sábado, 20 de abril de 2024
O poder das ancas (excerto 1) - Monica Rocha
Lagoa dourada (excerto 2) - Maria Aliender
sexta-feira, 19 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 283 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
283
Começam-me a faltar fórmulas para explicar o gosto pela leitura e o prazer de ler livros em catadupa.
Chamem-lhe obsessão, vício, dependência, mania, sede de conhecimento, paixão, até loucura. Aceito todos os epítetos com a mesma naturalidade com que passo de Celan para Agustina, de Tchekov para Sophia, de Quintana para Hatherly, de Camilo para Pasternak, de Orwell para Vergílio, de Márai para Torga, de Eugénio para Gógol, de Pessoa para Steinbeck, enfim, de livro para livro, sem olhar a filosofias, épocas, proveniências ou géneros literários.
Sou um bicho das letras auto enclausurado nas badanas de um mundo paralelo, por onde deambulo em busca de respostas às perguntas que nunca fiz porque, só assim, consigo justificar a esquizofrenia que me abraça e faz-me sentir, bem vincado no âmago, este desenquadramento temporal.
Ler transformou-se numa epopeia lúcida com o objectivo de afastar a angústia de estar onde não pertenço, nem quero estar, e descobrir o espaço e tempo onde poderia encaixar-me como uma peça de puzzle.
EMANUEL LOMELINO
Lavagem cerebral (excerto 1) - Luís Vasconcelos
quinta-feira, 18 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 282 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
282
Sabes, Celan, desconheço se a tua ligação emocional com a morte era mais do que revolta por Auschwitz e, por isso, não sei se este nosso não-tabu pode, de alguma forma, ser comparável.
Apesar da liberdade que me dou ao falar amiúde sobre ela, porque morro constantemente, e ao contrário de ti, não é um fascínio mórbido que me move, mas sim a consciência lúcida de uma inevitabilidade.
Posso dizer-te que, da minha parte, a morte nunca vislumbrará medo nos meus olhos ou coração. Não me intimida pelo breu, pela incerteza do que vem depois, nem pela imagética associada.
Mesmo desconhecendo a forma como a definitiva vai reclamar-me à vida, sei que ela espera por mim e está cada vez mais próxima. E quanto mais o relógio avança menos tempo sobra para falar dela.
Espero apenas que os meus discursos, quase tão negros como os teus, não me levem a um final igual. Neste momento prefiro ser abraçado por ela do que abraçá-la.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 10) - Geórgia Alves
quarta-feira, 17 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 281 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
281
Por mais inclusivo e tolerante que se seja aos diferentes pensamentos das múltiplas doutrinas literárias contemporâneas, existem confissões que, ao pregar a boa-nova, espargem paradoxos que só criam raízes nos menos avisados.
Estas facções evangelizadoras da literacia moderna, ao mesmo tempo que se apresentam estratificadas, criam uma auréola classista pela transmissão das suas mensagens.
As liturgias são ocas de coerência estilística, não por definição profética propositada, mas por défice cognitivo inerente. Não existe raciocínio lógico fundamentado na solidez de ideias inovadoras, tampouco incentivo ao arrojo.
As eucaristias são cerimónias de pretensão e ufania mascaradas de certame abrangente, não por crença filosófica, antes pelo engodo pastoral dirigido aos devotos.
Os grã-mestres usam o eruditismo e eloquência das palavras frívolas para magnetizar a crendice dos fiéis simples, num catecismo de verdades e presságios que só a eles se aplica.
Por tudo isto louvo, cada vez mais, o meu entendimento agnóstico, que me impede de ingressar nessas seitas.
EMANUEL LOMELINO
Meditar e respirar (excerto) - Renata Campos
terça-feira, 16 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 280 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
280
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… Claro que conheci o professor Licínio! O sujeito mais louco e estimado da
aldeia. Foi com ele que aprendi a ler, como muitas gerações desde o tempo em
que os meus pais eram crianças.
Transformou
a sua garagem num gigantesco salão de leitura, com as paredes forradas a livros,
que as editoras lhe enviavam continuamente, e a porta sempre aberta para quem
quisesse entrar.
Ele
passava o dia a ensinar as letras, a formar palavras, a construir frases, aos
mais novos, enquanto incentivava os maiores a pensar no que liam e a escreverem
as suas próprias histórias.
Não
era estranho vermos, além de crianças pequenas e adolescentes, o salão pejado
de adultos, que aproveitavam para ler os livros que ali havia e tentavam
cometer a proeza de fazer o professor Licínio sair para a rua, coisa que ele
nunca fez em vida, nem mesmo para comprar bens essenciais, que encomendava, no
início por telefone, depois por internet, porque havia outra porta, ao fundo da
sala, que comunicava com a sua casa e ele tinha jurado que só sairia dali no
dia em que não lesse um livro.
Só o conseguiram retirar daquela casa aquando do seu funeral.
EMANUEL LOMELINO
Nôrzinha - JackMichel
segunda-feira, 15 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 279 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
278
Quando, do corpo macerado pelos afagos do tempo, evolam os últimos resquícios de promessas verdes, no recanto mais esconso dos céus nascem nuvens grávidas de dor e lágrimas.
As gaivotas do pensamento, sobressaltadas pela premonição de uma aguda tempestade, guincham maus agoiros enquanto enterram os seus pousos nos grãos de massa cinzenta, como quem procura refúgio em porto seguro.
A chuva empedrada, capaz de romper a macieza do mármore, asfalta a praia da razão com dúvidas e uma película esbranquiçada desregula o raciocínio lógico.
Sem lua nem marés para dominar a intempérie da mente, o eixo do mundo desintegra-se e o corpo fica à deriva, entregue ao capricho da fortuna aleatória.
Resta esperar que alguns raios de lucidez consigam romper a densidade dos cúmulos sujos e iluminar um novo caminho, com menos obstáculos debilitantes.
EMANUEL LOMELINO
Cuidados ayurvédicos na menopausa (excerto 2) - Mira Pechirra
Lagoa dourada (excerto 1) - Maria Aliender
domingo, 14 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 278 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
278
Sempre que mordo as palavras por dizer, falece-me o apetite de ser e fico a mastigar húmus e raízes desidratadas.
A cada frase mal proferida, expira-se-me a resistência à solitude, num abraço autofágico embrulhado em conformismo.
Pereço-me, sobretudo, nos episódios de excessiva sensibilidade autoimposta por altruísmo bacoco.
Desencarno-me a cada oblíqua troca de razões em que predominam lugares-comuns e frases feitas.
Sucumbo-me nas alvoradas indiferentes e nos pretextos crepusculares.
Fino-me na ausência de aceitação aos detalhes básicos em detrimento da grandeza fútil.
Feneço-me pela cegueira táctil à necessidade de eremitismo pontual e meditativo.
Apesar de tudo isto, o silêncio não anuncia a minha morte porque tenho morrido sonoramente vezes sem conta, tantos são os estertores lamentosos como trovões.
EMANUEL LOMELINO
Na sombra da culpa (excerto) - Luís Vasconcelos
sábado, 13 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 277 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
277
Quando o gerador de palavras fica entupido pelo espírito rebelde da ociosidade, olho para os livros adormecidos nas prateleiras e tento adivinhar o que cada um dos seus autores faria para desimpedir o estro. Então a loucura infiltra-se nos meus neurónios preguiçosos e sai algo como isto:
A filha do capitão (Púchkin), alertada pelo Doutor Jivago (Pasternak), soube que alguns humilhados e ofendidos (Dostoiévski) cheios de orgulho e preconceito (Austen) – os miseráveis (Hugo) -, tal como Ulisses (Joyce), viveram uma odisseia (Homero), numa das viagens à minha terra (Garrett), só comparável à tragédia da Rua das Flores (Eça).
Essa gente singular (Gomes), dotada de um dom casmurro (Assis), alcançou a libertação (Márai) quando a mãe (Gorki) de Síbila (Agustina) os acolheu na loja de antiguidades (Dickens), onde só o sangue cheira a sangue (Ahkmátova) e o mito de Sísifo (Camus) leva a cem anos de solidão (Márquez) numa jangada de pedra (Saramago).
A pérola (Steinbeck) desta história foi a mensagem (Pessoa) encontrada em casa de uma família inglesa (Dinis) onde foi revelada, à dama das Camélias (Dumas), a queda de um anjo (Camilo), em 1984 (Orwell).
A história termina aqui porque Anna Karenina (Tolstói) pôs-se a falar com Madame Bovary (Flaubert) sobre El-Rey Junot (Brandão) e as minhas artérias ficaram desobstruídas.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 9) - Geórgia Alves
sexta-feira, 12 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 276 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
276
Ah, a poesia! Essa meretriz, meiga, terna, despreconceituosa e solícita, que se abre, apaixonadamente, a todo e qualquer entendimento, sem olhar a condições e proveniências, com a necessária dose de lascívia e volúpia para provocar os mais intensos e epifânios orgasmos mentais.
Ah, a poesia! Essa mestre-escola do pensamento universal e multidisciplinar, que filosofa, como um engenhoso e mecânico caleidoscópio holístico, sobre a química geográfica da biologia física (ou transcendente), e arquitecta conceitos éticos e metafísicos para a arte quântica, com precisão matemática, por ser, ela própria, ângulos e vértices da geometria do conhecimento.
Ah, a poesia! Esse paliativo catártico que regula os batimentos cardíacos dos sentidos, eliminando a palidez da existência com as cores mais fulgentes e os brilhos menos ofuscantes.
Ah, a poesia! Esse opiáceo multiforme que, depois de ser injectado nos olhos, corre pelas veias do raciocínio transformando todas as sombras em lucidez vertiginosa e permitindo as viagens mais alucinogénias pelos labirintos da razão, porque tem na sua fórmula estímulos anticoagulantes.
Ah, a poesia! Ah, a poesia!
EMANUEL LOMELINO
Educação (excerto) - Renata Campos
quinta-feira, 11 de abril de 2024
Diário do absurdo e aleatório 275 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
275
A irregularidade das calçadas condiciona as passadas nos labirintos tricotados pelas sebes e árvores das praças e os bancos de madeira, envelhecida pelos dias, esperam com paciência os leitores de jardim e alimentadores de pombos.
Os pintassilgos sobrevoam a azáfama das formigas ao som do violinista que silencia as ociosas cigarras. Num ramo altivo, berço de densa folhagem alaranjada, dois olhos de esquilo perscrutam os canídeos que passeiam, pelas trelas, os donos hipnotizados pelos pixéis dos ecrãs iluminados.
Nas águas barrentas, dois cisnes flutuam a atenção na família de patolas que se refugiou no centro do lago, fora de alcance do atrevimento de um infante trôpego, incentivado pelos risos histéricos e babados dos progenitores.
E tudo isto é embrulhado por ciclistas, trotineteiros e patinadoras, de calções curtos e justos, que não querem destoar do equilíbrio da paisagem nem diferenciar-se dos caminhantes e corredores de circunstância.
EMANUEL LOMELINO














