sexta-feira, 17 de novembro de 2023
Nova etapa (excerto) - Filomena Silva
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 128 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
128
Todos criticam a existência do “Grande Irmão”, mas, em simultâneo, querem ter acesso livre à vida dos demais. (hipocrisia).
Não tenho problema algum em andar por ruas e edifícios inundados com câmaras de vigilância. A minha revolta (hipérbole) é com aqueles que se julgam no direito de saber todos os meus passos.
Sinto. Vejo. Compreendo. Mas jamais me comovo com a demonstração de interesse (eufemismo). “A César o que é de César”, inclusive a privacidade.
Há silêncio nos olhares que perscrutam o rosto, como quem procura decifrar-me no mais íntimo de mim (intromissão). As miradas mudas não perturbam a minha paz, porque conheço os intentos dessas buscas e sei vestir-me de invisibilidade.
E em tudo isto existe uma ironia (que não é figura de estilo) porque aprendo mais sendo observado do que os observadores aprendem sobre mim.
EMANUEL LOMELINO
Emma Everston (excerto 22) - Ernesto Moamba
quarta-feira, 15 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 127 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
127
Volta e meia deparo-me com momentos de feroz lassidão – como agora – em que sou inundado por uma chuva de memórias entrelaçadas, de tempos cruzados sem cronologia, de sangramentos, de glória, de lágrimas, de risos, de luto, de paz, de erupção, de anseios…
São períodos breves, mas intensos, que desgastam o ânimo até à fronteira da vulnerabilidade. Um cansaço indescritível apodera-se do espírito e do corpóreo, com a mesma violência irrespirável.
São instantes esparsos, contudo, paridos pelo eterno dilema entre o uso da resiliência e a vontade de prescindir. A mente transforma-se num fórum e os argumentos jorram, com fúria combativa, criando um caos híbrido que deambula entre o desejo e a razão.
Nessas alturas – como agora – procuro refúgio na sabedoria clássica e entrego-me aos pensamentos de Schopenhauer, Púchkin, Nietzsche, Sá-Carneiro, Pessoa… para descobrir, na pele e com assombro, que a vida é como uma viagem de comboio e cada encontro é um apeadeiro.
EMANUEL LOMELINO
Ilhas de paz (excerto 15) - Glória Gomes
terça-feira, 14 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 126 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
126
Às vezes pensar é uma chatice. Começamos com uma simples ideia e, em vez de ficarmos por aí, tentamos desenvolvê-la e nem damos conta da complicação que estamos a fabricar.
Pego nesta constatação e exemplifico-a.
Ideia simples: hoje, os animais selvagens vivem tal qual os seus antepassados.
Desenvolvimento: são educados da mesma forma; superam as mesmas dificuldades adaptando-se ao ambiente, à escassez ou abundância de alimento, ao clima, às estações, aos ciclos de procriação; enfim, estão equipados com os saberes que passaram de geração em geração e os trouxeram até aos nossos dias.
Complicação: as grandes diferenças no dia-a-dia dos actuais animais selvagens, para a vida dos seus antepassados, prendem-se com o impacto de outra espécie: os humanos.
Este género de mamíferos distingue-se por ser especialista em alterar a ordem normal das coisas, tal como a natureza determinou. Cada geração tenta que a próxima enfrente menos dificuldades e, ao fim de milénios, conseguiu-se transformar toda a nossa essência e decidiu-se apelidar esse processo de evolução.
O problema é que, por mais voltas que a humanidade dê, por mais evolutivos que sejamos, por menos limitados que nos apresentemos, nunca conseguimos (nem conseguiremos) eliminar de nós a vertente selvagem que, enquanto nos outros animais é instintiva com propósito de sobrevivência, em nós é sinal de ambição desmesurada, seguidismo e prepotência.
O melhor é parar por aqui, antes que os pensamentos se compliquem ainda mais, porque a base deste texto era exemplificar como pensar pode ser uma chatice, mesmo partindo de uma ideia simples. Além disso, sempre fico com matéria para textos futuros.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 13 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 125 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
125
Estou grato aos céus por ser filho de uma divindade menor – assim nomeada porque Zeus estava afogado em hidromel cítrico, logo, com as capacidades cognitivas alcoolicamente desvirtuadas – e por isso ter nascido sem a presunção de ser mais do que aquilo que realmente sou.
Não me autonomeio coisa alguma e sempre resistirei aos cognomes que muitos ostentam como medalhas imerecidas – para não dizer heréticas.
Percorro os caminhos que me traço sem pretensão de pisar tapetes urdidos para desfile de vaidades sensaboronas e sem motivo de existência. Recuso dar passos nas calçadas da visibilidade ganha pelo metal, nem quero trajar-me com fardas de cetim fabricado nos cárceres da aceitação.
Sou filho de um deus menor e tudo o que faço, digo, penso e escrevo é fruto dessa minha reduzida dimensão e iluminado pelas ténues luzes de um estro diminuto, quase invisível, por incompatibilidade entre a natureza que me formou e a fama que não me merece.
EMANUEL LOMELINO
O escutador da quaresma (excerto 3) - Renata Quiroga
domingo, 12 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 124 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
124
Não sei dizer se o obscurantismo das letras actuais é passageiro, como um fenómeno ondulante que se desintegrará nas areias do tempo, ou se, pelo contrário, é uma prática lúcida com desejo de tornar-se uma rotina permanente.
Para onde se olha, e até onde a vista alcança, pouco se vislumbra para além de penumbra. As palavras vestem-se de breu como se alguém, de forma consciente e deliberada, quisesse ofuscar o brilho das narrativas, fazendo imperar as definições mais negras de um qualquer dicionário apocalíptico.
Queiram os deuses que seja apenas uma tendência esporádica de protagonismo, sem ambições ditatoriais nem cobiça déspota.
Seja como for, este culto incessante de idolatria ao expressionismo sombrio faz-me indagar: Existem assim tantos adoradores de Nix?
EMANUEL LOMELINO
Casa senhorial (excerto) - Filomena Silva
sábado, 11 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 123 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
123
Converti as mãos em peneiras e deixei tombar, pelos caminhos trilhados, todos os grãos de ânimo que, misturados com o cimento da vontade, serviriam para fortificar os meus passos calculados e de rumo certo.
Os objectivos lúcidos amoleceram com o impacto das tempestades sem senso e, aos poucos, de forma camuflada e impiedosa, evaporaram-se sem deixar rasto.
A caminhada não terminou, mas os propósitos abraçaram a caducidade não deixando terra suficientemente fértil para que outras raízes germinem nem para que a determinação ganhe fôlego renovado.
A velha máxima “nada se perde, tudo se transforma” nunca foi tão pungente e, apesar da miopia destes meus olhos falhos, dei por mim a enxergar tudo com uma clareza tão pura quanto reveladora. Há quem lhe chame epifania. Eu prefiro dizer que despertei.
EMANUEL LOMELINO
Emma Everston (excerto 21) - Ernesto Moamba
sexta-feira, 10 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 122 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
122
Entrar numa livraria é transpor um portal, que nos leva, qual máquina do tempo, a viajar por mundos que, de outro modo, nos estariam vedados. Transformamo-nos em turistas literários de visita a outras civilizações, geografias, experiências e saberes.
Ingressar numa biblioteca pode ser uma odisseia pungente que nos obriga a oscilar entre as emoções mais díspares, como estivéssemos na montanha-russa mais sinuosa, rápida e íngreme. Saltamos da apreensão para o humor, do medo para a alegria, da serenidade para o caos.
Cada estante é uma paleta de conhecimentos à distância de um simples gesto. Um contentor de sabedoria ao alcance da vontade de aprender. Podemos abraçar povos, culturas, metamorfoses, histórias e experiências.
Cada livro é um postigo que, depois de aberto, revela realidades passadas, explica o presente e nos faz acreditar em múltiplos futuros paralelos. Atravessamos mares, desertos e labirintos; sentimos gostos, odores e deslumbramento, confrontamos ideias, conceitos e filosofias, testamos razão, lucidez e improviso.
Enfim, entrar numa livraria, ou biblioteca, analisar estantes e prateleiras, pegar um livro e folheá-lo é abrir as portas ao máximo das possibilidades.
EMANUEL LOMELINO
Ilhas de paz (excerto 14) - Glória Gomes
quinta-feira, 9 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 121 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
121
O bairro está sem luz há um par de horas e como ainda é cedo para descansar os ossos abeiro-me da janela, mesmo sabendo que nada conseguirei ver.
Poderia dizer que esta falta de algo para descrever é culpa dos meus olhos que já pouco enxergam ou da poupança forçada de energia, mas estaria a ser desonesto.
Também poderia justificar o marasmo visual com a ausência de movimento na rua ou pelo breu imposto pela noite sem lua e estrelas, mas incorreria em falso testemunho.
Simplesmente não vejo nada porque, apesar de já ser outono, a árvore defronte dos meus olhos é caprichosa e decidiu adiar o strip da sua densa folhagem, impedindo-me de ver além de si – a vaidosa egocêntrica.
Assim sendo, fico-me por aqui, preso a esta cegueira nocturna, na esperança de que numa outra noite, sem corte energético nem árvore vestida fora de época, consiga enxergar algo interessante que sirva de mote a um novo exercício de escrita.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 8 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 120 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
120
Dizem os sábios mais velhos que a verdadeira honestidade é exclusiva do mar. Segundo a experiência destes anciãos sem idade, não há elemento da natureza mais fiel a si mesmo, em todos os seus estados, formas e geometrias, independentemente de meridianos ou paralelos; latitudes ou longitudes; pontos cardeais ou hemisférios.
A sua essência mantém-se inalterada quer se evapore, solidifique ou liquefaça. Manifesta-se sem artimanhas nem engodos, tampouco escangalha de véspera nem reclama o que não lhe pertence porque é força dominante que responde apenas por si, nos seus domínios.
Mas, apesar de todas estas características íntegras, é no cheiro que a honestidade é mais flagrante. Ao contrário de outros elementos (fogo, terra e ar) que exibem odores emprestados, o mar exala somente o seu perfume de encanto (maresia) com que nos enfeitiça, sem truques ou ultrajes.
EMANUEL LOMELINO
O escutador da quaresma (excerto 2) - Renata Quiroga
terça-feira, 7 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 119 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
119
Permita-me, prezado Fiódor Mikhailovich, que simplesmente não o trate por Micha. Sei que reconheceria a gentileza do trato, mas, creia-me justo, fazê-lo seria usar da mesma intimidade impostora que o meu tempo sustenta, renegando os valores fundamentais dos ideais que se professam, como se a incoerência fosse virtude e a franqueza um pecado capital.
A consciência, nestes meus dias, estimado Fiódor Mikhailovich, há muito deixou de ser definida nos exactos termos etimológicos, que tanto explorou na vasta riqueza da sua obra. Atrevo-me mesmo a sentenciar, sempre com o seu consentimento, que ela – consciência – evaporou-se ao longo do tempo, como gotas de água num deserto escaldante, tal a profusão de actos prepotentes, praticados em nome das revoluções mais ociosas, e sem sentido, que nem o seu elevado intelecto ousaria considerar.
Por isso, amigo Fiódor Mikhailovich, aviso-o desde já que prefiro ficar, hora e meia do meu dia de sã loucura, retido na solidão de uma cozinha, a confecionar legumes de caril, do que perder tempo a ler as idiotas bajulações da modernidade, entre indivíduos que, apesar de pertencerem à nossa espécie, vendem-se como se castanhas piladas fossem raras pepitas de máximo quilate, desconhecendo que esse grau de pureza é incompatível com joalharia.
Este novo paradigma, meu caro Fiódor Mikhailovich, é tão complexo e paradoxal que, aos seus olhos, ouvidos e inteligência, as minhas palavras soarão aos discursos de um dos seus mais famosos personagens. Quem, senão um perfeito idiota, pode conceber que se outorguem falsos epítetos em nome de um conceito igualitário, mas alicerçado no individualismo egoísta, sem consciência da vulgaridade?
Hoje, Fiódor Mikhailovich, a verdade não vem nos dicionários. Talvez, nem nos livros de culinária.
EMANUEL LOMELINO
Laços familiares (excerto) - Filomena Silva
segunda-feira, 6 de novembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 118 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
118
Silvério encostou o corpo cansado à parede rochosa, tentando encontrar, com os olhos baços, a linha do horizonte, como quem tem urgência em molhar os lábios ressequidos, no meio do deserto. Olhou à esquerda. Observou à direita. Apenas copas de árvores em relevos de irregularidade, e, aos seus pés, tão literal como respiração ofegante, a falésia íngreme e instável. Tremeu. Todo aquele cenário era uma analogia, tão real quanto apropriada, à sua vida.
Sentia-se envolvido por um deslumbrante mundo de beleza que não podia tocar, sob risco de perder o equilíbrio e desabar, em queda livre, ao primeiro passo mal calculado. As pernas opuseram-se ao reinício da marcha, paralisadas pela responsabilidade dos próximos passos. Todos os membros foram atingidos por um calafrio sufocante, como se uma corrente elétrica acabasse de os trespassar. Silvério nunca sentiu a eternidade como naquele momento.
Cravou os olhos na cruz plantada à beira do precipício e, mesmo não professando religião alguma, murmurou uma pequena prece como quem coloca o cinto de segurança antes de conduzir.
Afastou-se da parede granítica, palpou as escoriações de quedas anteriores, baixou a cabeça, certificou-se da firmeza do terreno a seus pés, inspirou fundo e retomou a caminhada, ladeira acima, determinado a prosseguir sem olhar para trás porque, por mais obstáculos que viesse a encontrar, a sua vontade de alcançar o planalto da tranquilidade era mais férrea do que aparentava e ele sentia necessidade de provar, a si mesmo, que era dono e senhor do seu destino.
EMANUEL LOMELINO














