. Obrigações que enchem as noites, outrora de prazer… agora - dever.

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

Dia cinzento (excerto 1) - LUÍS VASCONCELOS

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Entretanto em sua casa. Alguém bateu persistentemente à porta. Preocupada a minha mãe (Sim, porque o homem de quem vos tenho estado a falar era o meu pai!) dirigiu-se para a porta. Entrou alguém, não me lembro quem, que o mais calmamente que podia disse alguma coisa à minha mãe que visivelmente a perturbou. Primeiro ficou pálida, estática, incrédula perante o que lhe tinha sido dito. Depois começou a andar de um lado para o outro, não conseguindo conter as lágrimas que se soltaram profundamente dos seus olhos. Entretanto as pessoas iam entrando, e eu deixei de ver a minha mãe, porque a sala estava cheia de gente que a tentava consolar e tranquilizar. Eu tinha 6 anos, o meu irmão tinha apenas 2. Nenhum de nós percebia nada do que se estava a passar, mas ao ver a nossa mãe chorar, tínhamos a perceção de que era alguma coisa grave. Queríamos chegar perto dela, estar com ela. Mas não nos deixavam. Nós próprios começámos também a chorar. Apercebendo-se disso, ouvi-a dizer: “Eu quero ir vê-lo, mas primeiro quero falar com os meus filhos!”. Aproximou-se de nós, aparentemente serena: “A mãe vai ter que sair. O vosso pai magoou-se e a mãe vai vê-lo ao hospital. Não se preocupem, está tudo bem, foi só uma queda. Até eu voltar, meus queridos vocês vão ficar com a Dona Clara e com o Sr. Fernando (eram os vizinhos de quem ela mais gostava. Além disso os filhos deles eram meus amigos e também do meu irmão) até eu voltar, está bem?”.

EM - NINHO DE CUCOS - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA