sábado, 16 de setembro de 2023

Peabiru (excerto 22) - CARLOS DOMINGUEZ

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Conversamos um pouco mais e nos despedimos. O sol estava forte demais e a sombra estava minguando. Saímos pela praia e avistamos mais adiante o senhor de macacão azul, ainda indignado, regando outras paineiras novas e colocando pedras na volta. Era o jardineiro da praia. Passamos adiante, procurando um local para comer e abrigar do sol. Evitamos os restaurantes de beira da praia, caros e pouco convidativos. Fomos caminhando até uma birosca na beira da areia, com um telhadinho e apenas três mesas de plástico. Ali paramos e tomamos uma cerveja barata e acompanhada de um peixe frito na hora. Canto do Pescador dizia uma placa suja dentro do barzinho simples e simpático que consistia apenas de um modesto balcão, um freezer para bebidas e uma cozinha invisível que preferi não conhecer.

EM - PEABIRU - CARLOS DOMINGUEZ - IN-FINITA

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 66 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

66

Farto-me de rir com a preocupação da moda centrada na inteligência artificial. Fala-se do tema e toda a gente fica histérica com a possibilidade de as máquinas substituírem os humanos, e choram, e gritam, e esperneiam, e…

E ninguém atenta que nada disto é novo, tudo começou com a chamada revolução industrial e tem sido a humanidade, geração após geração, a encontrar formas de manter as estruturas sociais convenientes ao seu funcionamento.

E o percurso da humanidade fez-nos chegar a este momento temporal em que aparece a geração Z, que roça a inutilidade por, apesar de ser mais instruída, não ser capaz de entender que a vida é bem mais do que lutar por ideais e combater o sistema.

Porventura, não é esta geração que contesta a “escravidão” horária das profissões modernas? Não são estes génios das causas que querem impor um regime alimentício diferente para que deixemos de ser aquilo que somos por natureza: omnívoros?

Ora, para que tudo isso seja possível, é preciso desprogramar a humanidade e arranjar quem nos substitua nas actividades que só existem porque somos como somos. O mesmo é dizer: venha daí a inteligência artificial.

No entanto, rejubilem, o processo será longo porque ainda não foi encontrada solução para que o nosso sistema digestivo e dentição ganhem a robustez herbívora necessária.

E queiram os deuses que, entretanto, não haja um cataclismo digital. Se tal acontecer estamos tramados porque esta geração vai ter um colapso nervoso e passará a chamar-se geração zombie.

EMANUEL LOMELINO

Ilhas de paz (excerto 3) - Glória Gomes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O Cabo-verdiano emigrante investe no seu país de origem, primeiramente porque muitos deles nunca gostariam de ter deixado Cabo Verde, mas as situações de limitação interna as empurraram para a emigração. Cada um tem a sua história, cada um passou pela sua dificuldade, muitos perderam a vida, mas confesso que por de trás da simples história de um emigrante, existem muitas outras passagens de vida que nunca foram postas em palavras e por isso nunca reveladas ou conhecidas por parte dos beneficiários, ou familiares. A falta de um teto, de um amigo para dividir culpas e multiplicar alegrias, a ausência do sentido de estima e de pertença, a solidão, a monotonia do dia a dia e o peso da saudade e da inquietude com a família deixada para trás.

EM - ILHAS DE PAZ NUM MAR DE TORMENTO - GLÓRIA GOMES - IN-FINITA

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 65 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

65

Pobres daqueles que, ao verem a poeira levantada por uma rajada de vento fortuita, creem estar perante uma tempestade de areia.

Não há nada mais nefasto do que viver na agonia de todos os males, desconsiderar que os dias são maiores do que as trevas e as miragens podem desvirtuar os sentidos.

Pobres daqueles que, na preguiça do intelecto, acreditam em todas as palavras proféticas dos arautos da desgraça alheia e, como marionetas sem fios, deixam-se amarrar aos vis conceitos de falsos mensageiros.

Não existe nada mais nocivo do que acreditar em castigos e pragas divinas, desvalorizar a intuição e deixar o próprio destino nas mãos de quem só está presente nos instantes de conflito interno.

Pobres daqueles que evitam encarar a vida, olhos nos olhos, por receio de cair e macerar o corpo vezes sem conta.

Não há nada mais danoso do que viver com medo das sombras e em permanente cobardia.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 64 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

64

Pior do que perder a visão é não ter visão de nada, ficar na cegueira da dúvida sem decidir entre os caminhos que se ramificam diante dos olhos.

Pior do que perder a lucidez é abdicar da clareza de ideias e querer viver nas duas margens do mesmo rio, sem encontrar forma de o atravessar.

Pior do que perder a audição é não ouvir a voz da razão e limitar-se a escutar os torpes cantos de sereia que são enredos e tramas que somente conduzem ao engano.

Pior do que perder a consciência é não ter consciência dos actos e, principalmente, de tudo o que pode advir de cada decisão inconsciente.

Pior do que perder os sentidos é perder o sentido das coisas, ficar no limbo do pasmo por não saber identificar o momento certo de colher o que se plantou.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 63 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

63

Normalmente usamos o chavão “a vida é uma selva” para demonstrarmos indignação sobre um episódio qualquer. Mas, se aprofundarmos a ideia, chegamos à conclusão que podemos aplicá-lo a um dia completo. Vejamos:

De manhã cedo saímos para trabalhar e há sempre uma coruja ou um bufo, por trás de cortinas baloiçantes, a ver quem bateu a porta do prédio. Depois surge um babuíno a cravar um cigarro ou um morcego, que retorna à sua gruta, a perguntar as horas. Na fila do autocarro, há sempre papagaios a palrear alto coisas sem noção, e alguns ratos que tentam furar a fila. Durante a viagem, olhando pela janela, vemos imensos burros e camelos a conduzir e que, volta e meia, são ultrapassados por chitas cheias de pressa. No acesso ao metropolitano temos sempre algumas lesmas e preguiças a impedir passagem e há um ou dois hipopótamos com dificuldade em desviar o corpanzil para deixar passar quem quer entrar na carruagem. No interior da composição, já sentadas, vão bastantes pavoas emproadas, com os rostos untados de óleos, pastas, cremes e essências. Aqui e ali avistamos alguns suricatas a esticar o pescoço – ora para a esquerda, ora para a direita – como tentando detectar possíveis predadores. Há muitas hienas de gargalhadas estridentes, mas é só. Nesta arca de Noé sobre carris, também conseguimos ver um número considerável de pinguins vestidos com os seus fatos de gala. Chegados à estação pretendida, todos sobem as escadas como fossem gnus a trepar uma encosta íngreme depois de atravessarem o Nilo infestado de crocodilos.

Durante o dia cruzamo-nos com elefantes trombudos, gazelas esqueléticas e outros herbívoros a pastar nas esplanadas, jumentos de portaria, guaxinins a explorar papeleiras, melgas evangélicas, doninhas fedorentas e, em alguns pontos da cidade, um sem número de espécies exóticas, borboletas, mariposas, traças, que se misturam com formiguinhas autóctones, lebres apressadas e alcateias de lobos desocupados.

Isto para não falar dos escorpiões e lacraus venenosos, serpentes que querem ver alguém morder a maça, anacondas que abraçam em asfixia, aves de rapina a perscrutar as calçadas em busca de presas, e necrófagos a sobrevoar algumas carcaças, que já pereceram, mas não foram avisadas.

Digam lá se a vida diária não é uma selva!

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 62 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

62

Nem todos os dias são de erudição porque, quando Anúbis flutua entre as pirâmides, há óbito nos verbos.

Nem todos os dias são de sapiência porque, quando Thanatos deambula nos corredores de Partenon, há ocaso em cada verso.

Nem todos os dias são de nirvana porque, quando Yama percorre os jardins de Taj Mahal, fenecem os adjectivos.

Nem todos os dias são de luz porque, quando Freyja patrulha as muralhas de Valhalla, as consoantes perdem o brilho.

Nem todos os dias são de eloquência porque, quando Meng Po colhe as flores no Templo Pagode, as vogais perdem a memória.

Nem todos os dias são de cultura porque, quando Morrigan sobrevoa as cabeças dos druidas, caem as asas aos alfabetos.

Nem todos os dias são de reflexão porque, quando os deuses da morte se reúnem, não há sopro de vida que ressuscite as palavras.

EMANUEL LOMELINO

Emma Everston (excerto 9) - Ernesto Moamba

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Na mesma semana, apesar da opressão, junto com os seus amigos, teve que partir para a Ilha de Inhaca, uma obscura floresta que se encontrava a mais de vinte quilómetros da cidade onde se encontravam hospedados. Já passava das dezoito horas e a estrada, meio esburacada que estavam a percorrer, ficava cada vez mais cheia de sangue que, misteriosamente, imaginavam escorrer do céu, completamente nublado. As nuvens pouco se movimentavam e a sombra que reflectia sobre o chão parecia retratos de monstros, inclusive as árvores que, tão perto delas, pareciam gente como se estivessem no último lugar da terra. Tudo era tão sinistro, o silêncio intimidava até os parasitas que habitavam seus estômagos.

EM - EMMA EVERSTON, A UNIVERSITÁRIA DA CIDADE DE SANGUE - ERNESTO MOAMBA - IN-FINITA

Peabiru (excerto 21) - CARLOS DOMINGUEZ

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Chego cedo à praia. Poucos banhistas, alguns surfistas. O comércio de praia ainda está se instalando. A faixa de areia é curta, logo estão as ondas do temido Pacífico, que fustiga fortemente o litoral quase desértico do Peru. Aqui quase nunca chove, o que faz a população de surfistas se multiplicar. Estão aí originários de muitos lugares do globo, a julgar pelos sotaques, dialetos e corpos muito brancos que se aventuram com todo o tipo de prancha em Huanchaco, praia distante menos de 30 quilômetros da cidadela de Chan-Chan, onde os antigos Chimus idolatravam os seres do mar, como leões marinhos, aves, peixes, ondas e redes de pesca, todos com imagens presentes nas paredes de adobe da milenar cidade. Um povo do mar vivendo em oásis artificiais criados pelo gênio dos especialistas em obras de canalização da água, membros desta civilização de ourives, pescadores e engenheiros.

EM - PEABIRU - CARLOS DOMINGUEZ - IN-FINITA

domingo, 10 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 61 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

61

Franklim nasceu feliz, teve uma infância pobre, mas feliz, foi um adolescente tímido, mas feliz, até que chegou à idade adulta… e continuou a ser feliz.

Toda a gente gostava de Franklim, do seu jeito simples de ser, mas com personalidade, do seu humor subtil e inteligente, da sua conduta irrepreensível e firmeza de carácter.

Contudo, muitos reparavam que, apesar de irradiar felicidade por todos os poros, Franklim tinha duas rugas de tristeza no rosto.

Um dia, em conversa mais íntima com um amigo de infância, Franklim confessou que, mesmo sentindo-se um homem feliz, andava um pouco frustrado porque não estava profissionalmente satisfeito – não gostava do trabalho que tinha. O amigo aconselhou-o a ir em busca daquilo que o pudesse realizar nesse quesito. E ele assim fez.

No início foi como estivesse a viver em constante êxtase, no entanto, com o passar do tempo, o rosto de Franklim ganhou mais rugas de tristeza, e toda a gente reparou.

Franklim passou a estar cada vez mais distante do mundo, deixou de demonstrar interesse nas conversas, as suas piadas perderam a graça, as conversas deixaram de ser interessantes. Já não era o mesmo homem.

O tal amigo mais íntimo quis saber o que se passava e Franklim admitiu que, apesar de estar mais envolvido com um trabalho apaixonante, não conseguia sentir prazer ao realizá-lo.

Desta vez, o amigo não deu conselho algum, apenas demonstrou preocupação com o ânimo de Franklim e expressou o desejo de voltar a ver a felicidade estampada no rosto dele.

Franklim decidiu dar dois passos atrás para se reencontrar. Na sua cabeça passou a ser preferível trabalhar em algo que se despreza, mas ser feliz, do que ter um trabalho que o realize, mas o deixe miserável.

Se a vida fosse uma novela tudo acabaria por se resolver e as coisas conspirariam em seu favor. No entanto, como a vida não é ficção pós telejornal, Franklim faz o trabalho que mais odeia, está mais longe de se encontrar e voltar a ser quem foi um dia. E as rugas são cada vez mais.

EMANUEL LOMELINO

Ilhas de paz (excerto 2) - Glória Gomes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A pobreza, a emigração, a procura de uma vida melhor é uma realidade que existirá sempre em qualquer sociedade, mesmo em países altamente desenvolvidos há séculos. A diferença é que, estes últimos oferecem aos seus habitantes o poder de escolha de ir ou ficar e tanto faz, o individuo é pobre apesar de ter milhares de oportunidades e oferta de trabalho mais diversificado que se pode imaginar, o estado paga para aprender um ofício, no entanto, emigra por escolha pessoal e pelo simples desejo de experienciar a vida em outras paragens. Mendigos, pessoas sem casa e sem emprego ainda vagueiam por essas nações magníficas e prósperas. O estado carrega às costas esta pequena percentagem da sociedade, chamada classe desfavorecida, custeando habitações, educação e até a própria vivência, batalhando arduamente na eliminação do fosso entre o pobre e o rico. O que difere aqui no contexto da pobreza, por exemplo, entre Cabo Verde e os países desenvolvidos é que, embora seja quase impossível eliminar completamente a pobreza, a pobreza nos países desenvolvidos e de estrutura social sólida tem outro sabor.

EM - ILHAS DE PAZ NUM MAR DE TORMENTO - GLÓRIA GOMES - IN-FINITA

sábado, 9 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 60 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

60

O maior inimigo de quem escreve é o ócio; aquilo que alguns chamam como falta de inspiração, mas eu prefiro apelidar de preguiça criativa.

Aqueles que se dedicam, de alma e coração, à escrita, desenvolvem técnicas e hábitos que deixam a mente sempre pronta para desenvolver um texto.

Aqueles que consagram o acto de escrever, fazem uso de diversos exercícios que fortalecem a espontaneidade de ordenar palavras, com desenvoltura e em qualquer circunstância.

Aqueles que, de forma regular, dão vida e utilidade aos seus raciocínios, sabem que anotar os pensamentos ajuda a criar memória e fluência na criação.

Aqueles que doam o seu tempo às palavras, sabem que nem tudo o que se escreve tem valor para ser público, mas não ignoram a importância dos textos deficitários no desenvolvimento criativo.

Aqueles que souberam criar hábitos regulares de escrita, treinaram a mente, exercitaram géneros e conceitos, guardaram rascunhos e textos medíocres, nunca são acometidos pela preguiça criativa, bem pelo contrário, até escrevem sobre o “nada” da mesma forma fluída como fazem quando escrevem sobre “tudo”.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 59 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

59

Quando o tema de conversa é a Vida, existem quase tantas definições aplicáveis como gente no mundo. Para uns é isto, para outros é aquilo, para alguns é aqueloutro, para os demais é assim, para poucos é assado, para os restantes talvez não seja nada disso ou tudo junto.

Um dos aspectos comuns a todas as opiniões, mas sempre esquecido, ou melhor dito, nunca lembrado, é o facto de a Vida também ser uma unidade de tempo variável e os relógios que a medem sermos todos nós, com a particularidade de raramente estarmos no mesmo estágio de medição, porquanto cada um tem a Vida à sua medida.

A maior diferença da Vida para as outras unidades de medida do tempo é a sua perecidade. Enquanto os anos, os meses, as semanas, os dias, as horas, os minutos e os segundos serão eternos e existirão para lá da existência de cada um, a Vida, na especificidade aqui explicada, termina com a morte daquele a quem serviu.

Seguindo esta linha de raciocínio, pode-se aferir que cada Vida é tão única como as impressões digitais.

Assim sendo, à pergunta:

- O que é a Vida?

Pode-se responder:

- A Vida é… pessoal e intransmissível.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 58 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

58

Serafim, como todos os homens da sua aldeia, nasceu numa época de escassez e fome. No entanto, ao contrário dos outros, ele cresceu forte e saudável.

Apesar de ter ficado órfão muito cedo e não poder frequentar a escola, ele deu uso à sua inteligência, engenho e bravura para, sem emigrar, conseguir ter uma vida digna.

Em criança trabalhava à jorna, para todos os artesãos da aldeia, em troca de refeições, e aproveitava para absorver o máximo de conhecimento que podia. E foi tão lesto a aprender que, na adolescência, já era perito em quase todos os ofícios artesanais, chegando até a superar os mestres.

Com os anos, a sua reputação cresceu tanto que os artesãos começaram a disputar os seus préstimos e ele passou a ganhar mais do que refeições pelo trabalho efectuado.

Serafim era tão requisitado que os seus trabalhos começaram a ser pagos a peso de ouro e, rapidamente, ele acumulou uma pequena fortuna. Ganhou tanto que conseguiu comprar as oficinas da aldeia e agora é o patrão de todos os artesãos para quem trabalhou.

EMANUEL LOMELINO

Resistência - Terezinha Malaquias

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Na volta para casa, carregados de compras do supermercado, meu marido e eu vimos, junto à parede de uma casa vizinha à nossa, uma rosa solitária na roseira. Normalmente, eu passo por ela com mais frequência, porque fica no meu caminho para pegar o bonde. Todo ano, faço inúmeras fotos dessa roseira, que está quase sempre carregada, mas neste momento é inverno e os dias estão bem frios por aqui. Mesmo assim a rosa estava lá, sozinha, embelezando a estação fria, e apesar do pouco sol, ela me fez parar e contemplar sua beleza única e resistente.

Ela estava lá para nos lembrar que 2020 não foi um ano fácil, foi muito triste e cruel para muitas pessoas, milhares delas no mundo não resistiram e perderam suas vidas para o vírus da Covid-19, perderam seus trabalhos, tiveram seus salários, que já eram baixos, reduzidos. A fome aumentou no mundo. Os direitos fundamentais se tornaram cada vez mais inacessíveis: pessoas sem teto se espalham pelas cidades, sem proteção, sem moradia e sem alimento. Durante a pandemia, o número mulheres mortas por seus atuais ou ex-companheiros aumentou exponencialmente. Essa estatística tem que mudar, nenhuma mulher merece ser morta por questão de gênero. A vida feminina não é propriedade de nenhum homem, quer seja ele pai, amigo, amante, desconhecido, marido ou ficante. A vida é só dela. É preciso educar nossa sociedade, sobretudo nossas crianças e jovens, para que todos saibam: ninguém é dono de outra vida. Só assim vamos reduzir essa taxa absurda de mortes diárias. É urgente e necessário parar com a violência e valorizar a vida, que é única.

Demos um nome para a rosa solitária: Resistência.

EM - ELAS E AS LETRAS: SEMENTE, PRESENTE - UM LIVRO PARA MARIELLE FRANCO - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 57 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

57

Nesta bruma cerrada escondem-se os limites das sombras que nos fogem ao olhar e os enganos vestem-se camuflados de farol.

Nesta neblina fechada escondem-se os finais de tarde que nem os mais furtivos raios de sol conseguem iluminar.

Nesta névoa trancada escondem-se as margens vampirescas que se mascaram de anjos para levar-nos ao precipício.

Neste nevoeiro selado escondem-se as barreiras da ilusão com o simples e matreiro propósito de nos ocultar os embustes.

Nesta cortina de fumo espesso escondem-se as armadilhas sedentas de sangue, de quem, com esperança e boa-fé, se deixa guiar.

Os véus do engodo aproveitam-se da cegueira dos tolos e inocentes, como se o prejuízo dos desavisados fosse a única e suprema via para matar a fome da cobiça desmedida e cobarde.

EMANUEL LOMELINO

Peabiru (excerto 20) - CARLOS DOMINGUEZ

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Não se sabe quem, nem exatamente onde (talvez na praia de Chicama), mas foram os moches que criaram o surf, usando como prancha um suporte de totora, vegetal com caniços que flutuam quando amarrados firmemente. Os espanhóis chamaram a tais pranchas de caballitos de totora, pois tinham um pequeno pescoço; os hábeis nativos daquelas praias usavam-nas para pesca e transporte marítimo nas fortes ondas do nada Pacífico oceano. Até hoje, quem quiser se arriscar no litoral pedrento do norte do Peru, vai encontrar os caballitos de totora que são usados para passeios turísticos. Atualmente, com a destruição dos sistemas de irrigação dos engenheiros chimus, o litoral voltou a ser um deserto pobre. Os espanhóis destruíram tudo que não fosse ouro e prata. E até mesmo o ouro e a prata, em formato de jóias magníficas em que os chimus eram mestres, foram derretidos em barras inúteis e enviadas de barco para os reinos decadentes do outro lado do mar. A cobiça criou, também, os piratas que infernizavam os comboios de naus e caravelas, ao cruzar o traiçoeiro mar do Caribe.

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Emma Everston (excerto 8) - Ernesto Moamba

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Nas avenidas, pouca gente passava e os melhores restaurantes da época eram como calabouços da cadeia, a tristeza espalhava-se até nas paredes dos hospitais e as artes marciais tão pouco favoreciam para se resistir e manter a imunidade nesta pandemia. Morar, com alguns animais de estimação, em casa já era minuciosamente escasso, o maldito vírus já se havia alargado em todas as espécies, inclusive, nos nefastos morcegos, um dos pratos mais temidos da gastronomia daquela cidade. Poderia então concluir-se que a cidade estava vivendo um dos piores momentos de sua existência.
Mas não tão piores quanto a extensão da dor, e de milhares de quilómetros de vazio desprendido num dos apartamentos do coração de Emma, com a partida irreversível da sua mãe, considerando que Emma sempre manteve uma relação próxima a seus pais, inclusive com a senhora Dollores, aquando da ausência do seu pai para servir o estado.

 EM - EMMA EVERSTON, A UNIVERSITÁRIA DA CIDADE DE SANGUE - ERNESTO MOAMBA - IN-FINITA

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Diário do absurdo e aleatório 56 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

58

Pesa-me mais o cansaço dos passos dados em vão do que os quilos de horas que se acumulam nas pernas. Nesses intermináveis momentos de fadiga, o corpo dorido implora pelo mergulho na calmaria do sentir e pede para ser anestesiado por uma qualquer chuva de verão fora de época.

Ofegante é o desejo de permanecer imóvel, sem obrigação de estender os braços aos céus em preces de mudança. Há um pedido mudo que se revela uma necessidade imperativa de ver o voo das pombas brancas, mas o mundo continua a girar inclemente.

O crepúsculo já não é de paz e serenidade porque paira no ar uma cãibra que ignora a urgência de sossego e vazio. As madrugadas são lençóis de lava e as noites prolongam as vigílias inoportunas. O sono é picotado por cada som dos megafones motorizados que fazem derrapagens tão imprudentes quanto estridentes.

Então vem a alvorada com marcas no rosto porque o sol que nasce não é novo, mas sim o pleonasmo do anterior – mais passos em vão e horas acumuladas nas pernas.

Assim passam os dias que enrugam a pele e gritam a monotonia cruel costurada nos caminhos. Uns chamam-lhe destino, outros creem ser fado. Isto é apenas o desassossego da vida e há mortes mais dramáticas.

EMANUEL LOMELINO

O silêncio da lua - ROSA FLOR

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Caminho por entre folhas secas que rodopiam ao sabor do vento.
Vou tingindo com vários tons as ruas que calcorreio sem destino, desertas pelo adiantado da hora.
Anoitece!
O silêncio que se faz sentir, embala-me as emoções, desperta-me os sentidos deixando no meu ouvido o eco da tua voz.
Por companhia tenho estrelas, algumas cadentes, pirilampos a quem desvendo segredos e a Lua Cheia no seu esplendor que brinda com serenatas, as que em noites cálidas de verão me ias fazendo, deixando marcas indeléveis no amor que era só nosso.
Descanso num banco de jardim!
Fecho os olhos, desfio memórias, escolho destinos que quero buscar, imagino os verdes campos onde por entre valsas, beijos ardentes e aromas inebriantes, me sentia protegida nos teus braços.
Sem pressa corto as amarras aos pensamentos nebulosos que me atormentam.
A Lua em silêncio é minha testemunha.
Decido então fazer o percurso de regresso a casa.
Sinto a brisa enternecida afagar-me a pele, relembrando-me que o dia está prestes a nascer.
O meu coração plana!...
Germina em mim a ânsia de ter a sabedoria do tempo, para poder erradicar as saudades que nele habitam.
Contemplo o céu!...
Rendo-me ao mais belo Luar o de Agosto abraçando-o, entrelaçando com fios de prata o Silêncio da Lua.

EM - AMANTES DA POESIA E DAS ARTES - COLETÂNEA - IN-FINITA