quarta-feira, 20 de março de 2024

A mulher madura que quero ser (excerto 1) - Katya K. Borges

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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“A idade me deu aquilo que procurei a vida inteira
– me deu eu mesma”
Anne Lamott

Acredito que minha história com a menopausa não deva ser diferente da maioria das mulheres de 50+. Temas como menstruação, prazer feminino e, principalmente, a menopausa ainda são considerados tabus para muitas de nós. Menstruei e tive a primeira relação sexual sem muitas orientações, a considerar que, naquela época, não havia internet. Era tudo via amigas e curiosidade própria.
Há dois anos, entrei na menopausa. Apesar de já saber que isso aconteceria em breve, não busquei nenhuma informação, mesmo estando na era tecnológica. Das duas uma: ou estava em negação, ou acreditava que iria tirar de letra a nova fase – apesar de uma não invalidar a outra.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

A moça da lagoa (excerto 1) - Marcos Coelho

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Há muitos anos atrás, na região das Serras de Maracajú, morava uma família, pai e mãe com seus sete filhos, todos meninos. A mamãe, Dona Maria Lídia, mulher zelosa e muito inteligente, preocupava-se que seus filhos aprendessem algum ofício e se casassem tão logo se tornassem adultos. Ela sabia que a vida era muito difícil, a roça não supria mais tudo de que precisavam, assim, o casamento era um caminho seguro para a sobrevivência.
O filho caçula era o último que não havia se casado, não encontrava nenhuma garota que o fizesse ficar sem palavras e despertasse nele o amor. A mãe preocupada sempre o advertia:
– Albertinho, você deve se apressar, meu filho, já está ficando velho, daqui a pouco nenhuma moça vai lhe oferecer um dote por casamento, te cuida meu filho. Dizia toda preocupada.
– Mãezinha, tenho 17 anos, estou a estudar com a Dona Carmosina, não se preocupe, logo surge alguém que me toque o coração. A senhora verá. Vou me casar e a senhora vai ainda ficar muito contente comigo.

EM - ENTRE ROSAS, TUIUIÚS E BONECAS DE MILHO - ELI COELHO, MARCOS COELHO, MARIA ALIENDER - IN-FINITA

terça-feira, 19 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 252 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

252

Já escrevi inúmeros textos sobre a legitimidade universal que a escrita outorga. Todos, sem excepção, podem, e devem, exercer essa actividade sem rodeios nem receios, independentemente das razões adjacentes, subjacentes, laterais ou de fundo.

Escrever é mais do que um direito, é um dever. Pela defesa libertária; pela identidade; pela diferença; e sobretudo pelo legado que carregamos, e que deve ser respeitado, preservado e prolongado, para que as gerações vindouras não percam o rastro às suas raízes e, também eles, sintam que devem contribuir nessa perpetuação.

Não existe história sem registo. Não existe noção do passado sem que a memória seja celebrada, e a melhor forma de o fazer é colocar tudo por escrito.

Mas a história de um povo, de uma civilização, não se limita a referências factuais e a acontecimentos quotidianos colectivos. Ela também resulta de pensamentos críticos, ensaísticos ou lúdicos, ficção, criatividade, inovação, singularidade…

Por essas razões defendo que todos devem escrever, seja sobre o que for, de que forma for, e com as motivações que lhes aprouverem. O importante é escrever. Escrever muito.

Depois… o tempo encarregar-se-á de separar o trigo do joio.

EMANUEL LOMELINO

Rua selvagem (excerto 1) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Uma lenda viva da música popular brasileira, Chico Buarque, escreveu uma música linda, como todas as outras, aliás, chamada “João e Maria”, duas crianças que adoravam brincar, sonhar e que gostavam muito um do outro. A determinada altura da música ele diz: “Agora eu era o rei, era o bedel, era também juiz. E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz!” Concordo Chico, ser feliz não é só um direito, mas também um dever! Ele termina cantando “Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim. Para lá do meu quintal era uma noite que não tem mais fim. E você sumiu no mundo sem me avisar”. E eu fiquei triste, só, a perguntar: “O que é que a vida vai fazer de mim!”.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

segunda-feira, 18 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 251 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

251

Tu que alisaste areia na praia de São João, depois de arranjares, na Cova do Vapor, dois papos-secos, cinquenta gramas de fiambre e um queijo-fresco, para estenderes a toalha fanada na feira das Galinheiras, olhavas o Atlântico com o temor de quem nunca soube nadar e só ia à praia porque todos os amigos te acompanhavam e o único dinheiro que precisavas era para atravessar o Tejo, de cacilheiro.

Tu que vias, com tranquilidade e fascínio, as ondas que explodiam no areal e sentias as narinas invadidas pela maresia, deitavas para trás das costas a ansiedade que te envolvia durante as duas horas de viagem, por teres precisado sair de um comboio e esperar o seguinte porque aparecia o revisor e a necessidade, mesmo a lúdica, aguçava o engenho, e só os betinhos eram apanhados com as calças na mão.

Tu que avaliavas todas as cabeleiras oxigenadas não procuravas romance de Verão nem companhia fútil. Apenas quem te comprasse, no final da tarde, e depois de toda a diversão que julgavas merecer, o bilhete de retorno a Belém para, mais uma vez, e pela mesma razão, entrares de cabeça na ansiedade ao lusco-fusco – igual à matinal.

Tu que repetias estas idas e voltas, desde Camarate até São João, e retornavas, vezes sem conta, não o fazias para ficar com a derme bronzeada, mas sim porque, mesmo sem saberes, eras viciado nos picos de adrenalina que essas excursões proporcionavam.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 4) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A história começa no instante exato em que Cora se distrai, um minuto, e observa atenta a mocinha que também vê suas mãos fazendo alfenins. 
Cora reconhece, de lembrança, o ofício a que se dedica, era costume da avó que também atravessou o Atlântico, saída dos Açores portugueses à potiguar cidade de Assú, no litoral nordestino brasileiro, chamado Rio Grande do Norte. 
Doce fartamente encontrado derrete ao mínimo contato com a saliva. Leva de apelido: puxa-puxa. simples mexe mãos finas, um bailado de dedos. 

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

domingo, 17 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 250 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

250

Ontem (17/02/2024), aproveitando um dos meus maiores prazeres (caminhar), juntei o útil ao agradável e decidi partilhar com o mundo este meu gosto pela leitura.

Ao passar pelo jardim de Entrecampos deixei, num dos bancos, um exemplar do livro Contos de Petersburgo, de Nikolai Gogol, com a ambição de criar uma corrente de leitores desta obra intemporal.

Na primeira página expressei a minha intensão e coloquei a seguinte anotação:

1º leitor – Emanuel Lomelino (17/02/2024) – Camarate.

O livro tem mais cinco páginas em branco. Espaço suficiente para que mais nomes sejam anotados.

Não sei quantos vão ler aquele exemplar. Isso será sempre uma incógnita, mas tenho esperança de que sejam muitos.

De uma coisa estou certo, houve alguém que levou o livro, pois, cerca de duas horas depois passei pelo local e ele já lá não estava.

EMANUEL LOMELINO

Longevidade (excerto 4) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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São pequenas mudanças diárias que estão fazendo verdadeiros milagres na minha vida hoje. Isso não quer dizer que, se eu me cuidar, não vou adoecer. Todos nós estamos sujeitos a desenvolver qualquer doença a qualquer momento, mas acredito que quando cuidamos e fortalecemos nosso corpo e mente, estamos preparados para enfrentar o que vem pela frente da melhor maneira. Para mim, a longevidade só faz sentido se ela puder proporcionar novos caminhos. Não basta ter uma vida longa, como já disse antes, ela precisa vir acompanhada de saúde e isso só é possível através das nossas escolhas diárias. Senão de nada vale cultivá-la.
Quem me vê hoje, focada na construção da minha saúde e bem-estar, não acredita quando digo que nem sempre foi assim.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

sábado, 16 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 249 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

249

Numa tentativa vã de fazer o tempo abrandar, caminho pelas ruas mais despidas da cidade e dou por mim a inspecionar com curiosidade todo e qualquer ser que cruze a minha marcha.

Mais do que os tons capilares da moda, os trajes ultrajantes, ou as libertinagens chocantes, foco a minha atenção nas mãos – tão diferentes das minhas - e nos seus movimentos – tão efusivos quanto enganadores.

Sejam grandes ou pequenas, robustas ou delicadas, morenas ou pálidas, todas elas me parecem mãos habituadas a luvas de pelica, tão unidos estão os dedos. Ao vê-las, fico com a sensação de apenas me cruzar com cirurgiões.

Ao contrário, as minhas assemelham-se a grampos rombos e lascados, tantas são as escaras, por vezes sobrepostas, que as enfeitam e impedem que os dedos se toquem e consiga cerrar os punhos.

Acho que, se os outros também andarem pelas ruas da cidade a observar mãos, ao verem as minhas devem pensar que sou estivador ou coveiro.

EMANUEL LOMELINO

Ovídio (excerto 4) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Num desses dias, enquanto Ovídio urinava com uma calma budista, passou uma cadelinha, sem dono, sem coleira, no cio, em disparada no meio da rua, com mais uns três cachorros a persegui-la. O pequenino não quis saber de mais nada, desvencilhou-se da coleira e correu, também, em disparada na direção da cadela.
Sua dona, desesperada, com medo que ele fosse atropelado, corria atrás, mas bem atrapalhada com medo do trânsito maluco da cidade. Eles subiam e desciam as ladeiras do bairro de Botafogo, numa rapidez impressionante. E ela atrás, clamando para que ele a ouvisse. Nada teve efeito. O odor do cio da pequena cadela o interessara muito mais que a voz doce e já cansada de sua dona. O instinto tem a voz mais firme que o amor.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

sexta-feira, 15 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 248 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório

248

Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.

Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.

Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.

EMANUEL LOMELINO

Cuida do teu sono (excerto) - Karla Pinho

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Para relatar em primeira pessoa o que ainda antes dos meus 40 anos comecei a sentir, entre outras dores físicas e psicológicas, a que mais me desestabilizava era a privação de sono. Sentir que, ao fim de algumas noites mal dormidas, pior do que as noites, eram os meus dias. É nesse cuidado que entra, na minha vida, o termo climatério como uma palavra pouco usual, sabendo apenas o significado do dicionário. Descobri que nem só de fogachos vive uma mulher no climatério e que, sim, as privações de sono, a irritabilidade, o mau humor, a pele sensível são características conhecidas e que, naquele momento, estava a sentir. Encontrar uma forma de conseguir dormir bem é um percurso de muitos caminhos, de tentativas, acertos e erros. Se você perguntar se existe alguma maneira de fazer esse caminho mais fácil, a resposta é: siga uma rotina!

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

O Palácio de Porcelana (excerto 2) - Marcos Coelho

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Ao jardim cisnes e aves raras brincavam entre as flores e os chafarizes e as fontes delicadas com peixes dourados, carpas, nadando despreocupados nos cursos d’água suaves e cristalinos. No entanto, lá fora, a população gemia aflita ao perigo iminente do inclemente inimigo.
Acontece, que veio a guerra e, como previsto a construção ruiu facilmente ante o cavalgar de cavalos fogosos e avanços bélicos de peso superior, tudo foi saqueado, o rei viu o orgulho e o egoísmo ruírem como as frágeis e ricas paredes de seu Palácio de Porcelana. O seu povo foi massacrado.
Todavia, por uma ironia do destino, o rei ainda assim, visivelmente derrotado, conseguiu vencer o inimigo com inteligência e estratégia, vindo a restaurar o reino e desfazendo-se do palácio de porcelana por um de pedra, sólido de fato e muito mais simples, mesmo nobre e bonito, sendo que apenas deixou uma torre de porcelana com um aviso a entrada:
“O orgulho e o egoísmo ruem com fragilidade uma alma, o maior tesouro está na lealdade com que amamos a humanidade inteira contida dentro de nós mesmos! ”. Imperador de Porcelana

EM - ENTRE ROSAS, TUIUIÚS E BONECAS DE MILHO - ELI COELHO, MARCOS COELHO, MARIA ALIENDER - IN-FINITA

quinta-feira, 14 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 247 - Emanuel Lomelino

Imagem pngtree

Diário do absurdo e aleatório 

247

Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.

Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colagénios porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.

Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.

Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.

EMANUEL LOMELINO

Murro no estômago (excerto 3) - Luís Vasconcelos

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Um familiar meu, o primo Armando Madeira, alguém que também esteve sempre lá para mim, para a minha mãe e irmão, para nós, acompanhou-me, nessa altura crítica, várias vezes a Coimbra para efetuar imensos exames oftalmológicos que não eram ainda possíveis na minha terra, Viseu. Era lá que a Medicina, em praticamente todas as áreas e especialidades, estava mais avançada. As estradas não eram o que são hoje. As viagens tornavam-se extremamente fastidiosas, entediantes, longas e penosas, cheias de curvas e contracurvas, aliás, como a vida, não é? Mas dentro da carrinha do meu primo eram sempre animadas e divertidas. Conversávamos e riamos muito.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

quarta-feira, 13 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 246 - Emanuel Lomelino

Imagem ocasocial

Diário do absurdo e aleatório 

246

E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?

E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?

E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?

E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?

Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 3) - Geórgia Alves

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Há Pedras Ternas, no mesmo lugar onde conhecemos a praia e a pousada onde a mocinha, pelo visto, jamais pararia para nos ver enquanto esculpia suas pequenas estatuetas. Há na terra lugar para amar. Sim, há Pedras Ternas, como houve para nós a chance de nos encontrar ali enquanto amantes, e hoje mesmo caso voltássemos é certa a probabilidade do amor acontecer, novamente. 
Naquele lugar, o amor insiste reinar. 
Resiste. Ainda que tudo o negue nos dias que se seguem. A rotina, esta coisa que se lambe nos dedos, em segundos destituindo-as das doçuras extremas dos alfenins.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

terça-feira, 12 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 245 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

245

Quando o despertador começou a chinfrinar, Clemente emergiu de um sono tranquilo para um amanhecer indesejado. Há algum tempo, essa era a penosa transição que ele se via obrigado a suportar todas as manhãs. Dormir noites inteiras como um anjo e acordar para enfrentar dias infernais.

Para conseguir manter a sanidade, além da farda, Clemente passou a vestir também a pele do boneco que criou, como fosse um actor entrando no corpo do personagem. Mesmo sentindo-se ridículo com a artimanha, ele sabia que não havia outra forma de ultrapassar incólume dias repletos de frustração.

Na sua cabeça era uma questão de tempo. O seu plano era sujeitar-se até acumular o dinheiro suficiente para pôr pés ao caminho, ir para outro lugar e refazer a vida. “Às vezes é preferível ficarmos mais algum tempo no meio da tempestade do que nos abrigarmos no primeiro porto que encontramos” – pensava muitas vezes, com os seus botões, para justificar a demora da mudança.

Os anos foram passando e, sem se aperceber, Clemente foi-se acostumando a ser mais o boneco do que ele mesmo e a sua essência começou a esvair-se. De tal modo que nem ele já sabia distinguir um do outro. Morreu carunchoso.

EMANUEL LOMELINO

Longevidade (excerto 3) - Renata Campos

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A longevidade por muitas vezes vem acompanhada pela falta de autonomia e independência. Minha mãe começou a perder essa dupla cedo demais. Quando eu olho para ela usando fralda, vejo a crueldade que é um ser humano chegar a esse ponto. Sua independência escorre pelo ralo, e por muitos anos, esse quadro me sufocou, uma impotência sem soluções visíveis e a única certeza de que eu faria diferente.
Não era uma longevidade pautada em lamentações, solidão e doença que eu queria para mim. Então, comecei a honrar tudo que tive e agradecer tudo que tinha, e desde então venho caminhando rumo à longevidade com passos diferentes.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de março de 2024

Diário do absurdo e aleatório 244 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

244

Quando era criança, e estava constantemente a ralar os joelhos ou a esfolar outras partes do corpo, ouvia os mais velhos dizerem que as dores, que então pouco sentia, viriam com a idade. Sempre achei muito estranho esse vaticínio e até o esqueci durante grande parte da vida.

Eis senão quando, chegado ao equador da existência secular, o corpo, qual despertador orgânico, começou a tocar e não há forma de o silenciar.

Dói caminhar, dói sentar, dói mexer, dói ficar estático, dói mover, dói tocar, dói ouvir, dói ver, dói falar, enfim, dói tudo, por tudo e mais alguma coisa, inclusive pensar.

Esta dor, que são várias dores em sequência, faz-me acreditar que, mais do que avisos, aquilo que os mais velhos faziam, quando eu era criança, era dar voz às suas próprias dores, demonstrando empatia pelas dores que hoje sinto e eles bem conheciam.

A diferença entre os dois tempos está no facto de, agora, não existirem crianças a brincar na rua e a ralar joelhos ou a esfolar outras partes do corpo. E, sobre essa dor, que desconheço, eu não sei como demonstrar empatia.

EMANUEL LOMELINO