sábado, 16 de setembro de 2023
Peabiru (excerto 22) - CARLOS DOMINGUEZ
sexta-feira, 15 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 66 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
66
Farto-me de rir com a preocupação da moda centrada na inteligência artificial. Fala-se do tema e toda a gente fica histérica com a possibilidade de as máquinas substituírem os humanos, e choram, e gritam, e esperneiam, e…
E ninguém atenta que nada disto é novo, tudo começou com a chamada revolução industrial e tem sido a humanidade, geração após geração, a encontrar formas de manter as estruturas sociais convenientes ao seu funcionamento.
E o percurso da humanidade fez-nos chegar a este momento temporal em que aparece a geração Z, que roça a inutilidade por, apesar de ser mais instruída, não ser capaz de entender que a vida é bem mais do que lutar por ideais e combater o sistema.
Porventura, não é esta geração que contesta a “escravidão” horária das profissões modernas? Não são estes génios das causas que querem impor um regime alimentício diferente para que deixemos de ser aquilo que somos por natureza: omnívoros?
Ora, para que tudo isso seja possível, é preciso desprogramar a humanidade e arranjar quem nos substitua nas actividades que só existem porque somos como somos. O mesmo é dizer: venha daí a inteligência artificial.
No entanto, rejubilem, o processo será longo porque ainda não foi encontrada solução para que o nosso sistema digestivo e dentição ganhem a robustez herbívora necessária.
E queiram os deuses que, entretanto, não haja um cataclismo digital. Se tal acontecer estamos tramados porque esta geração vai ter um colapso nervoso e passará a chamar-se geração zombie.
EMANUEL LOMELINO
Ilhas de paz (excerto 3) - Glória Gomes
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 65 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
65
Pobres daqueles que, ao verem a poeira levantada por uma rajada de vento fortuita, creem estar perante uma tempestade de areia.
Não há nada mais nefasto do que viver na agonia de todos os males, desconsiderar que os dias são maiores do que as trevas e as miragens podem desvirtuar os sentidos.
Pobres daqueles que, na preguiça do intelecto, acreditam em todas as palavras proféticas dos arautos da desgraça alheia e, como marionetas sem fios, deixam-se amarrar aos vis conceitos de falsos mensageiros.
Não existe nada mais nocivo do que acreditar em castigos e pragas divinas, desvalorizar a intuição e deixar o próprio destino nas mãos de quem só está presente nos instantes de conflito interno.
Pobres daqueles que evitam encarar a vida, olhos nos olhos, por receio de cair e macerar o corpo vezes sem conta.
Não há nada mais danoso do que viver com medo das sombras e em permanente cobardia.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 13 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 64 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
64
Pior do que perder a visão é não ter visão de nada, ficar na cegueira da dúvida sem decidir entre os caminhos que se ramificam diante dos olhos.
Pior do que perder a lucidez é abdicar da clareza de ideias e querer viver nas duas margens do mesmo rio, sem encontrar forma de o atravessar.
Pior do que perder a audição é não ouvir a voz da razão e limitar-se a escutar os torpes cantos de sereia que são enredos e tramas que somente conduzem ao engano.
Pior do que perder a consciência é não ter consciência dos actos e, principalmente, de tudo o que pode advir de cada decisão inconsciente.
Pior do que perder os sentidos é perder o sentido das coisas, ficar no limbo do pasmo por não saber identificar o momento certo de colher o que se plantou.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 12 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 63 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
63
Normalmente usamos o chavão “a vida é uma selva” para demonstrarmos indignação sobre um episódio qualquer. Mas, se aprofundarmos a ideia, chegamos à conclusão que podemos aplicá-lo a um dia completo. Vejamos:
De manhã cedo saímos para trabalhar e há sempre uma coruja ou um bufo, por trás de cortinas baloiçantes, a ver quem bateu a porta do prédio. Depois surge um babuíno a cravar um cigarro ou um morcego, que retorna à sua gruta, a perguntar as horas. Na fila do autocarro, há sempre papagaios a palrear alto coisas sem noção, e alguns ratos que tentam furar a fila. Durante a viagem, olhando pela janela, vemos imensos burros e camelos a conduzir e que, volta e meia, são ultrapassados por chitas cheias de pressa. No acesso ao metropolitano temos sempre algumas lesmas e preguiças a impedir passagem e há um ou dois hipopótamos com dificuldade em desviar o corpanzil para deixar passar quem quer entrar na carruagem. No interior da composição, já sentadas, vão bastantes pavoas emproadas, com os rostos untados de óleos, pastas, cremes e essências. Aqui e ali avistamos alguns suricatas a esticar o pescoço – ora para a esquerda, ora para a direita – como tentando detectar possíveis predadores. Há muitas hienas de gargalhadas estridentes, mas é só. Nesta arca de Noé sobre carris, também conseguimos ver um número considerável de pinguins vestidos com os seus fatos de gala. Chegados à estação pretendida, todos sobem as escadas como fossem gnus a trepar uma encosta íngreme depois de atravessarem o Nilo infestado de crocodilos.
Durante o dia cruzamo-nos com elefantes trombudos, gazelas esqueléticas e outros herbívoros a pastar nas esplanadas, jumentos de portaria, guaxinins a explorar papeleiras, melgas evangélicas, doninhas fedorentas e, em alguns pontos da cidade, um sem número de espécies exóticas, borboletas, mariposas, traças, que se misturam com formiguinhas autóctones, lebres apressadas e alcateias de lobos desocupados.
Isto para não falar dos escorpiões e lacraus venenosos, serpentes que querem ver alguém morder a maça, anacondas que abraçam em asfixia, aves de rapina a perscrutar as calçadas em busca de presas, e necrófagos a sobrevoar algumas carcaças, que já pereceram, mas não foram avisadas.
Digam lá se a vida diária não é uma selva!
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 11 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 62 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
62
Nem todos os dias são de erudição porque, quando Anúbis flutua entre as pirâmides, há óbito nos verbos.
Nem todos os dias são de sapiência porque, quando Thanatos deambula nos corredores de Partenon, há ocaso em cada verso.
Nem todos os dias são de nirvana porque, quando Yama percorre os jardins de Taj Mahal, fenecem os adjectivos.
Nem todos os dias são de luz porque, quando Freyja patrulha as muralhas de Valhalla, as consoantes perdem o brilho.
Nem todos os dias são de eloquência porque, quando Meng Po colhe as flores no Templo Pagode, as vogais perdem a memória.
Nem todos os dias são de cultura porque, quando Morrigan sobrevoa as cabeças dos druidas, caem as asas aos alfabetos.
Nem todos os dias são de reflexão porque, quando os deuses da morte se reúnem, não há sopro de vida que ressuscite as palavras.
EMANUEL LOMELINO
Emma Everston (excerto 9) - Ernesto Moamba
Peabiru (excerto 21) - CARLOS DOMINGUEZ
domingo, 10 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 61 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
61
Franklim nasceu feliz, teve uma infância pobre, mas feliz, foi um adolescente tímido, mas feliz, até que chegou à idade adulta… e continuou a ser feliz.
Toda a gente gostava de Franklim, do seu jeito simples de ser, mas com personalidade, do seu humor subtil e inteligente, da sua conduta irrepreensível e firmeza de carácter.
Contudo, muitos reparavam que, apesar de irradiar felicidade por todos os poros, Franklim tinha duas rugas de tristeza no rosto.
Um dia, em conversa mais íntima com um amigo de infância, Franklim confessou que, mesmo sentindo-se um homem feliz, andava um pouco frustrado porque não estava profissionalmente satisfeito – não gostava do trabalho que tinha. O amigo aconselhou-o a ir em busca daquilo que o pudesse realizar nesse quesito. E ele assim fez.
No início foi como estivesse a viver em constante êxtase, no entanto, com o passar do tempo, o rosto de Franklim ganhou mais rugas de tristeza, e toda a gente reparou.
Franklim passou a estar cada vez mais distante do mundo, deixou de demonstrar interesse nas conversas, as suas piadas perderam a graça, as conversas deixaram de ser interessantes. Já não era o mesmo homem.
O tal amigo mais íntimo quis saber o que se passava e Franklim admitiu que, apesar de estar mais envolvido com um trabalho apaixonante, não conseguia sentir prazer ao realizá-lo.
Desta vez, o amigo não deu conselho algum, apenas demonstrou preocupação com o ânimo de Franklim e expressou o desejo de voltar a ver a felicidade estampada no rosto dele.
Franklim decidiu dar dois passos atrás para se reencontrar. Na sua cabeça passou a ser preferível trabalhar em algo que se despreza, mas ser feliz, do que ter um trabalho que o realize, mas o deixe miserável.
Se a vida fosse uma novela tudo acabaria por se resolver e as coisas conspirariam em seu favor. No entanto, como a vida não é ficção pós telejornal, Franklim faz o trabalho que mais odeia, está mais longe de se encontrar e voltar a ser quem foi um dia. E as rugas são cada vez mais.
EMANUEL LOMELINO
Ilhas de paz (excerto 2) - Glória Gomes
sábado, 9 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 60 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
60
O maior inimigo de quem escreve é o ócio; aquilo que alguns chamam como falta de inspiração, mas eu prefiro apelidar de preguiça criativa.
Aqueles que se dedicam, de alma e coração, à escrita, desenvolvem técnicas e hábitos que deixam a mente sempre pronta para desenvolver um texto.
Aqueles que consagram o acto de escrever, fazem uso de diversos exercícios que fortalecem a espontaneidade de ordenar palavras, com desenvoltura e em qualquer circunstância.
Aqueles que, de forma regular, dão vida e utilidade aos seus raciocínios, sabem que anotar os pensamentos ajuda a criar memória e fluência na criação.
Aqueles que doam o seu tempo às palavras, sabem que nem tudo o que se escreve tem valor para ser público, mas não ignoram a importância dos textos deficitários no desenvolvimento criativo.
Aqueles que souberam criar hábitos regulares de escrita, treinaram a mente, exercitaram géneros e conceitos, guardaram rascunhos e textos medíocres, nunca são acometidos pela preguiça criativa, bem pelo contrário, até escrevem sobre o “nada” da mesma forma fluída como fazem quando escrevem sobre “tudo”.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 8 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 59 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
59
Quando o tema de conversa é a Vida, existem quase tantas definições aplicáveis como gente no mundo. Para uns é isto, para outros é aquilo, para alguns é aqueloutro, para os demais é assim, para poucos é assado, para os restantes talvez não seja nada disso ou tudo junto.
Um dos aspectos comuns a todas as opiniões, mas sempre esquecido, ou melhor dito, nunca lembrado, é o facto de a Vida também ser uma unidade de tempo variável e os relógios que a medem sermos todos nós, com a particularidade de raramente estarmos no mesmo estágio de medição, porquanto cada um tem a Vida à sua medida.
A maior diferença da Vida para as outras unidades de medida do tempo é a sua perecidade. Enquanto os anos, os meses, as semanas, os dias, as horas, os minutos e os segundos serão eternos e existirão para lá da existência de cada um, a Vida, na especificidade aqui explicada, termina com a morte daquele a quem serviu.
Seguindo esta linha de raciocínio, pode-se aferir que cada Vida é tão única como as impressões digitais.
Assim
sendo, à pergunta:
-
O que é a Vida?
Pode-se
responder:
- A Vida é… pessoal e intransmissível.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 7 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 58 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
58
Serafim, como todos os homens da sua aldeia, nasceu numa época de escassez e fome. No entanto, ao contrário dos outros, ele cresceu forte e saudável.
Apesar de ter ficado órfão muito cedo e não poder frequentar a escola, ele deu uso à sua inteligência, engenho e bravura para, sem emigrar, conseguir ter uma vida digna.
Em criança trabalhava à jorna, para todos os artesãos da aldeia, em troca de refeições, e aproveitava para absorver o máximo de conhecimento que podia. E foi tão lesto a aprender que, na adolescência, já era perito em quase todos os ofícios artesanais, chegando até a superar os mestres.
Com
os anos, a sua reputação cresceu tanto que os artesãos começaram a disputar os
seus préstimos e ele passou a ganhar mais do que refeições pelo trabalho efectuado.
Serafim era tão requisitado que os seus trabalhos começaram a ser pagos a peso de ouro e, rapidamente, ele acumulou uma pequena fortuna. Ganhou tanto que conseguiu comprar as oficinas da aldeia e agora é o patrão de todos os artesãos para quem trabalhou.
EMANUEL LOMELINO
Resistência - Terezinha Malaquias
quarta-feira, 6 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 57 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
57
Nesta bruma cerrada escondem-se os limites das sombras que nos fogem ao olhar e os enganos vestem-se camuflados de farol.
Nesta neblina fechada escondem-se os finais de tarde que nem os mais furtivos raios de sol conseguem iluminar.
Nesta névoa trancada escondem-se as margens vampirescas que se mascaram de anjos para levar-nos ao precipício.
Neste nevoeiro selado escondem-se as barreiras da ilusão com o simples e matreiro propósito de nos ocultar os embustes.
Nesta cortina de fumo espesso escondem-se as armadilhas sedentas de sangue, de quem, com esperança e boa-fé, se deixa guiar.
Os véus do engodo aproveitam-se da cegueira dos tolos e inocentes, como se o prejuízo dos desavisados fosse a única e suprema via para matar a fome da cobiça desmedida e cobarde.
EMANUEL LOMELINO
Peabiru (excerto 20) - CARLOS DOMINGUEZ
Emma Everston (excerto 8) - Ernesto Moamba
terça-feira, 5 de setembro de 2023
Diário do absurdo e aleatório 56 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
58
Pesa-me mais o cansaço dos passos dados em vão do que os quilos de horas que se acumulam nas pernas. Nesses intermináveis momentos de fadiga, o corpo dorido implora pelo mergulho na calmaria do sentir e pede para ser anestesiado por uma qualquer chuva de verão fora de época.
Ofegante é o desejo de permanecer imóvel, sem obrigação de estender os braços aos céus em preces de mudança. Há um pedido mudo que se revela uma necessidade imperativa de ver o voo das pombas brancas, mas o mundo continua a girar inclemente.
O crepúsculo já não é de paz e serenidade porque paira no ar uma cãibra que ignora a urgência de sossego e vazio. As madrugadas são lençóis de lava e as noites prolongam as vigílias inoportunas. O sono é picotado por cada som dos megafones motorizados que fazem derrapagens tão imprudentes quanto estridentes.
Então vem a alvorada com marcas no rosto porque o sol que nasce não é novo, mas sim o pleonasmo do anterior – mais passos em vão e horas acumuladas nas pernas.
Assim passam os dias que enrugam a pele e gritam a monotonia cruel costurada nos caminhos. Uns chamam-lhe destino, outros creem ser fado. Isto é apenas o desassossego da vida e há mortes mais dramáticas.
EMANUEL LOMELINO















