quarta-feira, 20 de março de 2024
A mulher madura que quero ser (excerto 1) - Katya K. Borges
A moça da lagoa (excerto 1) - Marcos Coelho
terça-feira, 19 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 252 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
252
Já escrevi inúmeros textos sobre a legitimidade universal que a escrita outorga. Todos, sem excepção, podem, e devem, exercer essa actividade sem rodeios nem receios, independentemente das razões adjacentes, subjacentes, laterais ou de fundo.
Escrever é mais do que um direito, é um dever. Pela defesa libertária; pela identidade; pela diferença; e sobretudo pelo legado que carregamos, e que deve ser respeitado, preservado e prolongado, para que as gerações vindouras não percam o rastro às suas raízes e, também eles, sintam que devem contribuir nessa perpetuação.
Não existe história sem registo. Não existe noção do passado sem que a memória seja celebrada, e a melhor forma de o fazer é colocar tudo por escrito.
Mas a história de um povo, de uma civilização, não se limita a referências factuais e a acontecimentos quotidianos colectivos. Ela também resulta de pensamentos críticos, ensaísticos ou lúdicos, ficção, criatividade, inovação, singularidade…
Por essas razões defendo que todos devem escrever, seja sobre o que for, de que forma for, e com as motivações que lhes aprouverem. O importante é escrever. Escrever muito.
Depois… o tempo encarregar-se-á de separar o trigo do joio.
EMANUEL LOMELINO
Rua selvagem (excerto 1) - Luís Vasconcelos
segunda-feira, 18 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 251 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
251
Tu que alisaste areia na praia de São João, depois de arranjares, na Cova do Vapor, dois papos-secos, cinquenta gramas de fiambre e um queijo-fresco, para estenderes a toalha fanada na feira das Galinheiras, olhavas o Atlântico com o temor de quem nunca soube nadar e só ia à praia porque todos os amigos te acompanhavam e o único dinheiro que precisavas era para atravessar o Tejo, de cacilheiro.
Tu que vias, com tranquilidade e fascínio, as ondas que explodiam no areal e sentias as narinas invadidas pela maresia, deitavas para trás das costas a ansiedade que te envolvia durante as duas horas de viagem, por teres precisado sair de um comboio e esperar o seguinte porque aparecia o revisor e a necessidade, mesmo a lúdica, aguçava o engenho, e só os betinhos eram apanhados com as calças na mão.
Tu que avaliavas todas as cabeleiras oxigenadas não procuravas romance de Verão nem companhia fútil. Apenas quem te comprasse, no final da tarde, e depois de toda a diversão que julgavas merecer, o bilhete de retorno a Belém para, mais uma vez, e pela mesma razão, entrares de cabeça na ansiedade ao lusco-fusco – igual à matinal.
Tu que repetias estas idas e voltas, desde Camarate até São João, e retornavas, vezes sem conta, não o fazias para ficar com a derme bronzeada, mas sim porque, mesmo sem saberes, eras viciado nos picos de adrenalina que essas excursões proporcionavam.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 4) - Geórgia Alves
domingo, 17 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 250 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
250
Ontem (17/02/2024), aproveitando um dos meus maiores prazeres (caminhar), juntei o útil ao agradável e decidi partilhar com o mundo este meu gosto pela leitura.
Ao passar pelo jardim de Entrecampos deixei, num dos bancos, um exemplar do livro Contos de Petersburgo, de Nikolai Gogol, com a ambição de criar uma corrente de leitores desta obra intemporal.
Na
primeira página expressei a minha intensão e coloquei a seguinte anotação:
1º leitor – Emanuel Lomelino (17/02/2024) – Camarate.
O livro tem mais cinco páginas em branco. Espaço suficiente para que mais nomes sejam anotados.
Não sei quantos vão ler aquele exemplar. Isso será sempre uma incógnita, mas tenho esperança de que sejam muitos.
De uma coisa estou certo, houve alguém que levou o livro, pois, cerca de duas horas depois passei pelo local e ele já lá não estava.
EMANUEL LOMELINO
Longevidade (excerto 4) - Renata Campos
sábado, 16 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 249 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
249
Numa tentativa vã de fazer o tempo abrandar, caminho pelas ruas mais despidas da cidade e dou por mim a inspecionar com curiosidade todo e qualquer ser que cruze a minha marcha.
Mais do que os tons capilares da moda, os trajes ultrajantes, ou as libertinagens chocantes, foco a minha atenção nas mãos – tão diferentes das minhas - e nos seus movimentos – tão efusivos quanto enganadores.
Sejam grandes ou pequenas, robustas ou delicadas, morenas ou pálidas, todas elas me parecem mãos habituadas a luvas de pelica, tão unidos estão os dedos. Ao vê-las, fico com a sensação de apenas me cruzar com cirurgiões.
Ao contrário, as minhas assemelham-se a grampos rombos e lascados, tantas são as escaras, por vezes sobrepostas, que as enfeitam e impedem que os dedos se toquem e consiga cerrar os punhos.
Acho que, se os outros também andarem pelas ruas da cidade a observar mãos, ao verem as minhas devem pensar que sou estivador ou coveiro.
EMANUEL LOMELINO
Ovídio (excerto 4) - Daniele Barbosa Bezerra
sexta-feira, 15 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 248 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
248
Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.
Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.
Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.
EMANUEL LOMELINO
Cuida do teu sono (excerto) - Karla Pinho
O Palácio de Porcelana (excerto 2) - Marcos Coelho
quinta-feira, 14 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 247 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
247
Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.
Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colagénios porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.
Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.
Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.
EMANUEL LOMELINO
Murro no estômago (excerto 3) - Luís Vasconcelos
quarta-feira, 13 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 246 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
246
E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?
E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?
E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?
E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?
Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.
EMANUEL LOMELINO
A qualquer hora da noite (excerto 3) - Geórgia Alves
terça-feira, 12 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 245 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
245
Quando o despertador começou a chinfrinar, Clemente emergiu de um sono tranquilo para um amanhecer indesejado. Há algum tempo, essa era a penosa transição que ele se via obrigado a suportar todas as manhãs. Dormir noites inteiras como um anjo e acordar para enfrentar dias infernais.
Para conseguir manter a sanidade, além da farda, Clemente passou a vestir também a pele do boneco que criou, como fosse um actor entrando no corpo do personagem. Mesmo sentindo-se ridículo com a artimanha, ele sabia que não havia outra forma de ultrapassar incólume dias repletos de frustração.
Na sua cabeça era uma questão de tempo. O seu plano era sujeitar-se até acumular o dinheiro suficiente para pôr pés ao caminho, ir para outro lugar e refazer a vida. “Às vezes é preferível ficarmos mais algum tempo no meio da tempestade do que nos abrigarmos no primeiro porto que encontramos” – pensava muitas vezes, com os seus botões, para justificar a demora da mudança.
Os anos foram passando e, sem se aperceber, Clemente foi-se acostumando a ser mais o boneco do que ele mesmo e a sua essência começou a esvair-se. De tal modo que nem ele já sabia distinguir um do outro. Morreu carunchoso.
EMANUEL LOMELINO
Longevidade (excerto 3) - Renata Campos
segunda-feira, 11 de março de 2024
Diário do absurdo e aleatório 244 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
244
Quando era criança, e estava constantemente a ralar os joelhos ou a esfolar outras partes do corpo, ouvia os mais velhos dizerem que as dores, que então pouco sentia, viriam com a idade. Sempre achei muito estranho esse vaticínio e até o esqueci durante grande parte da vida.
Eis senão quando, chegado ao equador da existência secular, o corpo, qual despertador orgânico, começou a tocar e não há forma de o silenciar.
Dói caminhar, dói sentar, dói mexer, dói ficar estático, dói mover, dói tocar, dói ouvir, dói ver, dói falar, enfim, dói tudo, por tudo e mais alguma coisa, inclusive pensar.
Esta dor, que são várias dores em sequência, faz-me acreditar que, mais do que avisos, aquilo que os mais velhos faziam, quando eu era criança, era dar voz às suas próprias dores, demonstrando empatia pelas dores que hoje sinto e eles bem conheciam.
A diferença entre os dois tempos está no facto de, agora, não existirem crianças a brincar na rua e a ralar joelhos ou a esfolar outras partes do corpo. E, sobre essa dor, que desconheço, eu não sei como demonstrar empatia.
EMANUEL LOMELINO














