terça-feira, 17 de outubro de 2023
Mudança (excerto) - Filomena Silva
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 97 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
97
Por vezes, nos momentos de ócio, dou por mim a questionar a importância das palavras que gravo, com força desmesurada, nas pobres folhas brancas que coloco diante dos olhos.
Nesses instantes de lassidão e desinteresse, revejo tudo o que escrevi e deixo que a dúvida se instale no mais recôndito espaço da mente, como quem recheia um qualquer doce conventual.
As perguntas sucedem-se, frenéticas, sem encadeamento lógico ou propósito definido. Simplesmente materializam-se como quem nos visita de forma aleatória e sem motivo.
Mesmo podendo esclarecer a origem de cada texto, não consigo explicar a impetuosidade, quase violenta, com que firmo cada letra no corpo de papel, como irradiasse uma fúria incontrolável e desmedida.
Não tenho sido capaz, talvez por falta de habilidade, de encontrar uma justificação coerente para essa atitude desproporcional, nem sei se algum dia conseguirei.
Quanto à questão inicial, se houvesse um mínimo de valor naquilo que escrevo, jamais teria discorrido sobre a forma exaltada como o faço.
Resta-me continuar a fazer como até aqui e seguir o conselho do poeta W. D. Roscommon: escreve com fúria, mas corrige com fleuma.
EMANUEL LOMELINO
Emma Everston (excerto 16) - Ernesto Moamba
domingo, 15 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 96 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
96
Na ânsia de cumprir-se, o tempo urge e o destino esclarece-se, como inevitável é a sequência dos dias.
Mas os propósitos não são acasos porque a intuição existe e, mesmo na obscuridade da sua essência, a vida é decisão particular.
Há um oposto que se contrapõe a tudo e nada está imune às garras afiadas da dúvida. E o todo é sempre parte ínfima de algo maior, indecifrável e apoteótico.
Cada sonho ou quimera tem um estágio de maturação e todas as raivas e desilusões são encruzilhadas atentas aos passos hesitantes e empenhos descrentes.
Para cada glória correspondem mil enganos e outros tantos martírios. Para cada triunfo coincidem incontáveis cinismos e traições, porque a vida é uma sucessão de anéis de fogo intercalados por pequenos rios de esperança e conforto.
EMANUEL LOMELINO
Ilhas de paz (excerto 9) - Glória Gomes
sábado, 14 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 95 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
95
Na leveza desta furtiva chuva de verão eclode uma paz misteriosa que abraça o âmago, como quem soletra silêncio.
Os pensamentos emergem decididos a transpor o portal da humildade, rumo ao sagrado altar da sabedoria.
Espargem-se na vastidão do conforto idílico e regam o crescimento uno, qual fenómeno da mãe natureza em parto divino.
Há um aflorar consciente e decisivo da razão, no ser que se omitia da sua origem pensante.
Nada se esconde. Tudo se revela. Mesmo as ideias mais tímidas, envergonhadas e de foro introvertido.
A arte fez-se e paira no ar como vapor de esperança, à espera de que os olhos se abram e as mentes despertem.
Mas, aos poucos, o mundo regressa à sua rotina louca e despropositada, ignorando a beleza apaixonada do criador, como nunca tivesse existido a vontade de mudança.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 13 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 94 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
94
A verdade dói quando escutada. Causa-nos dano pelo impacto do momento, talvez despreparo nosso, mas é uma dor fugaz e momentânea, que dificilmente deixa marcas permanentes porque, com o tempo e pelo seu carácter irreversível, ela consegue ser o elemento-chave para alcançarmos a paz de espírito necessária para prosseguirmos.
Já a mentira mata pela sua perversidade intemporal, contínua e nefasta. Atinge-nos na plenitude da sua fogosidade, qual sol abrasador, e queima todo o sentimento como palha ressequida. Desse incêndio destruidor sobra apenas negritude e terra árida sem possibilidade de renovação. E tudo passa porque a vida assim o permite.
Mas há algo mais obsceno e devasso. A dúvida. Essa é cruel, vil, maléfica e sádica. Mantém-nos num limbo de incertezas e esperanças, porque fere, arranha, machuca, tritura, rasga, perfura, esfola, aflige, ao mesmo tempo que se nega e pinta de cores suaves, hipnóticas e anestésicas, qual atriz no auge das suas capacidades interpretativas.
Esta trilogia de inegáveis “influencers” da vida nunca foi tão bem definida como fez Bob Marley, quando disse: A verdade dói, a mentira mata, mas a dúvida tortura.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 93 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
93
Não sou saudosista porque tudo tem o seu tempo e quem fica agarrado ao passado perde tempo presente que poderia estar a dedicar à construção do tempo futuro. Contudo, porque nestas coisas da memória há sempre uma saudade, sinto falta das conversas, sobre escrita, que tive em algumas tertúlias, com gente que sabia da temática e como partilhar conhecimento.
Sinto essa ponta de nostalgia porque as verdadeiras tertúlias, as genuínas, mesmo sendo escassas, eram momentos de reflexão compartilhada que enriqueciam cada um dos envolvidos. Debatiam-se ideias, conceitos e formas de trabalhar as palavras, num ambiente que, não sendo de erudição absoluta, permitia pensar com mais critério o ofício das letras.
A saudade fica por aqui porque tudo o resto, em redor destas tertúlias, era movido pela paixão do exibicionismo inútil e bacoco, um género de vaidade pessoal, que muitos sentiam necessidade de exibir com a urgência de quem precisa de alimento para a boca. Para não falar da burrice de alguns sobre o que é uma tertúlia. Mas não vamos por aí senão este texto transforma-se numa vulgar ode de escárnio e maldizer.
A verdade é que sinto tantas saudades dessas poucas discussões inteligentes que, perante a reduzida franja de autores interessados em partilhar opiniões e crescer, sou obrigado a conversar com os de outrora – apreciadores de tertúlias – como quem tem amigos imaginários.
Assim, varro a minha biblioteca, de ponta a ponta, e mantenho diálogos com os clássicos da literatura e tento absorver o que me dizem na esperança de que essa aprendizagem me seja benéfica, como úteis foram as conversas com Alexandre Carvalho, Celso Cordeiro, José Félix, António Boavida Pinheiro, António MR Martins, Xavier Zarco, Alvaro Giesta, João Carlos Esteves, Francisco Valverde Arsénio, Paulo Afonso Ramos, Joaquim Evónio e, especialmente, Vítor Cintra, com quem aprendi a descobrir a minha voz literária.
EMANUEL LOMELINO
Novo patamar (excerto) - Filomena Silva
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 92 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
92
Esta inquietação vulcânica, que explode de mim, como instinto primitivo, conduz-me na busca eterna pelas palavras que podem fazer-me ajoelhar, como quem se prostra diante de imagem consagrável.
Este desassossego eruptivo, que sangra em mim, como as correntes mais agitadas de magma e lava, guia-me na infinita demanda dos verbos que podem obrigar-me a curvar, como quem faz vénias ao ministério divino.
Esta perturbação efusiva, que irrompe de mim, como intuição ancestral, escolta-me na procura desenfreada pelos vocábulos que podem forçar-me a vergar, como quem se derruba em devoção ao ofício celestial.
Este tumulto tempestuoso, que estoura em mim, como o mais tenebroso ribombar dos céus, acompanha-me numa insana caçada aos motes que podem impor-me a dobrar, como quem se inclina aos méritos angelicais de uma prece.
Esta profusão catastrófica, que eclode de mim, como ímpeto espontâneo, leva-me na bizarra urgência de encontrar as nobres sentenças que podem justificar os motivos, pelos quais, não consigo criar sem parecer que estou em permanente oração aos deuses da erudição.
EMANUEL LOMELINO
Emma Everston (excerto 15) - Ernesto Moamba
terça-feira, 10 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 91 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
91
Eu gostaria de ser clássico como Séneca e poder aconselhar: apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida.
Gostaria de ser erudito como Oscar Wilde e poder falar: a vida é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas só existe.
Eu gostaria de ser lúcido como Bob Marley e poder declarar: não viva para que a sua presença seja notada, mas para que a sua falta seja sentida.
Eu gostaria de ser profético como James Dean e poder sentenciar: sonhe como se fosse viver para sempre, viva como se fosse morrer amanhã.
Eu gostaria de ser pretensioso como Picasso e pintar numa tela: eu gostaria de viver como um pobre, mas com muito dinheiro.
Eu gostaria de ser engraçado como Chaplin e poder mimicar: a vida é maravilhosa se não se tem medo dela.
Eu gostaria de ser complexo como Nietzsche e poder dizer: torna-te aquilo que és.
Como não posso ser nenhum deles nem falar, com mais propriedade, o que já disseram, limito-me a seguir a dica do Friedrich e, sendo eu mesmo, vou parafrasear Pessoa, dizendo: tenho em mim todos os sonhos do mundo. Apenas decidi deixar de correr atrás deles.
EMANUEL LOMELINO
Ilhas de paz (excerto 8) - Glória Gomes
segunda-feira, 9 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 90 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
90
Nos dias em que quase desfaleço sou acometido por uma amálgama de sintomas febris e hipotérmicos que se intercalam num frenesim impossível de descrever, mas que parecem conduzidos por laivos de demência.
Nesses instantes de nebulosas mortes, sem que encontre explicação plausível ou fragmentos de lógica, dou por mim a divagar pelas correntes artísticas, hoje em desuso (para não dizer extintas e proscritas), e faz-se luz sobre o meu mundo de criação.
Nesses quentes momentos de caos pacífico e agitada ordem, as epifanias sobrevoam-me a mente e os sentidos ficam hipnotizados pelos conceitos mais primários. Mesmo no desconforto das tonturas e com os olhos turvos (quase apagados), é quando melhor enxergo o que de mim pode advir, porque o que já fiz não me interessa, só penso no que ainda não fiz.
São vinte minutos, meia hora, isentos de percepção temporal, mas com o condão de clarificar-me ideias e conceitos, indicar-me outras tendências e possibilidades, abrir-me o espírito para enveredar por diferentes vias e novos caminhos.
Então dou por mim a estudar os antigos ismos das artes e a compará-los (sabendo que não há comparação) com o mesmismo que se instalou neste meu tempo.
Aprendo as diferenças entre o cubismo das telas e o surrealismo ou expressionismo dos poemas, de Picasso, e fico a adivinhar quantos serão os eruditos, anti ismos de hoje, que conhecem essa vertente do criador de Guernica.
Depois
começo a escrever estes fracos textos sintéticos, com um sorriso irónico colado
nos lábios, por saber que quase ninguém decifrará o conteúdo do último
parágrafo.
p.s. A frase em itálico é de Pablo Picasso
EMANUEL LOMELINO
domingo, 8 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 89 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
89
O mundo moderno é um menu de desvios, encruzilhadas, atalhos e outros percursos que iludem pela vertigem do imediato associada à preguiça, porque o importante passou a ser a fim da caminhada em detrimento da satisfação pelos passos dados.
Todos se acham no direito de colocar coroas na cabeça e já nem existe a necessidade de serem feitas de louro, até porque tomilho e orégano são mais cheirosos. Da mesma forma, ilusoriamente, o brilho dos sorrisos passou a ser de plástico e a gratidão não é voluntária - exige troco ou contrapartida.
Já não importa a essência, mas sim os perfumes genéricos. Os arco-íris são agora imposição e as cintilações são mais louvadas do que a uniformidade das sombras nas noites de verão. Já ninguém quer saber do céu azul, pontilhado pelo branco das nuvens, porque flutuar na fantasia dos dias é menos doloroso do que ter os pés assentes na realidade no chão.
Há algum tempo li uma frase que dizia, por outras palavras, que o problema da humanidade nunca esteve na dentada que Eva deu na maçã, mas sim no facto de, pouco antes, ao comer um cogumelo, plantado na base da macieira, ter começado a ouvir a serpente falar.
Se pensarmos bem, e olharmos o mundo, tal qual ele está hoje (psicadélico) e a forma (caleidoscópica) como as pessoas o veem, não fica difícil acreditar nessa versão.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 7 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 88 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
88
Valdemar era um alpinista amador que gostava das sensações que, subir montanhas e pequenas encostas escarpadas, lhe proporcionavam.
Munido de todo o equipamento necessário e um vasto conhecimento sobre escalada, sempre que a vida permitia, lá ia ele para mais uma aventura. No início sozinho, depois acompanhado por outros que foi conhecendo.
O prazer que tinha nesta actividade lúdica era tanto que não se importava de dedicar algum do seu tempo a ajudar outros que tinham ritmo e experiência inferiores aos seus.
Tudo corria bem até ao momento em que alguns dos que ele auxiliara em inúmeras oportunidades começaram a agir como fossem experimentados escaladores de Evereste, juntando-se a outros alpinistas fanfarrões, e passaram a ignorar os seus conselhos sobre questões de segurança.
Para Valdemar era muito difícil ver aquela gente a praticar actos negligentes e saber que, mesmo assim, a cometerem tantos erros, todos eles tinham planos para aventuras em locais mais exigentes e onde qualquer falha pode significar uma fatalidade.
Muito a contragosto, mas com receio de poder assistir a alguma tragédia, Valdemar deixou de comparecer nos locais habituais com tanta regularidade, acabando mesmo por abdicar de fazer alpinismo.
Hoje, já não dá conselhos a ninguém, nem quando o solicitam, mas continua a dedicar o tempo livre ao exercício físico… só que na esteira lá de casa.
EMANUEL LOMELINO
Infantário (excerto) - Filomena Silva
sexta-feira, 6 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 87 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
87
Há este querer sólido e verdadeiro, que me acompanha desde sempre, de encontrar a perfeição do vazio; o silêncio original.
Quanto mais me embrenho na solidão que cultivo, menor parece a distância que me separa de algo semelhante ao Nirvana. Aquele lugar puro, sem defeito, que não é celestial nem divino. Apenas um lugar de paz imorredoura que substitui uma vida inteira.
A cada passo dado dou conta de todo o peso inútil e desnecessário que tenho carregado nas costas. Desfaço-me de mais e mais, sem traumas de separação. Simplesmente largo lastro e caminho mais leve.
O percurso ainda é longo, mas completo na sua única via, num só sentido, perfeito porque é feito de coisa alguma, apenas nada. E estou a conseguir libertar-me de toda a bagagem, de toda a tralha que me tem freado o ímpeto.
Sei que ainda transporto baús encrustados no corpo, com amarras maciças e fechaduras encriptadas, cuja remoção terá um custo de luas e sal, mas blindei a minha resiliência com o aço da vontade suprema e tenho os olhos focados no amanhã, porque é para lá que caminho.
EMANUEL LOMELINO
Emma Everston (excerto 14) - Ernesto Moamba
quinta-feira, 5 de outubro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 86 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
86
Morrerei, orgulhosamente, ignorado pelos críticos das paragonas de tiragem erudita, porque sempre respeitei os legados e defendi os meus critérios.
Morrerei, orgulhosamente, na invisibilidade de todos os fóruns oligarcas, porque nunca me sujeitei a convenções nem a tratados de mal-escrever.
Morrerei, orgulhosamente, no desterro de todas as falsas elites sem condição, porque sempre acreditei que a universalidade criativa é, além de um direito, um dever global.
Morrerei, orgulhosamente, no exílio de todas as palavras que nunca escrevi, porque os meus textos foram construídos em exercício de liberdade e expressão individual sem apegos nem compadrios.
Morrerei, orgulhosamente, no confinamento de uma tumba desconhecida, porque bebi dos melhores néctares literários e trabalhei na inspiração dos ridículos saberes.
Morrerei, orgulhosamente, embrulhado na bandeira dos autores menores, porque nunca babei os grandes nem ignorei os pequenos.
Morrerei, orgulhosamente, na embriaguez dos meus paradoxos.
EMANUEL LOMELINO














