domingo, 18 de fevereiro de 2018

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE (XXIII)

NOITES DO MODASKAVALU[1]

Ao Salésio Massango (Kalinda), Maputo, 29 de Junho de 2017

Bom dia, não sei como esta missiva lhe vai encontrar quando a leres. É que a saúde tem sido um martírio para quem se desprende da cama sem o descanso floreado. Sei que tenho sido ausente e as conversas intermináveis de outrora escasseiam na orla da língua em sede. Estou aqui porque ontem tive a sorte de passear pelas noites do Modaskavalu, ali onde desnudamos a palavra com a sensibilidade que só tu emprestavas quando Cesário Verde lhe calcava a alma.

Pois é meu caro! Poeta sem asa, domador de sonhos ao apitar do comboio. Escrevo-lhe novamente para dizer que a casa continua a mesma e os sonhos parecem ter perdido a cor. No entanto, os textos que tingem as paredes sedentas de vida estão rendilhados à moda do Valeriano. Sinto que já não tenho pachorra para construir sentimentos de apreço. Sorrisos e aplausos continuam a vingar perante textos invertebrados, sem sal, dirias meu amigo, a mesma barbárie que negamos ali na rua Carlos Albers.

Os meus silêncios são mais audazes ao martírio da alma. Estou sentado na poltrona e não me emociono porque os anos do “Arrabenta” foram os mais fugazes. Caro poeta, não digo isso por demérito das vozes que se mostram neste lugar, mas por notar que a escola continua sem alunos. Parece que amamos as futilidades. É bom deliciar a multidão com uma mão cheia de nada? Andamos em desregramento. Poderei, em meus lamentos, infringir um golpe inóspito no Coração de quem deixou sair entre os dedos, os valores que a poética nos ensinou por mais de uma década? Neste instante que lhe escrevo seguro o coração pela mão e as lágrimas tingidas de medo. Caro Kalinda, não há vento que apagará os melhores dias da nossa adolescência.   



[1] Espaço localizado no Teatro Avenida onde se declama de poesia, debatem-se ideias entre outras actividades artísticas e culturais. 

Breve biografia
M.P.Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo. Foi membro do projecto (JOAC) e do colectivo Arrabenta Xithokozelo. Em 2017 lançou a sua primeira obra literária “Ensaios Poéticos” pela Cavalo do Mar.
Vencedor da 1.ª edição do Prémio Literário Fernando Leite Couto.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

FALA AÍ BRASIL... CRISTINA LEBRE (IV)

Há tempos observo a escrita de diversos gêneros textuais, de toda a sorte de fontes, desde textos escritos nas redes sociais, aos livros, jornais, anúncios, cartões de visita, cartazes pela cidade, outdoors e outros mais. E afirmo que é estarrecedora a quantidade de erros ortográficos e de concordância gramatical.

A campanha política mais recente, relacionada às eleições municipais, chocou qualquer eleitor, não somente pela hipocrisia das promessas como também pela quantidade de erros nas propagandas dos candidatos. Em resumo, parece que o ataque à norma culta é geral. Raro é o momento em que nos deparamos com uma sentença corretamente escrita, mesmo nas grandes cidades, nos meios mais modernos de comunicação. Não adianta a gente zoar o “eletrecista” do interior, em muitos blogs o que se vê é um grotesco “parabéns À todos” !!!!!!

Sei que há problemas muito mais graves do que este acontecendo no Brasil, mas a deficiência na escrita da Língua Portuguesa, no meu ponto de vista, é também uma questão de extrema relevância. Por isso clamo aos que não dominam a escrita: contratem os serviços de um bom revisor!

Basicamente o próprio Word dos nossos computadores tem um corretor, embora nem sempre esteja correto. Além dele também temos à disposição o Dr. Google, que esclarece (quase) todas as dúvidas. Com tudo isso o melhor mesmo é contratar os serviços de um revisor. Enfim, são inúmeras as possibilidades de se escrever com proficiência, possibilidades essas que estão ao alcance de qualquer profissional interessado.

Segundo o Professor Leandro Karnal, e estrutura da linguagem está sendo totalmente modificada por conta da necessidade de rapidez na informação. Tudo bem. Não se está falando aqui em longas frases, não há mesmo espaço para isso. O tempo, este artigo cada dia mais exíguo, decreta o fim das orações subordinadas, é compreensível. O que importa é que, por menor que seja a mensagem, ela seja escrita corretamente.

Vale lembrar também que linguagem virtual é diferente de linguagem escrita. O chamado “Internetês”, uma adaptação própria da língua para o meio cibernético, abrevia cada vez mais as palavras para que se possa aproveitar o máximo de tempo possível no envio de uma informação. Assim, você vira “vc”, beleza vira “blz”, e por aí vai. É lícito, convém que seja assim para que a comunicação seja feita de maneira célere. Assim também temos os emoticons, figuras que traduzem nossas emoções para que a gente não precise descrevê-las com palavras escritas, e as hastags, verdadeiras imposições a qualquer post hoje em dia. Aliás, a ferramenta hastag é assunto complexo e rico a ser focalizado em um estudo próprio. Na sua forma, ela resume o conteúdo de uma mensagem sem que se use nem ao menos um verbo. E o mais incrível, ela une milhões de internautas e posts sobre um mesmo assunto somente pela utilização do símbolo "jogo da velha". É uma fantástica ferramenta de hipertexto. Porém, mister é salientar, isso só acontece dentro o universo virtual. Não se redige um comunicado, ou mesmo um anúncio, somente com o tal joguinho da velha e uma palavrinha grudada a ele. Por mais que possa parecer enfadonho, ainda é preciso escrever. 

A linguagem é um organismo vivo, ela sofre mutações constantes frente ao dinamismo da comunicação. A questão é que, se você vai escrever, deve fazê-lo de forma correta, sem agredir o leitor e a própria língua. Ainda não dá para redigir um trabalho acadêmico salpicado de hastags. O que se precisa distinguir é linguagem escrita formal e linguagem virtual.  São ambientes distintos de escrita.

Biografia de Cristina Lebre
Jornalista, escritora, revisora de textos acadêmicos e livros, apresentadora de eventos e secretária executiva. Cristina Lebre é autora dos livros "Olhos de Lince" e "Marca D'Água", à venda nas livrarias Gutemberg de Icaraí e São Gonçalo - ou diretamente pelo e-mail lebre.cristina@gmail.com


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

DEZ PERGUNTAS A... MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

Agradecemos à autora pela disponibilidade em responder às nossas questões
Saibam mais da autora neste link

1 - Como se define enquanto autora e pessoa?

Falar de mim não vai ser fácil, no entanto, vou tentar fazer o meu melhor.

Sou uma pessoa humilde, sem ideias preconceituosas. Amiga do meu amigo, sempre atenta na tentativa de poder ajudar a melhorar e ou mudar (o que me for possível) na vida de quem me rodeia. Gosto de ser eu a comandar a minha vida.

Como autora, não tenho uma linha definida, não cumpro regras, nem métricas, no que diz respeito à poesia. Quando me atrevi a escrever o romance, tentei descrever o problema de muitas pessoas em situações idênticas às que relatei. Na altura fazia sentido, neste momento as mentes estão mais abertas e já não têm as dúvidas e os tabus existentes naquela data.

2 - O que a inspira?

A vida. Tudo o que me rodeia, tudo o que vivi e vivo, quer directamente, quer o que os olhos e os ouvidos me indicam.

3 - Existem tabus na sua escrita? Porquê?

Não. Porque acho que a vida já é demasiado complicada para escrever com tabus, há que abrir as mentes para simplificar a vida.

4 - Que importância dá às antologias e colectâneas?

Há pouco tempo alguém me dizia – cito:- Ainda fico perplexa com a "vaidade" de pagar para aparecer! Erro meu! Mau feitio! A minha resposta foi simples, e vou transcrevê-la assim como o que se seguiu - Minha querida, respeito a tua opinião, mas, não considero vaidade, de modo algum, apenas uma hipótese de se dar a conhecer a outros, que não só os do facebook, aquilo que escrevemos, seja bom ou nem por isso, por um valor mais baixo do que aquele que um editor leva para a publicação de um livro só nosso. Beijinhos amiga - Maria Antonieta, "seja bom ou nem por isso" já diz tudo! Beijinho.  – (eu)  nesse aspecto concordo, mas, tem que haver sempre uma primeira vez, e é a errar que aprendemos. Também é a ler os outros que vemos que afinal o que escrevemos, não é tão bom como pensávamos. Beijinhos. - Penso com este relato ter respondido à pergunta.

5 - Que impacto têm as redes sociais no seu percurso?

Foi através das redes sociais que dei a conhecer aquilo que escrevo, e as interacções de outros foram muito importantes neste meu mundo das palavras, Os incentivos impulsionaram-me e publiquei o primeiro livro, seguiu-se o segundo, o terceiro e agora no final de 2017, o quarto livro. Para além destes quatro livros individuais, também através das redes sociais, já participei em várias dezenas de antologias e colectâneas. Se não existissem as redes sociais, nada disto tinha acontecido.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Na escrita desenvolve-se a ideologia, a cultura, os sentimentos de um povo, de vários povos. Neste desenrolar encontram-se pontos positivos e negativos, também assim é no mundo da escrita, encontra-se de tudo. Criam-se amizades e inimizades. Há inveja e solidariedade. De tudo um pouco, um pouco de tudo.

7 - O que acredita ser essencial na divulgação de um autor?

Neste momento as redes sociais são um motor de divulgação, por não haver outro meio mais acessível. As editoras deveriam ter uma base de divulgação de autor, no entanto, isso não acontece, a sua principal função é editar para melhor recolha de lucros. Quanto a mim, se divulgassem os autores também eles lucrariam. A máquina certa não funciona. 

8 - Quais os projectos para o futuro?

Continuar a escrever na esperança que algum editor se lembre de mim, caso contrário escreverei apenas para mim. Editar um livro, se não se é conhecido, exige dispender muito dinheiro, sem se saber se haverá retorno, como tal, ficarei esperando os acontecimentos. Mas, nunca desistirei de escrever, de deixar em palavras sentimentos meus e de outros.

9 - Sugira um autor e um livro!

Há tantos e tão bons que escolher um não é fácil. Vou optar por um clássico, talvez, Eça de Queiroz e o seu extraordinário livro “Os Maias”

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

-  Se te saísse o euromilhões o que farias?

- Arranjaria um local espaçoso, com muita área livre, onde mandaria construir um lar, em que os seus ocupantes, pagariam apenas o valor que recebessem de reforma, portanto, uns pagariam pelos outros, e todos teriam iguais direitos dentro desse LAR.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES (XX)

Tragédia 13  

Casa de Matias.

O assassino da adúltera está em casa relaxado quando o pronome indefinido alguém bate do verbo bater à porta.

Ele olha pela janela e vê do verbo ver o seu Armando com uma doze à mão, pronto para acabar com a sua raça.

Ele apaga as luzes e o seu Armando começa a atirar na casa estilhaçando as janelas e fazendo um enorme buraco na porta.

Matias se esconde e logo depois, foge pelos fundos e se posiciona bem atrás do seu Armando que continua atirando na tal casa como um louco.

Evidentemente a polícia é chamada e logo que os cops chegam ao local do conflito Matias aparece desesperado pedindo a tal proteção pelo amor de um Deus no qual não acredita.

Seu Armando é forçado a largar a arma e é preso por tentativa de assassinato.

Matias que olha agora dentro de seus olhos e diz:

Aquele que faz o mal, o mal aquele retorna como poeira atirada ao vento.

O celular de seu Armando no chão toca e Matias atende e percebe que Freitas está na linha.

E aí Armandão, mandou ver?

Aqui é o Matias querido Freitas. Ele acabou de ser preso e você deverá partir deste mundo em breve. Beba bastante água e procure descansar.


mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.
Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

ADRIANA FALA DE... CONEXÕES ATLÂNTICAS

Nas minhas andanças por entre autores e leitores durante tantos anos de Brasil, fiz uma recolha do que observava e ouvia e a necessidade de dar um primeiro passo no contributo de um projeto, um ação, ou uma ideia, em que pudesse dar voz aos autores tanto do lado de lá, quanto do lado de cá, do oceano. Após aterrar em Lisboa, surgiu CONEXÕES ATLÂNTICAS, um projeto organizado pela In-Finita para assessoria literária com apoio do Toca a Escrever, e UBE União Brasileira de Escritores - Recife, para dar voz aos poetas brasileiros em Portugal,  E quem sabe, a médio prazo, fazer o caminho inverso. A iniciativa é para a união dos autores em projetos acessíveis a todos, como antologias para divulgação, participação de feiras, saraus, eventos e em nossas redes sociais.

Um desafio, uma responsabilidade, um passo. Ancorei a nau em Portugal, de imediato Patrícia Porto (Niterói-RJ), Bárbara Lia(Paraná) e Cristina Lebre  (Niterói-RJ), embarcaram nessa viagem. Recebi  11 livros CABEÇA DE ANTÍGONA da Patrícia Porto . a primeira ação, foi ler suas poesias no I SARAU POÉTICO In-Finita/ Palácio Baldaya, no último dia 03 de fevereiro e doar um exemplar para a Biblioteca do Palácio Baldaya, estabelecido em Benfica, Lisboa. Cristina Lebre, veio nos visitar, trazendo na mala OLHOS DE LINCE e MARCA DÁGUA, e também foi uma das autoras lidas no SARAU. Bárbara Lia, em breve, estará em terras lusas, lançando seu livro de poesias RESPIRAR. Depois embarcaram JackMichel composto por duas escritoras e irmãs de  Belém, Jaqueline e Micheline Ramos, com os livros de poesia e prosa a caminho. Sempre com a TOCA A ESCREVER como ferramenta de apoio e divulgação.

Para atingir o maior número de autores e fortalecer o projeto, sem perder a ideologia e a visão de mercado, com baixos custos, acessibilidade e dar voz à escrita poética daqueles que estão longe, surgiu a ANTOLOGIA CONEXÕES ATLÂNTICAS, que tem lançamento previsto para março, mas que a partir da segunda quinzena de fevereiro começa a mostrar os poetas participantes. De imediato foi abraçado por EDSON MENDES, secretário geral da UBE-União Brasileira de Escritores-Recife, em viagem de poucos dias a Lisboa, levando o projeto para   ALEXANDRE SANTOS (presidente), TACIANA VALENÇA (diretora social), que firmaram a parceria e apoio.

A In-Finita, marca presença com uma visão diferenciada de mercado. Como prestadora de serviços, sempre visando contribuir com assertividade as ações de divulgação e fomento da literatura e lusofonia, para que sejam bem representadas, de forma profissional, consciente e justa para aqueles que exercem a arte da escrita, seus seguidores e leitores.


DRIKKA INQUIT

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

DEZ PERGUNTAS A... MACVILDO PEDRO BONDE

Agradecemos ao autor Macvildo Pedro Bonde pela disponibilidade em responder às nossas perguntas 
Podem acompanhar o autor neste link

1 - Como se define enquanto autor e pessoa?

Acho que sou uma pessoa aberta a influências do mundo. Gosto de fazer pontes. Sou simples e de poucas falas. Como autor, sou ambicioso e cauteloso nas minhas abordagens. Sou um autor que trabalha afincadamente a palavra. Procuro entender à risca o campo onde piso. A literatura é um mundo lúdico. Gosto do trabalho na palavra.  

2 - O que o inspira?

Eu não vivo de inspiração. Olho para o trabalho como a força motriz. É isso que me move. Como disse Francis Ponge: “poesia é antes de mais uma questão de trabalho”. Contudo, tudo o que me rodeia serve de campo para as minhas reflexões como autor. Escrever é um acto de militância.

3 - Existem tabus na sua escrita? Porquê?

Não sei dizer. Seriam tabu em que sentido. Não falar de determinados assuntos? Agora tenho alguma dificuldade em escrever sobre o amor. É um tema interessante, mas ainda não vivi o suficiente para ter uma alma vibrando quando escrevo.

4 - Que importância dá às antologias e colectâneas?

As antologias são uma forma de dar a conhecer os autores quando ainda não se sentem confortáveis em dar o salto como autor autónomo. É um espaço de convívio entre diferentes formas de olhar a palavra. Eu tive a sorte de fazer parte de uma antologia com autores de língua portuguesa, em 2013. Para mim, serviu como catalisador para aquilo que viria a ser a minha afirmação como autor, hoje. Claro que na época ainda estava enviesado com a tristeza. Hoje a minha escrita apresenta uma alma menos tenebrosa.

5 - Que impacto têm as redes sociais no seu percurso?

Para a minha geração, as redes sociais servem como mais um espaço de divulgação dos nossos trabalhos. Aqui não há barreiras, todos os que fazem parte da nossa rede de amizade podem acompanhar o que estamos a desenvolver. As barreiras continentais desaparecem neste espaço virtual. Estamos em tempo real com o mundo. Os jornais e a televisão, os canais tradicionais não têm a mesma velocidade na difusão e informação dos nossos trabalhos. Os lançamentos dos meus livros tiveram grande interesse com a utilização desta plataforma. 

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Os conflitos são sempre um ponto negativo, pois deixamos de discutir a obra, o trabalho para descarrilarmos na pessoa que veicula a informação. O universo da escrita é extraordinário.

7 - O que acredita ser essencial na divulgação de um autor?

Nem sempre. Mas as polémicas tem por motivação dar a conhecer uma obra na sociedade. Mas para mim, esta não é a melhor forma a usar. Existem críticos de literatura para mostrarem os pontos positivos e negativos de uma obra. Hoje, as universidades fazem teses com obras de autores, porque temos de alimentar polémicas?

8 - Quais os projectos para o futuro?

Continuar a escrever poesia. Em paralelo vou dedicando algum tempo a literatura infantil, um campo difícil para mim. Quero ver se enquanto autor consigo escrever um ou dois livros desse género e rumar para a prosa. Mas, aí terei de ter mais arcaboiço para enfrentar centenas de páginas em branco. Na poesia conseguimos reduzir todo o nosso pensamento em poucas palavras.  

9 - Sugira um autor e um livro!

Pedro Pereira Lopes – o mundo iremos gaguejar de cor

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Como está a saúde da literatura contemporânea em Moçambique?
Acho que estamos a viver um bom momento. Há muitos jovens promissores, o que indica a continuidade de uma tradição literária. O tempo é um bom conselheiro. Ele vai por à prova essa esperança, de modo a deixar pontificar os mais audazes. Tanto na prosa como na poesia, encontramos uma juventude capaz de manter uma tradição estética com Knopfli à cabeça.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO (XXVII)

Trabalho de Norman Rockwell. (Créditos: Reprodução Internet)

… Assim falava Bertoldt Brecht em sua célebre frase. Todos sabemos que os tempos de hoje são tempos favoráveis às criaturas sombrias. O grande cineasta George A. Romero, pai dos filmes de zumbis, morreu há pouco tempo, mas nos deixou de herança esta simbologia dos mortos-vivos e vivos-mortos. O que retorna do túmulo permanece vivo, mas agora é vivo-morto. A cinematografia recente vem trazendo nas suas representações os efeitos drásticos de se viver numa terra arrasada por zumbis. Estas duas imagens ilustram o retorno do ódio neste período recursivo da história, do ódio que mora no coração dos homens e que retorna como super bactéria, se alastrando pelo ressentimento cíclico ou por uma nova forma vil e gratuita de contaminação via redes sociais.
No Brasil, estamos vivendo tempos de terra arrasada, tempos de exceção, tempos de perda da nossa democracia – tão jovem – junto à plena perda de direitos duramente conquistados por anos de luta e desassossego dos oprimidos, dos que estavam e ainda estão nos movimentos sociais, nos movimentos feministas e no feminismo negro, nos movimentos negros, quilombolas, indígenas, LGBTs.
Mas, para lembrar um filme bem brasileiro, é “ódiquê”? É o ódio ao povo, ódio ao negro, mas principalmente ódio à negra – que chegou ao ensino superior, à pós-graduação, ao Miss Brasil. É ódio aos nordestinos e mais ódio às nordestinas com suas “caras de empregadinhas”. O ódio às negras e nordestinas pobres que recebem o Bolsa Família e se recusam a voltar para as cozinhas sofisticadas dos neocolonialistas, que se recusam a trabalhar sem direitos nas novas senzalas.
O ódio da classe média-medíocre é o ódio às políticas públicas, às universidades que, na visão distorcida dos que odeiam, criaram cotas que facilitaram a entrada dos pobres, negros, nordestinos, a confluência de todas as margens para um lugar não destinado a elas: a mobilidade social. É o ódio tacanho, torpe, que mata e violenta todos os dias – os homossexuais, as mulheres, a juventude negra, as crianças pobres – e que vai num crescendo se formando enquanto avalanche e genocídio.
Quantas pessoas já foram assassinadas no Brasil em 2017? Quantas delas eram negras? E no mundo? Quantas eram imigrantes? Quantas eram mulheres? Quantas eram crianças? Há uma relação muito estreita entre neocapitalismo, racismo, xenofobia e a negação dos excluídos. Declarar guerra aos pobres e aos indesejáveis é o tipo de absurdo que se pauta nas mesmas justificativas sempre utilizadas pelas classes dominantes para punir os considerados fracos e elimináveis: prender, vigiar, negar a existência. E se nada disso der certo – caçá-los com cães, matar e tirar da vista. Nas palavras de Foucault, no clássico Vigiar e Punir:
“Apresentá-los como bem próximos, presentes em toda parte e em toda parte temíveis. É a função do noticiário policial que invade parte da imprensa e começa a ter seus próprios jornais. A notícia policial, por sua redundância cotidiana, torna aceitável o conjunto dos controles judiciários e policiais que vigiam a sociedade.”
É preciso sempre lembrar que esse discurso mata. Dizer no programa de televisão que “bandido bom é bandido morto” mata. Esta semente diária do ódio que nasceu da injustiça social, assim como o desejo de massacre contínuo, a permanente ideia de eliminação do outro, todos esses elementos de ódio vão se tornando parte do nosso cotidiano e, como bem diz Foucault, vão tornando o discurso palatável, aceitável. Os elimináveis são apresentados aqui como parte temível. Eliminar faz parte do jogo que migra do discurso para a banalização da ação. A julgar pelo que vejo neste jogo do fascismo, logo avançaremos uma casa e chegaremos ao “pobre bom é pobre morto”.
Mas de quantos mortos precisamos para fazer uma guerra?
Intolerância. Ódio. Falta de empatia. Fundamentalismo religioso. Homofobia. Machismo e Feminicídio. Radicalismo conservador. Há muito para se refletir sobre esses atos de violência e barbárie. As práticas discursivas da atualidade e o desejo paradoxal de empatia em tempos individualistas, de completa indiferença, além da alienação do outro nos torna testemunhas do estrangulamento do humanismo em mídias públicas.
Vivemos em tempos de cyber-sociedade. Quando algo da natureza do ódio estrutural acontece, como vírus em termos de rapidez e descarte, vai se tornando difícil encontrar, desenvolver qualquer código de compreensão da alteridade. Não falo em ética, algo mais profundo na escala do conhecimento. Falo de discernimento e compreensão, porque é o mínimo que deveria emergir dessa esfera mais à derme do humano. Também não falo em humanismo, outra demanda importante, mas ainda vista pelo conceitual.
Quero falar da compreensão mínima do outro que está na base primeira do viver-com, do conviver. Compreensão como ação cotidiana, a da rotina mais usual entre os seres humanos. A compreensão da palavra, do gesto, da pessoa. Penso nessas relações líquidas, frágeis, instantâneas das novas sociabilidades que giram nas mídias sociais, e vejo o desrespeito total ao que é diferente, linchamentos virtuais e o ódio disseminado através de mensagens viralizadas que só causam mais dor e mais violência. O ódio e o ressentimento sempre existiram, mas a dinâmica das redes sociais ligou os pontos dos extremos, amplificou, tirou do armário os que ainda tinham certo constrangimento de expor o machismo, o fascismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, a xenofobia etc.
Culpabilizar o outro por seu isolamento cultural ou social, culpabilizar pela desterritorialização, migração, imigração, exílio é o estopim do que há de pior nas ações de ódio. Quando os fascistas das manifestações se unem aos pseudomoderados do discurso, aqueles que odeiam estruturalmente deixam suas casas e constroem com as próprias mãos novos guetos, outros campos de exclusão e extermínio, outras fronteiras.
Com quantos ódios fazemos uma guerra? Com quantas guerras alimentaremos tanto ódio?


Biografia
Doutora em políticas públicas e educação, formada em Literatura, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". É integrante do coletivo "Mulherio das Letras".


domingo, 11 de fevereiro de 2018

ADRIANA FALA DE... EVENTOS IN-FINITA/BALDAYA


O Palácio Baldaya sempre pensando na melhor comodidade de seus frequentadores e visitantes, inaugura no dia 19 de fevereiro de 2018 às 17:00 a Biblioteca/Ludoteca totalmente reformulada, com o II SARAU POÉTICO IN-FINITA/PALÁCIO BALDAYA. Todos convidados!

Um amanhecer com poesia e lirismo, no último sábado, dia 3, contaminou a todos que estiveram no I SARAU POÉTICO organizado pela IN-FINITA em parceria com o PALÁCIO BALDAYA. A iniciativa de ambas as partes para dinamizar e promover a literatura, e todas as suas vertentes, e fazer ecos, atraindo a atenção e visitação não só dos moradores da Junta da Freguesia Benfica, mas para todos que buscam um espaço acolhedor, charmoso e com diversas possibilidades para divulgar a arte e a cultura, e ser um ponto de encontro e referencia para toda Lisboa e arredores.

A escritora, jornalista e poeta Alice Vieira, deu voz ao primeiro poema, seguindo-se outros autores e poetas, como Manuel Machado, João Dordio, Vítor Costeira, Isabel Bastos Nunes, Maria Antonieta Oliveira, Manuela Baptista, abrindo o ciclo de Saraus que serão realizados a partir deste mês. Os coordenadores da IN-FINITA, Adriana Mayrinck e Emanuel Lomelino, leram poemas das autoras Brasileiras, Patrícia Porto e Cristina Lebre, no incentivo ao trabalho que realizam de assessoria literária entre Brasil e Portugal. O Sarau conta também com um espaço para uma mini-feira de livros onde os autores podem divulgar suas obras.


A IN-FINITA, trabalha há oito anos divulgando a lusofonia, e estará presente, dois sábados por mês, sempre pela manhã, em horários determinados e pontuais, com saraus, tertúlias, painéis, debates, entre outros, para incentivar, autores, editoras, leitores e todo o público em geral, com eventos que fomentam a poesia, prosa e a arte da boa escrita e suas ramificações, sempre em contributo para a expressão coletiva que repercute na história da literatura de uma pessoa, de uma comunidade, de um país ou de uma época.

Os eventos serão sempre divulgados com antecedência e fazemos um convite: Participe, nós queremos promover  a “Arte do Encontro”, como dizia o poeta Vinícius de Morais, nessa nossa Era tão individualista e digital.

Adriana Mayrinck
Produtora cultural

In-Finita

sábado, 10 de fevereiro de 2018

EU FALO DE... RACIOCÍNIO E COERÊNCIA


O raciocínio é uma característica humana que prezo. Assim penso e por isso penso. Através do raciocínio formei-me de acordo com ideais e conceitos, também nascidos de reflexão, e tenho vindo a construir-me, apenas e só, por ter este hábito de pensar-me. Esta formação alicerçada no pensamento exige não só a auto-disciplina de pensar-se constantemente, mas também de criar bases sólidas que sustentem pensamentos futuros, sem descredibilizar os passados. Isto significa manter uma linha de coerência reflexiva.

Raciocinar não é um simples acto de construção. Usar o raciocínio é, acima de tudo, uma forma de crescimento e aperfeiçoamento que, na maioria das vezes, e quando bem utilizada, tem o condão de fazer-nos confrontar racionalmente os nossos parâmetros e questionar a tal linha de coerência, sempre tão frágil e ténue.

Pensar-me tem ajudado a compreender a facilidade com que a coerência pode ser posta em causa, pelos mais ínfimos detalhes, quando não entendida como uma lógica de evolução e melhoramento. No fundo, coerência não implica dogmatismos mas sim ideias evolutivas e moldáveis em defesa daquilo que se acredita.

Serve esta dissertação meio trapalhona e atabalhoada, à falta de maior capacidade explicativa, para justificar a minha forma de estar e compreender o universo da escrita, tal como ele se apresenta e, com pena minha, recusa alterar-se e resiste à mudança.

Quando comecei a interagir com mais frequência com os diversos agentes do mundo literário, dei conta de algumas lacunas. Reflecti na necessidade de alguns autores e quão fraca era a visibilidade dos seus trabalhos e, em 2010, criei um projecto de divulgação, que evoluiu e se mantém até hoje. Apesar da incerteza, persisti e consegui dar-lhe uma dimensão razoável que, não sendo a ideal, sempre contribuiu para que alguns autores e editores achassem por bem confiar neste projecto. Em simultâneo, e seguindo uma linha de postura coerente, mantive durante alguns anos o hábito de fazer a divulgação de eventos literários, independentemente dos organizadores, dos editores, dos autores e dos locais onde se realizavam. Até determinada altura, esse meu trabalho franco foi quase unanimemente aceite e compreendido.

Por outro lado, desde 2011, tenho-me manifestado contrário ao sistema implementado e sempre contestei as condições que são colocadas aos autores, na hora de editar e para o fazer. Ao longo dos anos tenho tido o cuidado de pautar o meu discurso nesse sentido e, em muitos trabalhos realizados, procuro que as condições sejam o mais parecidas possível com aquilo que eu julgo serem as ideais. Esta minha luta, que nunca escondi, também foi aceite e mereceu compreensão.

A minha postura, tanto no projecto de divulgação como na contestação ao sistema instalado (que não altero e mantenho como sendo algo que acredito ser justo e possível alcançar), é fruto do raciocínio feito depois de observar as diferentes variantes que esta problemática encerra. Eu analisei, pensei, reflecti, para depois criar ideias baseadas nas minhas próprias conclusões e tenho agido em conformidade, com empenho, as armas que tenho e coerência.

Posto isto, e depois de uma grande dose de reflexão, decidi pegar na experiência acumulada, em trabalhos executados para algumas editoras, e servir-me dela para impulsionar o meu trabalho de divulgação, com a criação de uma antologia. Depois de ler e analisar diversos regulamentos, elaborei um que se adequasse à minha pretensão e que fosse o mais fiel possível às minhas convicções profundas.

Tendo divulgado mais de 3500 poemas, ao longo de oito anos, no blogue TOCA A ESCREVER, decidi criar esta antologia de modo a fomentar ainda mais essa vertente de divulgação de poesia lusófona.

Eu defendo que os autores não devem pagar para ver os seus trabalhos editados, nem nas publicações colectivas. Contudo, e porque esta minha iniciativa é de cariz particular, sem qualquer apoio ou envolvimento de editora, tive de adequar o regulamento às necessidades de custos que uma edição envolve, daí o valor por poema (5€).

Também procurei uma forma de criar condições de benefício para os autores participantes, em caso de pretenderem exemplares para além daquele que lhes será "ofertado", pois seria injusto, e incoerente com o meu pensamento, que os autores pagassem o valor igual aos não participantes. (7€/autores, 10€/público)

É minha intenção mandar imprimir, para além dos exigidos por questões legais (depósito legal e isbn), os exemplares correspondentes ao número de autores participantes, acrescido de dez exemplares para a sessão de lançamento da obra e posteriores acções de divulgação (propósito génese desta iniciativa).

Por pensar-me e raciocinar no que faço, chego à conclusão que muitas vezes as minhas acções roçam a incoerência junto das minhas palavras. E é o caso desta minha iniciativa. Por um lado continuo a ser crítico com o facto de exigir-se dinheiro aos autores para editar (seja em que moldes for), por outro, eu próprio faço essa cobrança neste projecto, mesmo que o faça por falta de meios para o fazer de outra forma.

Pergunto-me se não seria mais coerente ficar quieto, como muitos fazem, e limitar-me a contestar, do que tentar fazer coisas de maneira diferente mas que ficam feridas, em elevado grau, pela notória incompatibilidade que têm com aquilo que tanto contesto?

Pensando-me, pensei na resposta a esta questão e concluí que, para atingir os fins que me proponho, volta e meia tenho de colocar de lado a rigidez do pensamento, engolindo alguns sapos auto-criados, e atingir a coerência, que tanto apregoo, contornando-a com a coerência do raciocínio.


MANU DIXIT