domingo, 10 de outubro de 2021

A cela - ANGELITA GUESSER

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Sexta-feira 16 de outubro, saio da sala que religiosamente frequentei por 10 anos, desço os poucos lances de escada e já estou na rua. Caminho pelas calçadas de Pelotas, sutilmente coloridas por seus imensos ipês amarelos. Me dou conta que é início da primavera. Estou parada na esquina da Andrade Neves com Gomes Carneiro por mais de 10 minutos. O vento suave traz o cheiro agradável das flores que recobrem os canteiros dos edifícios, me causando uma sensação agradável, mas meus pensamentos, estão agitados como um furacão. Com grande esforço consigo ordenar alguns poucos, e repasso mentalmente as orientações da terapeuta. Meu coração, bem mais acelerado que o normal, prenuncia um ataque de pânico. Aceitei a alta, agora tenho que ser forte. Sempre soube que nunca fiz ou farei algo de imponente na vida, nunca construirei monumentos ou catedrais, mas acabar com as conquistas acumuladas com muito custo nesses anos de terapia, seria como assumir a continuidade do trabalho de Jack Estripador, em mim mesma, repetidamente. Continuo a caminhar por mais duas quadras, e não conseguindo controlar a respiração me encosto no grande paredão de cimento cinza que está à minha frente. Fecho os olhos, na tentativa de retomar a lucidez. Tento respirar lentamente, uma, duas, dez vezes, sem sucesso. Ainda imóvel, com os olhos fechados, encostada na segurança do paredão que não me engole, lembro da técnica de visualizar uma praia deserta, o mar, as ondas – qualquer coisa que me traga um pouco de estabilidade. De repente sinto a respiração retomar seu ritmo normal, sinto meus batimentos desacelerando, acredito que sobreviverei por mais 30 minutos, tempo suficiente para eu chegar em casa. Retomo o trajeto que idealizei por quase uma década, e com passos apressados num ritmo fora do normal, levanto a cabeça e me torno alheia às pessoas que passam por mim. Sigo em frente sempre, vez ou outra os transeuntes esbarram em meus braços, agora trêmulos. Retomo a confiança de 15 minutos atrás, a mesma que me fez sair de cabeça erguida do consultório, continuo a andar. Só penso em Denis, em Giovanna e o quanto quero lhes falar, dizer que me sinto livre depois de uma vida inteira de autoflagelo. Quero estar em casa, estar pronta para seguir, reconstruir nossas vidas de onde paramos. Percebo o movimento frenético das pessoas aumentar repentinamente. Parecem estar com algum tipo de ânsia, vejo o céu escurecendo e todos fugindo da possível tempestade que se aproxima. O vento aumenta sua velocidade fazendo com que folhas e flores rodopiem em todas as direções, num balé frenético, descompassado, mas hipnotizante. Fico tonta só de olhar, sinto meu corpo girar junto com as folhas; o vento está bem mais forte, não mais exala o odor agradável dos jardins, mas sim de fumaça e terra. Parece que estou levantando voo, meus pés mal tocam o chão, só consigo me concentrar em chegar em casa, preciso contar-lhes que tudo acabou, que estou livre. Os primeiros pingos da chuva tocam minha face e, desorientada com toda a agitação das pessoas, percebo que estou perdida, tranco a respiração para manter a calma e sinto alguém me segurar pelo braço. Adélia me seguiu até ali, ela olha firmemente dentro de meu pânico e me conduz até seu carro. Adélia é uma mulher negra, alta e magra, dona de um porte intimidador, mas seguro, também é dona do poder de transformar realidades, principalmente as doentias. Ela é a responsável por me fazer acreditar na capacidade de superação que todos carregamos. Com sua ajuda, em poucos minutos, me encontro parada na portaria de meu prédio. Procuro sem pressa a chave em meus bolsos, até que as encontro inesperadamente em minhas mãos. Permaneço parada por mais algum tempo, tomo coragem e rumo para o saguão. Aperto com as mãos trêmulas o botão do elevador, mas desisto, procuro a porta que leva às escadas. Subo os treze andares e percebo que pouco restou para me impedir de enfrentar o que está atrás daquela porta. Subi com meus próprios pés aqueles treze andares, e dependo deles para chegar até o topo. Quando giro a chave e abro a porta, o tempo volta a correr e me deparo com minha imagem refletida na vidraça — uma mulher frágil com as mãos amarradas. A realidade me assalta e por trás dos vidros vejo Giovanna com seu vestidinho branco, bordado, enfeitado como de uma princesa, linda!, perfumada, sandálias sem meia, como sempre. Há quantos dias não contava o tempo? Por que entregar-se a um hábito sem perguntar a razão? Entre um momento e outro de lucidez lembro que estou ali para uma rápida visita. Ainda apoiada no batedouro da vidraça, os flashs das imagens do corpo de Denis no chão me roubam o momento. Ouço o arrastar de adeus dos pés de Giovanna, com grande esforço olho mais atentamente e vejo Adélia parada ao meu lado. Já é hora de retornar para a cela.

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sábado, 9 de outubro de 2021

Fuga no Quilombo - ANAMARIA ALVES

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Quando a vida valia menos que um pano de prato.
Festa de formatura de Marília. A menina tornara-se professora. Após anos de esforço para estudar na velha Belo Vale, a 8 quilômetros do Quilombo Chacrinha dos Pretos. Professora quilombola, nem sabia que o seu gesto mudaria a vida de pessoas que se inspirariam em sua história de quem não teve o que comer e ia para a escola com fome, de quem não possuía um uniforme só para si e dividia com as irmãs.
Na festa de formatura, a moça estava proibida de dançar com qualquer homem que não fosse o seu pai. Entretanto, o pai não conseguiu chegar a tempo e ela dançou com um rapaz para não perder a dança. Seu pai chegou no momento em que a valsa terminava, foi para junto da mãe e agiu como pai orgulhoso da conquista da filha. A primeira de oito filhos.
Acabada a festa, nada foi dito e a família foi para casa. Na noite seguinte, o homem chegou bêbado. Todos dormiam.
– Maria, vai chamá a menina!
– Deixa a sua fia dormir, homi di Deusu!
– Eu tô é mandano!
A esposa não chamou a filha. O homem se enfureceu e pegou uma cadeira. A mulher começou a correr e gritar.
– Genti, levanta! Seu pai tá cum o demonho no corpo!
Todos os filhos se levantaram. Eram oito. Sete meninas e um rapaz. Dona Maria pegaria as coisas para sair correndo, mas o homem acertou a cadeira em suas costas. Até hoje não se sabe explicar de onde a mulher tirou forças. Pegou um pano de prato e pôs-se a correr com oito filhos pelo quilombo até a saída pela linha do trem a caminho de Belo Vale. Eram oito filhos e uma mulher caminhando oito quilômetros rumo à casa de sua mãe.
– Mamãe, a Lalá tá chorano di medo!
– Précupa não, genti. Tem fé im Deuso i vamu.
Dona Maria dava as mãos a duas crianças e as outras seguravam em suas saias. A filha bebê nas costas da mais velha. Não havia iluminação e cobras se arrastavam pelo mato à beira da linha férrea.
Aquele único pano de prato serviria para aquecer as costas da filha de saúde mais frágil. Quatro quilômetros caminhados e chegaram a uma ponte que tinha apenas os dormentes da linha férrea, entre os quais em meio ao breu da noite era possível ver o rio que corria lá embaixo, tão fundo quanto o vazio de caminhar na madrugada sozinha e em perigo. A ponte dos Paiva era perigosa e muitos morriam ao olharem para baixo e perderem o equilíbrio.
Dona Maria atravessou oito vezes. Uma com cada criança.
Saindo daquele perigo encontraram um andarilho que caminhava e cantarolava coisas ininteligíveis.
– Nossa Senhora, faiz que ele num vê nóis nem faiz mal eu e os minino!
O homem passou direto.
Já próximos a Belo Vale, passando perto de um pasto alto. Mulher e crianças ouviram um tronco rolar morro abaixo. As meninas se apavoraram. Uma delas se urinou de medo.
– Não iscuta não, genti! Isso é o troço ruim! Tem fé em Deuso i vamu passá! Ocês lembra da música da adoração? Canta!
"A primeira salve Rainha, salve Rainha, mãe de Concórdia! Ô Mãe, verdadeira Mãe! Ô Mãe de misericórdia!"
E todos começaram a cantar, as vozes trêmulas de medo. Quando caminhar e cantar era a diferença entre viver e morrer, oito crianças negras, filhas do Quilombo Chacrinha dos Pretos, entoaram canções sob a única luz possível naqueles caminhos, a lua. Canções sobre Maria mãe de Deus e a luz na qual eles firmaram pensamento para chegarem vivos apesar de tudo.
"A nós descei, divina luz..."
O barulho passou, graças à cantoria. Chegaram a Belo Vale em paz.
Esse conto é real. Sou eu, neta de Dona Maria a imortalizar minha avó e seu amor pela vida e pelos filhos. Maria, mãe de misericórdia. Mãe de oito filhos e avó mais doce que já pisou a face da terra. A Senhora vive para sempre.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Os olhos de Brigite - TEREZINHA PEREIRA

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Brigite. Mulher elegante, gentil, bem vestida estaria em qualquer ocasião. Entrava na cafeteria para o café de sempre, suponho que após o trabalho.
Faz frio. O calefator do chão, próximo a uma vidraça fechada, aquece suas pernas vestidas com meias finas. No momento, casaco de veludo verde escuro, chapéu cáqui, está sentada de costas para a janela que reflete luzes da cafeteria. Em outros dias, ela se sentava naquele mesmo lugar, porém, de frente para rua. Estaria a vigiar o movimento lá fora? Pedia dois cafés. Especulo. Espera por alguém. Uma amiga. Um amigo. O amado que não vinha... o mais provável.
Olhos baixos, feições com ar de mistério, não denota tristeza nem alegria nem dor. Ah. Como é bonita. Seu nome, ouvi alguma vez o garçom a dizê-lo quando recolhia as xícaras. Brigite. Ah. Antes, ela pedia dois cafés. Há alguns dias, ela mudou de posição à mesa. Passou a sentar-se de costas para a janela e a pedir somente um café.
− A senhora quer mesmo só um, dona Brigite?
O garçom conhecia seus gostos. Pudera, ela ali, toda tarde. Pagava com dinheiro e deixava sempre o mesmo troco para aquele que a servia. Eu costumava fiar meu consumo e pagar a cada final de mês.
Hoje, quinta-feira, é um dia diferente. Dias atrás, pedi ao garçom para entregar à Brigite um bilhete. Ela o leu com a mesma expressão impassível. Desdobrou o papel e nem levantou os olhos. Eu havia explicado bem quem lhe escrevia. Sou Edvard, o homem de casaco tweed preto, camisa branca e chapéu-coco, na terceira mesa do fundo do salão a contemplá-la, de sempre. Às vezes, a cofiar o bigode.
Depois disso, continuei a olhá-la. Terá tido um grande amor e fora deixada. Mulher de persistência. Tanto tempo à espera. Eu comecei a vir a este café há uns três, quatro meses. Um dia, antes de entrar, vi seu rosto pela janela. Encantou-me. Era um tempo de muito frio e, a cada dia, eu entrava encolhido, doido para aquecer-me neste lugar. Ela, de costas para o salão, de frente para a janela.
Quando passei a vê-la de frente para o salão é que comecei a especular. Eu, que há tempos ficara sozinho depois de um amor vencido, varava noites a pensar em Brigite. Um nome assim meio raro que cabia bem naquela mulher cabisbaixa que ficava a olhar o café. Parecia-me mulher de sabedoria, de luz. Naquele mesmo dia veio a reposta: sim. Três letrinhas mágicas. E mais “na quinta-feira”. Eu perguntara-lhe se ela me esperaria na saída do café.
Aqui, nesta espera que parece infinita, minha maior ânsia é saber a cor dos olhos de Brigite.

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Espelho, espelho meu - RITA QUEIROZ

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Cheguei à conclusão de que não sou normal. Decididamente, tenho sérios problemas mentais. Como posso ter chegado aos 57 anos sem tomar antidepressivos e remédios para dormir, mesmo tendo dois casamentos fracassados na bagagem? Um aos 21 anos e o outro, aos 51.
Naquele momento, não queria me separar, em ambos foi um desejo unilateral. Mas, não sei se estaria casada com algum deles até hoje. Principalmente, porque fui adquirindo outros entendimentos de vida, conhecendo-me melhor e sabendo mais como me colocar no mundo.
Confesso que no fracasso do primeiro casamento, quis morrer, acordar morta, desaparecer. Procurei por distintas ajudas. Fui ao padre, que me disse que não poderia ter mais ninguém, porque seria adúltera. Fui a uma psicóloga, de vertente psicanalista, que não resolveu meu dilema. A criatura só me ouvia, não dizia nada, minha personalidade agitada não entendia aquilo, queria dialogar. Fui a uma única sessão, sumi. Peço desculpas aos profissionais da psicologia, tão importante para a nossa vivência, mas eu, tão (a)normal, não me enquadrei.
Por fim, por recomendação da minha ex-sogra, antes da separação se efetivar, procurei uma Mãe de Santo. Segundo ela, aquilo que estávamos vivendo só poderia ser “coisa feita”, como se diz na Bahia. Fomos juntos. Apenas para ele foram jogados os búzios. Eles não mentem, deu tudo certo. De repente, a Mãe De Santo olhou para mim e disse: “Você, minha filha, quer seguir sua vida, não é?”. Concordei, com o aceno da cabeça. Segui.
Tive namorados, concluí a faculdade, entrei para o mestrado, viajei diversas vezes, fiz doutorado e, meses após defender a tese, reencontrei uma paixão da adolescência.
Ele não sabia que eu tinha sido apaixonada por ele, que fora meu amor platônico. Mas, naquele encontro, quando contei isso, o jogo virou a meu favor e ele passou a me ver com outros olhos. Nos escrevíamos por e-mail, nos falávamos por telefone (não havia smartphones e muito menos WhatsApp), nos apaixonamos. Na verdade, o que havia sentido anos atrás, reacendeu. Vivemos uma linda história de amor. Com altos e baixos, claro, como em todo relacionamento, mas jamais imaginei que nos separaríamos. Fui pega de surpresa quando ele me disse que queria se separar.
Que choque! A princípio, neguei que aquilo estivesse acontecendo. Acreditava que voltaríamos. Não quis morrer, mas quis matar – bem (a)normal! Não tomei calmantes, me joguei na atividade física. Embora estivesse com o peso normal, fiz dieta. Passei momentos bem difíceis, mas não me droguei – outra (a) normalidade, nunca usei droga alguma.
Minto quando digo que nunca usei drogas. Foi nesse período que me viciei em poesia. Imagine, em poesia! Que droga!
A poesia não me deixou ir ao fundo do poço. Sobrevivi e hoje posso escrever essas coisas bobas. Coisa de gente (a)normal.
Também passei a me ver melhor. A me achar bonita. A me deixar fotografar. Hoje olho no espelho e digo: “que espetáculo de mulher!” (Ousadia de uma pessoa do alto de seus 1,57m de altura).
Para uma amiga e minha irmã, isso se deve ao fato de ser surtada e não ter tomado Gardenal. Solto gargalhadas e digo que elas são invejosas.
– “Morram, fofas!”
Mas acho que elas têm razão, isso não é coisa de gente normal!
– “Espelho, o que me diz?”

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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Peixes franceses - TEREZINHA MALAQUIAS

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Voltei da rua com muita vontade de ir ao banheiro. Detesto ter que segurar para fazer o xixi. Antes de entrar no meu apartamento, vi os sapatos de pés pequenos da minha vizinha de andar, a simpática Rosa. Ela tem essa mania e, para sinalizar que está em casa, deixa seus sapatinhos do lado de fora sobre o tapete.
Saí do banheiro depois de lavar minhas mãos durante trinta segundos e fui tocar a campainha dela. Ela abriu a porta com um grande sorriso e me fez entrar. Nem queria que eu tirasse os meus sapatos de pés grandes. Desdobei-a, e tirei-os. Afinal por aqui é costume tirá-los em casa.
Rosa me levou para a cozinha que tem cor bege, bem clássica e diferente da minha que é bordô e tem piso azul-claro. Era esse o desejo do meu marido e meu, quando reformamos o apartamento para que ele se tornasse o nosso Lar.
Ela abriu a geladeira, precisamente o congelador e retirou dois peixes. O namorado alemão que pesca por passatempo, trouxe os peixes mas, ela não tinha nenhuma vontade de cozinhá-los. Eles já estavam limpos, inclusive sem escamas. Confesso que eu também tentei recusá-los sem conseguir, tamanha insistência da minha acolhedora e simpática vizinha.
Meu marido que tinha ido viajar para visitar a irmã no Norte da Alemanha, quando me telefonou a noite, ouviu de mim, que eu tinha ido pescar. Claro que ele não acreditou em mim. Então confessei sorrindo que estava brincando e que os pescados eram mimos que ganhamos da Rosa. E que os peixes eram bem viajados. Foram pescados na França e chegaram aqui na Alemanha, através de uma mulher russa que os recebeu do namorado alemão e regalou-os a nós.
Enfim, três pessoas envolvidas, dois peixes e quatro nacionalidades. Quer encontro/acontecimento mais globalizado do que esse!? Não, não tem!
No dia seguinte meu marido voltou de viagem e eu fiz os peixes. Foi um para o Gerhard e outro para mim. O jantar ficou bem esmerado. Fiz uma salada bastante verde que acompanhou o costumeiro arroz integral e os peixes que assei no forno. Comemos com a delicadeza precisa de quem faz amor. Oferecemos um carinho em forma de comida para nossas bocas famintas.
Esse foi realmente um encontro inabitual. Uma russa, uma brasileira, um alemão e peixes franceses que se encontraram em terras germânicas, não acontece todos os dias.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Armas poderosas - SONIA BISCHAIN

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A fita clara no cabelo escuro brilhava como a lua no firmamento, dando ao seu rosto uma aparência mágica. Era bonita, sem dúvida. Sempre olhou o mundo com olhos coloridos, como se tivesse às mãos potes de tinta. Os vidrinhos que colocava no parapeito das janelas de seu quarto refletiam luzes multicores quando surgia o sol, tingindo tudo à sua volta, criando o belo onde existiam cinzas.
Das histórias que ouvia, não lhe encantava a força dos super-heróis. Não, os homens são prepotentes, autoritários, maliciosos. E as mulheres de sua geração, tão caladas! Sempre submissas, a refletirem a cor pálida da tristeza. Quando adolescente, ela sonhava em se rebelar. Fazer o que bem entendesse da vida, dar um grito, sumir dali. Mas criada com tanta repressão, sua voz era fraca, quase inaudível. Não tinha o costume de emitir opiniões. Na verdade, falava pouco, pouco demais, não tinha boca pra nada, diziam as más-línguas. Nem todos sabiam, mas sempre foi uma pessoa de opinião formada, e criativa também.
Naqueles tempos de sua juventude, as mulheres não tinham o costume de reclamar das ofensas, das violências, dos assédios e abusos que sofriam. Não, certos assuntos não eram para ser comentados, discutidos, denunciados. E, envergonhadas, calavam-se.
E foi calada que ela encontrou uma maneira de se defender do assédio dos homens nos coletivos. Pela manhã, antes de sair de casa para o trabalho, olhava para o céu investigando o tempo e se perguntava: guarda-chuva de cabo longo ou sapatos de salto alto? Não gostava muito de saltos, mas caso não fosse chover, os sapatos eram bons aliados.
A condução era muito ruim (na verdade, não melhorou com o passar dos anos). Formavam-se três, quatro filas no ponto inicial, inutilmente, pois quando o ônibus abria as portas, os homens se amontoavam na frente, empurravam as mulheres e entravam primeiro. Assim sendo, ela sempre ia em pé no coletivo. Estava criada a oportunidade para algum cafajeste se encostar, se esfregar, passar a mão.
– Não sei por que apelidaram essa investida de mão-boba, quem faz isso tem é mão muito intencionada, isso sim! – concluía ela. Em situações como essa, era hora de usar suas armas para se defender, o guarda-chuva em dia fechado, o salto alto em dia ensolarado.
Nessa época, o pai de seu namorado pegava o ônibus no mesmo horário que ela para ir ao trabalho. O homem era estranho, calado, usava um óculos de lentes grossas, nunca a cumprimentava.
– Deve enxergar pouco, vai ver não me reconhece – pensava ela.
Um belo dia, não é que foi ele, o sogro, quem ficou se esfregando atrás dela? Ah, ela não teve dúvida. Era um dia ensolarado, sem dizer uma só palavra, com uma das pernas, fincou o salto alto (desses bem fininhos) sobre o pé do homem, colocando ali todo o peso de seu corpo. O homem até gemeu de dor e, com muito esforço, conseguiu se libertar, saindo imediatamente de trás da moça.
Nesse dia, sua raiva foi tanta que lamentou não estar também com o guarda-chuva; se tivesse, faria um ataque duplo. Ah, ele ia ver só...
No final de semana, ela foi à casa do namorado. O sogro passou por ela mancando. O homem nunca falava com ela, mas ela fez questão de perguntar-lhe:
– Tá mancando, seu Zé? O que foi, machucou o pé?

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terça-feira, 5 de outubro de 2021

E não se importava com isso - SILVANA SALERNO

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Tantos meses trabalhando em casa... Não saía para nada, não via ninguém, não falava com ninguém. Duas mulheres juntas, uma jovem, uma idosa, mãe e filha, dividindo o pequeno apartamento vinte e quatro horas por dia. Como Leocádia sempre trabalhou fora, o contato com a mãe se resumia aos fins de semana. De repente, sua vida mudou. O ritual de acordar, tomar banho, se arrumar, engolir um café e sair de casa havia acabado.
Logo que a empresa se organizou para que a equipe toda estivesse ligada na plataforma para dar prosseguimento ao trabalho de forma virtual, Leocádia pensou que poderia dormir uma hora a mais. Mas estava enganada. Já que estava em casa, não era justo deixar tudo para a mãe. Havia o café da manhã, o almoço, que ajudava a preparar, as compras a fazer, o jantar e toda a louça a lavar. E assim se passou um ano inteiro sem encontrar as amigas antigas que costumavam se visitar, pegar um cineminha, comer pizza, tomar sorvete no shopping.
Dona Antônia era uma mulher boa, mas das antigas. Tinha tido uma criação muito rígida e passara isso a Leocádia, filha única. Quando o pai morreu, Leocádia tinha vinte e oito anos. Era independente economicamente, mas nunca pensou em sair de casa; esperava se casar e seguir o padrão tradicional de sua mãe.
Desde então já haviam se passado onze anos e o casamento não viera. No bairro, corria a voz de que os rapazes estavam envolvidos com droga, e ela e as amigas passavam bem longe deles. Formada em secretariado, começou a trabalhar na firma aos vinte e dois anos. Haviam se passado dezassete anos sem que ela percebesse. Nunca cogitou mudar de emprego. Entrou como assistente geral, tornou-se secretária e não almejou outro posto, preparando-se para ele ou fazendo politicagem e algo mais, como viu tantos fazerem. Leocádia vestia a camisa da empresa. Estava perfeitamente enquadrada, e nunca tinha tido problema com ninguém. Seu contato com os colegas era estritamente profissional; nenhuma colega tinha ido à sua casa nem ela tinha sido convidada para ir à casa de ninguém. De vez em quando, a jovem Míriam aparecia com um livro que vinha lendo no metrô. Muitos se interessavam e ela indicava a biblioteca pública da qual retirava os livros. Leocádia foi das poucas pessoas que acatou a dica, e os livros passaram a lhe fazer companhia. Apresentou os livros à mãe, e aos poucos Dona Antônia também se tornou leitora assídua. Elas viviam tranquilas; sem expectativas, ambições, desejos.
Quando o chefe de Leocádia anunciou que voltariam a trabalhar na sede da empresa, ela se reanimou. Foi só então que percebeu o quanto estava ansiosa para retomar seu trabalho de nove às seis, sua mesa, seu computador, sua agenda, suas responsabilidades. Percebeu que estava com saudades até do quilo sem-vergonha em que almoçava, o mais barato da região.
Nesse dia, Leocádia abriu um largo sorriso, que até a ela espantou. Correu a contar a notícia à mãe e às amigas e cuidou de se preparar para o grande dia. Toda animada, na véspera lavou os cabelos, fez uma escova e tirou as sobrancelhas. Preparou a roupa para o dia seguinte e foi se deitar mais cedo. Mas quem disse que conseguia dormir?
Pela primeira vez em dezassete anos, enxergou o chefe e os colegas de trabalho com outro olhar. A imagem deles lhe apareceu claramente, como numa tela de cinema, e ela enxergou a perfídia da moça bonita em relação a ela, o bullying que sofria dos rapazes, a implicância do chefe e a arrogância da diretora, que nunca a cumprimentou nesses anos todos.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Crônicas Para Liege: O Perfume - SILVANA MARIA DE MENDONÇA

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Você mudou a fragrância de sua pele? Perguntou minha mãe ao me abraçar. Que cheiro esquisito! Antes você era tão cheirosinha minha filha! Não gostava de perfumes fortes que eu sei, tudo lhe fazia espirrar, mas era cheirosinha, usavas fragrâncias tão suaves! Agora acorda cedo, não vejo se arrumar para o trabalho! Estás rica minha filha? Só vejo você limpando a casa... Não, não estás rica, ficas como louca lavando, esfregando, desinfetando. Rico paga para fazer estas coisas. Filha, você está com problemas de saúde mental, depressão? Só pode ser isto ou aquela doença que tem mania de limpeza, que não sei dizer o nome! Onde estão as coisas que você acumulava e não deixava ninguém mexer? O quartinho está arrumado, nunca ficou assim! Tudo cheira como hospital, muito preocupante isso.
Você fica assistindo Fatima Bernardes a manhã toda, se rendeu à Rede Globo filha! O que você quer "Encontrar" neste programa que só fala do mesmo assunto a manhã toda, um tal de COVID! Você está louca mesmo! Não sai de casa, não recebe visitas, fica vendo live, fotografias do passado, receitas de comida na internet... nem ao cinema vais mais! Até no velório de seu tio você não foi! É só você que está assim filha ou tem mais pessoas?
Porque tantas sacolinhas plásticas no varal? Reparei que você só vai até o portão, encharca o pano de chão com água sanitária, um chinelo fica na porta e outro para usar dentro de casa. Tudo muito estranho! Não faz mais as unhas, não pinta mais os cabelos, as sobrancelhas encostaram uma na outra! Você entrou para alguma religião fundamentalista filha? Até suas pernas estão peludas! É síndrome do pânico filha? Diga-me, quero te ajudar!
Cuidado filha, você sabe que na época da ditadura militar o governo prendia as pessoas que eles consideravam subversivos em hospitais psiquiátricos. Estava vendo lá de cima vários hospitais sendo construído de uma semana para a outra, esquisito isto, e é no mundo todo! Você não deixou de ser comunista né filha? Seria o fim para mim, que desde outrora lutei para um mundo mais justo e solidário. Vou subir agora, só desci para entender este seu comportamento.
Ah! Cuidado com o “Bozo” e os fascistas que o apoiam. Foi por isso que você mudou o perfume né filha! É uma estratégia! Que cheiro filha! Tem certeza que é desta fragrância que você gosta agora, por isso optou pelo isolamento social? Talvez seja melhor assim... enquanto não mudar o perfume, fica em casa. “Errado vai quem não acerta” não é mesmo! Da próxima vez que eu descer tire esta máscara da cara, esqueceu que eu morri! Parece doida!

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domingo, 3 de outubro de 2021

Mãe Mena - SARA TIMÓTEO

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Dedicado à Mãe Mena, à Tânia, à Sónia, ao Tucha, à Cláudia, ao Rui, à Sheila e à Gisa
– Vou sentir a falta da Mãe Mena. – Rui tartamudeava as palavras, em vez de as pronunciar nesse português angolano do qual gostava de fazer gala quando estava eufórico.
Eram todos tão pobres que até a alegria lhes era emprestada. A felicidade nunca se demorava muito tempo naquele bairro de lata. Havia a bebida e, claro, tareias das quais as mulheres emergiam com braços torcidos e narizes tortos, cobertas de hematomas e cheias de feridas no corpo e na alma. Tios e pais viviam abertamente com as respetivas filhas e sobrinhas, gerando filhos com deficiência que as mães abandonavam ou liquidavam discretamente.
Havia momentos felizes, quando chovia; a água corria fresca para o bidão comunitário e podia tomar-se banho de esponja ou de toalha. Também saía a sorte grande ao bairro inteiro quando alguém conseguia um emprego fixo, partilhava o pouco dinheiro que lhe sobejava e organizava uma festa.
D. Mena teve sorte. Todos os seus sete filhos trabalhavam e ela era a rainha daqueles telhados de zinco e chapa. Os meninos do bairro viviam lá, porque a barraca dela era a única onde havia comida. As mulheres depositavam algum dinheiro nas mãos de D. Mena para ela tomar conta dos meninos e meninas, porque não sabiam ser mães. Por vezes, ausentavam-se durante semanas enquanto tentavam agarrar um homem que as conseguisse resgatar da vida no bairro e dos filhos indesejados, tantas vezes fruto de violações sobre os becos cobertos de lama.
A Mãe Mena era única mulher daquele bairro que se depilava e que conseguia manter-se apresentável, com o cabelo desfrisado ou trançado. Também não gerou filhos com deficiência e conseguiu manter as filhas afastadas da prostituição aberta e os filhos longe da droga.
Quando morrera por não ter sido atendida a tempo pelo Serviço Nacional de Saúde (pois continuava pobre e os pobres tornam-se invisíveis até ser tarde demais), os meninos e meninas (agora homens e mulheres com vários tons entre o negro e o café com leite) e todos aqueles que haviam colhido as primeiras carícias das suas mãos e as primeiras papas das suas colheres se juntaram e regressaram ao bairro. Foi dali que saiu o cortejo funerário, embora os filhos do bairro já estivessem todos distribuídos há muitos anos pelos bairros sociais, prisões, morgues, cemitérios. Alguns trouxeram conjugue e filhos do estrangeiro.
Também eu fui uma das filhas da D. Mena, embora não vivesse no bairro de lata. Quando as coisas em minha casa azedavam, era lá que passava o meu tempo, e foi ela que me deu o primeiro apoio incondicional que recebi. Acordava picada das pulgas e percevejos, e apanhei piolhos várias vezes, mas os melhores banhos que tomei foram naquele bidão e as festas mais felizes que frequentei foram as da Mãe Mena.
Agora, movo-me noutros círculos, como ela sempre me afiançou que sucederia. Não me perdi nem me deixei aprisionar por homens violentos, como ela tanto temeu que me sucedesse assim que deitei corpo.
No meu novo mundo, as pessoas falam uma espécie de português emp(r)estado, sem a cadência quente que aprendi a amar. Os corações dessas pessoas são frios e repousam sobre a pedra de mil desculpas para se escudarem nas suas vidas de plástico. Não existe partilha de comida até à última migalha, apenas interesse em lucrar com o outro ou em derrubá-lo. Cada vez que oiço uma dessas pessoas entoar palavras com afetação, faço mil vezes o luto da Mãe Mena e da música que habitou os seus lábios para sempre como a mais bela canção de amor.

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sábado, 2 de outubro de 2021

A Obtusidade do MEDO - SÃO SILVEIRINHA

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Ramiro tinha sido sempre um revolucionário no valor mais autêntico do termo. Era um visionário, um inovador, uma alma atrevida que agitava as ideias vigentes, todas, segundo ele, moralmente condenáveis. Na sua juventude fora um líder, arrastando com a maior das facilidades os que tiveram o privilégio de se cruzar no seu caminho. Chegara a estar preso durante umas horas por ser o mentor de ações clandestinas, cuja única intenção seria o combate vigoroso e a crítica mordaz ao regime ditatorial de Salazar. Nem isto lhe tinha usurpado a afoiteza e o devaneio. Agora, à beira de se jubilar, a história era outra.
Enquanto jantava, Ramiro ia vendo as notícias da noite. Não que ainda lhes ligasse grande coisa, mas ele, que era um pouco monofóbico, assim sentia-se acompanhado. Por entre as crises, as pandemias, os atentados e outros que tais, Ramiro ia ficando apreensivo, diria mesmo apavorado, ao perceber que a sua condição mais preciosa, o facto de ser livre, de poder desfrutar de livre-arbítrio, encontrava-se claramente em risco. Chegou a considerar que o jantar não lhe estava a cair bem e, por esse motivo, decidiu ir apanhar um pouco de ar para ver se a indisposição lhe passava.
Ao aproximar-se da porta do quintal que ligava à rua das traseiras, hesitara se haveria de puxar o trinco, movimento este tão banal que nunca tinha parado para lhe dar importância, mas desta vez a situação carecia de prudência. A pouca oleosidade do ferro obrigou-o a soltar um ruído estranho, e o nosso homem, que levava a boca tão cerrada como se estivesse amordaçado, ainda a pressionou mais, de tal modo que as gengivas começaram a sangrar. Tinha as bochechas fartas, como se ainda as mantivesse cheias da comida do jantar e o olhar deixava bem visível o seu estado de pânico ao abrir a porta com todo o cuidado. Depois, escancarou a boca, regurgitando num só grito a palavra que até então a enchera: MEDO! Ao contrário de outras palavras, esta não pairou no ar, pois não tinha qualquer leveza. De tão pesada, foi rastejando, sibilante, desenhando um sulco sinuoso por onde passava e, logo que pôde, porque só sobrevivia ao alimentar-se da energia dos seres que lhe servissem de hospedeiros, enfiou-se pela ranhura da janela do quarto de uma menina. Sem que esta sequer imaginasse, o seu quarto tinha sido invadido pelo MEDO, planando mesmo junto à sua cabeça, qual guilhotina ameaçadora. E a criança, que até então dormira tranquila, inspirou o MEDO para o interior de si, tornando-o personagem do seu sonho, agora pesadelo aterrador.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Invulgaridades - SANDRA RAMOS

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Ao sábado à tarde ele enviava-lhe uma música. Quase sempre sem letra. Aquilo que queria dizer-lhe não caberia na letra duma canção, nem no entremeio escuso das palavras cantadas. A melodia era tudo o que lhe enviava, ele sabia que ela, mulher-poema, a preencheria como ninguém.
No domingo, pelo fim do dia, ela enviava-lhe um trecho dum livro, sem autor, sem referência. Sabia que os significados ganham mundo e não podem prender-se ao nome de quem os achou. O tom com que o diria travava-se na garganta, mas ele saberia encontrar a melodia certa para ler a mensagem.
Manuel procurava a ária precisa, nada menos que majestosa, para lhe enviar naquele correio semanal. Maria, se não a conhecia, procurava na imensidão do mundo, procurando infatigavelmente até descobrir. Rodrigo Leão, Majlo, Gotan Project vieram-lhe pelas mãos dele. Muito prazer.
Maria revia os inúmeros livros que lera em busca de uma resposta à altura. O insigne cumprimento de sábado merecia um excelso retorno. E ele procurava no mundo o autor daquelas palavras. Valter Hugo Mãe, Pessoa, Carlos Drummond, vieram-lhe pela mão dela. Muito prazer.
Conheceram-se naquele bar onde ele tocava ao vivo. Ele percebera que ela era muito mais do que a sua beleza, e que com certeza colecionaria já tantos e vulgares elogios ao seu sorriso, decote e andar. Ela percebera que a sensibilidade dele ia muito além da destreza e da carícia com que dedilhava a guitarra, e que com certeza colecionaria já tantas e vulgares admiradoras de si, no aparente e efusivo charme dum homem público.
Em consecutivas semanas, mantiveram o desfasado encontro, ele no sábado, ela no domingo. Com o tempo, ele começou a enviar-lhe músicas que ela não encontraria senão nele, fruto da combinação única das suas próprias notas. Ela devolvia-lhe a beleza em temas que ele não encontraria senão nela, fruto da combinação única das suas próprias letras.
Um sábado, ele enviou-lhe “Um olhar que era só teu”.
No domingo, ela não lhe enviou o texto.
Apresentou-se na porta dele.
Depositou-se, mulher-poema, nas mãos delicadas do cântico que ele era.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A gaiola do vento - ROSA ALVES

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A rua estava deserta naquele dia. Não havia ninguém além de mim a espreitar da vidraça… Depressa desci as escadas e ganhei a rua.
No adro da Igreja de São Mamede, o vento se encarregou de espalhar as folhas rente ao chão. E no Jardim Botânico, permaneci sob a sombra das velhas árvores. Se eu dormir poderei acordar os sonhos escondidos entre as batidas do coração.
Levanto-me e volto a caminhar para o lago que reflete o que acontece no céu. Sua água calma e contida parece estar alheia ao que se passa. O lago é o mapa das emoções vividas e a memória do tempo que fatalmente evapora. Nele cabe toda a expressão do prazer e da dor e às vezes é necessário mergulhar e atravessar o limite para descobrirmos uma parte dos seus mistérios.
Ouço apenas as folhas secas quebrando-se na medida em que ando. Não é mais o silêncio mais que me incomoda – é a solidão repentina que me deixou apavorada e sem motivo para cuidar dos cabelos.
Nem mesmo o tempo, que testemunhou a tudo e conhece bem as verdades, saberia explicar-me agora essa pausa. O tempo, o vento, as folhas secas e os meus cabelos despenteados – é o que há e não há outra coisa para te contar a não ser que procuro pelas pessoas.
Preciso encontrar alguém que me explique o que se passou enquanto eu dormia. Ontem foi um dia normal…
E numa clareira lá embaixo, avisto uma pequena multidão! As pessoas estavam vestidas de preto e de costas para mim, que estou de branco. Parecem assistir a um espetáculo com a atenção concentrada e no mais absoluto silêncio.
Me aproximei devagar. Fui me infiltrando e esbarrando nas pessoas para perceber se estavam realmente vivas – elas respiravam! Eu é que estava com a respiração por vezes suspensa.
Ao centro estavam dispostas em círculo algumas gaiolas abertas. Os pássaros assustados com a audiência, desaprenderam suas cantigas. E o vôo? Será que ainda saberiam voar?
Cheguei mais perto deles e, como por um encanto, saíram finalmente de suas gaiolas e tomaram o seu destino.
Imediatamente, todos olhamos para cima... e suspiramos aliviados. E, como parte de um mesmo bando, o vento e as aves circularam livremente por entre as árvores em rumo ao infinito, como se todo o céu de Lisboa lhes pertencesse.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Metrópole - RÔ CARMO

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O ano era 1983, me lembro bem. Estudávamos, as quatro irmãs, em um colégio no centro da cidade, e tínhamos que subir a imensa e famigerada rua da Bahia diariamente pra chegar à escola. Minha irmã Meirinha, alguns anos mais velha, segurava minha mão; e isso me conferia uma soberba liberdade: presa assim, elevava os olhos acima dos imensos edifícios, abria as asas. À iminência de qualquer perigo, ela apertava minha mão e eu aterrissava em terra firme. Acontecia largas vezes ao longo do trajeto.
Entanto, no meio do caminho, havia O cinema. Sim, “O”, pois não conhecia nenhum outro. Ganhava meu olhar de pronto! Os cartazes eram janelas pra um mundo que nunca soubera, mas já amava. Era uma sugestão diária, que se insinuava na ida para a escola e se concretizava na volta. Nomes de filmes dançavam na minha cabeça, cartazes suscitavam histórias e o resto eu resolvia só, imaginando. Enquanto desenrolava a tarde, em meio às aulas, construía, a partir do pouco que capturara dos cartazes com meus olhares oblíquos, todo o resto necessário: cenário, roteiro, música.
Certo dia do ano de 83, outono/inverno, por certo_ ainda sinto a mão fria de minha irmã a guiar-me_ meu olhar procura, como de hábito, o refúgio de sempre. Nesse átimo de segundo, já eu antecipava o sorriso, sabendo que veria os cartazes de “Tootsie” estampados nos dois batentes das janelas do cinema. Não, não foi isso que vi. E, pela primeira vez, quem guiava a caminhada era eu, puxando veementemente a mão de minha irmã, forçando-a a atravessar a rua para ver de perto o que seria o fim de meus sonhos? O prédio do cinema estava em frangalhos: tapumes por todos os lados, escombros aqui e ali, passantes. Como podiam passar sem perceber que “O” cinema_ e isso abarcava, na minha meninice, todos os cinemas do mundo_ vinha abaixo?
E pensava: Não tive a chance! Imaginei incontáveis vezes minha entrada triunfal pela porta da frente, supondo seguramente que veria o melhor filme de todos os tempos; mas não tive a chance. Mais que isso: roubaram-na de mim.
Como poderia, depois desse desacontecimento, seguir Bahia até a escola? O que me esperaria na volta? Naquele dia, como nos próximos que se sucederam, testemunhei a vagarosa demolição do Cine Metrópole. Nenhum cartaz pra instigar minhas histórias, nenhuma música pairando sobre a cena inventada. Cena? Que cena? E a cada olhar lançado para os lados do prédio (art déco), cada dia menor; me assaltava uma tristeza funda, e uma dúvida incessante tamborilava em mim: Seria o cinema só ilusão?

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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Paredes do tempo - PRISCILLA RODRIGUES

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Uma parede descascada é como a voz do tempo dizendo que passou por ali.
O tempo que, por vezes, passa rápido e por outras, lento, mostra tudo o que existe e que por vezes insistimos em não querer ver. O tempo, linearmente criado entre o passado, o presente e o futuro, desenha por onde passa as marcas do que se viveu, ou do que se deixou de viver.
Naquelas paredes descascadas, na parte de fora da casa da minha vó, durante a minha infância, podia-se ver o tempo. O tempo da casa, da família e de cada integrante que por ali passou. O tempo dos meus avós, jovens, construindo aquelas paredes e, aumentando um cômodo, a cada filho que nascia; o tempo do meu pai, que nasceu, cresceu e viveu ao redor daquele lugar; o tempo que foi meu, enquanto por ali estive.
Uma casa de bairro, em cidade do interior, sem zelador ou síndico. Casa com varanda e portão, de quintal com terra, com roseiras que cercavam e delimitavam o espaço, ensinando que dali para a frente era a rua. Suas paredes expostas contavam que havia vivido dias de sol, mas também muitos de chuva.
Eu prefiro me lembrar dos dias de sol, quando corria pelo entorno da casa fazendo barulho e espalhando sorrisos. Prefiro me lembrar de quando parava a brincadeira para arrancar pequenas lascas daquelas paredes, criando no meu tempo, a marca da criança feliz que habitou aquele presente, hoje passado.
Às vezes acontecia de o tempo nublar, expondo de forma mais evidente o cinza do cimento por baixo da pintura que esfolava. Nesses dias, olhava para as imagens que ali se formavam imaginando rostos e paisagens que me levavam para o mais belo futuro que conseguia criar.
Mas, embora minhas memórias prefiram me levar para os dias de sol, eram os dias de chuva os que mais marcavam aquelas paredes. Toda a água que escorria, infiltrava através de suas ranhuras, entranhando tudo aquilo que vinha de fora, evidenciando e escancarando as impressões deixadas pelo tempo.
Eu ainda estava por lá quando as paredes foram consertadas. Foram cobertas por revestimento impermeável, frio e duradouro, protegendo-as no futuro, de novas formas a serem reveladas pelos anos que ainda viriam. Apagando por fora o passado, que continuava marcado por dentro.
Hoje o tempo continua passando por aquelas paredes, sem as descascar e sem as marcas que minha presença poderia deixar.
Passou.

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Demasiado ser - FARAH SERRA

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Eis então que estou cá, na fase do meio, aos 40. Existindo em pleno contraste com o modo no qual vivi os meus 20, 30 anos, quando sabia muito bem o que queria fazer, onde pretendia ir e era realmente boa em arrancar elogios. Hoje, surpreendentemente, vivencio incertezas e medos. Além de um desejo irreprimível de conquistar algo, de marcar um ponto, de deixar uma pegada, de me sentir viva, útil, desejada.
Não sei bem como, mas não tenho dúvidas de que foi nesse tempo finito de 40 anos, em que ocorreram um número infinito de situações (até mesmo coisas que eu não acreditava que poderiam acontecer comigo), que me tornei quem sou hoje.
Calcular a minha vida a essa altura é inquietante. É como se tudo tivesse se tornado aquilo que, em algum momento, imaginei que seria. De criança, tinha como certo que um dia me tornaria mãe. Não era um verdadeiro sonho, simplesmente era assim que deveria ser. Um pouco como encontrar um marido companheiro, um trabalho que gostasse e a minha independência financeira. A inquietude está no fato de que tudo é muito diferente daquilo que imaginei. A única conclusão a que chego é que evolui com a idade. Certamente prosperei. Evolui como pessoa, mudei minha personalidade. Talvez seja mesmo a maturidade que coloque o nosso pé no mundo real. Complexo. Entranhado.
“Mas você deve por isso de lado agora, pois o dever te chama. [...]. Seu povo precisará da sua força e liderança. Eu já vi três grandes monarcas serem derrotados pelo fracasso em separar satisfações pessoais do dever. Você não deve se permitir cometer erros similares. E, ao guardar o luto pelo seu pai, você deve guardar luto por outra pessoa, Elizabeth Mountbatten, pois ela agora foi substituída por outra pessoa, Elizabeth Rainha. As duas Elizabeths entrarão frequentemente em conflito. O fato é que a Coroa deve vencer. Deve sempre vencer.”
Essa foi a carta que Lilibet (a Rainha Elizabeth II) recebeu da Rainha Mary (sua avó), antes de assumir o seu reinado no seriado The Crown. Eu a trouxe aqui porque, poucos anos depois de me tornar “Rainha da minha família expatriada”, comecei a sentir o danado peso dessa Coroa e a perceber o quanto as duas Farahs estavam se gladiando – sim, mais do que em conflito, elas estavam em pé de guerra.
Claro que isso não aconteceu de uma noite para a outra, eu pressentia que as coisas começavam a cambalear. Mas, no início, era uma oscilação tão leve, que eu, totalmente presa em construir a minha identidade, não dei a devida importância.
Acho que, de fato, só percebi a grandeza dessa transformação sistêmica quando me tornei mãe. Na complexidade da minha relação mãe e filha, me dei conta de que acabamos sabendo mais sobre nossos filhos do que sobre nós mesmos. Eu vejo a minha filha por inteiro, vejo até mesmo a parte que nem ela mesma vê, e ela, imagino eu, também vê essa minha parte oculta, que eu não vejo. Bem como dizem, ser mãe é lidar com as próprias sombras.
Sincronicamente a isso, aquele controle, que saboreei aos 20 anos, de ter poder sobre tudo o que acontece, me foi usurpado. Repentinamente, eu não encontrava mais aquela minha perfeição, física e moral, e muito menos aquela minha confiança desmesurada de que eu estava à altura das minhas batalhas e sonhos. Perdi a mão de mim. Inesperadamente, encontrei-me sem saber como me posicionar diante dos meus propósitos mais holísticos – pessoal, familiar, profissional; de vida, no mundo, no Universo.
Como afronta, taurina que sou, comecei a levar a minha vida muito a sério. E viver começou a se tornar um fardo difícil de se carregar. O cansaço – físico mental e emocional – estava imperando. Nesse atoleiro do viver como uma mulher forte, comecei a sobreviver sobrecarregada de todos os estigmas impostos à minha geração. Eu estava me transformando em uma pessoa que não queria ser. E quanto mais me afundava nesse lamaçal, sujo e pegajoso, mais eu ouvia o grito da minha filha pedindo por uma mãe inteira. Do meu marido, almejando por uma esposa inteira. Do meu trabalho, cobrando uma profissional inteira. Enquanto eu implorava por uma Farah inteira.
A angústia desse caminhar estava tão grande que, visando minha salvação, meu instinto feminino desviou a rota e adentrou no silêncio. Mergulhei em mim. Na ausência do barulho, encarei o vazio, a falta de respostas imediatas. Nessa jornada de autoconhecimento desvendei um grande mistério: o meu poder de cocriação é muito forte, eu já conquistei praticamente tudo que almejei. Todos os meus pensamentos, sentimentos, crenças, germinaram dos meus sonhos e floresceram justamente aqui, onde estou agora, diante desse pedaço de papel em branco que espera por uma nova história.
Honrei, celebrei, agradeci e aceitei que estava de frente a mais um ponto de mutação em minha trajetória. O momento era mais que oportuno para mudar algumas coisas e tudo começou no meu próprio modo de pensar. Eu não precisava do mundo externo para realizar uma mudança. Não precisava que alguém me salvasse, que me amasse ou me levasse daqui. Era eu mesma, a pessoa que estava esperando. Só precisei escolher como reagir àquela realidade e me colocar a serviço de tamanha transformação.
Tornou-se uma questão de honra resgatar a Farah, a alegria, que há em mim. Entrei nessa batalha de peito aberto, recuperei a minha velha companheira – a coragem, e me aliei à positividade. Envolta nessa tríplice-aliança firmei um acordo onde declarei que jamais o dever irá imperar sobre o meu bem-estar pessoal, decretei resistência às adversidades, assegurei que só farei isso com a leveza, a despreocupação diante do frenético ritmo da vida e sem duvidar, em momento algum, de que sou muito mais do que me consinto ser. Então, comecei a promover um rearranjo, uma reacomodação interna para aceitar as partes boas e ruins de ser tudo o que sou.

O caminho é simples, mas profundo. Existe o tempo das coisas e o meu exercício é me lembrar disso todos os dias. O tempo natural das coisas é um tempo diferente, é o tempo das grandes transformações.

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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Máscaras - NATACHA MAGALHÃES

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O resto do líquido no fundo da taça desafiava-a. Aproximou a taça dos lábios e inclinou-a, deixando que a sobra escorresse pela sua garganta. Olhou para a garrafa vazia e sacudiu os ombros, como se pedisse desculpas. Pedia desculpas por ser fraca, miserável. Desculpas por não saber lidar com coisas que todos diziam ser simples. Pedia desculpas por buscar alívio na garrafa, única forma de atenuar a dor que a consumia por dentro. Olhou-se ao espelho e o reflexo da sua imagem parecia debochar dela e da sua fraqueza. Olhou de novo e ensaiou um sorriso aberto. O mesmo que tinha de levar ao escritório e exibir o dia todo aos colegas e ao chefe. Tens um sorriso lindo, um candeeiro da alma. Que sabiam eles sobre luz e escuridão? Obrigou-se a entrar na banheira e deixou que a água do chuveiro escorresse da cabeça aos pés, esperando que essa fosse capaz levar pelo ralo os pensamentos mais nebulosos. A rotina de banhar-se e escovar os dentes era quase tortura, como quase tudo que fazia. Arrastou-se até ao quarto. Ultimamente locomovia-se assim. Obrigava os pés a se movimentarem. Também naquilo, os colegas reparavam. Aqueles estafermos reparavam em tudo! Cegos na mesma! Preocupados que estavam em discorrer sobre as suas vidinhas e vaidades viviam qual zarolhos em terra de cegos.
Tirou do guarda-fato o traje do dia. Como sempre se vestia com esmero, quase como as superstars das revistas de tendências de moda. Fazia questão que assim fosse. Tinha de ser algo que arrancasse elogios e olhares de inveja ou luxúria. Lutou com o cabelo rebelde, prendendo-o à nuca. Escolheu uns sapatos de salto alto, que não destoassem do conjunto e dedicou alguns minutos à tarefa mais complicada. A maquilhagem era a camuflagem perfeita para esconder tudo. Com a base e um pouco de pó e lá se iam as olheiras e as rugas nascidas das noites não dormidas e da ansiedade que a abocanhava. Arrematava com um batom, sempre uma cor viva para embelezar ainda mais o sorriso teatral. Estava pronta. Altiva, poderosa. Ninguém suspeitaria de nada. Ela era a imagem perfeita do bem-estar e da felicidade. Quando regressasse, mergulharia de novo a alma e coração na dor. E quem sabe mandaria tudo àquela parte e desfazia-se daquela existência de faz de conta.
Evelyn era seu nome. No bilhete de identidade era Eveline. Mas ela fazia questão de se apresentar como Evelyn e de assim ser chamada por todos. Soava a nome francês, très chic. Era lindíssima, desde pequenina estava habituada a ouvir elogios à sua aparência física. Corpo escultural, a custa de horas passadas em ginásios e aqueles jejuns intermitentes da moda, que a obrigavam ficar sem comer por horas. Estava sempre bem vestida, de salto alto, maquiagem perfeita. Tudo nela era perfeito. Até a simpatia era perfeita: sorria com todos, tinha sempre palavras amáveis, era doce, meiga, atenciosa. Desdobra-se em atenções para todos. Sim. Evelyn era perfeita. E todos no escritório adoravam-na. Pelo menos assim parecia.
Marta vinha observando Evelyn. Não poderia ser sempre assim aquela miúda, ninguém era assim, sempre perfeita, sem desmanchos, sempre de bem com todos. Havia ali peças desencaixadas. Marta já vinha reparado no nervosinho miúdo de Evelyn, espelhado nos ligeiros tremores das mãos quando martelarem o teclado. Havia também aqueles poemas melancólicos que a moça publicava na sua rede social. À Marta aquilo soou recado. Tinha quase certeza de que Evelyn vivia sob uma carapaça. Num desses dias, Marta viu a máscara a cair-lhe. Foi num momento em que todos tinham saído para o almoço. Não reparando que a colega havia ficado. Evelyn debruçou-se sobre a secretária, deixou cair os ombros sempre eretos e suspirou. Foi como se o mundo todo lhe pesasse nos ombros, naquele instante. Depois, uma pequenina lágrima escapou-lhe dos olhos e rolou pela linda face, antes que Evelyn a esmagasse com a ponta do indicador. Mas depois vieram outras. E mais outras. Correu para a casa de banho.
Ontem, Evelyn não veio trabalhar. Também não avisou que não viria. Ninguém se ralou, não era a primeira vez. E as ausências eram agora mais constantes, sempre justificadas com mal-estar e idas ao médico.
Hoje o escritório está de luto. Ninguém queria acreditar. Demasiado chocante para se acreditar. Marta recusou-se a fazê-lo. Um sentimento de culpa germinava dentro dela. Evelyn morreu. Melhor, matou-se. A mãe encontrou-a esvaída em sangue, pulsos cortados. Ao lado, um bilhete “Hoje liberto-me. Finalmente serei livre. Cansei de ser perfeita. Mas como viver nesse mundo, se ninguém quer imperfeições?"

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domingo, 26 de setembro de 2021

Se eu fosse personagem - MIRIAM LEIRIAS

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Prometi, sim. Fiz uma promessa: eu iria lhe dar voz.
Procurei, procurei, você viu. Quero lhe dizer e não tenho coragem: não achei foto, documento, nem pessoa que pudesse falar de você.
Não consegui.
Talvez fosse demasiado para mim. E eu no meu desejo de justiça, na minha onipotência dos anos mais jovens, acreditei que eu pudesse. Não pude.
Não fui capaz nem de fazer ficção como imaginei.
– O que pude fazer fiz, levei seu nome a muitos lugares, contei uma possível versão, dancei, conheci alguns dos lugares em que você viveu, me apaixonei, me desapaixonei. Conheci pessoas que me reafirmaram a crença na humanidade. Experimentei comidas, que despertavam a alegria de compartilhar e que provavelmente você sabia fazer. Passei a querer escrever melhor para contar sua história, e nessa parte tive prazeres e dores. Mas que história contar?
Escrevendo, ou tentando escrever este relato, lembrei-me de meu filho, seu bisneto, falando diante do impossível: – mãe, e se você fosse rica, e comprasse uma Mercedes? Agora sou eu que penso: – e se pesquisando nos arquivos ou mesmo no Museu da Pessoa, encontrasse algum dado que chegasse próximo de alguma informação sobre você? E se, por um acaso alguém me trouxesse um nome com seu sobrenome e dissesse que era sua parenta?
Os desaparecidos, presos políticos, alguns puderam ser velados, mesmo simbolicamente. Você não. Ou foi e não sei?
Serei eu personagem? Assim sendo ou pretendendo, vou à Festa do Boi, no Morro do Querosene. Faço meu ritual de homenagem a você e de despedida aos sonhos que não vingaram. Embebedo-me, com os ritmos marcados pelo zabumba, xequerê matraca e chocalhos, pelos corpos, pelas danças e catuaba. Tudo debaixo ou ao redor do Baobá,
Árvore do Esquecimento. Dou sete voltas ao seu redor, no sentido contrário, do que os negros escravizados eram obrigados a fazer.
No momento em que o mestre Tião do Maranhão vai sacrificar o Boi Mimoso para alimentar Catirina prenha e precisada, esse deitará no chão, aceitando o sacrifício, assim também, deitarei na terra. Esperarei o golpe, como também o Boizinho. Boi e sonhos vão mudar de estado e de tempo. Irão aparecer na próxima festa do Renascimento do Boi. Os sonhos aguados poderão vicejar com consistência, com robustez. E o Boi Mimoso alimentará nossa alegria possível.
Terei passado a pira da procura para quem ficou tocado pela história, seja da família ou não. Escrevo na terra com os dedos:
AQUI JAZ UM SONHO.
OU NÃO?

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sábado, 25 de setembro de 2021

O algoz e a sobrevivente - MEIRE RABELO

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Aos oito anos de idade ela se dá conta de sua existência. Uma menina mulher negra que crescia, gradativamente em uma pequena ilha e ela vinda de um pequeno município do Maranhão. Filha de um motorista de ônibus interestadual, que não sabia nem lê e nem escrever e de uma dona do lar. Os anos se passam, sem muitas diversões de crianças e adolescência, era do estudo pra casa e sem muitos amigos de sala. Uma menina negra, meiga de cabelo carapinho chamada Dandara.
A sua mãe, dependente do seu Pai pra tudo e submissa. Mas uma boa mãe. O tormento de Dandara era quando chegava à noite. Era sempre sua obrigação. Quando seu Pai chegava à noite, era tarefa de Dandara esquentar sua comida enquanto ele tomava banho. Mas com esse a fazer de todas as noites ela era abusada sexualmente pelo seu Pai. Quando algumas vezes sua mãe se levantava o pai disfarçadamente dava um jeito da mãe não perceber. Em qualquer momento que o pai estava em casa, a Dandara servia de cobiça para seu instinto libidinoso. Em apenas um cortar de unhas dos pés, o calcanhar do pé de seu pai, servia pra passar sobre a sua vulva horas em horas, as vezes até mesmo a pequena estava tão cansada e a cochilar era aprisionada. O seu corpo inteiro da menina era desejo para o pai em qualquer canto da casa em que foi criada, em um pequeno bairro, da grande e pequena Ilha de São Luis do Maranhão. Que incomodo e que dor em suas partes intimas, mas nada podia fazer. Chorava apenas.
O seu sofrimento transformara-se em ódio do seu algoz, o seu próprio pai. Inúmeras vezes o seu pedido de NÃO, não era ouvido e ou nunca foi ouvido pelo seu algoz. Ele abria suas pernas com as mãos e as vezes de forma violenta, por debaixo de suas cobertas na calada da noite e enfiava seu dedo em sua vagina pra que pudesse penetrar mais e satisfazer seus instintos mórbidos e doentios. O dia amanhecia e as laterais de sua vagina ficavam todas doloridas, chegava o seu ciclo menstrual, um alivio a dor e perseguição do seu algoz. Dias felizes! E quantas vezes pedia pra que ficasse sangrando por toda a vida, assim tinha paz. Os dias passavam lentamente a tristeza a lentidão da mente foi ficando aprisionada. Ao completar seus 15 anos de idade, os interesses dos homens em Dandara aumentaram e o seu pai, foi ficando mais feroz e o ciúme a posse o desejo só aumentava exageradamente e que nenhum homem podia se aproximar. Oh! Deus!
Deus tirou seu pai (o algoz) da família. Mas o algoz ficou em suas entranhas para sempre, tornou-se uma sobrevivente. Um brinde a Dandara e outras meninas sobreviventes! Um brinde ao seu algoz! Ele acha que venceu! Será?

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