domingo, 13 de fevereiro de 2022

1984, Nunca Mais! – NEWTON NAZARETH

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Não, nada aconteceu de extraordinário quando aquele ano passou pelo nosso calendário.
Ao escolher o título, estava me referindo ao momento mágico da leitura de certa obra, quando me transportei para as páginas daquele livro, me integrei ao cenário e vivenciei cada palavra do texto.
1984, de George Orwell (1903-1950), impressionou leitores do mundo inteiro com a sua narrativa apocalíptica. Esta foi construída com elementos tão familiares do nosso cotidiano que custamos a acreditar que seja uma ficção.
2021: eis que o pesadelo aos poucos se materializa.
De uma forma que o escritor não concebeu, mas com admirável paralelismo. A parecença entre obra e realidade está em toda parte: o ministério da verdade, a polícia do pensamento, a novilíngua, as teletelas e o big brother. — As iniciais minúsculas são minhas: é assim que se escreve hoje em dia...
O confinamento, o lockdown e o vírus vieram para ficar e é inútil esperar que tudo se acabe.
Precisamos interagir com a Vida. Foi para isso que viemos ao mundo que inevitavelmente deixaremos.
Até lá, faço da paráfrase a minha divisa: 1984, nunca mais!

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Olá, tudo bem?! - Halo, habari yako?! (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Motherland, fica às portas da cidade. Uma cabana à beira da estrada com um bar aberto ao exterior e duas salas a servirem de restaurante. Vamos para a sala mais interior. O ambiente não pode ser mais acolhedor, apesar da sua grande simplicidade. Para cada um dos dois sofás há uma mesa baixinha, nas paredes veem-se pendurados alguns posters sobre a Etiópia, desbotados pelo tempo. Antes do jantar um dos empregados lava-nos as mãos com água quente a sair de um bule de ferro todo ele trabalhado. A comida, essa foi exuberantemente servida num enorme tabuleiro redondo e continha montículos de carnes, vegetais e queijo de cabra fresco, dispostos num pão delgado circular com a textura de uma esponja branca.
Na Etiópia não se usam talheres para comer mas as mãos, detalhe que torna a refeição ainda mais apaladada e interessante. Aqui está um costume que deveria ser importado. Quem é que não gosta de ter menos louça para lavar a cada refeição? Para além de que comer com as mãos torna o convívio mais manifesto, desprovido de cerimónia. Foi uma verdadeira delícia e pagámos apenas trezentos shilings cada um. «Com toda a certeza, voltaremos mais vezes a este lugar»-pensei eu na altura.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Tempestade perfeita - VÍTOR PAIVA DUARTE

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Haverá um dia em que virás reclamar a tua parte de mim e me irás cativar o olhar com os teus seios nus e deixarás que os ventos que te sopram do coração se reúnam aos meus numa tempestade perfeita de amor que te fará colher todas as flores azuis da berma da estrada, para que delas se façam os lençóis do teu ninho de amor onde irão acontecer noites e noites de entrega do teu corpo ao corpo sedento do teu escolhido que te tomará para si como uma eucaristia a caminho da felicidade completa de espírito no mundo perdido das nossas paixões eternas!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

25 Setembro 1995 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Meu pai era, cada vez mais, como que um estranho no meio de todo aquele jogo de interesses que continuavam a passar-me completamente ao lado.
Bem, meu bom amigo, foi assim, apanhada neste mundo de hipocrisia, mentiras, traições e chantagens, as quais eu ignorava por completo, que atingi os meus dezoito anos.
Meu pai, talvez temendo que a morte o apanhasse desprevenido, decidiu dar uma grande festa para comemorar a minha maioridade. Não tenho a certeza disto, mas desconfio que o que ele queria festejar, era a sua esperança que ao atingir a maioridade eu percebesse tudo quanto me rodeava e me acautelasse quanto ao que o futuro tinha reservado para mim. Se foi essa a sua intenção, então tenho de confessar que o desiludi, de tão enganada que eu andava quanto ao que pensava ser todo aquele estado de felicidade que me rodeava.
Sabes amigo, mais uma vez, me fica a dúvida de quem terá sido a ideia de organizar tão badalada festa, de meu pai ou de minha mãe, que, posso afirmá-lo com toda a segurança, já andava mesmo amantizada, com o tal Dr. Meireles. Não a condeno por já não amar meu pai, se é que alguma vez o amou de verdade, mas condeno-a, isso sim, por não o saber respeitar, nem a ele, nem a mim.
Foi assim que cheguei ao dia em que festejava os dezoito anos, pretexto ideal para se organizar uma das festas, de aniversário, mais faladas em todas as redondezas. Não me restam grandes dúvidas, aliás, não me restam dúvidas algumas, tudo não passou de mais uma grande jogada de minha avó, de certeza em conluio com minha mãe, que não teve pudor algum em convidar o amante, algo que me deixou à beira de um ataque de nervos, que só não teve maiores repercussões porque meu pai me disse que iria esclarecer tudo, assim que ficássemos só em família.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

Cristo nasce no Brasil (excerto) - FRANCISCO DE CAMPOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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José e Maria, 25 de dezembro de 1983, vivem momento de enorme expectativa. Maria, grávida, está para dar à luz o prometido filho de Deus. O mais difícil, para os dois, é encontrar, no Rio de Janeiro, um lugar onde o bebê possa nascer com a paz que merece.
O casal bate, infrutiferamente, em muitas portas. Hospitais, obstetras, pediatras, postos de saúde... Ninguém atende seus apelos. Mansões, palácios, prédios colossais... Também daí não surge qualquer respaldo. A hora do menino Jesus nascer está chegando e, sequer, José e Maria dispõem de um ambiente adequado para isso.
Maria já não suporta as dores que precedem o parto. O menino vai nascer a qualquer momento. Isso é inevitável. Improtelável. José e Maria, então, resolvem entrar no primeiro galpão que encontram. Ao abrirem a porta se deparam com duas centenas de mendigos (alcoólatras, tuberculosos, leprosos...). Estes, ao contrário do que podia se esperar, lhes dão guarida.
PLATEIA EMOCIONADA: José e Maria têm mas não precisam apresentar qualquer argumento. Os moradores do barraco não requerem explicação. Sabem que uma criança está para nascer e, com muito orgulho, preparam-se para recebê-la. Até se percebe um clima de emoção no ambiente. A pobreza que circunda se torna pequena diante de tanta disposição à solidariedade.
Maria, finalmente, pode ter o seu tão esperado filho. O menino Jesus chora, como toda criança faz no nascimento, mas sem motivar preocupação aos pais e nem à plateia acolhedora. Por incrível que pareça aqueles carentes moradores do galpão sabem agir com a discrição que o momento exige.

EM - ECOS BRASIL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Memórias – MARIA LAURINDA RIBEIRO DE SOUSA (LAU)

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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            Não me lembro mais de nosso primeiro encontro. Talvez desde sempre você já estivesse presente.
 
            Ainda hoje vejo seu corpo articulado e seus olhos que se abriam e fechavam parecendo responder ao meu afeto. Mesmo quando um deles deixou de se abrir, permaneceu o meu encanto. Segurava você por uma perna e assim, de ponta cabeça, você podia abrir os dois novamente.
 
            Difícil foi quando de tanto te movimentar de cima pra baixo e de baixo pra cima, suas pernas começaram a se deslocar demais até saírem do corpo. Você permaneceu muito tempo sem pernas.
 
            Não, não devia ser muito cômodo ser assim maltratada. Mas, sabíamos as duas que essa era uma prova de amor; um jeito de testar nossa resistência às intempéries dos encontros.
 
            Sabe que nunca mais encontrei alguém tão tolerante? Hoje sou eu que me viro de ponta cabeça pra tentar acertar os meus olhos com os dos outros e, devo confessar, nem sempre consigo. 
 
            Foi pra você que fiz, com esmero, as primeiras costuras improvisadas. Também nunca fui muito boa nisso, mas você não se queixava do amontoado de tecidos com que eu ia cobrindo seu corpo, mesmo quando a agulha e a tesoura espetavam mais do que o necessário.
 
            E, quando aprendi a usar as primeiras canetas! Você ganhou desenhos coloridos que ficaram impressos em sua pele e resistiram aos banhos cheios de sabão que eu também ensaiava com... meu primeiro bebe.
 
            Era com você, também, que eu tentava enfrentar meu medo do escuro. Deitada ao seu lado eu inventava aventuras, recontava tudo que acontecia em nossas vidas e o que poderíamos fazer nos tempos futuros.  
 
            Você nem sabe mas, graças ao nosso amor, desenvolvi um prazer imenso em contar histórias.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Ocarina e Oboé (excerto) - CARLOS ARINTO


(cana verde de sopro, flauta de pã, pífaro e gaita de beiços)

– Que horas são?
– Ah! Ainda temos tempo.
– O que queres dizer com isso? Ignorar a minha pergunta e não me dizer as horas?
– Absolutamente
– Isso quer dizer o quê?
– Não quer dizer nada. Se soubesses o sacrifício que faço em estar aqui respondendo a perguntas idiotas…
– Estás-me a chamar idiota?
– É, como vês? Ser idiota é uma qualidade dos dias de hoje. Ser idiota faz parte do percurso… Limito-me a acompanhar a natureza. Qual natureza, adivinho que vais perguntar?
– Pois, não vou!
– Está bem, não perguntes…
Estamos ébrios com o Poder. Fomos eleitos e agora descansamos da orgia. Beijo o teu corpo que me sabe a “papéis de música” que é ao que sabem todas as ressacas.
O mal de ressacar é que quero sempre mais do teu corpo, dos eleitores, dos artistas, das vinganças e das coisas que ainda não sabemos que existem.
Pandemia nunca mais: vou assinar o decreto. Eu determino. Devo ter adormecido porque a perna começou a formigar. Tenho de fazer mais exercício.
– Diz-me, somos nós que estamos aqui?
– Sim, somos o planeta a galáxia ou as espumas de lava, poeiras e gazes e também seres moleculares, microscópicos ou infinitamente esporos e amibas – embora possam parecer “caravelas” ou orcas - que não vemos. Somos nós mesmos e outros e muitos e levíticas imagens sem peso, apenas ensaios, perfumes, cheiros. Cheiros a nevoeiros. Não, não façam tatuagens, elas escorregarão pela nudez dos mármores e se elevação dos templos até deixarem de existir, como colapsos e desmoronamentos sem fim, numa inversão da gravidade. A terra nunca será plana.
– Não compreendo.
– Não, ninguém pode compreender.
Cruzamo-nos num abraço sôfrego. Despenteamo-nos com os corpos transpirados. As nossas bocas unem-se, estamos conectados e somos um todo que se deseja, quer e recria.
A vida segue adiante.
Transplantamo-nos para uma sombra onde as intempéries não existem, aqui verdejam frescuras ondulantes que vibram.
Depois o tempo recomeça.
Sinto os teus seios pequenos contra o meu corpo, e és tu, outra vez. Sinto a curva do ventre e do vento que adorna a tua pele – na perpendicular das minhas mãos, na teia das minhas velas e remoinhos - como um linho engomado na diáfana fluidez da seda que esvoaça.

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Inácio – MARIA APARECIDA SILVA RIBEIRO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Inácio era um sujeito fácil. Difícil contornar a obviedade da rima e inútil buscar precisão maior em palavra outra que descrevesse Inácio, o extrema e incomodamente fácil. Gostava de se expressar em termos simples e tão clara sua argumentação que os colegas de Departamento o taxavam su.per.fi.ci.al. Mas Inácio tinha um dom, desconhecido da maioria dos que com ele conviviam: as coisas e pessoas se lhe projetavam com uma nitidez de doer nas vistas. Enxergava através da mais opaca das camadas de dissimulação humana. Farejava o falseio das formas a quilômetros de distância. Talvez, por isso, nunca estivera feliz por mais de trinta minutos.
Em um dia de muita solidão e desassossego, Inácio conheceu Manu. Já preparado para a desilusão habitual, não lhe dirigiu mais do que um olhar atravessado. Mas a nesga que contemplou da imagem longilínea de Manu fez Inácio estremecer. E embalado pelo sibilar de suas consoantes mornas, desejou – pela primeira vez na vida – não enxergar nada. Só ouvir e sucumbir. Deleite de sereia. Sentimento estúpido. Inácio adotou venda nos olhos como traje obrigatório nos encontros com Manu.
Fêmea única de uma família de machos, Manuela tinha no nome o Manuel que todos, sabedores do gênero prevalente, esperavam e, de antemão, batizaram. Caçulinha de longos cílios e pernas fortes, não tivera da vida os mimos que eram de se supor. Cedo aprendera que, para sobreviver entre homens, tinha de fazer brotar na cabeça o pênis que lhe faltava entre pernas. Manuela se virava. Do amor não conheceu mais que carícias roubadas, o apalpar compulsório dos velhos da família. As vertigens de curta duração. Um ou outro garoto na escola, mais aprendizes que. Manuela não era romântica. Tampouco tempo havia para o ser. Determinada a ganhar logo a vida, não iria dar de graça o que a natureza lhe cobrava exorbitâncias. Recendendo a mulher faminta, saiu de casa deixando à mostra: joelhos e contraltos.
No parque úmido de fim de tarde, Manu tomou assento no banco de pedra, o mesmo em que o funcionário público costumava pastar sozinho o sanduíche frio. Há tempos, já decidira: o salário certo e sabido daquele moço feio, de calças puídas e alimentação frugal, nas bem calculadas mãos de Manu, dava e sobrava para suas despesas mais regulares. Para todas as outras, golpes na hora inventados. Não seria difícil apossar-se de um coração mal nutrido, cujo dono perdia tanto tempo contemplando um improvável estado de felicidade íntima. Manuela viraria a Manu de seus sonhos míopes, mostrando-lhe apenas dotes correspondentes aos apetites inconfessos do moço. Os próximos meses estando, assim, garantidos. Ou, pelo menos, até que sua vida se estabilizasse, de fato; depois de abandonar aquela corja consanguínea que a natureza lhe resolvera dar por família.
Pouco tempo passado e as palavras de Inácio já ganhavam rebuscamento vazio, abundância lírica. Seu discurso já não fazia sentido. Ou, sentidos múltiplos, jazia entre o nada insatisfeito e o pleno de tudo. Inácio gozava e agonizava. Era o fim do sujeito fácil. Manu, senhora dos sortilégios, tirara de Inácio a única possibilidade de uma vida sem sustos.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Olá, tudo bem?! - Halo, habari yako?! (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Há muitas horas que deixei Melbourne e vou em direção a Lisboa. Neste momento estou a sobrevoar os Pirenéus, no entanto parece-me que isso foi há muito tempo! Vi Melbourne desparecer e, com ela, a tua imagem, a memória dos momentos que não chegaremos a passar juntos, a ilusão de poder ser a aurora de todas as tuas manhãs. Sei, no entanto, que uma coisa permanecerá para sempre a ligar-nos, trata-se de um quadro pintado a fogo onde um pássaro com asas de borboleta tenta pousar numa flor. Três elementos que se fundem em sonho e poesia que nos transporta para um espaço e um tempo que só a nós pertence.
Quando o nosso relacionamento terminou, filosofei muito acerca do amor e o que leva as pessoas a apaixonarem-se e ficarem juntas. Provavelmente, esta necessidade de filosofar sobre o assunto é recorrente quando se acaba um relacionamento. É incrível constatar a nossa vulnerabilidade perante as circunstâncias da vida filho. Por mais lógica que seja a razão que tentamos seguir, o que é tarefa fácil pois só depende da nossa vontade, há sempre uma altura em que se abre uma porta na nossa mente, deixando fluir uma torrente de emoção que circula em dois sentidos, em direção à alma e ao coração. E por vezes esta corrente, apresenta-se como um rio decidido em inundar todos os campos circundantes, fecundando-os por completo. Um rio assim, não pode ser travado por nenhum dique e, se a razão tentar filtrar-lhe as águas, estas perderão toda a vitalidade e sabor, estagnando por completo.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

domingo, 6 de fevereiro de 2022

Irás sentir saudades - VÍTOR PAIVA DUARTE

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Haverá um dia em que irás sentir saudades e virás arrastando o olhar pesado como as correntes que te prendem ao amor que condenaste ao degredo do abandono que, perdido no passado, já não consegue encontrar o caminho para o presente nem para ti, e irás buscar ao escuro das entranhas da memória os vestígios do seu sorriso, do seu cheiro e do seu sexo, e vais sentir, como facas enterradas no teu sangue, uma dor por cada macho a quem te deste sem amor, tentando mascarar a vontade do coração, e seguirás sem rumo e com um sorriso estampado na tristeza. Vais sentir como o teu orgulho escarnece da vida que levaste, consumida nessa febre de ilusões. E então, irás voltar ao mar, teu único refúgio para lavar a alma e fazer a penitência do passado, e só aí irás encontrar a redenção e a calma, e o teu sorriso voltará a florir em florestas de paixão, tanto que o brilho nos teus olhos há-de rimar sempre com amor, como se a vida fosse sempre poesia e a poesia fosse uma flor!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

25 Setembro 1995 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

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Olá meu querido amigo:
Tal como te prometi ontem, cá estou de volta para te contar mais um pouco destes meus vinte e cinco anos de vida, ou será que devo dizer vinte e quatro anos de vida e um ano de morta-viva. Sinceramente já não sei, tampouco me interessa.
Como te dizia ontem, foi quase sem dar por o tempo passar que atingi os dezoito anos, o que aconteceu em 1988, ou seja, numa altura em que a tranquilidade social voltara e minha avó já recuperara muito do que lhe havia sido tirado na consequência do 25 de Abril. Meu avô, entretanto, falecera.
Tenho a certeza, porque, apesar da minha idade, lhe li nos olhos, que morreu com a grande tristeza de não ter conseguido reaver muito do que levara anos a conseguir, algumas coisas, até as recebera de herança.
Assim que conseguiu recuperar grande parte das terras, minha avó tentou tudo de tudo para que a família voltasse a viver na vila de Lencastre, o que nunca veio a suceder, pois minha mãe dizia já não conseguir ir viver para um sítio perdido no meio do campo, algo que me fez acreditar, mais convictamente, que ela andava amantizada com um tal de Dr. Meireles, isto é, verdadeiramente a trair meu pai.
Não sei se foi por também já se ter apercebido de tal realidade, ou por outro qualquer motivo, a verdade é que meu pai nem pensou duas vezes, mudando-se de malas e bagagens para a velha casa de família na pacata vila, sempre na esperança de conseguir reerguer o negócio do mel. Eu, sem hesitar, decidi vir com ele, o que, tenho a certeza do que te conto, foi ao encontro dos desejos de minha mãe.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Luto – LUÍS EDUARDO DE CARVALHO

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Semíramis retornou à saída da pequena Enseada do Norte com o fito de ali depositar as cinzas de seu único amor, o jovem velejador Diogo Fidel que ali, naquele ponto exato da geografia marinha, possuiu-a pela primeira vez, em intensa volúpia, à luz do luar, a bordo de seu veleiro, ao som de canções românticas, sob o torpor do vinho, ao balanço suave das ondas.
Enquanto via o pó branco afundar no azul das águas, Semíramis confundia suas lágrimas com o volume do mar. Choro desmedido. Catarse absoluta. O único homem de sua vida. Avassaladora paixão consumida pela brevidade imposta pelo cruel destino.
O jovem barqueiro de aluguel foi paciente. Sabia o motivo do choro, conhecia a dor da jovem viúva. Na volta para o continente, ela não se conteve e atirou-se. Pobre do condutor da pequena embarcação, nada pode fazer para evitar. Quando se deu conta, ela estava sobre si, ávida pelo sexo mais selvagem que ele jamais voltaria a experimentar.


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

A Chave - ANA TEIXEIRA

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Sinto as palavras não escritas dentro do meu coração. Elas pulam e pressionam para sair, mas a caneta fica simplesmente imóvel sobre o papel.
Quando finalmente escrevo, sinto como uma janela se abrisse dentro de mim e mil borboletas fugissem para o oceano. Vejo muitos pássaros e minha alma fica mais leve.
É como se um coro de mil vozes infantis cantasse músicas natalinas.
É como se pessoas se encontrassem para não mais se separar, se amassem para não mais morrer de amor.
É como se Deus tocasse a Terra com toda a sua doçura de criação constante e mágica, despertando a consciência de sublimidade e o destino da felicidade.
É como se, por um instante, meu espírito saísse do meu corpo e sobrevoasse meus pensamentos.
É como se a humanidade desse as mãos, fazendo fluir a energia cósmica universal do Criador.
É como se percebêssemos o mistério de todas as retas, ângulos, círculos e todos os recursos da geometria celestial para o propósito da criação, da perfeição do Grande Arquiteto do Universo.
É como se um dia, os pensamentos humanos vibrassem em uníssono pela paz universal e pela fraternidade entre os povos.
É como se pudéssemos mergulhar nosso espírito no plasma vital que envolve todo o Universo e pudéssemos nos irmanar em pensamento com povos de outras moradas.
É como se pudéssemos respirar o ar benfazejo das montanhas sem precisar destruí-las.
É como se pudéssemos conquistar definitivamente as rédeas de nosso destino, resgatando erros do passado, elevando nosso ser ao que, de fato, a vida nos reservou como destino.
É como se conquistássemos para sempre a pureza do coração que o nosso Mestre nos exemplificou há mais de dois mil anos.

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A escritora e o maquinista – LUANA SCHRADER

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Foi o primeiro encontro, sem palavras, apenas olhares e imaginação aflorada.
A temperatura abaixo de zero arrepiava o corpo, mas algo aquecia o coração.
Eles não sabiam, mas naquele instante, naquele dia, tudo mudaria.
Dois jovens imaturos a procura do amor, entre encontros e desencontros, separados por milhas e quilômetros; mal sabiam que as almas eram velhas conhecidas, interligadas e conectadas, muito além do tempo, além-mundo.
Ela sentia e escrevia, buscava o amor nos corações errados, achava que amar era apenas na teoria e se escondia; não se dava a chance de descobrir como era se arriscar nessas linhas tortas do a|mar|, que facilmente poderiam a afogar.
Ele, intenso e propenso a amar, a se entregar e a sentir sem desistir; naquele momento apenas conduzia a sua tão sonhada locomotiva e não pretendia guiar o seu coração pelos trilhos de uma paixão desconhecida.
Ambos com sonhos, ela escritora e ele maquinista; ela sonhadora, ele realista. Opostos complementares, corações paradoxais apenas esperando o momento para mergulharem sem riscos de afundar.
Naquele momento, pela primeira vez, ela com o olhar na tela, ele com o olhar nela. Mal sabiam o que essa surpresa os traria, olhares na mesma direção e corações em harmônica pulsação. 

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

O relógio – LIÈGE DE MELO

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E minha criança hoje, para me alegrar, volta com suas histórias. Transmuta-me aos anos 60, onde pequena, é despertada pelo tictac musical de um relógio; sorrindo, segura a mão da sua avó, que calmamente lhe ajuda a sair da cama.
 
A voz da minha neta, indagando-me sobre seu tablet, me traz de volta ao presente. Ela sai, começo a refletir...
 
Relógios... ah, os relógios... Medem o tempo! Sim, medem... simples assim. Só que, no tempo de dentro, justamente aquele sem medidas, existe um, diverso de qualquer outro: o relógio de parede da bela casa do meu avô Pedro.
 
Por ficar centralizado na espaçosa sala de visitas, repleta de janelas, seu toque forte era ouvido por quem estava em qualquer cômodo e nas imediações.
 
Tudo bem, no entanto, aquele belo relógio de madeira, desde 1920 até o falecimento dos meus avós, teve uma marcação própria, conforme filosóficas reflexões do seu proprietário sobre a marcação do tempo (na sua casa) pelo natural transcorrer dos dias e noites.
 
Os dias iniciavam com a claridade solar e findavam na "hora do angelus".ㅤSim, esta era sua percepção de Dia: movimento integrado dos seres do planeta terra, sol, chuva, vozes, cantos e cheiros.
 
Noite: recolhimento, aquietação; o sol se pondo no horizonte, dando lugar a outra dimensão da luz através da lua, planetas e estrelas; pessoas e bichos em busca de seus habitats.
Quando os relógios comuns marcavam 6:00 horas da manhã, o seu marcava 1:00 hora do dia; os comuns 18:00 horas, o seu 12:00 horas do dia; após tal horário iniciavam-se as horas noturnas.
 
O almoço era servido às 6:00 horas do dia, o jantar após orações da hora "do angelus"; a partir de então, a rotina transcorria à luz de lamparinas.
 
É pitoresco recordar quão suaves e bucólicos eram os toques do cair da tarde: o sol com cores crepusculares, pássaros em canto de retorno, meus avós fazendo orações de gratidão e os trabalhadores da lavoura nos cumprimentos de baixar a cabeça tirando o chapéu em ritual de boa noite.
 
Por volta de 2:00 h da noite (20:00h) vovó levava as crianças à apreciação das maravilhas do céu. Falava de constelações “grupos de estrelas entrelaçadas por profunda amizade”; planetas, “corpos celestes semelhantes à terra, girando no universo”. Inúmeras eram as indagações sobre vidas naqueles universos.
 
Às 6:00 horas da noite o toque do relógio lembrava a "hora forte", começava a madrugada, que terminava justamente às 12:00 h.
 
Ao ressoar da última hora da noite, por costume rural, todos já tinham acordado, feito seu desjejum e iniciado as atividades daquele dia que à 01:00h já estava em pleno ritmo laborativo.
 
Volto a escutar uma risada conhecida...é Nanda com os jogos do seu tablet...é presente outra vez...
 
No espelho da memória, a menina dos anos 60 se foi feliz com o som musical do relógio do seu avô; no quarto, uma senhora de sessenta anos sorri consciente da efemeridade do viver e seus significados.
 
Em dias de rotinas "on-line", smarts variados, blogs e redes sociais, um relógio do início do século XX pode ser visto como valiosa peça de antiquário, ou belo guardião de singelas e emocionantes memórias alusivas a pessoas inesquecíveis como Antônio Pedro de Melo, meu amado avô.

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Bem Vinda - Karibu (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

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Combino com o taxista que me traz à embaixada para me apanhar às onze horas e depois levar-me às Nações Unidas. Subo ao décimo andar e apresento-me ao primeiro secretário e à Joana, uma das secretárias administrativas. Ambos se revelam incrivelmente prestáveis e simpáticos. Falam-me da vida em Nairobi e aconselham-me a registar-me na embaixada.
– Se os tumultos do Verão que passou voltarem a repetir-se sabemos da sua existência e onde encontrá-la, caso tenha de ser evacuada.
Onze horas, onze e um quarto, onze e meia, e o taxista não dá sinais de vida. Observo os peões e os carros que circulam. «Não há dúvida que aqui sou estrangeira», não tanto pela indumentária mas pela aparência e atitude. Uns têm um aspeto distinto, andam direitos de passo seguro e a avaliar pelo traje yuppie e a sua relaxada expressão facial, não se devem queixar da vida que têm. Mas a maior parte da multidão parece cansada e tem um certo ar desalinhado e sujo. O exotismo, sobretudo das mulheres, ressalta à vista. Vestem-se com panos coloridos, cangas, trazem echarpes que esvoaçam ao vento e usam penteados de trancinhas que pendem sobre os seus ombros ou cobrem a cabeça com um véu, se são muçulmanas.

EM - KIPEPEO SAFARI (A VIAGEM DA BORBOLETA) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD - IN-FINITA

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O nosso abraço - VÍTOR PAIVA DUARTE

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Haverá um dia em que tu virás com saudades do meu abraço, e o teu corpo carente de afetos vai querer voltar à mesma paz e ao mesmo calor que sentia quando se vinha refugiar em mim, a meio da noite, com o coração alvoroçado pelo medo do escuro e do futuro, e me abraçavas com tanta força que o mar de lençóis brancos em que dormíamos me fazia lembrar o paraíso onde tu eras a minha Eva que procurava em mim protecção, apenas para me dar sorte e me fazer sentir forte.
E nesse dia tão desejado, eu estarei à tua espera, de braços abertos para te receber, e voltarei a envolver em mim o teu corpo, e irei abraçar-te com todos os sentidos. E farei prolongar pela brancura serena da tua cama, como se fosse a espuma da praia, o prazer de te ter em mim, e serei o teu protetor. E nesse abraço infinito irei entregar-me a ti com um longo beijo, de olhos fechados, e tomarei do teu corpo uma demorada dádiva carnal como se de uma cerimónia iniciática se tratasse, e tu voltarás a ser minha e o nosso abraço será eterno e nunca mais nenhum de nós temerá o futuro porque tu serás o meu anjo da guarda e eu serei o teu protetor, e o nosso mundo estará sempre dentro do nosso abraço!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

24 Setembro 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Neste caso concreto, o que lhe chamara a atenção, fora a legenda que acompanhava a foto publicada, “Olhos cor de mel”. O facto de ser um comentário que sempre julgou como sendo só seu, pois além de seu pai, não conhecia mais ninguém com olhos cor de mel, despertara-lhe a curiosidade. Abre os olhos, interrompendo a visualização que, ainda agora, lhe provoca algum desconforto.
Mel, traumatizada por tudo quanto vivera ao lado do marido, nunca poderia imaginar-se a meter conversa com um desconhecido, mesmo que este possa, tal como ela, ter olhos cor de mel. Uma coisa tem como certa, não fora o caso de se sentir protegida por não ter de se dar a conhecer, e não teria ousado ir em frente.
Quarta-feira, 25 de Abril de 2018, o dono de tais olhos cor de mel não demora a responder ao comentário que ela publicou na suposta foto dele. Dizia chamar-se Lourenço e ser um jovem de 50 anos que se encontrava semiperdido na vida. Segundo ele, a razão desta sua desorientação momentânea, devia-se a ter acabado de sair de um doloroso processo de divórcio, pelo que não sabia, nem bem nem mal, para onde orientar a sua vida. Sendo essa a única razão porque resolvera publicar aquela fotografia com tão singela legenda.
Mel recorda-se de como, indo contra tudo quanto o seu bom senso lhe recomendava, ousou acreditar nele, o primeiro homem em quem acreditava desde que se vira privada do convívio com o seu amado pai, logo um completo desconhecido. A primeira coisa que se lembra de lhe ter perguntado, foi o porquê do processo de divórcio ter sido assim tão doloroso a ponto de o deixar completamente desorientado quanto ao que fazer do seu próprio futuro.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

24 Setembro 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA

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Ao chegar a este ponto de leitura dos acontecimentos que são a sua própria história de vida, e não a de qualquer outra pessoa, Mel, sente necessidade de beber um daqueles licores, de produção própria, que têm o condão de lhe acalmar os calores que, apesar de estar completamente nua, parecem querer queimá-la, mais por dentro que por fora.
Mel, apesar de nunca ter sido uma mulher viciada no álcool, adora um bom licor e, desde há algum tempo a esta parte, fazê-los é um dos seus prazeres, o que além de lhe permitir controlar o teor alcoólico dos mesmos, também lhe permite ter sempre dos que mais aprecia, nomeadamente tangerina e poejos.
Após pousar o diário no sofá, levanta-se, encaminha-se, muito devagar, para a pequena mesa tipo meia-lua, sobre a qual se podem ver uma série de garrafas, só com licores de sua produção. Apesar de se ter mudado para ali há pouco tempo e não receber visitas assiduamente, pois os traumas resultantes dos mais de vinte anos de casada, durante os quais se sentiu mais um animal sem vontade própria que uma pessoa, ainda não lhe permitem levar uma vida social muito agitada, preferindo a pacatez do lar e a dedicação à causa daquelas que sofrem como ela já sofreu, tantos e tantos anos, Mel faz questão de manter o seu stock de licores sempre bem fornecido.
Escolhe uma das garrafas, mais concretamente a que contém licor de tangerina, enche um dos pequenos cálices e leva-o à boca. É ao sentir o contacto do fino rebordo do cálice com os seus lábios, que ousa fechar os olhos e sonhar com outros lábios, pouco se importando em perder tempo a tentar identificar a quem poderão pertencer, visto ter a certeza que só poderão ser os de Lourenço. Uma certeza ela tem, os do ex-marido é que não serão certamente.

EM - DIÁRIO DE MEL - FRANCIS RAPOSO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Filha Selvagem – ISA PATRÍCIO

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Minha voz honra a elevação firme, é cantada ao luar e em cada renascer se esquece da noite anterior para poder cantar continuadamente. Jamais esta voz se rebaixa ao negrume da opressão, à castração soberba porque ela nasceu para ser elegante, por vezes feroz, para se erguer diante vil tirana.

Oh, viva voz que se afirma, que fala de poesia profana e sagrada, bom uso nos métodos de esclarecimento curando silêncios.

Nas labaredas do fogo santo dança a filha selvagem, descalça, com o peito meio descoberto, a saia contornando os joelhos e acompanhando o movimento do corpo numa alegria extasiada. Índia indomada, coração livre, espírito infindo, donzela, maga, mestra do seu ritmo que ora às sete luas e aos nove sóis para que a natureza se resgaste no íntimo e regenere.

É a filha selvagem que sente o caminho da alma, bússola encantada, escoltada de beleza verdadeira faz quanto pode para ser intrínseco seu valor.

Melhor pedra de toque para experimentar o verso do poeta, seguindo métrica transparente no fluxo essencial. Ela beija a alma do poeta como uma chancela lacrada nas iniciais do seu cancioneiro, que vislumbre acarreta doce ocasião.

Somos filhas selvagens que dão bem a conhecer a sua expressão, compreendendo especial graça, quão certa prosa de estilo.

Filhas selvagens isentas de nomes... Sabem quem são!

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA