quarta-feira, 25 de março de 2020

Em tempos de quarentena - ZÉ CARLOS ALBINO


fomes
tenho fome de ser gente
tenho fome de liberdades
tenho fome de companhias, boas ou más
tenho fome de carinhos de quem me ama
tenho fome de passear na minha terra, tal como ela sempre foi sendo
tenho fome de viajar, nem que curtas
tenho fome da oralidade em que somos o que somos
tenho fome de mim tal como venho sendo
tenho fome de inspirações variadas
tenho fome de encontros de surpresa
tenho fome de conversas sobre tudo e nada
tenho fome de tudo o que é viver

e da fome ao medo
é um pulo de pés juntos,
sendo o medo um quarto escuro e sem portas,
tenho medo de não voltar a ser eu em pleno
tenho medo que nos mantenhamos fechados
tenho medo que nada do que devia mudar no mundo, fique na mesma
tenho medo que voltemos a tempos antigos de misérias várias
tenho medo que a liberdades fiquem enfraquecidas
tenho medo de não resistir a tantas fomes e medos

mas vozes amigas lembram-me
que sempre fui um combatente
que os encaminhou para caminhos de emancipação
que já resisti a tantos desaires e a mortes batendo-me à porta,
ancorado nestas vidas passadas
vou tentar fazer das tripas coração
dando alimentos às fomes´
fazendo dos medos avisos para os conseguirmos combater,
transformando o sobreviver dos tempos actuais
em vidas, mesmo que curtas,
de caminhos vivos e esperançosos,
voltando a ser eu mesmo !

zé carlos albino,
Messejanana, 19-20-21-22 de Março de 2020.

Todos os textos publicados na rubrica EM TEMPOS DE QUARENTENA são da responsabilidade exclusiva dos autores e os direitos respectivos apenas a eles pertencem.

Em tempos de quarentena - FÁTIMA HORTA


ESPERANÇA

Sempre a acompanhar: Tenho comigo pensamentos e incertezas, sonhos que quero ver acabados.
Tenho comigo, nesta clausura forçada, o sabor amargo. Desejo ver o fim desta guerra desenfreada.

Tenho comigo lágrimas escondidas de noites mal dormidas. A luta é dura, todos somos soldados desta guerra fria.
O inimigo está escondido, avança sem tréguas, não escolhendo sexo, idade, classes sociais ou ideologia. Mas vamos ter força e coragem para que não nos tire a alegria.

O mundo está em mudança. 
A Primavera chegou triste, cinzenta, o medo perto de nós isola-nos.
O sol por vezes está escondido, mas que nunca desapareça em nós a esperança.

Assim, quero ter forças para voar como os passarinhos, ver o mundo sorrir,a primavera florir, as crianças a sorrir,os mais velhos com força para lutarem pela vida e a música e poesia como companhia.

Quero escutar o trinar da guitarra e viola com alegria e viver o fado da minha vida no meu dia a dia.

Nunca deixando de fazer minha poesia com magia, porque ela em mim nunca morrerá.
E a esperança pela vida me acompanhará.

Obrigada In-Finita por estarmos todos juntos.
Fátima Horta 23/03/2020

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terça-feira, 24 de março de 2020

Em tempos de quarentena - CLÁUDIA CAROLA


Mais cedo

Respira, sente a tua força interior
Não te deixes jamais levar pelo medo
Que não se instale na vida o terror
Só assim tudo terminará mais cedo

Mais cedo se mantiveres a esperança 
Mais cedo sim se mantiveres a fé 
Ter em nós e nos outros confiança 
Em breve estaremos juntos num café 

Sê realista, mas liberta o alarmismo
Sê criativo, deixando o conformismo 
Vamos todos regressar à nossa infância 

Regressar a quem somos, à essência 
Recuperar a serenidade e a paciência 
Deixar o ter, para voltar a ser substância 

Cláudia Carola 

Todos os textos publicados na rubrica EM TEMPOS DE QUARENTENA são da responsabilidade exclusiva dos autores e os direitos respectivos apenas a eles pertence.

quinta-feira, 19 de março de 2020

ADRIANA FALA DE... OITO DIAS EM CASA


Oito dias em casa

Após os primeiros dias de excesso de trabalho devido a cancelamentos e adiamentos de eventos, incertezas e insegurança, entro na segunda semana um pouco mais tranquila. Com o trabalho reduzido, e com os prazos mais alargados, sobrou, em mais de dois anos, tempo para organizar roupas e armários, limpar com mais cuidado e atenção a casa, falar com a família e amigos do outro lado do oceano e aqueles mais próximos, ou além das fronteiras, que recebiam breves mensagens, devido à correria diária.

Sobrou mais tempo para ler os livros que se acumulavam na cabeceira da cama, ou aquela série da Netflix parada na metade. As pesquisas de museus, músicas e literatura, onde os links eram guardados para ver mais tarde.

Sobrou mais tempo para pensar na razão de tudo isso.

Sobrou mais tempo para acompanhar a evolução da pandemia causada pelo coronavírus e pensar, pensar e repensar.

Saí à rua quase deserta hoje pela manhã, para ir ao supermercado, e lamentei as cenas que vi e que não vale a pena descrever, pois são comentadas no noticiário da noite.

Saí à rua para sentir o sol, o vento, caminhar um pouco e deparei-me com o egoísmo, individualismo, falta de educação e consciência coletiva e da responsabilidade social que o momento exige. Ali, naquele espaço de quase uma hora na porta de uma grande rede de supermercados, ouvi de tudo. Reclamações, piadas, desinformação. Percebi a falta de preparo das pessoas para seguirem regras, normas e conviverem com situações que as tirem da sua zona de conforto. E cada carrinho que saía abarrotado de comida e demais itens mostraram mesmo a falta de solidariedade com o próximo. Pois voltei sem o que precisava, por causa das prateleiras vazias. Senti-me no enredo de um filme, daqueles tipo salve-se quem puder, aconteceu uma catástrofe.

O sol ficou mais pálido.

Acredito que o mundo entrou em colapso, e essa é uma das formas de regeneração. Menos poluição de agentes químicos, menos poluição de gás carbônico, menos poluição sonora.

Redução do lixo nas ruas e mais espaço para a natureza manifestar-se.

Acredito que não precisamos estar todos os dias nos centros comerciais, supermercados, fast food ou restaurantes consumindo compulsivamente.

Acredito em um tempo que exige mais convívio familiar, que ficou em segundo plano, pois pais, filhos e netos não tinham mais horas nos seus dias para estarem mais próximos, mais perto.

Acredito que somos o coletivo, e que sentimos igual aos nossos irmãos de todos os cantos do planeta, independente da cultura, raça, língua ou religião.

Acredito na exigência que a vida nos faz agora, nesse momento, para olharmos com mais cuidado e respeito para com a nossa saúde, atitudes e hábitos. E tornarmos mais solidários, preocupados, não só com o nosso bem estar, mas com quem está ao nosso lado.

Acredito que é necessário esse refúgio obrigatório para darmos mais valor à nossa liberdade de ir e vir, com mais calma, e com um olhar mais atento ao que nos cerca.

Acredito que a dor, o sentido de impermanência e ameaça, desperta em nós o que temos de mais humano: a solidariedade e o amor pelo próximo.

Acredito que isso vai passar. E que tudo vai mudar, para melhor. As nossas rotinas, as nossas atitudes, e como vamos administrar o nosso tempo.

Vamos perder sim, vamos sofrer, vamos ver o sofrimento alheio. Teremos privações para percebermos que nem tudo é essencial, e que podemos sobreviver com muito, muito pouco.

E olhando para aquele sol, quase escondido por uma nuvem, lembrei que no ano passado, estive uma semana com uma mochila nas costas fazendo o Caminho de Santiago, e que este ano estarei em casa, sem poder sair.

Fechei os olhos e resgatei aquela sensação de liberdade e lembrei a grande lição daqueles dias de caminhada, com bolhas nos pés e dor em todo o corpo: Seguir em frente.

Eu só tinha uma mochila nas costas e vivi os melhores dias da minha vida, estava leve, feliz e confiante. Determinada em superar todas as dificuldades, com coragem para enfrentar o desconhecido e muita fé para o que Deus havia me reservado no passo seguinte.

Levava apenas uma mochila, com pouca roupa e comida, partilhava conversas com desconhecidos e o sentimento solidário de estarmos na mesma situação. Caí e ajudaram-me a me levantar: um senhor peregrino italiano.

Seguia sozinha pelo desconhecido, no meio da estrada, no meio da floresta, dos campos, das aldeias, mas não me sentia solitária ou abandonada.

E sempre reencontrava os amigos e as pessoas nas paragens para descansar e confraternizar.

Levava em meu coração as pessoas que eu amava e as minhas boas lembranças. E a minha mente estava entregue apenas a observar e usufruir tudo o que eu podia reter daquele momento de tão grande aprendizado.

O sol me acompanhava e quando escondia-se eu o percebia por trás das nuvens.

Eu só tinha uma certeza, como tenho agora: tudo passa.

E tudo isso vai passar. No tempo certo, depois que todos nós aprendermos a nos olhar, olhar para a vida que nos cerca, olhar para o outro.

O planeta pede socorro, a vida pede socorro e no ar está o seu grito, o seu chamamento, o seu pedido.

É nossa responsabilidade pessoal e social cuidar de tudo isso e lembrarmos a cada instante que fazemos parte desse todo, que se chama humanidade.

O sol vai voltar a brilhar.

Adriana Mayrinck

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

EPISÓDIO DA MENTE... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ele era nas palavras a correspondência aos tantos devaneios que ela procurara. Ocultava algo que ela não soubera definir e, no entanto, o espanto do entendimento quase que já vestia cumplicidade sem tempo.

Sabia lê-la e, num único encontro de relance, tinham ficado de pensar entrelaçado. A vida pegara lhe na mão, talvez trémula na espera ou talvez intencionada, desbravou o silêncio e ela respondera- lhe sem o identificar. Nasceu uma troca de letras intensa, quiseram-se nas frases, tocaram-se em textos impensados.

Namoraram, casaram e divorciaram-se em três dias, o sentido de humor gravara sorrisos constantes e gargalhadas afrodisíacas. Não se sabiam e aconteciam sem freio, falaram em viver loucuras, em paz para mover o futuro, em viagens para partilhar o mar e o corpo, foram até um encaixe no meio de uma certa inconsciência.

Furacão foi como a definiu num jantar inventado que nunca chegaram a partilhar, mas no mundo do impossível sonhavam um presente desenhado a mil cores enquanto a velocidade do desejo disparava, tudo eram metáforas vívidas de intensidade.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA