terça-feira, 28 de janeiro de 2020

"A" VIAGEM... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Há muito que comprava bilhetes para se perder pelo mundo. Fez as malas vezes sem conta, decidida em subir os degraus da carruagem e partir sem destino. A paisagem ao seu redor já não era senão uma fita enrolada na única bobina de um filme que o seu cinema passava no grande ecrã, sem audiência, sem o cheiro das pipocas, sem entusiasmo. O final não era mais do que um adeus e um convite.

O único trilho que caminhava era o de retorno a casa onde se sente protegida nessa solidão que a acompanha. Na cómoda da entrada guardava lado a lado todos os bilhetes. Os do comboio amontoavam mais alto do que os do cinema. Era evidente o impulso da mudança. Esta noite abriu a gaveta e ficou horas a mover o olhar entre as duas montanhas de intenções.

Num impulso de levar a cabo a mudança foi buscar o baú de madeira rústica, onde gravadas a ponta de faca estavam cravadas todas as datas em que decidira partir. Nele o seu maior tesouro, milhares absurdos de letras que juntou ao longo dos anos de todos os sentires, histórias cicatrizadas em papel no movimento de uma caneta invulgar e já desgastada.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XXIV) - MARIA MAGUEIJO

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Passaram alguns meses e o alvoroço para o casamento andava espalhado por toda a vila. A menina Isabella ia casar e tudo tinha de estar impecável. Foram semanas de preparativos. Até arroz doce se distribuiu por todas as casas da vila (voltaram a uma tradição antiga do tempo do casamento da sua avó).
O Vestido tinha sido uma verdadeira dor de cabeça. Isabella queria algo simples com detalhes de cor lilás, e tudo o que encontrara era bonito, mas não a encantava. Camila meteu mãos à obra e fez ela própria o vestido da sua menina. Maria ajudara nos detalhes, Francisca nos acessórios, a tia Caetana era a moderadora, andava bem nestes momentos de quase folia e Isabella parecia uma boneca nas mãos das meninas pequenas.

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domingo, 26 de janeiro de 2020

DA FONTE LAMEIRA AO ALTO DO CAVALINHO - ERNESTO FERREIRA

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Na Fonte Lameira, Miguel bebeu água com um sabor como nunca tinha experimentado. Estava absorvido nesse pensamento e nem deu pela presença de um pastor que o olhava junto a uma capela. Miguel resolveu dirigir-se ao pastor e perguntou-lhe: Sabes dizer-me a quem pertence esta Capela. Responde o pastor: Pertence ao “manhola” da santosa de Asturães. Miguel exclamou: Que idioma é esse? E o pastor respondeu: É o Verbo... ou Verbo da Gata Lapardana.
Então o pastor esclareceu: O Verbo é uma forma de dizer que os Asturianos usavam quando queriam comunicar sem que os estranhos percebessem. Olhe: manhola da santosa é o padre e manhola da esgrabilhação é o professor. Bacalhau diz-se “portela” e vinho é “zola”. Copo ou malga é “cachefre” e então um “cachefre de zola” é um copo de vinho. O verbo que mais se usava era o verbo “besar”; andar, correr é “lastideiro” e casa é “faunho”. Meu, minha é “meu enes”. Então “besar da lastideiro pró faunho de meu enes” significa eu andar para minha casa.
Hoje já ninguém sabe este Verbo e só a circunstância de um antepassado do Miguel ter feito uma espécie de dicionário permite que não se tenha perdido totalmente. O que é uma perda não pela erudição em si mesma, mas pelo que representou para os utilizadores e para a história.
E o pastor mais informou: o penedo que se encontrava a norte da fonte se chamava “cabeça de padre” em homenagem ao padre que erigiu a capela. Então, seguindo a linha de águas vertentes será a linha divisória, comandada pelo alto do espigueiro, o ponto mais alto da serra.
O caminho que Miguel foi sinalizando contemplava as linhas de “águas vertentes”. Nada de especial se apresenta excepto duas situações: a porta do lobo, local onde deveriam passar os lobos quando acossados em montarias, e o Alto do Cavalinho com esplendor igual ao Alto do Castelo. São por assim dizer, duas elevações irmãs.
Foi aqui que Miguel fixou outro ponto divisório.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A MINHA TELA... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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São tantas as mulheres que me habitam numa só alma, tantas as versões que o espírito acorda e adormece, tantos os sentires quantas as paisagens que pincelo num quadro único, remarcável do tamanho absurdo de uma vida com anos corridos de história.

Os pincéis já desgastados prevalecem nas mãos cansadas com relevos e traços concebidos pela luta, das pontes que teimo em atravessar, entre sorrisos de campos coloridos de esperança e lágrimas de temporais. Sou alma por inteiro, sou todos os segundos desenhados a preto e branco ou em arco íris, nesta tela infindável de emoções.

Viajo nessa unicidade de alma onde, residentes todas elas, clareio de brilho ao redor de todas as fantasias que me nascem exuberantes, extensões de areal junto ao mar enquanto anoiteço acompanhada da lua e conto todas as estrelas, como luzes que se me acendem na força tantas vezes puxada do fundo de um poço no descampado rural que me assola.

Sou a alma dessa tela de que me orgulho, elas, as tantas que acamparam para ser e ficar na minha morada não escoam os rios de sentimento, nem tão pouco cabem nas barragens erguidas a cimento que transbordam e desmoronam se preciso for.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XXIII) - MARIA MAGUEIJO

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Entraram em casa ainda ao som das risadas de uma tarde feliz. Camila ao ouvir as suas barulhentas meninas foi até ao hall onde, entretanto, Isabella descalçava as botas completamente encharcadas, assim como as meias.
– Mas que preparos são estes, menina Isabella? Nem pergunto o que andou a fazer, uma poça de água e lá vai disto, não é sua marota? Tire já isso tudo e vá tirar também as calças para as secar.
Nunca mais cresce, Jesus, Maria, José (expressão espanhola que Camila utilizava quando estava um pouco zangada).
As primas riam e faziam troça de Camila com um ataque de cócegas a que Camila não resistia, eram as suas meninas e sentia-as felizes. Que alegria.
– Parem lá com isso, tenho um envelope para a Maria. Estejam quietas! - saiu dali o mais rápido que pôde, pois corria o sério risco de chegar à cozinha e ter o jantar a transbordar do tacho.

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