quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XXIII) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Entraram em casa ainda ao som das risadas de uma tarde feliz. Camila ao ouvir as suas barulhentas meninas foi até ao hall onde, entretanto, Isabella descalçava as botas completamente encharcadas, assim como as meias.
– Mas que preparos são estes, menina Isabella? Nem pergunto o que andou a fazer, uma poça de água e lá vai disto, não é sua marota? Tire já isso tudo e vá tirar também as calças para as secar.
Nunca mais cresce, Jesus, Maria, José (expressão espanhola que Camila utilizava quando estava um pouco zangada).
As primas riam e faziam troça de Camila com um ataque de cócegas a que Camila não resistia, eram as suas meninas e sentia-as felizes. Que alegria.
– Parem lá com isso, tenho um envelope para a Maria. Estejam quietas! - saiu dali o mais rápido que pôde, pois corria o sério risco de chegar à cozinha e ter o jantar a transbordar do tacho.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

DA CANCELA À FONTE LAMEIRA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Aí está o Monte do Castelo cuja conicidade nos leva a ilusões de óptica, parecendo que tudo gira à sua volta. O Monte do Castelo seria assim como o centro do espaço e bem merecia, pois à medida que o visitamos mais nos surpreende. São as fontes de água pura, são os penedos de grande dimensão e não menor variedade e forma, são as pedras com laivos de opalas e quartzo puro, são os arbustos de espécies várias, são ainda os vestígios de civilizações antigas (árabes, romanas e até celtas) e acima de tudo a panorâmica que se avista da Ribeira Lima. “e este sitio se olham vestígios de trincheiras, e estradas encobertas tradição que fora tudo fabricado pelos mouros, tem o castelo chamado da Formiga, que o cerca em ponta aguda sitio deleitável à vista, e é tradição que neste monte residiram muito os mouros, onde se tem achado vestígios da sua habitação, por aparecerem tijolos, e ferros velhos” (in descrições paroquiais de 1758).
Chegado ao Cume a vista era ainda mais deslumbrante e Miguel imaginou que muitas teriam sido as disputas por este paraíso e imaginou que teria sido o bom senso que levou as duas freguesias a considerar que o cume era a marca divisória.
Miguel pensou então: pois se considerar este ponto como mieiro, certamente que a linha continuará até ao alto da montanha.
E mais entusiasmado ficou quando avistou uma capela (a Capela de Santa Justa) e não distante os restos de outra capela (Capela de Santa Rufina) que eram, cada uma, propriedade de cada freguesia.
Miguel logo se apercebeu que teria de subir ao Alto da Serra D’Agra para continuar o seu desiderato. Mas a subida parecia dura e como se aproximava a penumbra, decidiu-se por fazê-lo no dia seguinte.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sábado, 18 de janeiro de 2020

SOU... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Menina, princesa das que moram no momento de castelos, deitada na nuvem de todos os séculos em que as flores exuberantes que abraça lhe preenchem os sentidos, doce nos gestos que não estragam as pétalas que admira, cuida como cuidaria o amor que não existe, mas é esperança.

Não quer amarrotar as nuances do brilho azul que lhe desperta a fome desse tão grande prazer ou conforto. Deitada muitas vezes viaja pelo medieval uso de trajes pomposos que renega depois na nudez onde sente o veludo das rosas supremas e o cetim que as envolve na pele. É feita de sonhos e jamais saberia viver sem eles.

Navega em alto mar, ali deitada, como se lhe tivessem oferecido as arcas de moedas de ouro, perdidas em naufrágios que lhe afogaram o amar. Foi prisioneira de paixões doentes, viveu em sumptuosos palácios, cumpriu penas possessivas em pedaços de vida arrastada pela noção do dever, que desperdício, meu Deus!

Um dia, fugiu. Despiu-se das grades e deixou para trás tudo de exuberante que apenas a sufocava. Foi um basta numa hora em que a trovoada a deixou cair da nuvem. Quanto mais se afastava mais sofrer a vida lhe conferia e ainda assim foi quando começou a ser realmente feliz. Hoje tem liberdade e, mesmo que o azul das rosas seja presente seu, abraça como vitória.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XXII) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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– Bom dia Camila. Que manhã bonita, quase tão cheirosa quanto o teu café.
Camila virou-se para Isabella e disse-lhe:
– Sabe que a vi crescer, menina, e que estarei sempre consigo. Preocupei-me muito quando cá não estava, mas sempre acreditei que voltaria mais forte. Mas encontro-a frágil e sempre a esconder o seu olhar, triste e melancólico. Não o faça. Todos a amamos e queremos que ultrapasse as dores e siga a vida bonita que merece.
– Sim Camila, eu sei e agradeço as tuas palavras. Apenas eu conseguirei ultrapassar com a minha força, tenho de ser mais positiva e, claro, com o vosso amor, tudo será mais fácil. Mas não tem sido Camila. Foram meses de muita dor, culpa, e ainda não consegui perdoar-me. Foi uma missão muito forte que Deus me colocou nas mãos e eu assumi-a sem pensar. O medo foi tanto, que algo de mau acontecesse, que fui em frente sem olhar em volta. Teria tido outras saídas, mas assim foi e agora já não se apaga como se apaga um risco num caderno. Serão páginas em branco que terei de (re)escrever com mais convicção e sem recear o meu valor e ser mais guerreira. Também sei que me tornei mais fria, mais cautelosa, mas mais frágil, ao contrário do que deveria ser.
– Ainda tem medo que algo mau nos possa acontecer? Foi por proteção que aceitou a missão.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

DO RIO À CANCELA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel levantou-se cedo para continuar a tarefa. Resolveu seguir o caminho de Estivada, onde só não ficou extasiado com a beleza dos campos porque já tinha visto igual na Veiga da Lousa e Veiga do Sobreiro. Aqui a diferença, nesta Veiga de Estivada, é a proximidade do início da montanha, o que torna o quadro mais diverso, corre o dito rio de norte para sul da ponte para baixo, corta uma grande planície de que é agricultada de lavradores, que aprimora uma das margens do Rio Lima, a que frei Bernardo de Brito chama os Campos Elísio (in descrições paroquiais de 1758).
Em Estivada mora um herói: Chamam-lhe “Cavalaria” dado ter sido um valente soldado dessa arma, onde passou a sua mocidade.
Regressado à aldeia o seu comportamento nem sempre tem sido pacífico e daí a tornar-se um “varredor de feira” foi um instante.
E ele nada fazia para que não o considerassem assim, antes pelo contrário. Mas como diz o provérbio, “cântara tantas vezes vai à fonte que um dia quebra a asa”.
Pois um dia em que uma das querelas azedava lá estava o Cavalaria, mas desta vez também, e do outro lado, um jovem chamado Manuel Sousa, jovem de boa apresentação, educado, generoso, galã, bem ginasticado e senhor da força que a natureza lhe deu e a profissão ampliou.
Ora bem, o Sousa vai-se ao Cavalaria, muito rapidamente o derruba e, sem humilhação, o aconselha a mudar de atitude.
E aconteceu o inevitável. Daí em diante, quando Cavalaria fanfarrona da sua valentia, sempre alguém o questiona: e o Manuel Sousa? E a resposta seca e envergonhada é: a esse homem, eu respeito!

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA