domingo, 21 de junho de 2020

Chá de camomila - TEREZINHA MALAQUIAS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Na sala da recepção, três mulheres aguardam para serem atendidas, no consultório de uma médica clínica geral.
Uma senhora idosa, uma jovem, e uma senhora estrangeira na faixa dos 50 anos.
A senhora idosa e a jovem colocam a bolsa e mochila no chão.
A estrangeira deixa a mochila grande, numa cadeira que estava vazia ao seu lado.
De repente ela levanta-se, e se serve de uma xícara de chá de porcelana nas cores branco e preto, que está sobre uma mesa baixa, pequena e branca, e nesta há também uma garrafa de cor laranja.
A estrangeira volta a se sentar.
Segurando a xícara com a mão direita, leva delicadamente aos lábios grossos e dá o primeiro gole saboreando-o. Nessa momento olha para a janela que está à sua esquerda.
Pensa:
– Hoje o dia está lindo, e a temperatura está bastante agradável para essa época do ano. Quinze graus no mês de março em pleno inverno alemão, é mesmo um dia bonito e quase feliz.
Fecha os olhos para usufruir melhor a energia do sol, e também para disfarçar as lágrimas que chegam imediatamente após, o primeiro gole de chá de camomila. Este tem o gosto e a saudade da mãe que já não vive mais.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 20 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - LENA MARÇAL


Agradecemos à autora LENA MARÇAL pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial?

Essa pandemia nos deixou um tanto ou quanto assustadores e penso que o mundo parou. A humanidade se sentiu fragilizada, dividida e amedrontada. Enfim é algo transcendental e nunca algo igual ou parecido  surgiu na face da terra. 

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu  processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada?

Eu não sou autora, mas sim dinamizadora/organizadora de projectos literários, e enquanto professora e pedagoga a escrita fez parte da minha vida. Afectou o andamento do nosso projecto, ou seja, todo o processo inerente ao projecto em causa. Em tempos de quarentena acho que a produção no começo diminuiu bastante, mas depois com o tempo e aceitação do que estava acontecendo aí despertou o interesse em começar a escrever. 

3 - Quando isso passar, qual a lição que ficou?

Que o ser humano habitua-se a tudo ele é um ser que se adequa a qualquer espaço ou a qualquer tempo e faz de tudo para ser feliz qualquer que seja o contexto em que vive. Nós somos seres sociais e que jamais poderemos viver individualmente.

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano?

Influenciam pela positiva. Pois esses movimentos tratam de colocar a mulher no centro de tudo o que se passa no país e no mundo inteiro sobretudo em temas candentes como a exploração sexual das crianças, a emigração clandestina, a segurança social e os direitos do ser humano.  

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações?

Incentivando as pessoas ou seja o público apresentando as vantagens que a escrita traz como a liberdade, o tirar para fora sentimentos oprimidos e vividos que só a partir da escrita poderemos as contar.  Divulgando, criando espaços de interação onde cada um poderá dar a sua opinião. Percebo esse retorno pela participação e pela forma como as pessoas elogiam e se sentem também lisonjeados pelo convite. 

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher?

Pontos positivos: o lugar que ela ocupa na sociedade , o ser mãe,  esposa enfim a mulher tem um manancial de factos , vivências, realidades para se vincar na escrita.  
Pontos negativos: falta de motivação, o tempo para se dedicar a escrita, o medo em passar pelo papel aquilo que vivenciou, a crítica destrutiva. Falta de apoio Institucional.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto  prazo e um a longo prazo.

Como mentora e uma das  organizadoras de um lindo  projecto literário de cariz social inédito em Cabo Verde gostaria de ver acontecer o II VOLUME  da Antologia "Mulheres e seus Destinos"

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal?

Gostaria que estivessem presentes temas altruístas que só elevam o ser humano a se posicionar melhor na sociedade, importar-se com o outro. 

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influencia na escrita.

Os clássicos da literatura portuguesa; os autores que fizeram parte da minha formação acadêmica. Alguns autores da literatura cabo-verdiana,  francesa e africana que fizeram parte da minha vida profissional. 

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Que gostarias de fazer daqui pra frente?
Fazer algo que ajudasse os mais jovens sobretudo os que deambulam pela rua.  Gostaria de conhecer mais países interagir com novas outras  culturas, novas gentes.

História de mar e amar - SHEILA MARTINS DOS SANTOS

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Kafi, assim era chamada por todos do bairro de Japeri. Era uma mulher negra, serena como água doce escorrendo pela mata, como um rio em direção ao mar. Tinha cabelo crespo, alto como um Baobá.
Seus olhos eram grandes, pretos e brilhantes como a chuva. Observava atentamente o mundo ao seu redor. Seus olhos falavam mais do que seus lábios.
Havia silêncio torrencial em seu caminhar. Seus dias se constituíam em ecos de quietudes sem fim. Com seus olhos brilhantes, comunica-se com pessoas. Já com as mãos, sinalizava com a fluidez dos ventos de Oyá. Com essa movimentação das mãos, os diálogos ocorriam, bailando em meio ao universo da calmaria.
Sobreviver não foi tarefa suave para Kafi. Porém, aprendeu com a vida a ser como água forte contornado as pedras das desilusões.
Seguindo a direção da vida, a alegria tomava conta de sua alma, pois guardava em seu corpo, como um santuário, um presente de Òsún, o qual seria uma pretinha preciosa que, ao nascer, se chamará Sihle.
Porém, muitos eram os questionamentos a rondar seus pensamentos. Será que seria como a mãe? Será que também falaria com as mãos? Todas as angústias eram sanadas pelo sentimento de benquerença maternal que atravessava o seu corpo.
Afinal de contas, ela era um portal ancestral da vida.
No íntimo do seu ser, só desejava que sua filha fosse forte e aprendesse a fluir tranquilamente como as águas dos riachos, sinalizando com suas lindas mãos negras, suave como o balanço do mar.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 19 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - FATINHA DO BARREIRO


Agradecemos à autora FATINHA DO BARREIRO pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial?

Encarei-a como uma revolta da natureza, como se o planeta Terra nos dissesse: “não aguento mais, façam uma pausa por favor.”

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu  processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada?

Acho que estou menos inspirada, apesar de ter mais tempo, tenho menos ideias. Aproveito para dedicar mais tempo à família.

3 - Quando isso passar, qual a lição que ficou?

Que somos pequenos e frágeis, o mais importante é a família e a saúde. Que o ser humano é o maior destruidor do planeta, preocupa-me que um grande número de pessoas não mude os seus hábitos e atitudes

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano?

Claro que sim! Há vinte anos atrás não tinha coragem nem para falar as minhas próprias opiniões. Hoje sou muito mais “eu”.

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações?

Tenho divulgado na rede social facebook, a In-Finita Lisboa também tem ajudado muito a publicar em vários grupos.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher?

É muito bom podermos expor as nossas ideias sonhos e fantasias…
O lado negativo vai existir ao lidar com as críticas que podem ser construtivas ou não, temos que aceitar que há sempre quem critique, em qualquer que seja a profissão que escolhemos.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

Gostaria de publicar novos livros, queria no futuro abraçar outros horizontes que me permitissem deixar de ser cozinheira, uma profissão muito desgastante que exerço há 30 anos.

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal?

A violência doméstica e também alertar a sociedade para o perigo da violência psicológica, que não deixa marcas visíveis e afeta muito mais do que se pode imaginar!

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influencia na escrita.

Não tenho um autor favorito, gosto de Florbela Espanca, António Aleixo, Miguel Torga, Jorge Amado e, nesta quarentena, estou a aproveitar para ler um dos livros que fazem parte de uma colecção que tenho há muitos anos à espera de ser lida e recomendo: “VIAGENS NA MINHA TERRA: ROMANCEIRO” de Almeida Garrett.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

”Que conselho daria a uma vítima de violência?” Viver a vida sem pensar na opinião dos outros. Por vezes, não fazemos isto ou aquilo com medo do que os outros vão dizer. Faça tudo pela felicidade, só não vale desistir dela!

Gatos escaldados - RITA QUEIROZ

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Naquela noite só queriam fazer amor, loucamente.
Pôr em prática todas as posições do Kama Sutra. Afinal, depois de tantos anos de casados, precisavam reacender a chama da paixão.
Começaram as preliminares e logo ouviram choro de criança. Ela vai ver o que havia acontecido: era o caçula de 5 anos que tinha prendido o dedo na porta.
Voltou e reiniciaram as preliminares. Toca o celular. Ele atende. Era a filha mais velha que tinha batido o carro voltando da faculdade. Ele teve de ir resolver tudo.
Horas depois, mais uma vez, reiniciaram as preliminares para criar o clima, depois dos impedimentos. Quando tudo já estava bem “caliente”, a cama desaba e ela trava a coluna, não conseguia se levantar. Com o barulho, todos da casa acordaram e correram para o quarto do casal. Ao verem a cena, caíram na gargalhada e acrescentaram: – vocês não sabem que não podem mais fazer estripulias? O caçula solta a pérola: – papai, você estava brincando de montar na mamãe? Mais gargalhadas. Tudo voltou ao normal na manhã seguinte e eles resolveram: tinham de viajar, acampar em uma praia deserta, sem camas, sem telefones, sem riscos.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA