terça-feira, 7 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XX) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Já era noite avançada e aquelas duas tagarelas continuavam no atelier.
Maria com o entusiasmo de quem ama a Arte que assumiu como profissão, tudo devido a, teimosamente, querer modificar uma escultura que lhe tinham oferecido e que já estava com traços de uso, até se transformar num hábito diário e apaixonante. Acabou o trabalho que devia e começou a colocar em cima da bancada tudo o que necessitava para restauro de uma imagem, do sec. XVIII, de uma Cruz de Cristo, toda em pau santo e que estava em muito mau estado de conservação.
– Esta vai dar-me muito trabalho. Não é enorme, mas precisa de um restauro de Amor. Trataram na com muito pouco cuidado.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

DE BOUVIM A PORTELO DA LOUSA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Uma vez encontrado o início dos limites, Miguel estava indeciso se deveria seguir para nascente, descendo o rio, ou para poente, seguindo a ribeira das Andorinheiras. Decidiu descer ao longo do rio, que resultou da junção das ribeiras, passando a ter o nome de Rio Ciadouro, mas mais nomeado de Rio Asturães. Olhando atentamente, para perceber onde estava, viu que a margem direita era morfologicamente diferente da esquerda, indicando imediatamente que seria o rio a linha divisória.
Mas de repente a situação inverteu-se: agora a margem direita era plana e verdejante e a esquerda tornou-se montanhosa. Facilmente se concluía que a linha divisória de aí em diante, não seria o rio. Se aí colocássemos um marco seria o marco de Bouvim.
Cansado da caminhada, Miguel subiu até um pequeno morro, onde uma formação rochosa parecia um Castelo. Aí se sentou, mas rápido se levantou quando, daquele ponto, avistou a beleza e diversidade de cores. Não teve dúvidas: podia colocar aí um marco divisório.
Miguel estava a estranhar a ausência da Poesia e nem de propósito ela aí estava. Perguntou ao Miguel se tudo estava conforme imaginou, e disse-lhe: Daqui até encontrares de novo o rio, possivelmente, não me verás. No entanto quero deixar-te uma indicação que podes ou não, utilizar:

Da amieira com paisagem
Até à fonte de frem
De cerquidelo passagem
E das lebres também

Na cabana a gente sente
A presença de casa nova
A eira de cima não mente
O marco de pedra é a prova

Destes campos de milho
Desprimorar ninguém ousa
Se seguires o trilho
Estás no Portelo da Lousa

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

VOU SONHAR SEMPRE... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Ao redor dela apenas um vazio, talvez o mesmo com que vive há muito, nesse sofá, entre paredes nuas de som e gargalhadas ausentes de outra presença.

Os céus chovem e o aconchego é apenas a manta de retalhos que deseja tenha o cheiro dele. Esmoreceu no frio da distância que os separa, da janela apenas colhe pedaços de imaginação, querer e sonhos que lhe trespassam a mente e afagam a alma.

Deixa cair a cabeça nas mãos, respira a esperança no silêncio, nada lhe alivia a falta do colo e os dedos por entre os cabelos, anda em círculos sem se mover sequer, está em paz, mas não preenchida, calma, mas não sossegada.

Já é rotina ao domingo entregar-se por escolha, à inércia que até podia ser o tricotar de um novelo de lã macia, transformá-lo em chão de algodão, frente à lareira a arder, onde fariam amor, onde se uniam nos fios de lã para os gravar num manto de vida, sentida intensamente no prazer suado, dos corpos unidos no gemer.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XIX) - MARIA MAGUEIJO

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Camila vivia com eles já há muitos anos e conhecia muito bem todos eles. Com Margarida tinha aprendido a gostar de boa leitura, escolhia os autores com cuidado e, a par com o jardim da menina Caetana, eram os seus melhores lazeres. Tinha o seu quarto perto do de Maria e, de vez em quando, ouvia-a chorar devagarinho.
Tinha saudades da filha que trocou Portugal pela Suécia, saudades de todos os que a tinham visto e ajudado a crescer e já faziam parte do reino dos mortos. Saudades das longas conversas que tinha com a sua mãe e que hoje já escasseavam devido à doença dela. Tinha saudades de quando brincava com Isabella no jardim, sujavam-se de pó até ao cabelo, e dos ralhetes da avó.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

PONTE DO LOURINHAL (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel acordou cedo, se é que se pode chamar sono a um descanso mental. Como disse, o tempo sobre o qual aqui tratamos não se mede em horas ou dias, mas sim em acontecimentos mais reais ou mais sentidos.
O dia estava primaveril e apetecia mesmo começar o trabalho de marcação. Por onde começar era o segundo problema, porque o primeiro era não ceder ao desejo de continuar a ouvir as estórias (peripécias) do Ti Reinaldo. Então Miguel tomou a decisão: vou mesmo iniciar o trabalho, disse para si mesmo.
Mas por onde começar? O melhor é perguntar à Poesia. Assim o fez, mas surgiu o primeiro obstáculo: Poesia estava super ocupada com as pessoas que, aproveitando o tempo magnífico, se resolveram a procurar a sua disponibilidade para melhor gravar os recantos de Asturães.
Miguel ficou um tanto desorientado, mas de repente lembrou-se: vou pedir ajuda ao Ti Reinaldo. Sabendo que dei a palavra a mim próprio que venceria o desejo de continuar a ouvir as estórias fantásticas.
“Palavra prometida, palavra cumprida”, pensou. E assim o fez.
Chegado ao moinho questionou o Ti Reinaldo, que lhe disse:
– Miguel, as tarefas devem começar pelo princípio e posso contar-lhe uma estória para o ajudar. Miguel ficou sem jeito, pois não podia ouvir a estória sem faltar à palavra que era honra, mas também não queria ser desagradável para o Ti Reinaldo. Surpreendentemente e na curva do caminho surge um pequeno grupo de pessoas, com a Poesia à frente, cada um trazendo um molho de linho que iam colocar no areal na extremidade da ilha, mergulhado na água para fazer parte do tratamento do linho. A Poesia percebendo a dificuldade do Miguel disse:

Esta ponte pede meça
À outra sua igual
Chamada do Lourinhal
Onde tudo acaba ou começa

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA