sábado, 20 de abril de 2024

O poder das ancas (excerto 1) - Monica Rocha

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Observo que esse movimento segue semelhante ao ponteiro do relógio e a púbis desenha um círculo na direção do teto. O sacro escorrega em várias direções, desenhando no chão o mesmo formato desse círculo. Nasce a primeira sensação, prazer! Ai, que delícia! As articulações dentro da virilha que estavam travadas começam a lubrificar fazendo escorrer entre as pernas uma sensação de leveza nesse movimento gostoso que acontece lentamente. E nele não deve haver qualquer esforço; pelo contrário, é suave, despertando o lugar do sensível e do sútil.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

Lagoa dourada (excerto 2) - Maria Aliender

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Então, desesperada ela se pôs a gritar tão alto que não de- morou ser ouvida em todo povoado e logo vieram funcionários e vizinhos, afinal a mãe ao gritar rasgava a alma despindo-se naquele momento de toda subordinação ao marido. Procuraram por toda a noite em vão, pois nunca encontraram o corpo da filha amada. Segundo relatos de uns pescadores que por ali passavam, avistaram um bando de cisnes negros levando um corpo miúdo, enquanto voavam em forma de coração no céu, por certo pressentiam a passagem e o sofrimento da moça e quiseram esconder de todos, seu rosto triste, levando-a para jogar em uma onda qualquer. Daquele dia em diante o moço nunca mais foi visto na região, correu o boato de que ele fugiu para a mata e morreu de desgosto.

EM - ENTRE ROSAS, TUIUIÚS E BONECAS DE MILHO - ELI COELHO, MARCOS COELHO, MARIA ALIENDER - IN-FINITA

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 283 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

283

Começam-me a faltar fórmulas para explicar o gosto pela leitura e o prazer de ler livros em catadupa.

Chamem-lhe obsessão, vício, dependência, mania, sede de conhecimento, paixão, até loucura. Aceito todos os epítetos com a mesma naturalidade com que passo de Celan para Agustina, de Tchekov para Sophia, de Quintana para Hatherly, de Camilo para Pasternak, de Orwell para Vergílio, de Márai para Torga, de Eugénio para Gógol, de Pessoa para Steinbeck, enfim, de livro para livro, sem olhar a filosofias, épocas, proveniências ou géneros literários.

Sou um bicho das letras auto enclausurado nas badanas de um mundo paralelo, por onde deambulo em busca de respostas às perguntas que nunca fiz porque, só assim, consigo justificar a esquizofrenia que me abraça e faz-me sentir, bem vincado no âmago, este desenquadramento temporal.

Ler transformou-se numa epopeia lúcida com o objectivo de afastar a angústia de estar onde não pertenço, nem quero estar, e descobrir o espaço e tempo onde poderia encaixar-me como uma peça de puzzle.

EMANUEL LOMELINO

Lavagem cerebral (excerto 1) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Puseram-me, porque eu assim o permiti, um pesado fardo de normas, regulamentos, exigências permanentes e constantes que me faziam sentir forçado a ter de ser diferente das “pessoas do mundo (eram assim apelidados depreciativamente os cidadãos que não pertenciam à Igreja)!! Mas afinal em que mundo vivia eu? Em Marte? Na Lua? Sim, confesso, era por lá que a minha cabeça, às vezes, andava! Talvez para me tentar esquecer do que a minha consciência indevidamente manipulada e manipulável me fazia lembrar!!

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

quinta-feira, 18 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 282 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

282

Sabes, Celan, desconheço se a tua ligação emocional com a morte era mais do que revolta por Auschwitz e, por isso, não sei se este nosso não-tabu pode, de alguma forma, ser comparável.

Apesar da liberdade que me dou ao falar amiúde sobre ela, porque morro constantemente, e ao contrário de ti, não é um fascínio mórbido que me move, mas sim a consciência lúcida de uma inevitabilidade.

Posso dizer-te que, da minha parte, a morte nunca vislumbrará medo nos meus olhos ou coração. Não me intimida pelo breu, pela incerteza do que vem depois, nem pela imagética associada.

Mesmo desconhecendo a forma como a definitiva vai reclamar-me à vida, sei que ela espera por mim e está cada vez mais próxima. E quanto mais o relógio avança menos tempo sobra para falar dela.

Espero apenas que os meus discursos, quase tão negros como os teus, não me levem a um final igual. Neste momento prefiro ser abraçado por ela do que abraçá-la.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 10) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Cora congela diante da imagem. O corpo dela não é mais de cinco segundos antes. Nem o dele. Jaú se afasta. Pensa, “viemos passar segunda lua-de-mel, neste paraíso, e quem é você Cora, para dizer esta palavra em meu ouvido?” Não diz nada, mas encara a mulher por um segundo. Reflete o que vai dizer, aquele instante pode se repetir pela eternidade. Uma eternidade que não deseja. 

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 281 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

281

Por mais inclusivo e tolerante que se seja aos diferentes pensamentos das múltiplas doutrinas literárias contemporâneas, existem confissões que, ao pregar a boa-nova, espargem paradoxos que só criam raízes nos menos avisados.

Estas facções evangelizadoras da literacia moderna, ao mesmo tempo que se apresentam estratificadas, criam uma auréola classista pela transmissão das suas mensagens.

As liturgias são ocas de coerência estilística, não por definição profética propositada, mas por défice cognitivo inerente. Não existe raciocínio lógico fundamentado na solidez de ideias inovadoras, tampouco incentivo ao arrojo.

As eucaristias são cerimónias de pretensão e ufania mascaradas de certame abrangente, não por crença filosófica, antes pelo engodo pastoral dirigido aos devotos.

Os grã-mestres usam o eruditismo e eloquência das palavras frívolas para magnetizar a crendice dos fiéis simples, num catecismo de verdades e presságios que só a eles se aplica.

Por tudo isto louvo, cada vez mais, o meu entendimento agnóstico, que me impede de ingressar nessas seitas.

EMANUEL LOMELINO

Meditar e respirar (excerto) - Renata Campos

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Vivemos em um mundo onde a atenção plena foi desviada, e com ela, a chegada de tantas enfermidades. A pressão do dia a dia está encurtando a nossa capacidade de observar e respirar. Compreender nossas reações diante dos acontecimentos provocados pela velocidade em que estamos inseridos é de extrema importância e urgência.
Como restabelecer a conexão com o momento presente diante dessa epidemia de multitarefas? Acredito que a meditação é uma das formas de treinar nossas conexões neurais. É uma ferramenta que nos auxilia a cultivar nossa capacidade de autocuidado e autoconhecimento. É quando nos enxergamos sem julgamentos. Um lugar para estarmos consciente diante da vida.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

terça-feira, 16 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 280 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

280

- … Claro que conheci o professor Licínio! O sujeito mais louco e estimado da aldeia. Foi com ele que aprendi a ler, como muitas gerações desde o tempo em que os meus pais eram crianças.

Transformou a sua garagem num gigantesco salão de leitura, com as paredes forradas a livros, que as editoras lhe enviavam continuamente, e a porta sempre aberta para quem quisesse entrar.

Ele passava o dia a ensinar as letras, a formar palavras, a construir frases, aos mais novos, enquanto incentivava os maiores a pensar no que liam e a escreverem as suas próprias histórias.

Não era estranho vermos, além de crianças pequenas e adolescentes, o salão pejado de adultos, que aproveitavam para ler os livros que ali havia e tentavam cometer a proeza de fazer o professor Licínio sair para a rua, coisa que ele nunca fez em vida, nem mesmo para comprar bens essenciais, que encomendava, no início por telefone, depois por internet, porque havia outra porta, ao fundo da sala, que comunicava com a sua casa e ele tinha jurado que só sairia dali no dia em que não lesse um livro.

Só o conseguiram retirar daquela casa aquando do seu funeral.

EMANUEL LOMELINO

Nôrzinha - JackMichel

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Linda... pequenina... assim era Nôrzinha, a inocente Leonor Brasil, de 4 anos de idade. 
Com faces cor de maçã, emolduradas por longos cabelos castanho-escuros, presos num branco laçarote de fita que tremulava quando ela corria... 
Sempre vestia um vestidinho de alvo cetim, que lhe fazia parecer um querubim!...

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 279 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

278

Quando, do corpo macerado pelos afagos do tempo, evolam os últimos resquícios de promessas verdes, no recanto mais esconso dos céus nascem nuvens grávidas de dor e lágrimas.

As gaivotas do pensamento, sobressaltadas pela premonição de uma aguda tempestade, guincham maus agoiros enquanto enterram os seus pousos nos grãos de massa cinzenta, como quem procura refúgio em porto seguro.

A chuva empedrada, capaz de romper a macieza do mármore, asfalta a praia da razão com dúvidas e uma película esbranquiçada desregula o raciocínio lógico.

Sem lua nem marés para dominar a intempérie da mente, o eixo do mundo desintegra-se e o corpo fica à deriva, entregue ao capricho da fortuna aleatória.

Resta esperar que alguns raios de lucidez consigam romper a densidade dos cúmulos sujos e iluminar um novo caminho, com menos obstáculos debilitantes.

EMANUEL LOMELINO

Cuidados ayurvédicos na menopausa (excerto 2) - Mira Pechirra

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Segundo o Ayurveda, esta é a fase vata da vida – em que o corpo tem uma tendência para acumular mais dos elementos ar e éter dentro de si, podendo surgir sintomas como afrontamentos, dores articulares, retenção de líquidos, ansiedade, perturbações do sono, alterações digestivas, perda de memória, irritabilidade, fadiga etc. Quanto mais desequilibrado o corpo estiver, mais pronunciadas são as flutuações hormonais que ocorrem nesta fase. Em equilíbrio, esta fase poderá ser o início de uma maior conexão com nossa criatividade, intuição e consciência. O climatério é, assim, um processo gradual, uma janela de oportunidade para que, nos próximos anos, possamos rejuvenescer o corpo, a mente e as emoções através de um estilo de vida e rotinas diárias saudáveis que incluem plantas e terapias de autocuidado.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

Lagoa dourada (excerto 1) - Maria Aliender

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Era uma vez... Lá pelas bandas do Maranhão, vivia um jovem casal loucamente apaixonados. Ela, morena cor de jambo, miúda e compacta com cabelos negros feito a noite escura do sertão, seus olhos pareciam duas estrelas cintilantes, seus lábios rosados e úmidos igual as astromélias revolutas respingadas do sereno da madrugada. Ele viril, loiro com os olhos azuis igual o céu de puro anil, com lábios naturalmente carnudos, moço honesto e traba- lhador, porém de família pobre que com certeza aos olhos do pai da moça não lhe seria um bom partido. Viviam o mais lindo dos romances já visto naquele povoado, um completava o outro feito o fogo e a faísca, a abelha e o mel, a flor e o beija-flor. Como o namoro era secreto e movidos pela chama ardente de um amor verdadeiro, mal podiam esperar o domingo chegar para então se encontrarem a tarde no campinho de futebol onde os homens jogavam e as mulheres torciam. Entre uma partida e outra, o casal trocava beijos quentes regados por juras de amor eterno. Juntos imaginavam serem os donos do tempo, pois este parecia parar para contemplar o amor dos dois.

EM - ENTRE ROSAS, TUIUIÚS E BONECAS DE MILHO - ELI COELHO, MARCOS COELHO, MARIA ALIENDER - IN-FINITA

domingo, 14 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 278 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

278

Sempre que mordo as palavras por dizer, falece-me o apetite de ser e fico a mastigar húmus e raízes desidratadas.

A cada frase mal proferida, expira-se-me a resistência à solitude, num abraço autofágico embrulhado em conformismo.

Pereço-me, sobretudo, nos episódios de excessiva sensibilidade autoimposta por altruísmo bacoco.

Desencarno-me a cada oblíqua troca de razões em que predominam lugares-comuns e frases feitas.

Sucumbo-me nas alvoradas indiferentes e nos pretextos crepusculares.

Fino-me na ausência de aceitação aos detalhes básicos em detrimento da grandeza fútil.

Feneço-me pela cegueira táctil à necessidade de eremitismo pontual e meditativo.

Apesar de tudo isto, o silêncio não anuncia a minha morte porque tenho morrido sonoramente vezes sem conta, tantos são os estertores lamentosos como trovões.

EMANUEL LOMELINO

Na sombra da culpa (excerto) - Luís Vasconcelos

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Querido leitor, se me é permitido, gostaria de fazer uma pequena observação relativamente a este texto. O abuso espiritual é uma realidade no místico mundo religioso.
Não pretendo ser o juiz da fé que cada um de vós poderá, muito legitimamente ter. A prestação de culto religioso é um direito absoluto consagrado na nossa Constituição.
Eu apenas pretendo partilhar consigo as minhas vivências e experiências pessoais na minha interação com a religião., mais concretamente com um sentimento de culpa obsessivo por ela despertado em mim e as nefastas consequências que teve na minha vida durante quase 40 anos. É simplesmente uma perspetiva pessoal do que considero fanatismo religioso e a forma como pode afetar profundamente mentes mais suscetíveis, frágeis e vulneráveis.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

sábado, 13 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 277 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

277

Quando o gerador de palavras fica entupido pelo espírito rebelde da ociosidade, olho para os livros adormecidos nas prateleiras e tento adivinhar o que cada um dos seus autores faria para desimpedir o estro. Então a loucura infiltra-se nos meus neurónios preguiçosos e sai algo como isto:

A filha do capitão (Púchkin), alertada pelo Doutor Jivago (Pasternak), soube que alguns humilhados e ofendidos (Dostoiévski) cheios de orgulho e preconceito (Austen) – os miseráveis (Hugo) -, tal como Ulisses (Joyce), viveram uma odisseia (Homero), numa das viagens à minha terra (Garrett), só comparável à tragédia da Rua das Flores (Eça).

Essa gente singular (Gomes), dotada de um dom casmurro (Assis), alcançou a libertação (Márai) quando a mãe (Gorki) de Síbila (Agustina) os acolheu na loja de antiguidades (Dickens), onde só o sangue cheira a sangue (Ahkmátova) e o mito de Sísifo (Camus) leva a cem anos de solidão (Márquez) numa jangada de pedra (Saramago).

A pérola (Steinbeck) desta história foi a mensagem (Pessoa) encontrada em casa de uma família inglesa (Dinis) onde foi revelada, à dama das Camélias (Dumas), a queda de um anjo (Camilo), em 1984 (Orwell).

A história termina aqui porque Anna Karenina (Tolstói) pôs-se a falar com Madame Bovary (Flaubert) sobre El-Rey Junot (Brandão) e as minhas artérias ficaram desobstruídas.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 9) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando tudo para diante dos olhos de Cora, Jaú está de costas, ambos diante da porta do quarto de frente ao mar. Cora abre um segundo os olhos antes tão bem fechados e vê sepulturas. Sim, ondas batendo sobre lápides ao expor ossos. Jaú só para ao ouvir em seu ouvido, baixinho... 
– Ossos? – Ouvi errado. Pensou ele. 
É delírio. – Cora quis afastar a visão.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 276 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

276

Ah, a poesia! Essa meretriz, meiga, terna, despreconceituosa e solícita, que se abre, apaixonadamente, a todo e qualquer entendimento, sem olhar a condições e proveniências, com a necessária dose de lascívia e volúpia para provocar os mais intensos e epifânios orgasmos mentais.

Ah, a poesia! Essa mestre-escola do pensamento universal e multidisciplinar, que filosofa, como um engenhoso e mecânico caleidoscópio holístico, sobre a química geográfica da biologia física (ou transcendente), e arquitecta conceitos éticos e metafísicos para a arte quântica, com precisão matemática, por ser, ela própria, ângulos e vértices da geometria do conhecimento.

Ah, a poesia! Esse paliativo catártico que regula os batimentos cardíacos dos sentidos, eliminando a palidez da existência com as cores mais fulgentes e os brilhos menos ofuscantes.

Ah, a poesia! Esse opiáceo multiforme que, depois de ser injectado nos olhos, corre pelas veias do raciocínio transformando todas as sombras em lucidez vertiginosa e permitindo as viagens mais alucinogénias pelos labirintos da razão, porque tem na sua fórmula estímulos anticoagulantes.

Ah, a poesia! Ah, a poesia!

EMANUEL LOMELINO

Educação (excerto) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ninguém nos ensina na escola sobre as substâncias que aplicamos perto de nossas glândulas mamárias. Usamos desodorante desde a adolescência até a velhice, a maioria contendo alumínio (um metal tóxico que pode causar danos desastrosos), isso sem falar no triclosan, um antisséptico que propicia a resistência bacteriana. Seguimos com parabenos (conservante) e os ftalatos que levam à desregulação de hormônios e ao câncer de mama.
O índice de aumento das doenças autoimunes e câncer nas mulheres vem crescendo. Muito se deve a um maior contato com toxinas vindas dos cosméticos. Deveríamos ter na escola uma matéria para as meninas sobre a saúde do adolescente, para que elas se capacitem com informações que permitam escolhas mais seguras.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 275 - Emanuel Lomelino

Imagem cml

Diário do absurdo e aleatório 

275

A irregularidade das calçadas condiciona as passadas nos labirintos tricotados pelas sebes e árvores das praças e os bancos de madeira, envelhecida pelos dias, esperam com paciência os leitores de jardim e alimentadores de pombos.

Os pintassilgos sobrevoam a azáfama das formigas ao som do violinista que silencia as ociosas cigarras. Num ramo altivo, berço de densa folhagem alaranjada, dois olhos de esquilo perscrutam os canídeos que passeiam, pelas trelas, os donos hipnotizados pelos pixéis dos ecrãs iluminados.

Nas águas barrentas, dois cisnes flutuam a atenção na família de patolas que se refugiou no centro do lago, fora de alcance do atrevimento de um infante trôpego, incentivado pelos risos histéricos e babados dos progenitores.

E tudo isto é embrulhado por ciclistas, trotineteiros e patinadoras, de calções curtos e justos, que não querem destoar do equilíbrio da paisagem nem diferenciar-se dos caminhantes e corredores de circunstância.

EMANUEL LOMELINO