sexta-feira, 7 de janeiro de 2022
24 de Setembro de 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
A viagem - Safari (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD
quarta-feira, 5 de janeiro de 2022
Encontro inevitável – DAGMAR SANTANA JESUS
Um certo dia, uma mensagem cruzou o seu dia, mas ela já estava cansada, alma cabisbaixa, não leu. A irmã, consumida de curiosidade, angustiada achando que era uma mensagem do seu ex namorado, a fez abrir e buscou o perfil invasor, mas ele já não existia. Ufa, a rotina retomou!
O dia passou, e logo outra mensagem chegou! Desta vez, a jovem parecia criança e morria de rir pois estava escrito: "Tenho um grande defeito, adoooooooooooooroooooooo beijar". E como uma adolescente desvairada atingida pelo Bom humor em busca do primeiro namorado, respondeu: "Ah, então agora eu vou aprender", passando o número do seu telefone imediatamente.
Ela não sabia que, ao responder aquela mensagem, estaria reescrevendo o seu destino e se colocando à prova de um furacão. Uma ligação e lá estava ele do outro lado com voz de grave e macia. Coração palpitando de medo e tentada ao desconhecido, o fez rodar de um bairro ao outro sem querer dar o endereço correto.
Até a ligação retornar, as coincidências os aproximaram e o mapa da rota dele mudou de direção até encontrá-la. E como um convide à visita, ela disse: "Venha, mas não vou abrir o portão. Tudo bem para você? A ideia era manter a distância e assim deveria ter sido o combinado.
Ele chegou, os olhares se cruzaram, e a pele gritou. Abriu o portão, e o coração e a vida dela mudou. Eles se apaixonaram e aqui estão como no primeiro encontro, coração palpitando, olhares dançantes e suspiro ofegante à espera dos beijos e dos toques, compartilhando a vida, os filhos e os sonhos. Enfrentaram tempestades, mas o barco se acolheu em uma ilha e lá ficou. O tempo não passou, os ventos se acalmaram e se tornaram brisas. Naquele cantinho, fizeram vários caminhos amarrados entre si para ninguém se perder.
EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
Equívocos – CLÉVIA WESTPHALEN
Quando ele a convidou para jantar e comemorar o Dia dos Namorados ela estranhou, mas aproveitou a oportunidade para executar o plano tão sonhado. Estaria segura em um lugar cheio de gente. Não ousaria agredi-la. Indispensável chegar bem antes da hora marcada.
Ele chegou sorridente e com um lindo buquê. Disse que ela estava bonita e pediu um vinho. Sorriu, tensa e alerta. Delicadezas assim não eram do temperamento dele. O plano de terminar tudo ficava - à medida que o tempo passava e as gentilezas continuavam - mais difícil de executar. Bebericou o vinho, mal tocou na comida.
De repente, ele ficou sério, apertou o queixo dela, exigiu que não desviasse o olhar. Você sabe por que estou tão bonzinho, querida? Não? Não sabe? Quer adivinhar? Apavorada, não respondeu. Acariciava os cabelos dela, sorrindo e ameaçando baixinho. De vez em quando fazia uma graça com ar sedutor. Quem visse pensaria numa cena de amor. Ela só conseguia pensar na mala. Será que o garçom deixou a mala à mostra? Será que ele reconheceu a mala? Será que era amigo do garçom?
Vou embora, sua tonta, odeio você, tenho uma namorada linda, louca por mim sussurrou, entre dentes, num crescendo de ofensas. Ela, respiração suspensa, não ouvia mais nada. Sua atenção estancou no "vou embora". Quase não conseguia disfarçar o alívio, mas continuava muda. Finalmente ele se levantou, pegou o buquê e acrescentou, vamos repartir, meu bem, eu fico com as flores, você fica com a conta. E saiu, dando risada.
Ela respirou fundo e pediu um café. Mal acreditava na sorte que teve. Fez uma ligação de celular e ninguém atendeu. Insistiu, nada. Verificou as mensagens, nenhuma.
O restaurante estava quase vazio. O último casal se retirou. Ela pagou a conta, levantou-se, vestiu o casaco e se encaminhou para a saída.
O garçom perguntou e a mala, senhora? O que faço com a mala? Tenho certeza de que você saberá dar um bom destino a ela, respondeu. E saiu, leve e segura. Sentia que flutuava.
EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA
domingo, 2 de janeiro de 2022
24 de Setembro de 2018 (excerto) - FRANCIS RAPOSO FERREIRA
sábado, 1 de janeiro de 2022
Maternidade – CLÁUDIA CARVALHO MENEZES
“Mãe é padecer no paraíso...”
“Coração de mãe não se engana... “
“Mãe sempre sabe o que faz... “
E por aí vai, uma lista enorme de mesmices para todas as mães, nem tão mesmas assim. E quão super qualidades! Até mesmo de adivinhar o futuro:” mãe sempre sabe o que é o melhor para o filho.” MAS, paremos para pensar que por trás de uma mãe existe uma mulher, tão humana como qualquer outro humano e que de super, tem apenas o desejo de o ser, como todos os outros humanos!
Será possível acolher a mulher-mãe, humana e que na sua humanidade forja o seu super!
- Quantas incertezas durante toda a gravidez!
- Tantas incertezas durante toda a educação!
- Será que vai dar certo assim?
- Vamos tentar desse jeito, daquela maneira...
- Tentando e acertando, tentando e errando...
Não há receitas de bolo. Reconhecer os erros é tarefa difícil, no entanto necessária para se tentar acertar. Cada pessoa(filho/filha) é uma pessoa.
E nesse emaranhado de dizeres (mãe é... mãe não é...), surge uma mãe solitária na tarefa de cumprir tão difícil desígnio, destino, missão... Temos de libertar a “mãe” desses mil artifícios que aprisionam a maternidade numa tarefa de reproduzir filhos(mulheres/homens) iguais para manterem o mundo no “tudo como esta´”.
Temos de gritar não. A mãe não é 100%, simplesmente porque não precisa ser, basta ser ela mesma, humana. E o mais incrível, é que revestida desta verdade essencial, a maternidade tem sua nobreza engrandecida, pois é envolta nessa humanidade com suas limitações, que se enfrenta a missão de ser mãe.
De fato, mãe não é a pessoa e sim a atitude, mãe é em si a maternidade: capacidade de gerar um novo ser, no ser que nos tornamos a cada momento. Essa sublime e divina tarefa de ser humanamente mãe, mãe humana é que é verdadeiramente transcendente, divina, capaz de gerar! Gerar seres humanos únicos e autônomos.
Reconheçamos, em todas as mães, mulheres que únicas em si mesmas seguem se construindo e ajudando a construir o mundo.
A viagem - Safari (excerto) - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
Um dia acordamos e tudo é normal! – CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES
- está muito grande, essa semana ela menstruou!
- oh! e ela tem idade para isso?
- sim! ela tem nove meses e irá fazer a cirurgia.
- cirurgia? cirurgia de quê?
- ela será castrada...
- castrada? por quê?
- tem no contrato dela de compra e venda...
- ela não poderá ter filhotinhos! o que você acha disso?
- não sei, não pensei a respeito disso
fiquei entorpecida! lembrei que me criei vendo animais, como galinhas e bois, sendo castrados para engordarem e serem comidos pelo homem.
era tudo tão normal...
lembrei das belas aves, aprisionadas nas gaiolas, cantando para o deleite de seus algozes, outras com suas asas cortadas para não mais voarem e serem cativas para o resto de suas vidas breves!
lembrei da escrava Isaura com sua boca amordaçada, para não falar o que seus donos não queriam ouvir.
lembrei das mulheres mutiladas para não sentirem o prazer no ato do amor.
lembrei do grito silencioso das mães separadas dos seus filhos, para darem leite aos filhos das sinhazinhas.
era tudo tão normal...
lembrei dos atuais milionários, cheios de dentes nas bocas, indo para o espaço.
lembrei dos pedintes e imigrantes com seus cartazes nos semáforos do meu bairro: "tenho fome"
lembrei dos pobres de espírito que vivem da corrupção e da ladroagem
lembrei dos políticos e suas politicagens
parece ser tudo tão normal...
lembrei da célebre frase: "os fins justificam os meios"
oh! Deus! não consigo achar nada normal!
voltei-me para inocência da minha interlocutora mirim, para a história de sua linda cachorrinha.
fui dormir pensando e acordei pensando nelas.
na menina que ainda não pensa e na cachorrinha que ainda não sente.
para primeira: qual o sentido da vida? para a segunda qual a finalidade de sua vida?
ambas pegaram o trem no meio do caminho, não sabem para onde estão indo ou melhor para aonde estão sendo levadas.
tudo é normal? o ser a serviço do ser? nós o que somos?
QUO VADIS DOMINE
terça-feira, 21 de dezembro de 2021
Caxica – CARLA DE SÀ MORAIS
Foram
sem dúvida as férias de verão mais espectaculares que ela viveu. Filipa desejou
que elas nunca mais chegassem ao fim.
Naquele
ano, os seus pais, sempre receosos pela sua saúde frágil, deixaram-na na Caxica,
uma das fazendas de café do tio António, irmão mais novo do seu pai.
Quando
se entrava na fazenda, era preciso percorrer cerca de 2km até se chegar à casa.
A estrada, era em terra batida e ao longo dela e de cada lado, uma grande mata
repleta de árvores e arbustos floridos e de animais que por vezes se
surpreendia a passearem descontraídos.
Quando
por fim se avistava a casa, era uma grande casa térrea, de estilo colonial e as
suas paredes eram revestidas com mosaicos de cor alaranjada; tinha um terraço
coberto por uma trepadeira de flores amarelas e o pátio era tão grande, que
podia acolher mais de 20 automóveis. Tinha 12 quartos e 10 casas-de-banho, 1
grande sala de refeições e 2 salões enormes para as festas e recepções.
Na
parte de trás, havia o equivalente a um bosque e uma parte dele tinha sido
transformado em jardim. Uma grande mesa rectangular decorava este espaço, assim
como gaiolas gigantes com pombas e pássaros de várias espécies, vários baloiços
aqui e ali e até um coreto tinha. Mais afastado, estavam as capoeiras com
galinhas, patos e perus, os currais com porcos, cabras e ovelhas e os estábulos
com dois cavalos magníficos.
Para
uma menina da cidade, que vivia numa casa dita normal, tudo aquilo era
deslumbrante.
Mas
o seu tio, não era só o dono e o gestor da Caxica, o seu tio era o enfermeiro
voluntário que cuidava da saúde física e emocional, dentro das suas
competências, de todos os trabalhadores, habitantes da fazenda, que eram seus
empregados, que por sua vez, passavam a palavra a outros da região e arredores.
Os
dias foram passando a brincar e tratar dos animais, a andar a cavalo com o
rapaz da estrebaria, e baloiçar em todos os baloiços.
A
comida era ótima e variada. O João, que era o mordomo e também o chefe
cozinheiro, levava-a para a cozinha e deixava-a ajudá-lo nas coisas simples.
O
que ela gostava mesmo, era de vê-lo fazer o pão com ovos que ele depois moldava
em trança e era servido todos os dias ao pequeno-almoço, quentinho, com
manteiga e doce de maracujá ou papaia, de manga ou ananás. Omeletes e ovos
mexidos ou estrelados, com os ovos acabadinhos de pôr pelas galinhas, chouriço
frito, e bifes, bolo de mandioca ou de milho. A mesa era farta e o pessoal doméstico
também usufruía desta fartura.
A
Francisca, era a sua camareira. Era doce e meiga.
Tinha
começado a frequentar a escola há um tempo atrás, e já lia algumas frases.
Ficou radiante quando viu os tantos livros coloridos da coleção ‘’Anita’’ que a
Filipa tinha levado. O momento de ir para a cama, tornou-se festivo. Todas as
noites, depois do banho, sentavam-se as duas no chão a lerem todas aquelas
estórias. Houve mesmo uma vez que adormeceram as duas, uma contra a outra até ao
dia seguinte. Foi uma grande risada e foi assim também que veio a ideia de
pedir ao tio António se deixava dormir a Francisca no mesmo quarto que ela; pedido
que foi aceite.
Naquela
fazenda, esquecia-se o rebuliço do quotidiano, a vida era vivida com sossego.
O
tio António era uma pessoa pousada, calma e muito generosa. O mesmo não se
podia dizer do seu capataz que estava sempre em desacordo com ele e de quem
todos tinham muito medo; até a Filipa o evitava.
Uma
semana antes das férias acabarem, o tio António levou a Filipa em todas as suas
expedições pelas fazendas e pelas aldeias onde viviam os empregados que
trabalhavam nas roças de café e apesar de só ter 10 anos, viu o humanismo no
trato que o seu tio tinha com aqueles trabalhadores, que quase de Sol a Sol
labutavam. Ouviu-o com frequência dizer que precisavam de se repousar um dia ou
dois e quando eles se negavam por causa do medo que tinham do capataz, ouviu-o
também dizer, que ele mesmo lhe falaria.
Este testemunho de altruísmo, de bondade e empatia, ficou para sempre gravado no espírito da Filipa, fazendo com que ela crescesse com verdadeiros valores e com respeito por todo o ser humano, independentemente da sua condição sociocultural.
EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA
sábado, 18 de dezembro de 2021
Tempestade de verão – ATÍLIO CIRAUDO
Como uma tempestade de verão, você vem, tumultua todos os meus sentimentos e me enche, como água barrenta, tudo que os anos assentaram cordialmente para que as tristezas não viessem tomar conta do que já é e foi determinado. O tempo levou o que antes ainda estava imaturo e indefinido, que interrompido por impulsos levianos não deixou evoluir o que antes eram doces ilusões, juventude que despertava. Mesmo conflituados os desejos vinham como ânsias do novo, impróprios ou não, eram vividos e sentidos sem consequências externas.
Diversas tempestades vieram e foram, como sempre é. Umas anunciadas outras repentinas.
Mas, o incomodo da última, a atual, não cala a sua intenção; buscar no passado as respostas que num único e simples momento ter sido consequentes para o ato derradeiro: o rompimento definitivo da amizade.
Busquei abrigo e encontrei na saudade, na tristeza e na solidão aliados que me nutriam, confortando-me e fazendo-me crer que o passado já tão longe ia e que nada traria de volta, restando minúcias do que estava perdido. E perdido me encontro agora, sem abrigo e dúvidas me assaltam. Tenho realmente consciência do que posso encontrar? Buscar somente na impulsividade, o que é fato, é o caminho mais propício? As referências já não existem e não sei qual foi o trato que recebeu da vida, se conserva o doce do olhar, o carinho da entrega, o afeto na compaixão, o afago na dor, o sorriso na alegria de amar, a tudo e a todos.
A fúria dos ventos que arrancam minhas raízes desenterra do profundo o que se fazia isolado e esquecido, rompem partes, mantem intactos os mais puros e reais sentimentos que organizados suavemente por uma leve brisa anunciando que esta, por fim, esta tempestade passou. E como diz a canção “... qualquer dia amigo eu volto a te encontrar”. E assim será, mesmo que seja somente em mim, dentro, guardado como já está.
EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA
quarta-feira, 15 de dezembro de 2021
Criação – ANTÓNIO ALMAS
Percorro com a ponta dos dedos a
imaginária linha do teu sorriso como um pincel decorando-os de carmim. Invento
o toque pressionando o vazio e sentindo como me devolve a sensação de pele, a
textura dos poros arrepiados dum corpo nu tocado pelo olhar das letras.
Abstraio os demais sentidos, quero
focar-me na possibilidade de tocar o nada, fazer dele tanto que estás ali
sentada, pousando para um olhar clínico de quem não vê senão com a ponta da
alma.
Sinto! Sinto tanto que parece ser real aquilo que invento. Há uma sensação morna no ar, o calor dum corpo despido mesmo à frente do meu rosto, um silêncio mudo que diz tanto como se houvesse palavras a flutuar nos teus cabelos escorridos.
EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA
sábado, 11 de dezembro de 2021
Quintal I – ANCHIETA ANTUNES
No meu quintal não permito vilania, nem raízes de ódio, muito menos a espreita de tocaia no tronco da figueira. No mercado da vingança o ganho é pífio, com taxas de alto risco, sem garantia de retorno, ou com retorno negativo. No quintal da minha casa plantei uma “piccola” semente com promessas de frutos, de grande sombra para proteger a pureza dos sonhos banhados com a luz da esperança.
No meu quintal as raízes são vistas através de um solo de vidro, para evitar duvidas, principalmente, para não achincalhar o conceito da virtude, a pureza da oração da aurora. Sonhos e realizações fervilham no cadinho do amanhã. No quintal da minha casa planto mil flores, mil cores no caleidoscópio da felicidade em andamento nos trilhos da liberdade de expressão. Observo Deus verter suas lagrimas puras para dar vida às sementes que não canso de plantar; não preciso regar, nem podar: apenas observar seu crescimento, desfrutar das fragrâncias, das sombras, dos frutos. No meu quintal vivo o “dolce fare niente” da coisa conseguida, do fato consumado do sorriso que escancara a alegria na boca, nos olhos, no coração. A cruz que tenho que carregar nos ombros foi feita de gravetos, e pesa menos que a súplica de perdão.
EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA
sexta-feira, 10 de dezembro de 2021
No dia da sua morte – ANA TEIXEIRA
Não estava porque a morte não existe, então, você viajou.
Você estava com as estrelas, os planetas e o sol, no vasto infinito do universo. Estava refletindo sobre sua existência, seus amores, seus desamores. Sim, desamores, porque, embora ainda longe da perfeição, você não sabia sentir ódio, nem mesmo de um pernilongo que te acorda no meio da noite.
Então você foi colocando tudo numa balança e a cada segundo surgiam novas lembranças e novos pensamentos. A mente não tinha descanso; estava povoada de sentimentos, emoções e pessoas.
De repente, você se lembrou de que havia morrido...
Imediatamente foi transportada para o jardim do hospital. Era tão bonito e tão florido, que nem parecia um hospital.
Aproximou-se um homem de meia-idade, grisalho, alto e magro, com uma expressão leve e receptiva. Parou próximo ao banco em que você estava sentada e ficou olhando para você.
Imediatamente um pensamento invadiu a sua mente: acho que terei de partir.
Mas o homem de semblante calmo nada dizia, nada fazia. Somente observava.
Você ficou intrigada e teve curiosidade de ver o seu corpo.
Imediatamente você foi transportada para a singela capela que ficava anexa ao hospital.
Havia somente três salas e uma delas estava ocupada.
Você viu muitos amigos e familiares próximos e outros que não via há tempos. Todos com semblante triste.
Você tentou falar com eles, mas todos estavam alheios à sua presença. Somente um gato no canto da sala olhou para você e abanou o rabo. Ficaste feliz por um tempo, mas logo o bichano levantou e saiu.
Então você criou coragem e aproximou-se do caixão. Levou um susto grande e só não desmaiou porque estava morta...
Nesse momento, aquele distinto senhor que estava no jardim apareceu e fez menção em amparar-te. Como estava muito fraca, aceitou a ajuda.
No momento em que seus braços a envolveram, você sentiu o chão desaparecer e tudo aquilo foi se tornando um vulto, uma memória distante.
O tempo passou. Dias, noites, semanas, meses. Você não conseguia saber a dimensão do tempo passado. Mas sentia-se mais viva do que nunca. Saudável, mais jovem, com mais vitalidade. Não sabia explicar como.
Agora você trabalhava com crianças. Auxiliando-as em sua educação. Aquele lugar era uma escola, muito linda, reluzente, ampla, com todas as janelas iluminadas pelo sol.
Não se comparava a lugar nenhum na terra. Era muito melhor.
Você estava feliz.
sábado, 4 de dezembro de 2021
Entusiasmo – ALINE BRANDT
Quando eu não estiver mais aqui... Abra todas as janelas. Gosto da casa bem arejada. Compre livros novos... Mas lembre-se de cuidar dos antigos. É fácil encontrar companhia em histórias. Caminhe, descalço, pelo jardim. A sensação de liberdade é indescritível. Tome banho de chuva. Faz bem para a alma e recarrega as energias.
Vá até uma padaria. Peça café e um pedaço de torta de chocolate. É preciso, de vez em quando, se permitir exageros. Sinta o perfume das flores. Em meio a um jardim florido bons sentimentos se multiplicam.
Ouça, ao amanhecer, o canto dos pássaros. É revigorante ser acordado com tamanha gentileza. Observe o nascer ou o pôr do sol. Sempre gostei mais de dias cinzentos. É impossível, contudo, não se alegrar com a beleza do céu em um dia ensolarado.
Dance ao som de Elvis Presley. Não se incomode se parecer, aos olhos de outras pessoas, careta ou ultrapassado. Música boa não tem prazo de validade.
Quando eu não estiver mais aqui - e não souber o que lhe cai bem - vista-se de amor... Espalhe amor... Seja amor... Porque o mundo está precisando de gente disposta a oferecer bons sentimentos.
Enquanto eu estiver aqui, contudo, abrirei janelas... Comprarei livros... Caminharei descalça... Tomarei chuva... Frequentarei cafés... Sentirei o perfume das flores... Acordarei com o canto de pássaros... Observarei o sol... Dançarei ao som de Elvis Presley... E vestirei amor. Farei tudo isso em sua companhia... Para que tenha boas lembranças quando eu não estiver mais aqui.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2021
Michelle – ALESSANDRA BARCELAR
Já tinha aquilo dentro de mim. À noite, quando o único som era o dos ratos andando pelo telhado, eu cobria o rosto. Deixava minha mão descer. Fazia medições para ter certeza do que era ter aquilo.
Sentado de frente para uma janela no centro da cidade, começo a temer pelo encontro marcado para daqui a pouco.
“Faz mais de quinze anos que você foi embora e nos deixou nessa latrina. Com que direito aparece agora?”
“Saí, porque meu corpo só carregava um”.
“Você é um bosta. Acha que sua carteira aberta é uma parte de benevolência”.
Virei as costas e fui em direção à porta do quarto. Temia vê-la de uma forma diferente daquela que conheci anos antes.
“Vamos à benzedeira. Tudo tem jeito nessa vida. Só não tem jeito pra morte”.
“Pra morrer basta estar vivo”.
Seu corpo arfava sobre a maca. Braços amarrados com gazes. Olhos catatônicos. Um tubo enfiado pela boca e lábios arroxeados. Sobre o corpo, um lençol já amarelado pelo uso em outros corpos deixa parte de seu colo nu à vista.
“Sua mãe acha esse jeito estranho. Pergunta se nunca reparei em nada.”
“A loucura faz parte. Acho que é só um jeito de pensar que sai descarrilhado da cabeça”.
Minha irmã chorava copiosamente sentada numa cadeira. Amparada pelo banana do marido, questiona Deus.
As pessoas pelos corredores. Éramos fantasmas para elas. Cada um tem seus próprios doentes e recebe suas más notícias a seu tempo.
“Que porra é essa no seu caderno? Quem é? Eu não acredito que Deus me castigou assim!”
“Sua mãe perguntou sobre essas coisas no seu caderno. Eu disse que era brincadeira de alguém da escola”.
A pele dela há muito era um leito de rio seco. Os lábios roxos em nada lembravam a vivacidade vermelha de outrora. Será que ela ainda tem aquele cheiro? Levei uma surra um dia porque mexi nas coisas dela. Perfume. Batom. Pó. A mangueirinha do chuveiro abriu vergões em minha pele. Chorei por todos os motivos. Passei vergonha na escola.
“Sabe, eu te defendia na escola. Briguei quando te zoavam. Uma vez fiquei com o olho roxo. Aí, um dia, você vira as costas e some.”
“O mundo só é grande se a gente abre espaço”.
“Claro que ela não iria aceitar, mas ela chorava feito pedra minando água”.
Logo vai chegar minha tia. A boa samaritana da família. Usa saia e faz tudo que o pastor manda. Vai me olhar inquisidora. Perdeu tudo, menos a pose. Cumprimentará minha irmã. A filha que ela queria. A filha que ela tentou roubar da minha mãe. Até berço comprado já tinha. Não era justo uma menina bonita naquela miséria.
Ainda há fios espalhados aqui e ali pelo seu couro cabeludo. Suas fotos da juventude mostravam um cabelo volumoso. Usava bobes para fazer os cachos. Nas excursões para a praia, nunca molhava os cabelos. Dizia que frequentava os bailes dos anos 70. Deve ter dançado Jackson Five e Donna Summer.
“Ela nunca soube que era você quem mandava o dinheiro. Eu dizia que era da venda de Avon”
“Todo suor dá dinheiro”.
“Eu fingia não ouvir as piadas quando passava no bar. Às vezes, eu pensava em estourar e virar um diabo doido lá dentro. Sei que te achavam uma aberração e que a culpa era minha. Para os outros, a culpa é do pai, que não deu exemplo”.
“O exemplo é só uma embalagem para não derramar o que tem dentro”
Meu pai apareceu com o médico. O doutor colocou a mão em seu ombro e fez um afago. Passou pela minha irmã e fez o mesmo. Diante de mim, um susto. Perguntei a ele se ela conseguia entender algo. Ele disse que naquele estado ainda resta consciência. Ela ouve? Sim.
Abri a porta e a enfermeira pediu licença. Coloquei a mão sobre seu colo e segurei sua mão. Senti-a fria, mas ainda arfava sob o lençol.
- Eu fiz a escolha certa, mãe. A senhora não aceitou nunca, mas a natureza da gente é um bicho que não dá pra domar. Mãe, eu te perdoo. Guardamos rancor demais pra levar agora. Eu só queria um pouco de atenção, porque eu sempre soube do que eu gostava.
Chorei e abaixei a cabeça. Beijei sua testa já gelada. Seu peito subiu alto. Cheio de ar.
Um apito ininterrupto tomou conta da linha verde na máquina ao seu lado.



