sábado, 21 de dezembro de 2019

BOTAR O BINÓCULO - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Miguel estava encantado com as estórias que ouvia e perguntava a ele mesmo como é que o Ti Reinaldo conseguia que as crianças fossem para casa. Sempre queriam ouvir mais um conto e o Ti Reinaldo explicou ao Miguel como fazia com que as crianças sentissem vontade de ir para casa. Bastava contar-lhes a “ladainha” que se segue:
Era uma vez um senhor já muito velho que sabia como adivinhar o tempo. Eu aprendi com ele e vou ver, meus meninos, como vai ser o tempo. Coloco o binóculo que tenho, viro-o para nascente e vejo o tempo que vai fazer. Chama-se a isto “botar o binóculo”:
Colocadas as mãos, uma aposta à outra, fazendo uma espécie de monóculo, começava a recitar, com voz forte e altiva:
– Aí vem nube (nuvem) negra
Não sei se é vento ou trovão
Se são raios ou coriscos
Se são do demo o inferno
Livrai-nos Senhor dos riscos
Das pedras do trovão
–“Fuginde” meninos, que vem aí uma “desgracia”!
Eh crianças que nenhuma ficava para ouvir o resto da ladainha.
E assim as enviava para casa.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

MADRUGADAS... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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E se dela não nascessem madrugadas não viveria todo o resto que lhe cabe. Se nela não se lhe enrolassem todos os tules transparentes no seu escuro, de janelas edificadas nos olhos, não tinha sequer aprendido a viver, tão pouco a sua chama seria fogueira por entre o gelo deste século sem graça ou essência.

Abraça-se nas horas mais quietas da noite com suspiros de calma. Nesses momentos madruga os sonhos que se movem pela mente como a destreza do falcão que sobrevoa o inconcebível, quieta nessa cama de sempre e aconchego, ainda que só os seus braços a apertem, congemina com o universo o silêncio que ecoa no grito da fé e gratidão.

São tantas as vozes que carregam promessas, na claridade do sol dos dias que a deambulam, banal quotidiano de passos apressados à sua volta, corpos que se movem na obrigação, expressões de tristeza, rostos vazios, segredos fechados nas grades dos vultos que gritam sem som pedidos de liberdade, e nela mora a certeza que tem sempre as madrugadas.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XVI) - MARIA MAGUEIJO

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Certo dia estava deitada, a ler um livro, e ouviu gritarem pelo seu nome. O mais rápido que conseguiu despiu o pijama, vestiu um calção, uma blusa e descalça saiu a correr para acudir à voz que não parava de gritar. No corredor não viu ninguém, procurou seguir o som daquela voz aguda que tão aflita estava. Continuou a não ver absolutamente ninguém. Desceu as escadas até ao átrio, vazio... Entrou no escritório de rompante...
– Que andas a fazer aqui descalça Isabella? Vais-te constipar. E quase sem roupa com este frio... já é tarde mulher. Que se passa?
– Chamaram por mim?
– Não. Já está quase toda a gente a descansar. Que se passou? Outra vez a voz?
– Sim. Alguém chamou por mim, Eu ouvi nitidamente o nome Isabella e, que eu saiba, só existo eu aqui com esse nome... Vou ver se alguém ficou na Biblioteca...
– Isabella! Chega! Senta-te aqui! Não está lá ninguém!
– Então terá sido da rua?
– Carla, traz-me um chá de camomila para Isabella, se fazes favor.

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O BANGALA DE FERRO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Aceite-se aqui que “Bangala” é o mesmo que Bengala.
Era uma vez um homem que vivia na aldeia e tinha uma força colossal, nunca vista. Chamavam-lhe o Bangala de Ferro porque ele andava sempre com uma bengala toda feita em ferro. Era tão pesada que dois homens viam-se aflitos para a levantar do chão, enquanto ele sozinho, a manobrava como se fosse uma pena de ave. Naquele tempo todos os homens gostavam de ter lutas para ver quem era o melhor, fosse a cantar, fosse a dançar, fosse a cortar árvores, fosse em lutas de força ou a jogar o pau, jogo predilecto dos lavradores, etc. Ora bem, o nosso Bangala de Ferro era tão forte que nem valia a pena jogar contra ele. Isso desgostava-o e um dia resolveu ir correr mundo na cata de encontrar quem pudesse medir forças com ele.
Correr mundo nessa época era como tentar hoje visitar a Lua ou Marte ou entrar no negro desconhecido, tal como os marinheiros portugueses o fizeram.
E aí vai ele, mundo fora. Tinha andado aí umas três léguas quando encontrou um homem muito alto e forte que, percebeu logo, teria tanta força quanto ele. E disse-lhe: Eu sou o homem mais forte da minha aldeia e procuro quem possa medir forças comigo. Serás tu, esse homem? O homem respondeu não com palavras, mas com actos. Agarrou o tronco de um pinheiro, com mais de uma braça de perímetro, e num só puxão arrancou o pinheiro pela raiz. E disse: Eu também sou o homem mais forte da minha aldeia e chamam-me o “Arrinca Pinheiros”, mas não vamos medir forças porque sei que há um homem tão forte como nós ou ainda mais e gostaria de o conhecer. Vamos os dois procurá-lo. E continuaram o caminho na sua busca. Até que, uma dezena de léguas adiante, vêem um monte de pedras enormes e um homem, que parecia de pedra, sentado no cume. Ao vê-lo logo pensaram que deveria ser o tal homem superforte que se constava existir. E disseram: Nós somos os homens mais fortes das nossas terras e procuramos um companheiro forte como nós que queira fazer grupo connosco. Quem és tu? Ao que o homem respondeu: Não conheço homem mais forte que eu. Vede, eu arrasei um morro que existia aqui e coloquei as pedras onde me sento. Todos me conhecem como o “Arrasa Montanhas”.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

ESTRADA... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Fez-se à estrada quase desde que nasceu. O veículo é ela. Nunca baixou os braços ou desligou o motor que traz na cabeça. O GPS é daquelas coisas que, por vezes, a guia para o lado contrário. Encontra o caminho tantas vezes quantas as que se perde nele.

Cabe-lhe a vontade de vencer ao chegar a todos os destinos que congemina com a fé e o universo, arregaça as mangas para mudar o óleo e deita fora as impurezas acumuladas que atrasam a viagem, o tempo já não tem tempo para paragens inócuas nem as vozes a encantam como antes.

Traz na bagagem anos de ouro e memórias áureas do que valeu a pena escrever na pele. Foi abrindo a janela da carcaça que cuida com primor e simplesmente deitou ao vento os rancores, as mágoas, as decepções e as tristezas fora de prazo.

O caminho é em frente sem curvas de arrependimento. Já bastam as cicatrizes das derrapagens e os pneus carecas dos amores perdidos nas descidas vertiginosas do sentir, tudo deixado por aí no passado das paisagens que já lá vão.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA