sábado, 28 de dezembro de 2019

BORBOLETAS (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sou ela, aquela a quem a vida deu asas, a que voa constante e livre, que vai e volta no tempo, que se divide entre dois pedaços de terra distantes... Aquela que se define pelo valor da alma, que sorri numa explosão de cores e também sente a chuva das lágrimas.

Sou aquela, ela que se ama desalmadamente, que encontra força todos os dias para seguir o seu destino, que se recusa a existir apenas, que é feita de sonhos, que cai e se levanta nos empurrões da vida.

Sou muitas, muitas mulheres numa só, um conjunto de formas com asas. A borboleta que veste de azul, o rasto que deixa nos caminhos dos dias e pendura nas estrelas os brilhos nos momentos da noite.

Sou uma, uma só viagem de sentimento, incondicional e sem medida por ele a quem dei vida, pelo ser que me percorre de orgulho a cada segundo que passa, unidos pelo sangue que nos faz parte da mesma parte.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XVIII) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Adorava aquelas suas netas que tinham tantas parecenças com a sua querida Francisca e com as filhas. A mãe de Maria já tinha alguns sintomas da doença da Mãe e, apesar de viver com eles, vivia num mundo só seu, com momentos bem divertidos em que se lembrava de tudo e outros na apatia e apenas olhava o jardim, as maravilhas da natureza, Passeava por perto e voltava de novo para casa. Por vezes consciente de onde vivia e de quem eram todos, outras caída no mutismo de quem prefere não dizer coisas dispares. Mas é muito meiga a sua querida Caetana, cujo nome invulgar (ordens de sua sogra), provém do latim e significa “Mãe me quer”. Olhou a filha e pensou que lhe assentava bem. Todos gostavam dela e era recíproco.
A Mãe de Isabella falecera cedo. Assim como Francisca, perdera a batalha num dia em que o sol abriu um raio por entre a chuva que caía forte. Foi para lhe levar a sua querida Margarida! A sua flor tão bela, tão cheia de alegria. Cantava com os pássaros no jardim, encantava a todos pelo seu saber, pelos cabelos dourados como o trigo. Sempre fora um enorme pilar para toda a família e queria mudar o mundo com as suas ideias romanescas de que só o bem existe. Isabella e Maria têm muito de Margarida. Ambas sábias e sonhadoras.
Enquanto o avô estava envolvido com os seus pensamentos, serviram o que faltava do jantar e as primas, claro, sempre na tagarelice. Acabaram o jantar e faltava o café de Camila.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

BOTA ABAIXO REINALDO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A história que vou narrar, meu caro Miguel, foi protagonizada pelo Ti Reinaldo e tão próxima de mim que não resisto a pedir-lhe que me deixe descrever a situação, e locais em que tudo se passou.
Nela, é forte participante a GNR.
Na aldeia há uma capela de que já te dei notícia, dedicada a Santo Amaro, santo protector das fracturas ósseas, onde acorrem durante o ano muitos devotos em acção de graças por intervenção milagrosa havida.
À volta da capela há um adro, espaço que se avaliava baldio, com uma área de cerca de 1000 metros quadrados. Esse espaço era muito utilizado pelas mulheres vizinhas, para conversar, mas sobretudo para entoarem muitas canções populares. Este local também era preferido para os namorados e para fazer bailes ao ar livre.
Segundo anciãos que conheci, postulavam que o espaço baldio era maior que o existente. O que é facto é que um dia o putativo proprietário colocou marcos distantes, cerca de dois metros, das paredes da capela, reduzindo o baldio, para uma centena de metros quadrados. Não afirmo que a pessoa em causa não fosse de facto dono do terreno. Nessa data as propriedades não eram registadas, pois nem havia Conservatória Predial.
O caso não foi do agrado de Povo, especialmente dos moradores mais próximos, como era o caso do Ti Reinaldo.
Cabe aqui dizer que o Ti Reinaldo tinha vasto apetite por uns “verdinhos” e nunca rejeitava um “calinhos” (cálice pequeno) de bagaço. Em alguns dias repetia a dose vezes de mais, o que o tornava mais efusivo.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A CANDEIA... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sentada a segurar a candeia, no meio do nada dentro do tudo, em campos, mares ou montanhas, na cidade à pinha de corpos mecânicos desorientados, ninguém lhe tira a luz, nada lhe rouba o horizonte. É crente, escolheu ser quem é na noção de que seria abandonada pelas gentes que jamais a conseguiriam decifrar.

Esse brilho incandescente que segura e emana das entranhas, dispara como foguetes pelas janelas da alma, enquanto lhe guarda intocável a fé, a esperança, a gratidão por todo e cada um dos seus suspiros.

Cabem-lhe na estrada dos anos fogos de artifício deslumbrantes, trovoadas devoradas pelos raios temerosos. Saboreia a luz em todas essas fatias do tempo. O brilho disparado da terra para o céu, do universo para a terra, chova ou faça sol não restam questões sem resposta, toda ela é um clarão que prevalece qualquer intempérie.

Foi para longe, sozinha. Precisa dessas horas onde nada vê senão a beleza natural das aguarelas da paisagem. Levou na candeia a luz da paz, estado que sobrepõe a qualquer promessa de amor. Afinal, separar o trigo do joio não é apenas obra de mãos calejadas da terra, mas também de mentes maduras, corações suturados, almas sem espaço a ceder.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

domingo, 22 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XVII) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Anabela agarrou-lhe nas mãos geladas, colocou-lhe os pés descalços em cima da cadeira e afagou lhe o longo cabelo, numa tentativa de acalmá-la.
– Isabella, que posso fazer, mulher de Deus? Essa voz é apenas o reflexo de ti mesma que te chama. O teu silêncio fora do trabalho não ajuda. Já reparaste que bonita está a noite? Reparas nas flores que crescem e no seu aroma? Nas árvores que dançam ao som do vento? Não! Só vês trabalho, imaculada sem uma hipótese de crítica, livros, o teu olhar triste e longínquo e por mais que sorrias é com tristeza. Pensavas que não observo? Sei que tens uma missão que não é fácil, que estás sempre pronta para ajudar os outros. No dia do incêndio quase te perdíamos por teres ido como louca ajudar a salvar a Rita. Se não te agarrassem pela cintura e tirado dali, tinhas voado com os estilhaços dos vidros. Isabella, estás a ouvir o que te digo? Olha para mim.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA