quinta-feira, 28 de novembro de 2019

CARTA AO MEU ANJO... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Tu, guerreiro e parceiro nesta imensa e longa batalha pela sobrevivência e ascensão, voz que me abraça, ouvido que me acarinha do outro lado da linha, imagem gravada em mim no peito, nesse
órgão de músculos entrelaçados que bombeia o sentir.

Escrevo-te porque é nas palavras que sou mais eu, para te dizer nas sílabas que tão bem me conheces que não são os natais que nos definem, que nos traduzem, que fazem de nós mais parte da mesma parte ou até mais importantes reciprocamente.

Que não é a distância sofrida nem mesmo a profunda saudade que abala o sentimento que nos une, muito menos um dia no ano ou as músicas da ocasião que soam nas bocas dos demais já profanadas do verdadeiro sentido.

Não são as luzes das árvores de Natal, na maioria expostas em casas sem amor que fazem brilhar, mas sim a tenacidade, a competência, a força, a certeza de que prevalece esta família de dois que jamais algo ou alguém conseguirá desunir.

Sou-te eternamente, és a minha força e a minha razão, a minha luta, a minha única realidade merecedora e sou-te, sou-te sem amarras tóxicas, sou-te sem condições, como exemplo de que a personalidade, o carácter, a fé, a batalha, podem ser ganhas mesmo que as adversidades passem rasteiras e ergam muros fracos para nos segurar.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XII) - MARIA MAGUEIJO

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Maria ficou por instantes sem se mover. As palavras da prima tinham sido poderosas, cheias de convicção e também a fez pensar na vida que, sem se dar conta, passava veloz e ela mantinha a sua oficina, o seu velho carro, a furgoneta do avô para carregar as suas obras de arte, o restauro e... Pois. E tinha esquecido que era jovem, elegante, bonita e de porte altivo tal como a sua Mãe.
A sua Filha, sempre que vinha a Portugal dizia a mesma lengalenga:
– Mãe Maria, és linda, jovem, mas uma chata sem namorado. Porque fechas, na tua concha secreta, esse amor que tens para dar? Sê feliz, não te escondas por detrás destas tuas velharias. Pronto, desculpa... restauro de relíquias antigas.
Depois ria e abraçava a Mãe cheia de mimos das saudades.
Maria já não lhe dava ouvidos, Sorria, anuía e continuava a sua vida. Mas nesse dia foi como um despertar.

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terça-feira, 26 de novembro de 2019

O CONTRATO DO PASTOR - ERNESTO FERREIRA

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“Era uma vez um pastor que tinha esse ofício desde que se conhecia.
Os pais tinham morrido, era ele ainda criança, e houve uns vizinhos que tomaram conta dele. Na aldeia não havia escola e as crianças começavam a trabalhar logo que tinham um pouco de tino.
Este pastor foi então para casa desses vizinhos, lá no alto da montanha. Fazia todos os trabalhos, que eram a fonte de rendimento dos seus tutores. Mas principalmente fazia o ofício de pastor.
Todos os dias, logo pela “manhão”, quer fizesse frio ou calor, lá ia ele serra acima para as melhores pastagens.
Escola e Igreja nem sabia o que isso era. O mundo para ele era a família com quem vivia, ou melhor, pernoitava, as ovelhas e cabras, o cachorro que o ajudava na guarda e condução das ovelhas e a serra com todo o seu esplendor. Duma cana tinha feito uma flauta com a qual aquecia a alma e também servia para dar ordens ao rebanho. Ordens tão firmes como as dadas pelo estridente assobio com o qual também interpretava os sons do vira e da gota - danças e cantares tradicionais.
E a vida ia correndo sem novidades. Mas um dia em que resolveu levar o rebanho para um local mais distante, viu ao longe um grupo de pessoas que desciam a serra. Intrigado resolveu perguntar- lhes de onde vinham e para onde iam. Então uma das pessoas explicou: Nós vivemos no alto da serra e vamos para a aldeia ao Confesso da Páscoa. O nosso pastor perguntou: O que é o Confesso da Páscoa? Ao que a pessoa respondeu: Nós vamos ajoelhar em frente ao Senhor Padre, contamos as coisas que não devíamos fazer e os pensamentos maus que nos vieram à cabeça. O Senhor Padre então dá-nos uma penitência que, depois de cumprida, nos limpa dos pecados. Quem não se confessar é como um animal, concluiu o passante ao mesmo tempo que o animava a ir confessar- se. O pastor lembrou-se que costumava, às vezes, roubar uma ou outra “chouricita” aos seus tutores e que um dia tinha pensado fugir para correr mundo e entendeu que talvez fosse bom ser perdoado.
Juntou-se ao grupo e lá vai ele para a Igreja. Chegado aí viu as mulheres a colocar as saias pela cabeça, encostarem-se a um armário com rede e aí falarem com o Sr Padre. Ele fez o mesmo. Como não tinha saia colocou a manta pela cabeça e disse ao Senhor Padre o que entendia como seus pecados.
O confessor então, e pela gravidade dos “pensamentos e obras”, aplicou-lhe a penitência a cumprir: durante um ano tinha que viver apenas com pão e água. Ele aceitou, mas começou a pensar: pão ainda vá que não vá, mas água é que não pode ser; este contrato não me serve. Esperou que o Padre saísse do confessionário e perante a admiração dos penitentes que estavam na Igreja disse: Oh senhor de saia preta que estava naquele “curtelinho”. E repetiu: Oh senhor da cabeça rapada!
Logo que o Senhor Padre ficou atento, disse-lhe: Olhe, se quiser o contrato a pão e leite, muito bem; senão “ca..e” no contrato.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sábado, 23 de novembro de 2019

SONHO-ME... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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No escuro da noite é onde me encontro. Apagam-se as luzes, calam- se as vozes, cai o negro lençol sobre o mundo. O corpo cansado do pensar solta-se leve e a alma refugia-se enrolada na manta felpuda de liberdade dos dias que tolhem o sonho.

Peço pouco ao universo, talvez um pouco impossível e ainda assim um quase nada que demora no percurso até mim; que seja efémero, mas chegue esse irrisório que me falta.

É cúmplice a névoa das luzes apagadas em surdina, é intenso o cheiro a maresia que mesmo em sonho me chega às hormonas e me cativa em todas as horas em que o mundo dorme. Será muito querer ser amada?

Deixo-me ir atrás do insano silêncio e sonho ainda acordada neste imaginário. A esperança toca ao de leve a pele num todo. Amar ultrapassa a impossibilidade, na chama da vela que acendo religiosamente ao meu lado, num instante deixo de existir para viver, sonho-me.

O relógio estagna na cidade onde me reinvento e amo, amo em contos de fadas por inventar, amo quem sou num orgulho que me preenche. Sinto-me amada no devagar com que a minha metade se encaixa em mim, como se o quente desse desenho assentasse praça na minha fogueira.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XI) - MARIA MAGUEIJO

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Isabella reaprendia a ser feliz. Por vezes ficava horas deitada no sofá a ouvir a avó ler, a ouvir verdadeiras histórias de encantar de príncipes e princesas de um tempo, que ela adivinhava, a avó teria vivido.
Passados dois anos do regresso de Isabella da aldeia, a avó faleceu. Foi um golpe lancinante para todos. Algum tempo antes tinha sido diagnosticado um início de Alzheimer que se complicou velozmente. Amava o seu Miguel, como a si própria. Casaram muito jovens. Naquela época fora um casamento muito cavaqueado pelas coscuvilheiras da vila. E mais de sessenta anos passaram com tanta ternura. Miguel era um homem apaixonado, feliz com as duas filhas que lhe chamavam o pai com o cabelo que brilha como o sol. Como mulher precavida que sempre fora, deixou uma carta para o marido. Ao seu jeito era uma declaração de amor.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA