segunda-feira, 18 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Um Prefácio

Tudo que escrevo é autobiográfico e é autorretrato de uma artista nua,
Nua em carne, pele,  sexo, origem, latência...
A escrita são os meus ossos do ofício, os meus pulmões para os berros,
Minha linguagem secreta com a Arte, meus artifícios e queixumes,
Até porque sempre busco desabitar as coisas que me habitam,
As tralhas da minha casa interna.  Trago isso primeiro do inconsciente,

E trato de entornar tudo até poder tomar o que foi escrito como as consciências do dito, mas nas consciências já sou a outra, a que corrige, corta, aponta a coesão e faz coação com requintes de carrasca... Já não gosto tanto desta e prefiro sempre a primeira, a que se joga no abismo por desequilíbrio, a bamba da corda ou a tonta. 

Penso que não há qualquer segurança para quem escreve.  A escrita é muito mais ruidosa e arriscada que os temas da vaidade.  Eu, particularmente, gosto do defeituoso e quanto mais defeituoso for o trajeto melhor será o meu encontro com o que eu leio do escrito.  O sublime está neste fraturar do tecido, no rude dos pontos, assim como o seu grotesco pode ser o belo do versar. Um grito é um defeito? Um choro, um defeito? As fragilidades do humano? As fraquezas são defeitos. E que sejam, porque nos tornam menos fantasmas do que já foi vivido.  As memórias do imperfeito dão convicção ao movimento.

Eu habito essa casa-escrita, mas sempre de malas prontas para partir para outra habitação, e assim vou construindo novas arquiteturas e me desvencilhando dos casulos, sempre tão confortáveis. Não me ofereço para ser o fantasma dos meus próprios poemas; dos quais me despeço com certa parcimônia, com uma boa dose de constrangimento, a necessária do Advir. A mobilidade é que sempre me chama para o salto seguinte e se a reminiscência me provoca, eu a levo junto para um novo experimento de salto.

Não me preocupo em ser uma pessoa que escreve com reconhecimento em círculos literários, porque os círculos que me fascinam são outros: bacias, mandalas, todas as formas redondas e a circularidade das palavras, essa tarefa de ser mãe das próprias ideias. E parir indiscriminadamente sem permitir que me rotulem em algum ponto periférico-circular entre os que muito falam.

A escrita, se me defino nela, é Maior que o cálculo de viver. Os planos? Os projetos? A escrita é o antes do plano ou do projeto, porque antecede  o pronto da tipografia com seus consertos finais, é antes o porém, o entre, mais conectiva que substantiva a princípio. É o nada que nos liga, como o cordão que nos liga ao primeiro mundo. Depois vem o outro novo mundo e a certidão de nascimento. O substantivo. O verbo. O sujeito. O verbo.

Escrevo para que os outros leiam. Se a Vida nos bastasse, lembrando Fernando Pessoa, por que faríamos Arte? Fazemos Arte porque somos crianças ávidas pelo Amor. E nossa expressão requer a mesma paciência que as crianças exigem para as suas garatujas.  Tenham paciência com a leitura de toda escrita. Todas merecem respeito e afago. Aos que trabalham com margem de lucro, sim, a esses podem pedir explicações.

Escrevo enfim para não morrer de inanição ou não enlouquecer o outro que me vê ainda alguma qualidade. Não herdei nada, talvez nem genes; mas deixarei esses escritos como um legado de alguém que amou fazer parte desse mundo através da escrita.

domingo, 17 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES

Concordo com a assertiva de que um país se faz com homens e livros e tenho esperança de que possamos vencer esta nova ditadura da ignorância com roupagem moderna e midiática.

Existe um mundo para além dos reality shows e filmes enlatados e mídias sociais repletas de tolices com status de verdade.

É precisamente a incapacidade de formar imagens mentais, devido principalmente a este bombardeio sistemático no cérebro, que estimula o uso de drogas e coisas afins que por sua vez prometem as ilusões temporárias de experiências alucinógenas e definitivamente nocivas à saúde.

Trecho de Crônicas de um olhar diferenciado. Atrocidades Cotidianas.

sábado, 16 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... BÁRBARA LIA

mana, estamos sozinhas nas madrugadas

Mana, estamos sozinhas nas madrugadas puro estanho
Nas tardes de farpas atravessando rios de intolerância
Somos nós na janela prontas ao salto e a última lágrima
Estilhaçadas antes do nosso sol dissolver no ar da beleza
Mana, estamos sozinhas e esquecidas feito flor no deserto
O estatuto adâmico a voz das encíclicas as falsas posturas
A desnivelar nossa carne e alma, nos leva à rebeldia
Veja o rio caudaloso de sangue de todas que foram mortas
Uma espécie de maldição que se carrega nas dobraduras
Cada mulher leva em cada vínculo de osso e carne o sino
Quando ela passa urge que pareça uma monja e que não soe
Que nada soe que tudo cale que sua alma estelar se apague
Urge que ninguém perceba o palpitar vivo em cada poro
– A invisível que atravessa um pátio – para sair viva
E o rio de sangue de todas que morreram só por ser – única –
Aumenta à proporção do desgaste de tudo que é poesia
Mana, estamos sozinhas nas madrugadas nas noites no deserto
Lembre de não deixar pendências, escrever teu testamento
E olhar nos olhos como se fosse último olhar a cada tchau
Que dás ao teu amor

Bárbara Lia

-- escrevi ano passado diante do impacto de tantas mortes de mulheres e transsexuais, esta coisa que nunca acaba...
é preciso que se abra um debate sem precedentes que resulte em mudanças estruturais em uma sociedade que não permite que mulheres andem de táxi, ônibus, urbe, seja lá o que for... isto é sério, é muito sério... não podemos ser invisíveis neste mundo, não podemos extrair com pinça nossa beleza, sensualidade, carisma, é preciso punição exemplar para os estupradores, não estas penas complacentes que enojam... duros tempos...


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

EU FALO DE... ENRIQUECIMENTO DA LÍNGUA


Na sequência da minha participação no 2º Festival de Poesia de Lisboa (organizado pela Helvetia Edições) e tendo em consideração o acolhimento que as minhas palavras tiveram juntos da plateia, decidi escrever sobre um dos assuntos que abordei, mas de forma muito sintética, e que merece uma reflexão mais aprofundada.

Em determinado momento da palestra, quando falava de benefícios da era digital nas criações poéticas, mencionei a adição de novas terminologias no léxico e, para aligeirar um pouco, dei o exemplo a palavra upgrade. Todos nós já lemos em algum momento esta e outras palavras, relacionadas com as tecnologias, num ou noutro "poema".

Abro aqui um parêntesis para dizer que coloquei a palavra "poema" entre aspas pela simples razão de mais facilmente identificar o objecto de análise, porquanto muitos só serão poemas na cabeça de quem escreve.

Retomando o fio à meada; usei o termo upgrade como poderia ter usado muitos outros que surgiram com a evolução informática e tecnológica.

No entanto, apesar da minha tolerância ao modo como cada um cria os seus textos, e porque o tempo disponível não me permitiu aprofundar mais este aspecto, sou apologista que, sempre que possível, nós autores, devemos evitar os inglesismos (e outros ismos). No caso concreto do exemplo dado, a língua portuguesa tem palavras que podem muito bem ser utilizadas em detrimento de upgrade... (actualizar, actualização, melhorar, melhoramento, incrementar, incremento, etc).

Eu acredito, e defendo, que aos autores cabe a tarefa de enriquecer o seu próprio idioma, mas também acredito que não existe maior enriquecimento do que evitar estrangeirismos e dar primazia aos termos equiparáveis e já existentes. O enriquecimento não se faz apenas com a adição de novas palavras ao léxico; o enriquecimento faz-se, sobretudo, com o uso rigoroso, regular e constante, da riqueza e diversidade já existente na nossa língua.


MANU DIXIT

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... TACIANA VALENÇA

Acidente

Na curva da estrada um tombo. Todo o carregamento espalhado pelo caminho. Eram só poesias. Apenas poesias. Certo, estava lotado, abarrotado de sentimentos, deve ter sido o peso, o peso dos versos entonelados. Estavam agora largadas no asfalto. Algumas voaram morro abaixo, outras subiram aos céus. Foram tantos grudados na pista molhada!

Um acidente apenas, um trágico acidente numa BR. Mas o pombo ciscou e sapateou em cima de um deles, achando pouco deixou marcado seu excremento esverdeado. Nossa, isso é que é zombrar de sentimentos. Uma delas, talvez a mais leve e romântica estava presa a um galho. Lembro bem dela porque havia um coração mal desenhado à mão.

As demais seguiram caminhos diversos pelo céu aberto. A menina que no parque chorava sentiu algo cair em suas mãos, seriam palavras vindas do infinito? Mas enfim as palavras tornaram seus sonhos mais bonitos. Ao mesmo tempo um casal sentado num banco, que brigavam sem nem mesmo saber o porquê acabou lendo juntos a mensagem do além e sem demora eram um só bem.

Tantas foram as mensagens que agora de nada me serviam. Eram mesmo destinadas ao vendo, ao acaso, ao relento…

Agora me despeço dos versos, esses bipolares amigos das horas. Nem sequer mais um deixarei escrito em vagas memórias.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

 "Outros Cantos" e a estética da sobrevivência.

Há narrativas-correntezas tão fortes que nos fazem mergulhar no outro que também somos. Parece algo muito fora de nós a princípio, dada a vertigem do encontro, mas vamos entendendo no percurso da leitura que é realmente da nossa intimidade que se alimenta, da nossa imediata identificação, dessa afinidade aguda que pode até mesmo nos interrogar e que se lastreia para dentro, nos investigando os porões, revirando os guardados, revelando vozes segredadas, aquelas que não cuidamos de registrar e que vão se misturando ao chão da vida, trajetórias de leituras que nos escapam... E é partindo deste princípio, do meu lugar de leitora e educadora, ambas encantadas, que ofereço uma modesta contribuição de olhar a "Outros Cantos" de Maria Valéria Rezende. Porque, se nos encantamos e ainda não fomos castrados nesta habilidade, é pelo olhar curioso, visitado por outros sentidos, que nos deixamos reconhecer no texto lido e amado. 
              Em "Outros Cantos", ao me deparar com Maria, as Marias que habitavam em mim ressoaram. Dentro de mim uma nova jornada mítica: significar o que compreendo como estética da sobrevivência. Algo de delicado e outro de doloroso me ocorrem para tentar descrever esta estética de histórias que se assemelham às minhas e recriam pela cultura este diálogo permanente e polifônico. Como recebo Maria a partir de minhas Marias? As Marias que não deixei vingar, as que calei de saída, por medo e resposta antecipada contra o que parecia destino? Perguntas teimosas me fazem companhia pelo trajeto da leitura, às vezes estreitando a vista a fim de enxergar melhor esses jogos de perder e achar. Não sei se alcanço o todo de dizeres que vão brotando da pedra, a minha é a mais bruta. Procuro aqui e ali um desvão, um atalho que nos una, e que me faça encontrar Maria, a educadora, a nordestina, a viajante, a corajosa - num feito de matriochka. Um engenho elaborado entre escrita e significação que vou costurando junto à cartografia do sertão. O sertão que se biparte em geografia e sentimento. Patuá de sertão é para sempre esse carregado de memórias no peito. 
                  Mas eis que surge a imagem que persigo: a viagem. O caminho sensível pela alma de minha leitura amorosa, alma porosa, cálida e dedilhada pelo risco e invento dos sobreviventes. Tento sintetizar minhas percepções e palavras como "denso, perturba-dor, delicado" são os melhores qualitativos que encontro. Ouso trazer Maria e "Outros Cantos" para minha coleção de imagens. Guardo este segredo de quem escava histórias em mil camadas e que se instaura na convergência da leitura com a educação: dois amores e uma espécie de circuito inacabado que encarna no mundo como aliança quixotesca, subversiva, desviante. "Outros Cantos"  acende em mim a tradição das almas velhas. Dou rendas à escritura: cheia, vazia, entrelaçada, torcida - que não guia, mas nos torna cúmplices da narrativa, sujeitos clandestinos, desejantes e sonhadores.


Maria Valéria Rezende é ganhadora do prêmio Jabuti e do prêmio Casa de Las Américas.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK


Ando pelas ruas do Recife com olhar de distanciamento, recolhendo na memória relíquias. Com uma certa saudade das ruas em que crianças corriam e brincavam e hoje passam carros barulhentos com as suas buzinas apressadas. As casas com seus pés de jambo e azeitonas que hoje transformaram-se em prédio colados um ao outro e pouca sombra. Os apitos dos vendedores ambulantes que perderam-se nas lembranças infantis. Ainda ouço passos, vozes, da família reunida na varanda, na casa do meu avô, misturando-se com a melodia das folhas dos coqueiros a dançarem no vento, o cheiro do queijo coalho derretido com mel de engenho, aquele sabor do café com bolo de rolo, o suco de graviola, o sorvete de mangaba e tantos sabores que só encontrava nesse pedaço de mim.

Deixo esse Recife de Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, João Cabral de Melo Neto. Alberto da Cunha Melo, Clarice Lispector, e tantos outros imensos escritores e poetas, referências da minha trajetória de vida e caminhos, retidos em um lugar especial, do lado de dentro.

Hoje a palavra saudade chega com leveza e sensação de um tempo muito bem vivido e desfrutado em cada instante. E no encontro com amigos e família, constatei as alegrias que deixamos no coração e nas memórias daqueles que partilhamos vivências. E nas marcas do tempo, ficam ali, guardadas a serem resgatadas quando um olhar, um sorriso, uma palavra se reencontram. Voltei a Recife, como o fiz, inúmeras vezes, após abraçar o Rio de Janeiro como parte de mim. Mas nesses cinco meses, regressei como quem se despede a cada dia. E essa percepção de “talvez não passe mais por aqui”, faz com o que o olhar, o sentimento, sejam mais atentos aos detalhes e até mais carinhosos com aqueles que cruzam o nosso caminho.

E fui tão acarinhada nesses dias que a palavra saudade transformou-se em gratidão envolvida por um sorriso de alegria e aconchego. Foram tempos de incertezas, trabalho árduo e muitas conquistas. Foi como se o ninho estivesse preparando o pássaro para um voo maior pelo céu sem limites. E em uma manhã de sol intenso, ouço no vento... “Vai... voa!”

Recife, local onde nasci e criei laços, e pouco permaneci. Mas é aquele lugar de abrigo, de sol, de sabores e docilidades. E é o local onde retornei, várias vezes para respirar e me inspirar. O ar abafado dos dias ardentes e a brisa refrescante das noites enluaradas. 

O cheiro de maresia e a sede saciada com água de coco. E palavras, encontros, leituras, poesias, luminosidade.

O ponto inicial, o ponto de partida.

Recife que me abriga e me liberta.

Para um novo olhar, um novo tempo, um novo voo.


DRIKKA INQUIT

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

EU FALO DE... LIVROS VERSUS E-BOOKS

No outro dia alguém me disse, e com muita graça, que um dos factores que levam tanta gente a querer ter um livro editado está no que foi profetizado há alguns anos sobre o tempo de vida dos livros em formato de papel.

Lembro-me perfeitamente que, com o aparecimento e rápida expansão das redes sociais, alanvancados pela evolução tecnológica, muita gente achou que o fim do livro, tal como o conhecemos, estaria perto e seria inevitável.

Não sei se esse dia chegará. Sei é que ainda não chegou e não creio que isso venha a acontecer a breve prazo.

Seja como for, e pegando um pouco na importância/influência das tecnologias no objecto livro, gostaria de tecer algumas considerações.

Em primeiro lugar, como afirmei diversas vezes, em momentos distintos, creio que há mais benefícios que prejuízos com a introdução das novas tecnologias, ao dispor dos autores.

Enquanto autor, sou a favor da utilização de todos os meios que permitam uma maior e melhor divulgação do meu trabalho. Não me choca ver os meus livros também disponíveis em versão e-book.

Já enquanto leitor, perdoem-me os menos conservadores, não consigo ser fã dos suportes digitais que vieram tentar substituir o livro físico. A minha paixão pelos livros surgiu não só pelos conteúdos mas também pelo toque e pelo cheiro. E isso não há e-book que nos consiga proporcionar.

Neste aspecto sou um leitor à moda antiga mas, como nem tudo em mim sofre de conservadorismo, vou fazer uma analogia entre duas actividades que gosto muito: ler e sexo.

Tal como no sexo, o prazer de um bom livro está também na possibilidade de juntarmos, à emoção, os toques e sentirmos o cheiro. Nos livros, tal como no sexo, há a emoção de tocar as páginas imaculadas de um livro novo ou as páginas envelhecidas de um muitas vezes lido. Tal como no sexo, os livros permitem-nos sentir diferentes texturas, diferentes emoções... e tudo isso proporcionado pelos toques e pelo cheiro.

O e-book está para o livro como alguns gadgets estão para o sexo... os aparelhos até podem ser bons e proporcionar momentos de prazer mas convenhamos, não é a mesma coisa. Os e-books, quanto muito, são frios ao toque e cheiram a plástico. Falta-lhes textura. Não há diferença entre um e-book novo e um lido imensas vezes, nada os diferencia.

Tal como no sexo, também nos livros, eu prefiro o original e não a versão tecnológica.

MANU DIXIT

domingo, 10 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO


“A cadela do fascismo continua no cio”

… Assim falava Bertoldt Brecht em sua célebre frase. Todos sabemos que os tempos de hoje são tempos favoráveis às criaturas sombrias. O grande cineasta George A. Romero, pai dos filmes de zumbis, morreu há pouco tempo, mas nos deixou de herança esta simbologia dos mortos-vivos e vivos-mortos. O que retorna do túmulo permanece vivo, mas agora é vivo-morto. A cinematografia recente vem trazendo nas suas representações os efeitos drásticos de se viver numa terra arrasada por zumbis. Estas duas imagens ilustram o retorno do ódio neste período recursivo da história, do ódio que mora no coração dos homens e que retorna como super bactéria, se alastrando pelo ressentimento cíclico ou por uma nova forma vil e gratuita de contaminação via redes sociais.

No Brasil, estamos vivendo tempos de terra arrasada, tempos de exceção, tempos de perda da nossa democracia – tão jovem – junto à plena perda de direitos duramente conquistados por anos de luta e desassossego dos oprimidos, dos que estavam e ainda estão nos movimentos sociais, nos movimentos feministas e no feminismo negro, nos movimentos negros, quilombolas, indígenas, LGBTs.

Mas, para lembrar um filme bem brasileiro, é “ódiquê”? É o ódio ao povo, ódio ao negro, mas principalmente ódio à negra – que chegou ao ensino superior, à pós-graduação, ao Miss Brasil. É ódio aos nordestinos e mais ódio às nordestinas com suas “caras de empregadinhas”. O ódio às negras e nordestinas pobres que recebem o Bolsa Família e se recusam a voltar para as cozinhas sofisticadas dos neocolonialistas, que se recusam a trabalhar sem direitos nas novas senzalas.

O ódio da classe média-medíocre é o ódio às políticas públicas, às universidades que, na visão distorcida dos que odeiam, criaram cotas que facilitaram a entrada dos pobres, negros, nordestinos, a confluência de todas as margens para um lugar não destinado a elas: a mobilidade social. É o ódio tacanho, torpe, que mata e violenta todos os dias – os homossexuais, as mulheres, a juventude negra, as crianças pobres – e que vai num crescendo se formando enquanto avalanche e genocídio.

Quantas pessoas já foram assassinadas no Brasil em 2017? Quantas delas eram negras? E no mundo? Quantas eram imigrantes? Quantas eram mulheres? Quantas eram crianças? Há uma relação muito estreita entre neocapitalismo, racismo, xenofobia e a negação dos excluídos. Declarar guerra aos pobres e aos indesejáveis é o tipo de absurdo que se pauta nas mesmas justificativas sempre utilizadas pelas classes dominantes para punir os considerados fracos e elimináveis: prender, vigiar, negar a existência. E se nada disso der certo – caçá-los com cães, matar e tirar da vista. Nas palavras de Foucault, no clássico Vigiar e Punir:

“Apresentá-los como bem próximos, presentes em toda parte e em toda parte temíveis. É a função do noticiário policial que invade parte da imprensa e começa a ter seus próprios jornais. A notícia policial, por sua redundância cotidiana, torna aceitável o conjunto dos controles judiciários e policiais que vigiam a sociedade.”

É preciso sempre lembrar que esse discurso mata. Dizer no programa de televisão que “bandido bom é bandido morto” mata. Esta semente diária do ódio que nasceu da injustiça social, assim como o desejo de massacre contínuo, a permanente ideia de eliminação do outro, todos esses elementos de ódio vão se tornando parte do nosso cotidiano e, como bem diz Foucault, vão tornando o discurso palatável, aceitável. Os elimináveis são apresentados aqui como parte temível. Eliminar faz parte do jogo que migra do discurso para a banalização da ação. A julgar pelo que vejo neste jogo do fascismo, logo avançaremos uma casa e chegaremos ao “pobre bom é pobre morto”.

Mas de quantos mortos precisamos para fazer uma guerra?

Intolerância. Ódio. Falta de empatia. Fundamentalismo religioso. Homofobia. Machismo e Feminicídio. Radicalismo conservador. Há muito para se refletir sobre esses atos de violência e barbárie. As práticas discursivas da atualidade e o desejo paradoxal de empatia em tempos individualistas, de completa indiferença, além da alienação do outro nos torna testemunhas do estrangulamento do humanismo em mídias públicas.

Vivemos em tempos de cyber-sociedade. Quando algo da natureza do ódio estrutural acontece, como vírus em termos de rapidez e descarte, vai se tornando difícil encontrar, desenvolver qualquer código de compreensão da alteridade. Não falo em ética, algo mais profundo na escala do conhecimento. Falo de discernimento e compreensão, porque é o mínimo que deveria emergir dessa esfera mais à derme do humano. Também não falo em humanismo, outra demanda importante, mas ainda vista pelo conceitual.

Quero falar da compreensão mínima do outro que está na base primeira do viver-com, do conviver. Compreensão como ação cotidiana, a da rotina mais usual entre os seres humanos. A compreensão da palavra, do gesto, da pessoa. Penso nessas relações líquidas, frágeis, instantâneas das novas sociabilidades que giram nas mídias sociais, e vejo o desrespeito total ao que é diferente, linchamentos virtuais e o ódio disseminado através de mensagens viralizadas que só causam mais dor e mais violência. O ódio e o ressentimento sempre existiram, mas a dinâmica das redes sociais ligou os pontos dos extremos, amplificou, tirou do armário os que ainda tinham certo constrangimento de expor o machismo, o fascismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, a xenofobia etc.

Culpabilizar o outro por seu isolamento cultural ou social, culpabilizar pela desterritorialização, migração, imigração, exílio é o estopim do que há de pior nas ações de ódio. Quando os fascistas das manifestações se unem aos pseudomoderados do discurso, aqueles que odeiam estruturalmente deixam suas casas e constroem com as próprias mãos novos guetos, outros campos de exclusão e extermínio, outras fronteiras.

Com quantos ódios fazemos uma guerra? Com quantas guerras alimentaremos tanto ódio?

sábado, 9 de setembro de 2017

DEZ PERGUNTAS A... WAGNER MARTINS

 Entrevista conduzida por Adriana Mayrinck
 

 1 – Em sua biografia você conta que um professor te apresentou aos versos na aula, e que esse encantamento te faz até hoje correr atrás dos livros.
Conte-nos um pouco dessa história.

Foi em mais uma aula da língua portuguesa, tinha tudo para ser entediante, até que o professor da tal matéria abriu o livro didático, e leu uns versos que não me lembro como eram, me encantei com aquelas frases rimadas, então descobri que era poesia, isso foi o impulso que me levou aos livros.

 2 – Adorar poesia e ser poeta tem uma grande diferença.
Como se deu essa descoberta como Poeta ?

Sempre tive apreço pelas letras das músicas, ou poesias musicadas, e geralmente elas nos trazem mensagens, e eu como ser humano que se preocupa com o outro, desejei me comunicar com o outro ser, e me comunicar é também escrever poesias, nessa forma me fiz poeta.

3- Quem são os poetas que mais te influenciam, e o que cada um tem de particular para tocar a sua alma?

Eu amo com muita força a poetisa Cora Coralina, ela se eternizou como uma brava mulher em seus versos, além de estar à frente do seu tempo, e crescer, viver, e lidar todo o tempo com o fardo das pedras, ela com sua bravura se inspirava na dureza daquela situação para fazer doces, belas poesias, nos fazendo esquecer as nossas dores, e delirar com as emoções de Cora.

4- Wagner, nos seu verso “faça dos empecilhos que você enfrenta os maiores incentivos”, é uma a mensagem e também uma tradução da sua luta diária. Como você adapta a criação poética, as dificuldades de mobilidade?

Sim, pois todas as dificuldades, por mais desafiantes que sejam, somos nós que damos a elas as suas importâncias, creio que depende muito do ângulo que as vemos, e como lidamos que definirão as suas existências na nossa vida.

5- É você quem digita seus poemas, e mantém atualizado o blog, ou sua mãe, Maria Aciatuã, além de ser sua voz, braços e pernas nos saraus e apresentações, também te ajuda na criação?

Essa pergunta, creio que paira bastante nas cucas daqueles que já tiveram contato comigo pessoalmente, e desde já digo que sim, sou eu que digito, e atualizo o meu blog, (por isso que está uma bagunça!)

6 – Sua mãe foi a financiadora do seu livro e é a maior incentivadora da sua vida como autor. Como foi essa trajetória até chegar a publicar  Versos da Bela Vida?

Tentarei resumir a resposta, logo que comecei a escrever criei um blog para manter o meu trabalho ali, e sempre uso as redes sociais para divulgar esses textos, assim que terminava de escrever, mostrava a minha mãe, e ela gostava muito, elogiava bastante os meus feitos, ficava feliz vendo seus olhos brilharem de alegria, e eu fazia o mesmo com a diretora da escola que estudava, essa também ficou fascinada pelas minhas produções, e desde então iniciou a persuasão de sua pessoa para publicar um e-book de poesias que já estava posto no blog. No começo eu a ignorei, já que devido a minha condição social não achava nada que me impulsionasse a tal ato, mas a doce insistência dessa mulher, que acreditou em mim, me fez sonhar também o sonho dela!
Minha mãe conseguiu juntar dinheiro, já que não tivemos nenhum apoio financeiro, procurei uma editora, e no ano de 2014 publiquei na primeira remessa 50, depois 100 exemplares.

7 – Conte-nos um pouco do livro, como foi a elaboração e escolha dos poemas?

O livro contém poemas muitos esperançosos, celebrantes, mensagens de autoestima...
Escrevi-o durante muitas madrugadas, o meu intuito foi atingir positivamente a mim, e consequentemente aos seus leitores.

8 -Pelo que percebi, você também faz um trabalho social intenso, e levando incentivo aos jovens. Qual a temática do seu livro e a mensagem de suas palestras?

Imagino que todo aquele que se mete a escrever para o público, tem que estar perto desse, eu não acho adequado essa palavra PALESTRA, pois o que faço quando tenho essa chance é ir fofocar, contar a minha história mesmo, incentivo o questionamento sobre o que contei, e respondo.
A temática que acha nesse livro é uma PALAVRA AMIGA.

9 – Como é a sua rotina de palestrante, autor e divulgador do seu próprio trabalho? Tem uma hora certa para se inspirar e escrever?

Naturalmente, quando me convidam para os saraus, palestras, e eventos literários geralmente, se der para eu ir, ou me buscarem em minha casa eu aceito.
Sobre o ato de escrever, eu leio muito, assim imagino, e o resto deixo fluir, têm dias que uso a inspiração, e outros dias eu a forço!

10– Quem é Wagner Martins na frente do espelho?  Como você se define?


O ser humano que pensa, que surpreende a muitos que julga pela aparência, um mensageiro de si, um menino sonhando, e realizando seu sonho, se divertindo a brincar de ser poeta com os leitores, e ouvintes.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

EU FALO DE... PEQUENOS DETALHES


Um dos aspectos que me deixa sempre com pé atrás, em relação a alguns autores, provém da frase gasta e ilógica: "Escrevo com a alma". Gasta, por tantas vezes usada, ilógica porque ninguém escreve com a alma, quanto muito com lápis ou caneta, ou no teclado do computador.

Mas façamos de conta que há mesmo quem escreva com a alma... nesse caso, lamento muito informar, essas almas são tremendamente incoerentes e a única coisa que fazem é levar o seu proprietário ao descrédito.

Como disse, fico de pé atrás quando oiço alguém dizer que escreve com algo incorpóreo e depois, quando leio o que essa alma escreveu, vejo coisas do género: "Naquele dia a lua estava luminosa" e a única explicação que encontro para tal fenómeno é a possibilidade dessa alma ter escrito no Inverno árctico dos países escandinavos ou no alaska. E mesmo assim  tinha de ser num dos raros momentos em que o céu fica limpo.

Outra muito frequente é: "A brisa soprava forte"... Eu sei que deixei a escola há muitos anos mas, recordo-me perfeitamente, a definição de brisa, por si mesma, estabelece que estamos perante um vento fresco, brando e leve. Ora, assim sendo, quando sopra forte deixa de ser brisa para ser apenas vento.

E como estes, encontram-se muitos outros exemplos.

Eu sei que pode parecer mesquinho fazer estas observações, no entanto, é nestes pequenos detalhes que reside a diferença entre um bom texto e mais um texto.


Também sei que, hoje em dia, a generalidade dos autores sente uma tremenda urgência em alimentar regularmente os seus leitores e assim receber a sua quota de likes e comentários. Mas, convenhamos, para receber os comentários que recebem, podem muito bem gastar mais uns cinco minutos a burilar o que escrevem. Ok, compreendo que esses cinco minutos e esse trabalho de aperfeiçoamento vos retira essa imagem de espontâneos e deita por terra o espírito "escrever com a alma", mas como isso não existe, deixem-se de tretas e cuidem melhor os vossos textos.

MANU DIXIT

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

FALA AÍ BRASIL... PATRÍCIA PORTO

Entre flores e feridas.

                          Quem já se sentiu vítima de um gesto, uma palavra, um olhar de intolerância sabe à flor da pele o quanto isso faz doer. E talvez tenha aprendido pela dor que a melhor resposta possível é uma resposta política: a luta, a luta pacífica - e não passiva - pelos direitos e pelos “deveres” dos homens. Um clichê dentro do outro seria dizer que desde que o mundo é mundo, os seres humanos exercem a nem sempre sutil “intolerância” - para humilhar, negar, apartar, desprezar o outro. E nada é tão difícil de tolerar que a própria intolerância. Diríamos também que é uma herança complexa de nossa vida coletiva se levarmos em conta toda a nossa história pelo mundo, tão marcada por ações e reações resultantes de atos de intolerância levados às ultimas consequências, atos violentos e infundados, nascidos da não aceitação e da retroalimentação de ódios entre os povos, que só deixaram como legado as guerras e os genocídios, as maiores tragédias humanas.

O Homem é sim capaz da exclusão e do extermínio por não concordar com ideias diferentes das suas, por não aceitar um modelo político diferente do seu, uma raça diferente da sua, uma classe social , uma religião que não seja a sua, enfim, por não enxergar a diferença entre os seres. E, paradoxalmente, tudo o que somos e fazemos vai nos singularizando dentro da própria trajetória humana. Somos diferentes, diversos, igualmente diferentes.

A tentativa de igualdade começa, sobretudo, pelo respeito à diferença. Pelo amor à diferença. E porque não há nada mais belo e humano que o amor não podemos deixá-lo de fora da resposta política, daí que o político é também poético, o que enfurece os que pensam dentro de caixas fortes. Ora, sabemos o quanto isso pode parecer desagradável: disponibilizar-se para amar, amar para além do seu raio de segurança e de seus prodígios. Não, não é fácil assim como num estalar de dedos e pensamentos. É um exercício contínuo de aceitar e ser aceito, é um exercício extraordinário de coragem. Até porque é muito mais fácil sentir raiva, guardar mágoas, velhos ressentimentos remoídos... Amar é ter coragem de assumir a sua parcela mais humana, é tirar a casca, a couraça, a culpa de não ser perfeito. É deixar de lado a mesquinharia, o egoísmo, toda falta de gentileza. Amar é sentir-se feliz por ser o suficiente - como disse um sábio, pois não precisamos ser o melhor entre outros, mas o melhor que se pode ser para alguém. Feliz quem pode olhar para as suas crias e se alegrar com a tamanha diferença encontrada. Feliz por ser capaz de compreender que os filhos não podem ser uma mera projeção narcísica dos desejos dos pais, de uma país e nem estão aqui somente para cumprir uma entre as tantas profecias familiares e coletivas. Eles são únicos quando são eles mesmos. E se perdem quando não podem ser eles mesmos.  Talvez a tarefa mais árdua seja de encontrá-los perdidos na estupidez globalizada.

Mesmo assim a perplexidade contemporânea nos coloca diante de atitudes pra lá de esquizoides se pensarmos nas últimas e tantas demonstrações de intolerância ocorridas pelo mundo afora. Poderemos nos questionar se estamos de fato perdendo contato com nosso mundo interior, perdendo também a capacidade de olhar para dentro desse interior. Para onde então caminha a nossa humanidade? E a nossa juventude? Tantos episódios de crueldade gratuita, de intolerância explícita... Por que sentir tanta raiva, tanto desprezo por tudo e todos? Será que estamos adoecendo ou será que sempre temos algo de doente em nós? Em tempos de glamourização excessiva da violência, dos bíceps saudáveis e das seitas que ditam regras comportamentais - até as alimentares, que tal trazer de volta o silêncio que perdemos com tanto barulho externo? Que tal ouvir o silêncio para refletir sobre quem somos, sobre o que queremos, sobre as escolhas que precisamos fazer? Que tal pausar a mente, nossa casa? Pausa-da-mente...

Nossos corações devem estar despertos para que possamos ver um palmo antes e depois de nossos narizes. Precisamos de menos babás eletrônicas e mais diálogo, menos shopping e mais abraços, menos redes sociais e mais tête-à-tête. Precisamos brincar mais, rir mais - principalmente as meninas, precisamos nos lançar mais ao outro, aquele nosso velho desconhecido. E, é claro, precisamos ter coragem. Essa palavra latina que une Cor + Agir, “agir com o coração”. O amor é a fé em estado sublime e sendo assim é o amor a única ponte que nos leva ao outro dialogicamente e que nos faz enxergar no olhar do outro a nossa imagem menos refletida, o amor é que nos educa sobre a necessária "empatia" para bem viver, para viver com, con-viver. Mais Eco. Menos Narciso.

(Esta crônica foi escrita em 2010)


quarta-feira, 6 de setembro de 2017

FALA ÁFRICA... MACVILDO PEDRO BONDE

METAPOESIA: QUE CAMINHOS ME GUIAM?
Este texto nasce a propósito das mesas “redondas” dinamizadas pelo Movimento Kupaluxa no Centro Cultural Brasil-Moçambique. Numa das sessões foi abordado para a questão do metapoema no meu livro. É a partir do questionamento do Pedro Pereira Lopes, meu confrade das letras que decide redigir braves palavras sobre a minha poesia.

A princípio considerei inapropriado enveredar por este caminho, mas a necessidade de conhecer melhor os caminhos da criação poética e das minhas inquietações levaram-me a percorrer este atalho sinuoso.

Que elementos de discurso compõem o meu texto para que possa cataloga-los de Meta poesia? Esta é uma questão que irá percorrer este pequeno ensaio a volta do que tenho escrito.

Como defende Sousa Freitas (2008:25) , é na necessidade de interrogar a escrita, que aquelas denominadas artes poéticas pessoais incorporam um movimento de in-escrita e de interrogação onde aparentemente o autor da escrita parece ter substituído o objectivo de comunicar pelo de se exprimir.

Na verdade no livro “ensaios poéticos” procuro enveredar pelo caminho de exorcizar os meus eternos fantasmas literários. Neste sentido, olho para o metapoema como um desses caminhos visto que o mesmo tem por tarefa a descrição do processo criativo do autor, algo que não se apresenta ao longo desta minha primeira aparição.

O século passado (XX) foi marcado por inúmeros autores que seguiram a metapoesia como recurso criativo. Neste sentido, a minha experiência estética em função dos meus gostos estéticos poderá de forma involuntária ter acoplado um conjunto de valores defendidos em Rimbaud e o seu simbolismo.

Recorrendo a uma definição simplista: metapoesia pode ser vista como: “poema em que o autor fala sobre o próprio poema, a poesia e/ou seu processo de criação”.

A minha poesia incorpora acima de tudo o meio envolvente onde me insiro. Ela representa uma forma de desconstruir a realidade social denunciando um conjunto de práticas que não ajudam a dar a poesia o seu verdadeiro lugar.

A este respeito, Thamos (2010) , “a experiência poética funda-se na percepção física da existência. O poeta busca dar a ver, através de imagens, aquilo que deseja exprimir e tende a valer-se da palavra como uma coisa em si”. Esta interpretação vem de algum modo fundamentar que a minha poesia é reflexo do que me rodeia.

“Quantos exercícios faltam para um poema vertical? Por que saga ou epopeia haverá de esperar, na madrugada insone, onde até os mosquitos reclamam da anemia de que padecem as minhas pardas veias? Quantos? Tantas questões ofuscam a réstia de saudade que se cola amiúde à minha forma de existir. Assim relegado ao som da flauta como quem encanta as cobras nas ruas de Panjab, escutas o milagre das ondas que não esmorecem”.

No poema “exercícios poéticos”, encontro elementos que demonstram que a intimidade com a minha poesia é ainda iniciática e artesanal. Há dentro do texto incertezas do eu-lírico perante o processo criativo, a qualidade estética, o sublime e o sentimento.

A comparação é um traço que descreve o estado da alma do poeta no texto. Vendo-se desterrado de valores com os quais um poema nasce “adulto”, fugaz, consciente do seu valor, aguardo um toque magica para despertar para o caminho da perfeição.

“A doença é o tédio da vida, a masmorra da alegria e do ritmo fascinante dos passos infantis à beira-mar. O tédio! O suco dos boémios e poetas na criação do verso. O rio de inspiração, o tubo de escape, a vida. Porque a vida é luta, é coragem para os dias que se avizinham tristes, é pão e água, respiração. A vida e o tédio cantam na janela do poeta a canção de embalar para que no luar o papel virgem brilhe eternamente na boca alheia”.

Em relação ao texto “tédio”, faço referência ao que inspira ao processo criativo. Há uma descrição de fenómenos com os quais se pode tecer um poema. A preocupação quotidiana é um elemento indispensável com o qual no seu íntimo o poeta constrói os seus sonhos no papel. Ou seja, o estado da alma concorre para que sangre sobre o papel o ritmo efervescente do verso. O poeta deixa-se levar a inspiração fazer o seu trabalho.

Como argumentam Martins e Cerqueira (2015:256) , “Tudo o que se transpõe para a forma do poema é, a nosso modo de ver, manifestação de experiências profundas pelas quais esse indivíduo especial tenha passado. Não que necessariamente tenham ocorrido com ele; nesse caso, a observação da experiência alheia dada nos altos níveis que somente aquele tipo de homem consegue experimentar será responsável pela captação poética”.

“Querias ser tu esse ruído medonho, esse estalo diferente na forja da palavra vida.” (p.9). Nota-se aqui uma preocupação com o mundo literário a sua volta. Procurar romper com o discurso do dia em que a literatura anda descrente, sem qualidade para continuar a iluminar a sociedade.

Neste sentido, procuro integrar todo um conhecimento sobre a vida, a literatura como mecanismo de trazer uma lufada de ar fresco a uma geração marcada por exemplos infelizes no campo literário.

“E o poema vertical nascia para a solidão dos campos secos, vestido do inchaço dos dedos, rugindo a saciedade da metáfora triste” (p.12). A preocupação com a qualidade do texto aparece vincada na ideia do poema vertical. Seguindo a ideia deixada por Virgílio de Lemos quando invoca Noémia de Sousa e a sua poesia de reivindicação de uma identidade, o poema vertical aparece como a exaltação do belo.

A criação poética é um fenómeno que associa a habilidade técnica e o acúmulo de experimentações emotivas de diversa ordem (Martins e Cerqueira, 2015:264).

Para concluir podemos invocar o excerto: “Começamos pela palavra, de seguida o verso e por fim a estrofe” (p.15). Este é um processo que indica a criação poética. Não é linear, mas o papel tinge-se de palavras que cobrem o silêncio da textura.