sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Gênero e Imigração (excerto 24) - WANIA MELO

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Embora a crise econômica gerada pela pandemia da Covid-19 tenha fomentado desemprego em massa e transformado profissões de modo generalizado. As mulheres, especialmente as mães de crianças pequenas, foram as mais afetadas. Colocadas em situações limites nas empresas ou não encontrando formas de conciliar o trabalho com o cuidado com os/as filhos/as. A pandemia da Covid-19 escancarou um problema que antes era individual: o desequilíbrio nos cuidados com as crianças e a invisibilidade dessas tarefas perante o mercado de trabalho. Muitos dizem: ‘ah, não tenho culpa que ela quis engravidar’. Mas não se questionam como seria um mundo em que as mulheres não cuidassem mais das crianças? Não valorizam a importância desse trabalho de construir o futuro da sociedade. Se queremos adultos saudáveis, precisamos que essa conversa saia da esfera individual e vá para o coletivo. As pessoas precisam enxergar o papel social da mãe.

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domingo, 25 de setembro de 2022

Gênero e Imigração (excerto 23) - GLAUCIMARY NASCIMENTO TEODÓSIO

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O texto traz a reflexão autobiográfica de uma estudante de doutoramento brasileira em Portugal, com ênfase no período inicial da pandemia da Covid-19 no país. Como experiência específica, particular, pode também ser considerada uma amostra de uma situação maior e mais complexa, a de estudantes em mobilidade internacional, que optam por realizar integralmente um curso superior em outro país e, portanto, vivem também a condição de ser migrante. Trata-se de uma reflexão de como esse período particular aprofundou algumas questões já existentes, impactando inclusive nos estudos e na vida em geral.
O texto traz ainda como a rede de mulheres brasileiras em Portugal criada pela Plataforma Geni se configurou como um processo amplo de solidariedade e sororidade, com partilhas e apoios diversos, reduzindo os efeitos causados pela pandemia, especialmente quanto ao isolamento social. Com minha participação na rede, pude perceber como essas mulheres, que ofertaram e receberam apoios de diversos tipos, fortaleceram a ideia de que é possível encarar realidades complexas com ideias simples e que a coletividade fortalece os laços e dá novos sentidos ao viver. 

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terça-feira, 20 de setembro de 2022

Gênero e Imigração (excerto 22) - LUANA C. DE SOUZA BASTOS

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Migrar é um fenômeno presente desde os primórdios, no entanto, os agentes impulsionadores foram sofrendo metamorfoses. A socióloga Saskia Sassen em seu artigo «A Massive loss of habitat» (2016) alude sobre a perspectiva das pessoas migrantes serem expulsas dos territórios que viviam, contudo premeditado por uma lógica econômica excludente e perversa devido à expansão da mineração, agricultura, disputa de água e expansão das cidades. Essa visão trazida por Sassen é importante para manifestar o que é ocultado pelos Estados e organizações quando desenvolvem ferramentas sociais e econômicas que não abrangem a realidade macropolítica e, por conseguinte, negam a complexidade do fenômeno da migração.

O fluxo migratório para Portugal tem suas características e a segunda maior população imigrante no país é brasileira. Desde 2006 a sociedade portuguesa está a receber altos números de pessoas imigrantes brasileiras comparado aos anos anteriores, tendo queda em 2010 e novo aumento em 2016 (Portugal, 2017). As pessoas imigrantes brasileiras deixaram o país de origem por ausência da sensação de segurança, expectativa com a economia até então próspera em Portugal e desejo por melhoria da qualidade de vida. Ademais, o atual perfil do fluxo migratório brasileiro é composto pela feminização (12,46% são mulheres dos 20,26% de pessoas imigrantes brasileiras em Portugal) (Portugal, 2017), pessoas imigrantes com alto nível de escolaridade, pessoas empreendedoras, estudantes e pessoas aposentadas (França e Padilla, 2018).

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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Gênero e Imigração (excerto 21) - CAMILA LAMARTINE

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É durante a década de 1990 que se conhece o termo ciberfeminismo. Sua primeira atribuição se faz à a filósofa Sadie Plant, que o utilizava para apontar a relação entre mulheres, máquinas e as novas tecnologias numa espécie de aliança (Timeto, 2019). Como Plant referia, as mulheres sempre foram peças da cultura masculina, e, conforme a tecnologia avança, elas vão se libertando das amarras patriarcais e garantindo acesso social à opinião pública.

O termo ainda é atribuído ao coletivo artístico australiano VNS Matrix, devido à publicação do Manifesto Ciberfeminista, numa homenagem ao Manifesto Ciborgue de Donna Haraway (1995) que propôs a quebra de binarismos no mundo informatizado e digital. Para elas, a internet funcionava como uma verdadeira ferramenta de desmistificação e libertação feminina.

Estas ativistas expuseram, pioneiramente, a relação entre tecnologia e mulher a partir da ficção científica e da arte num questionamento acerca da dominação e do controle do espaço digital. Suas intervenções incluem revistas, eventos, instalações e cartazes, como o da figura abaixo, que apresenta o próprio manifesto

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sábado, 10 de setembro de 2022

Gênero e Imigração (excerto 20) - CAMILA LAMARTINE

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Com o boom da internet a comunicação se descentraliza no que compreende os grandes meios de comunicação, sendo, portanto, a primeira vez que se percebe uma apropriação de ferramentas comunicacionais da Web Social, o que reformulou possibilidades de transformações sociais (Galindo, 2016). Dessa forma, a internet passa a ocupar um espaço híbrido de interação e organização social, influindo diretamente no modo de comunicação dos indivíduos, tornando-os sujeitos da sua própria vida (Castells, 2013).

Esta relação desenvolvida virtualmente foi ponto de partida para o surgimento das redes sociais digitais que se constituem a partir da relação entre atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós da rede) e suas próprias conexões (interações ou laços sociais) – elementos pré-definidos, já que, “a abordagem em rede, tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar atores sociais nem suas conexões” (Recuero, 2009, p. 24).

O ciberespaço garantiu à comunicação uma denotação de horizontalidade, alterando e redefinindo a maneira como as interações comunicacionais e informacionais eram anteriormente firmadas, ainda mais no que tange o espaço e o tempo. Isto, especificamente no caso do feminismo, permitiu uma maior pulverização das ideias e ideais para o debate das mulheres, constituindo em si própria uma nova epistemologia feminista que vem a questionar as diversas desigualdades de gênero e as relações da mulher com a cultura eletrônica, com a ciência e com a tecnologia (Martinez, 2019).

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segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Gênero e Imigração (excerto 19) - MARIA CAROLINA VIEIRA

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Pela falta oportunidades no mercado de trabalho e a necessidade de ter uma forma de levar comida para casa várias mulheres se arriscam a empreender mesmo estando ainda irregulares no país e isso pode acabar por ser perigoso, pois afinal coloca essas mulheres a mercê de chantagistas e pessoas que podem usar de má fé. Um caso que acompanhamos de perto foi o de uma mulher que tinha acabado de abrir um pequeno salão de beleza próximo à casa dela com o intuito de fazer unhas e revender produtos cosméticos. Era apenas uma sala com uma porta para a rua e se pagava 300 euros de renda mensal direto para o proprietário, sem contrato de aluguel. Com a pandemia de Covid-19 ela fechou o espaço e explicou que não conseguiria pagar a renda do mês, porque não estava mais podendo trabalhar e pediu que aguardasse até a situação se normalizar minimamente para que ela pudesse acertar os meses em atraso. O proprietário não aceitou e ameaçou invadir o lugar e colocar as coisas dela na rua. Após algumas orientações em relação ao decreto do governo que suspendia os despejos, ele se predispôs a esperar até que ela resolvesse tudo.

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terça-feira, 30 de agosto de 2022

Deixa-me - ITANIRA SOARES

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Deixa-me espreguiçar em teu corpo nu numa volúpia de gozo e carinho, como quem quer medir, pesar, avaliar tua performance, tua virilidade, teu vigor.
Deixa-me ser bailarina mesmo que ainda em rodopios e na ponta do pé, meu corpo tome conta do teu, tonta de prazer, enroscando-me freneticamente em seus braços longos e fortes sobre os meus esvoaçantes e macios.
Deixa-me tomar conta de ti com sentimento de criança quando descobriste o brinquedo que te deu prazer ao esconderijo de tua alma.
Deixa! Deixa eu te dizer que os arrepios dos meus dias adolescentes eram beijos solfejados de desejos, eram músicas assoviadas de lânguida ternura.
Deixa a juventude voltar contente sem mágoa, sem choro, sem angústia.
Chega devagarinho como quem ser feliz novamente.
Abraça meu corpo como quem tem fome e sede de carinho, como quem pede sem pedir, quer sem querer e reforça a força do amor enfraquecido.
Deita e sente a temperatura da minha pele onde os poros suam emoções acumuladas.
Vem com sede ao pote.
Vem que ainda há tempo para sermos felizes um dia.

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Gênero e Imigração (excerto 18) - MARIA CAROLINA VIEIRA

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Sabe-se que nos grupos de brasileiros/as do Facebook há um grande alcance de pessoas e que neles é possível encontrar muita informação sobre regularização e entidades de apoio a imigrantes aqui em Portugal. Contudo, mas diante dos relatos, percebemos que essas informações passam por vários ruídos e que as experiências individuais colaboram para dúvidas e paralisação, principalmente das mulheres, por medo de não fazerem o procedimento correto e acabarem ficando expostas ou atrapalhando a situação delas no país.
O alcance da Rede Solidária da Plataforma Geni se deu em sua maior parte online, mas sua parte offline expôs a realidade de várias mulheres imigrantes em Portugal na qual a internet, informações e direitos enquanto imigrantes não é algo tão acessível e simples quanto parece. Diante disso passamos a olhar com um olhar ainda mais sensível e empático para essas mulheres, afinal todas saíram do Brasil com o sonho de uma vida melhor, mais segura e mais próspera e a pandemia da Covid-19 expôs algo que muitas ainda nem tinham consciência que é a falta de informações e acesso às estruturas básicas e necessárias para iniciar uma nova vida com mais qualidade e ciente de seus direitos e deveres.

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segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Espiritismo no mundo (excerto) - PEDRO SILVA

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Por mais que procuremos, as evidências ao espiritismo na Antiguidade não mais muito concretas. Existe um esforço actual de integrar algumas frases e noções bíblicas com a doutrina espírita mas quanto a nós temos pouco a que nos agarrar de forma muito concreta.
Mas, ainda assim, as palavras de Moisés, no Antigo Testamento, levantam algumas questões que não podem ser escamoteadas. A dada altura refere, aos seus ouvintes, que o verdadeiro Deus lhes pede para não recorrerem a adivinhadores, a mágicos ou a quem fale com os mortos. É aqui que nos vemos confrontados com uma confirmação de que, à época, o espiritismo, a comunicação com o além e a adivinhação eram fenómenos incontornáveis da sociedade.
Também por isso alguns teólogos vislumbram no surgimento, e forte impacto, da religião cristã como fruto de uma grande descrença das comunidades da época em fenómenos difíceis de confirmar, em serviços prestados por pretensos profetas, burlões de então. Havia um clima de cansaço moral, até mesmo de enfartamento de crendices populares e o cristianismo simplificou imenso as coisas, tornando a visão mais estreita, dando um caminho e uma fé renovada aos seres humanos.
Apesar de o espiritismo considerar o estudo da Bíblia à luz dos seus princípios, como fonte fundamental, defendem que a palavra de Deus não está na Bíblia, mas sim uma certa transmissão dos acontecimentos, do passado, entrando em confronto directo com os cristãos. Nada disso, no entanto, inibe o espiritismo de acreditar que Deus é eterno, imutável e o todo-poderoso.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

sábado, 27 de agosto de 2022

Lições do alto mar (excerto) - ANANDA LIMA

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O físico também requer cuidados. Então, buscar um profissional nutricionista para orientar uma alimentação saudável faz parte desse processo, atividade física também. Confesso que, nesse aspecto sou bastante relapsa, mas tenho estabelecido uma luta íntima para me disciplinar. A caminhada me atrai, dá sensação de liberdade, aproveito o momento para pensar questões do cotidiano e para conversar com o meu anjo guardião.
Essa vivência me fez constatar a existência de alguns desertos durante a jornada. Esses desertos são momentos específicos, temos consciência de que poderemos ter todo o amparo familiar e de amigos, mas a vivência é nossa. Ninguém poderá viver por nós, passar pelo que precisamos passar. Podem nos acompanhar, mas não podem nos substituir. Então, essa tomada de consciência é muito importante para nos fortalecer e encorajar diante do medo e da incerteza, para trazer confiança às pessoas que estão cuidando da gente e, principalmente, para contribuir com o tratamento. Podemos ter os melhores médicos, os melhores recursos, mas se não contribuirmos com o nosso emocional, nossa postura, ficaremos pelo caminho. Em muitos momentos, tive medo, não conhecia os procedimentos, não sabia das reações, como reagiria. Mas ia com medo mesmo, confiando na ciência e em Deus.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

A namorada do diabo (excerto) - TEREZINHA PEREIRA

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Eulália era moça direita, rezadeira. Fazia novena a Santo Antônio, puxava terço nas festas dos três santos, rezava ladainha no mês de maio e via-sacra na quaresma, ia em romarias a Aparecida. Passava dos quarenta anos. Sua falta de formosura era remediada pelo seu zelo com as coisas da casa, do trabalho e da igreja. Não perdia festas: bailes, quadrilhas, barraquinhas. Quase sempre, dizem, tomava chá-de-cadeira.
Certa vez, como todas as moças casadouras da cidade, passou o dia inteiro se preparando para o “Baile da Primavera”, na época, a festa mais concorrida. Emperiquitou-se toda. Chegou a dizer às amigas que, naquele baile, arranjaria um par. Nem que fosse o diabo.
Foi realmente um grande baile. Uma orquestra de sucesso, “Cassino de Sevilha”, tocava os famosos boleros da época. O salão permaneceu, tempo todo, cheio de casais dançando com animação. Muitos rapazes das redondezas participavam da festa. Meio a tantos desconhecidos, surgiu um galã alto, moreno, olhos verdes. (Disseram ser parecido com o Robert Taylor, ator famoso, dos mais belos.) Dissimuladas, as moças caminhavam por perto do bonitão, falavam mais alto no intento de serem notadas e então, convidadas a uma dança. O que não imaginavam era que a escolhida fosse a Eulália. A própria. Aquela que, em toda festa, quase nunca arranjava sequer um par. Reboliço no salão:
− A Eulália? Como é que pode? O “Robert Taylor” a dançar com a Eulália? Com a Eulália! Não é possível!

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quinta-feira, 25 de agosto de 2022

A indiferença fez a diferença - ITANIRA SOARES

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Você não coube no meu coração e deixou-o vazio enquanto transbordava amor por aí afora.
O meu coração era um pequeno grande órgão exorbitante de amor que não tinha lugar para você.
Você saiu pela mesma porta que te deixou entrar escoltado pela indiferença de ali ficar.
Você não soube amar o meu amor. Não soube querer o meu querer. Desperdiçou desejos, jogou fora prazeres, banalizou o que de mais belo e profundo existia dentro de mim.
Não foi bom ver-te lento e trôpego voltar caminho.
Não foi bom soltar tua mão e dar-te um basta e hoje ver-te preso a um bastão em tuas mãos trêmulas.
Confesso entre as paredes do meu coração que ainda captura teu olhar lá atrás com alguns respingos de dor molhando a pele do meu rosto transtornado, petrificado, angustiado e também envelhecido.
Não foi bom esse resgate de memória que me veio à tona.
Minha verve tremeu quando meu olho não conseguiu parar para segurar tua mão buliçosa e escrever junto o poema da nossa vida.
O cerne da minha alma e do meu coração se tocaram de dor e se estremeceram de agonia.
Foi um toque mágico no olhar, foi um choque elétrico no sentir, foi luz se esvaindo sobre nossas vidas quando a indiferença fez a diferença naquele fatídico dia de nós.

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O cubo (excerto) - STEPHANYE CALIXTO

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A porta imensa abriu, quis sair correndo, mas a estrutura de vidro exigia que os passos dados para fora fossem cautelosos e calculados, há meses vivia num cubo. Não um cômodo, um cubo. De vidro, sem portas e janelas, fazendo com que visse o mundo levemente ofuscado, participando vez ou outra interagindo com o lado externo, entretanto sem senti-lo... sem toque, cheiro ou qualquer sabor, nem sequer lembra exatamente quando e como foi parar ali dentro.
Tudo pareceu natural como se o cubo fosse sua verdadeira casa desde sempre, nada era tocado e tudo que não era sua própria existência ali dentro era plano distante e intocável. Em certas manhãs despertava de sonhos em que o cubo havia sido quebrado sem que os estilhaços cortassem sua pele, noutros visualizava a si mesma do outro lado e tentava quebrar o vidro com socos cada vez mais violentos que lhe arrebentavam as mãos. Comunicava-se aos gritos como se ninguém nunca escutasse direito o que dizia, fingia agradecer a sorte que tinha por estar protegida dos possíveis riscos do exterior, chorava afogando-se nas próprias lágrimas e de uma forma sombria sentia cada vez mais apego pelo vidro pois era o que lhe restava. Esforçava-se ajoelhada como se implorasse um milagre, mas nada nunca acontecia. Ouviu dizer que mercúrio voltará ao seu movimento normal e quem sabe assim um milagre, um beijo.

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Gênero e Imigração (excerto 17) - MARIA CAROLINA VIEIRA

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Todas as transações e prestações de contas foram feitas na base da confiança e com o intuito real de ajudar quem mais precisava, também houve quem não tivesse como contribuir financeiramente mas dividiu alimentos com a pessoa mais próxima de si, houve quem se prontificou a ouvir e apoiar as mulheres que precisam apenas desabafar, houve as trocas de informações que foram muito importantes pois toda vez que alguém sabia de algo que pudesse ajudar sempre mandavam no grupo e compartilhavam a informação para que todas tivessem acesso, aumentando assim a chance de todas conseguirem sair da situação de vulnerabilidade. Algumas mulheres viraram amigas, descobriram que moravam próximas, outras trouxeram amigas de fora e quem não teve acesso ao formulário e assim, nesse clima de sororidade e solidariedade, a Rede Solidária da Plataforma Geni se manteve diariamente por quase 4 meses.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Sou apenas um banco de Amburana (excerto) - SIMONE SANTOS GUIMARÃES

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Observo os que por aqui passam e percebo em seus olhares e corpos curvados e cansados, a vontade de sentar. Não sentam, têm pressa.
Se pudesse, lhes diria: sentem-se aqui, usufruam de um tempo de descanso no banco da praça, a vida passa tão rápido, efêmera como uma flor.
Sim, muitos sentam em mim.
Sinto o peso de seus corpos, a fadiga da respiração e o suspiro de alívio quando se recuperam. Em outros, sinto o cansaço sem fim…
Alguns são jovens e sentam para namorar, ouço suas juras de amor, o estalar de minhas ripas ao vibrar da energia que pulsa do desejo — os que amam são os meus preferidos — não percebem a minha presença, fecham os olhos e se beijam. O beijo me faz relembrar como é bom ter alguém para amar.
Sim, sou um banco de praça, mas já amei.
Amei quando nem árvore era e percebi que alguém diariamente me alimentava, molhava a terra onde eu, ainda semente, germinava; a cada metro que eu crescia, ela comemorava.

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O que são lendas urbanas? (excerto) - PEDRO SILVA

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A própria noção do termo “lenda” remete-nos, de forma automática, para o campo da fantasia. Ou seja, estamos a tratar de algo que não podemos considerar uma realidade factual, a menos que alguém consiga provar o contrário. Ainda assim, não deixa de ser curioso sentir que todo este conjunto de lendas urbanas, das quais iremos referir uma selecção em seguida, tenha uma implantação tão forte junto da população em geral.
Para um autor, referir estas lendas, sem que as mesmas sejam tratadas textualmente, serve o propósito de dar ao leitor uma maior aproximação à fonte primária. Poderíamos tratar do assunto de uma maneira mais rebuscada, imprimindo uma versão mais trabalhada, mas isso tornaria a própria essência da lenda urbana como algo mais artificial.
Grosso modo podemos considerar que as famosas lendas urbanas, que são passadas oralmente, normalmente em um círculo de amigos, familiares ou, de forma mais ampla, dentro da comunidade onde nos inserimos, representam um conjunto de histórias que, à partida, podiam valer para várias pessoas, em determinadas situações, e que comummente são adaptadas à realidade de quem as conta.
Não é, como tal, raro que as lendas urbanas, ao serem contadas, comecem com o introito: “certo dia, meu pai (ou minha mãe, irmão, amigo, etc)…” ou, em alternativa, “um taxista (ou outro qualquer condutor) ia a guiar, calmamente, na estrada quando…”.

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segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Ancorando no porto (excerto 2) - ANANDA LIMA

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Certa noite, um mês depois de retornar para casa e ter terminado as sessões de rádio, senti uma dor intensa na mama direita. Em seguida, uma sensação de queimação interna, parecia lavas de um vulcão descendo e queimando. Fiquei assustada. Tentei manter a calma para não deixar a família em pânico, mas interiormente, comecei a pensar, o câncer voltou e agora veio pior. Pedia a Deus para estar errada.
Ao ir na médica, constatamos que foi uma reação da radioterapia. A médica explicou que é comum ter reações, apesar de pouco se falar. Normalmente, fala-se muito da quimioterapia. Em alguns pacientes é comum ter algumas reações após às sessões de rádio.
Fiquei muito aliviada após o exame e as orientações da médica. Entendi que passaria a viver com certo medo e sobressalto em relação ao meu corpo e a qualquer alteração.
Por outro lado, sentia-me ancorando no porto. Estava de volta ao meu lar, junto da minha família, livre do tumor. Realizados os principais procedimentos para o tratamento, agora era seguir e deixar que o tempo sinalizasse percursos. Sabia que vez ou outra seria levada para a embarcação, seja para fazer acompanhamento médico, seja a insegurança natural de quem teve um câncer.

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domingo, 21 de agosto de 2022

Jogo de xadrez (excerto) - SARA TIMÓTEO

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A tua mão repousa sobre o rebordo do cinzeiro enquanto me explicas o que se passou contigo durante estes anos de ausência. A verdade é que fomos namorados de adolescência e agora não sabemos como dirigir palavra um ao outro. Os teus olhos são inacreditavelmente azuis e o teu rosto parece esculpido a cinzel. Miguel Ângelo não te desdenharia como modelo para a Capela Sistina. Contudo, tu és moreno, não loiro. Não possuis aquela beleza robusta e musculada. És esguio e ágil. Moves-te de um modo predatório.
Tornaste-te num homem perigoso. Tens negócios em várias partes do mundo e investes na Bolsa. Decidiste que querias ver-me e, se te agradasse o que vias, ter-me mais uma vez ou quantas quisesses. Agora, para ti, trata-se de uma questão de tempo.
Eu faço o que sempre resultou contigo: abro as narinas e cheiro a tua pele. Fixo os teus olhos. As tuas pupilas expandem-se numa questão de segundos – as minhas também. Depois, digo-te não existir qualquer esperança para nós. Já passou muito tempo desde a última vez e eu estou apaixonada por outra pessoa.
Rimo-nos ambos à gargalhada. Trata-se de um jogo de xadrez – e funciona connosco.

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sábado, 20 de agosto de 2022

Vida - ITANIRA SOARES

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É a vida uma imensa roda gigante. Gangorra que sobe e desce. Altos e baixos pesando dúvida, incerteza. Balança de pesos e medidas. História de carochinha pensando verdade. Ciranda da dança infantil que tropeça os sapatinhos e vai!

É a vida passando numa brincadeira sem fim, em uma verdade sem par, uma correria desenfreada burlando as leis da vida de um coração sem norte, na busca da sorte.

É a vida abrindo e fechando os olhos quando a verdade e a mentira se agridem tentando descobrir o que vem, o que vai, as idas e vindas, as chegadas e as partidas, arfando inevitavelmente, corrida incessante sem paradas, sem estradas, a mercê de espaço, de luz de tudo.

No desejo de abraços, no afã do querer, marcas de bem viver se riscam, se arriscam, se chocam, se bordam, se rasgam, se costuram, se desenham, se pintam, se fazem, se refazem, se desfazem, se constroem, se reconstroem, se destroem, se formam, se reformam, se transformam.

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Gênero e Imigração (excerto 16) - MARIA CAROLINA VIEIRA

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O formulário da Rede Solidária da Plataforma Geni continha as opções de escolha para os pedidos de ajuda, eram eles: apoio psicológico, social e jurídico; conforme as necessidades de cada uma elas eram encaminhadas aos grupos de apoio específicos, como já informado, foram formados grupos de whatsapp com a sororidade como guia. Através do grupo de apoio social vimos a necessidade de ajudar financeiramente outras mulheres com alimentos, fraldas, produtos de higiene e até gás de cozinha e novamente esbarramos no problema maior da pandemia da Covid-19, como ajudar se não podíamos estar próximas e novamente recorremos à internet para isso. Informamos a situação nos grupos e fizemos “vaquinhas” usando um aplicativo onde era possível enviar e receber dinheiro na conta no momento do uso e ainda gerar um código para que a pessoa pudesse retirar o dinheiro na hora em qualquer multibanco (caixa eletrônico).
A recolha de doações em forma de dinheiro também foram feitas através de transferências bancárias para famílias necessitadas, que nos enviavam a nota fiscal para prestar contas às mulheres que ajudaram doando as quantias. Vale lembrar que as doações nunca tiveram valor estipulado e cada uma doava o que conseguisse. No meio da pandemia da Covid-19 a Rede Solidária recebeu uma doação de 200 euros de um coletivo feminista em Lisboa e que nos ajudou a apoiar 10 famílias naquela mesma semana.

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