sábado, 7 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XIV) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A pobre criatura continuou a cantar, agora mais baixinho, uma dor que Isabella conhecia bem. Rasgava-se-lhe o som que queria gritar, no mudo da sua tristeza. Que dor tamanha!
Observou que houvera silêncio na paragem do eléctrico e os rostos, de quem falava português, estavam consternados pela homenagem daquele ser tão cheio de saudade do Homem que seguramente alegrara tantas pessoas ao ouvi-lo cantarolar pelas ruas.
Isabella sentou-se na paragem e procurou de novo o caderno juntamente com uma esferográfica e escreveu como se a sua mão fosse um instrumento do cérebro.

“Hoje sou apenas a voz apagada de uma melodia com um poema escrito em branco.
Nessa página imaculada escrevo o silêncio sagrado a que me comprometi.
Nessa página sou tinta da pluma de algum qualquer escritor.
Tela de algum qualquer pintor.
O quadro que quisera pintar.
O poema que quisera escrever.
Que me levaram pela dor.
Que me perdoem, pois foi por Amor”.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS PIEIRAS - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Este conto, diz Poesia, é conhecido em várias versões, em que cada versão tem sempre dois elementos residentes: O Lobo e a Pieira.
Aqui procurando ser tão fiel quanto possível, a versão é a do Ti Reinaldo.
“Era uma vez um guardador de gado que andava na serra a cuidar do seu rebanho. Estava um dia cheio de sol e a pastagem escolhida nessa tarde estava muito apetecível para as ovelhas e cabras. Era um regalo para os olhos ver os animais a pastarem. Assim, o pastor foi-se esquecendo das horas sendo que o fim da tarde não esperava. O rebanho deveria ser recolhido ainda com a luz do dia, pois os lobos viviam e deambulavam por perto, constituindo um perigo para o rebanho. Os lobos, dizia-se, apenas obedecem às Pieiras, coisa de que o pastor se ria, pois não acreditava em Pieiras e muito menos que houvesse alguém a quem os terríveis lobos obedecessem.
Quando estava a reunir o rebanho, auxiliado pelo seu cão chamado Piloto, apercebeu-se que um lobo espreitava acoitado junto ao “penedo furado”. Este penedo era assim chamado porque era de facto furado, sendo até tido como um exame aos pecados em que podia estar qualquer pessoa. Para provar que a pessoa estava de bem com Deus deveria conseguir passar através do furo. Se não conseguisse era sinal de que estava em pecado. Já agora diga-se também que este penedo furado, junto ao caminho de Santa Justa era o certificado de virgindade de qualquer rapariga solteira. Se não conseguisse passar era certo que já não era virgem.
O pastor pensou: se deixo o lobo aproximar-se não evito que ele me mate uma ovelha. O melhor é atacá-lo para o pôr em fuga. E se bem pensou, melhor o fez. Foi em direcção ao lobo com o cajado em riste. O lobo ensaia a fuga e o pastor corre quanto as forças consentiam, para o levar para o mais longe possível. Mas eis que na sua corrida tropeça numa pedra saliente e zazcatrapaz pum, cai desamparado, bate com a cabeça numa pedra e fica desmaiado.
Entretanto o Piloto lá foi reunindo o rebanho e conduziu-o para o curral.
Era noite e a lua cheia começava a surgir no horizonte; o pastor inanimado estava só e sem consciência. Passadas umas três horas começou a despertar. A lua estava mais alta e alumiava quase como fosse dia. O pastor começou a despertar e viu uma enorme cabeça à sua frente. Era o lobo, talvez o alfa, mas ao invés de parecer ameaçador, parecia calmo e amistoso. Uma sonora gargalhada despertou mais o pastor que viu junto ao lobo uma graciosa dama que sorria para ele, ao mesmo tempo que afagava o focinho do lobo. Era uma Pieira!
Fixou o pastor e disse-lhe: Então agora acreditas nas Pieiras ou não? Ficas sabendo que te salvei dos dentes do lobo e quero que, para me pagares, em noites de lua cheia venhas ter comigo para saudarmos a beleza duma noite de luar. E a Pieira ordenou aos lobos que em noites de lua cheia, não atacassem nem pessoas nem animais... o que até hoje vem sendo cumprido, na aldeia e montes de Asturães.”

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

PÉROLAS... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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São dela as pérolas que exibe na pele, transluzentes, divinas escorregam para lhe cair na vaidade nobre do templo que acarinha, grata pela vida em suspiros de ar que rouba e devolve ao mundo.

Brilham em espasmos contínuos, cegam de cor ao seu redor, extenso o cordão dessas joias que adquiriu nos anos, onde cada uma conta uma história marcada e até vincada. Escorre da alma uma a uma no somatório invulgar de um clarão de beleza.

Mas não, nem todas são marcos de festa, nem todas a fizeram sorrir, nem todas foram ténues no cair. Muitas contam marcas no peito, cicatrizes cravadas, obras destruídas, momentos sem chão, impérios desmoronados e lágrimas, muitas lágrimas perdidas no rosto de quem sofreu e sofre tempestades medonhas.

Contudo, prevalece esse brilho incandescente que a diferencia da multidão. Acontece a força da rebelião. Nela reside a recusa e navega contra a maré a cada nascer do sol, a cada cair da noite, nos sonhos que não abranda, no querer que não confessa, no orgulho de si que não deixa morrer nem quando os impossíveis lhe segredam parvoíces que não ouve.

São pérolas, todos os segundos dessa viajem que a mantém viva, todos os minutos à tona do seu mar revolto, todas as horas vorazes de emoção, todos os dias, todos os meses, todos os anos onde se retrata nas mais diversas facetas de si mesma.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XIII) - MARIA MAGUEIJO

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Deambulou pelas ruas vendo pessoas de tantas formas que mais pareciam formiguinhas trabalhadeiras. Olhou o relógio e percebeu que era hora de almoço e tal como as formiguinhas que não paravam quietas, foi pela Rua do Arsenal até ao Cais do Sodré. Podia ter ido visitar o rio Tejo, mas deixou para a volta.
Deu por si a subir a Rua do Alecrim e foi então que decidiu parar para almoçar.
Finalmente!
Entrou na Brasserie de L’entrecôte e depois de um belo repasto fixou o olhar na janela. O lugar onde estava sentada era junto a uma janela e observava quem passava. Quem serão? Que fazem na vida? Será que sabem sorrir com o coração, que conhecem o verbo amar?
Observou com carinho que muitas daquelas pessoas andavam de mãos entrelaçadas. Que contente ficou, sentiu-se bem e um suspiro quebrou a sua hipnose. Mas ali ficou já a degustar um bom café.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

domingo, 1 de dezembro de 2019

AS FEITICEIRAS - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Olhe Miguel, disse o Ti Reinaldo, os contos (estórias) que envolvem feiticeiras ou feitiçarias são, para as crianças, os mais adorados pelos mistérios que contêm e também porque constituem algum sentimento de medo de uma qualquer coisa que não dominam.
Esta história foi-me contada pelo Ti Madorna, que a tinha ouvido de outro grande conversador, que não conheci.
Naquela época - e ainda hoje, de certo modo - no final da missa domingueira, os homens ficavam pelo adro em conversas diversas.
Em alguns destes eventos, era figura de proa alguém que, sendo habitante de freguesia vizinha, era um regalo ouvi-lo não apenas nas histórias que contava, mas também nas análises críticas aos maus e bons costumes.
Então vamos à história contada na pessoa do sujeito passivo, que assim disse:
“Pois ficam sabendo, meus amigos, que as feiticeiras existem e são capazes de coisas extraordinárias. Eu não lhes tenho medo, mas muito respeito, porque as conheço bem. Vejo-as da minha janela quando elas se entretêm a fazer fooorrninhos, que lhes dá muito prazer. Mas quando fazem fffooorninhos não devemos estar à cata, nem maliciosamente as impedir. Pois bem, na semana passada, ainda não era meia noite, fui acordado porque me estavam a erguer da cama. Senti que me levavam pelo ar, sentindo uns ventinhos nos queixos. A lua estava cheia e eu vi que quatro feiticeiras me levavam. As ramas que me tocavam fizeram-me conhecer que estava debaixo de salgueirais e por cima de silveirais, que são, todos sabem, as casas das feiticeiras Nisto senti que me pousavam no chão e eu perguntei: Meninas onde estou eu? É preciso não as tratar mal... Elas responderam-me: Estás na Chão de Agra. Está bem, meninas – não se pode tratá-las mal – por favor, levem-me à minha cama. Eu senti novamente uma brisa a passar-me nos queixos e a voar. Mais uns minutos e senti que novamente me pousaram e eu perguntei: Meninas, onde estou eu? Elas me responderam: Alto do Cavalinho. Muito bem meninas – não se pode tratá-las mal – por favor, levem-me para a minha cama. Senti que novamente me levavam e novamente me pousaram. Perguntei outra vez: Meninas – não se pode maltratá-las – onde estou eu? Ao que elas me responderam: Chão de Antesdelas. Voltei a agradecer e pedi que me levassem para a minha cama, sempre sem as tratar mal. Senti que novamente me levavam, senti um ventinho nos queixos, mas também senti as folhas da minha vinha a afagar-me e de seguida pareceu-me estar na minha cama e perguntei: Meninas onde estou eu? Recordo que não se pode tratá-las mal. Elas me responderam: Estás na tua cama. Então eu disse: Obrigado suas grandes p.tas. Não se pode tratá-las mal.
E, sobretudo, não as incomodar quando estiverem a fazer fffffooorrninhos!”

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA